Arthur ramos e a criança-problema: a higiene mental escolar e a psicanálise no antigo distrito federal (1934-1939)i



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Considerações finais
A higiene mental foi um movimento que veio com o objetivo de instalar os alienados em lugares apropriados onde pudessem receber um tratamento digno de sua condição. Como vimos, logo se percebeu que a criança era o campo de ação principal da higiene mental que começava a focar seu trabalho na prevenção e, caso não obtivesse sucesso, passava ao tratamento do desajustado socialmente.

Os anos de 1930 foram marcados, principalmente, na educação, pelo chamado movimento da Escola Nova juntamente com a reforma Anísio Teixeira que objetivava dar novos rumos à educação até então desenvolvida no antigo Distrito Federal. Nesse período também existia toda uma preocupação do Estado em sanar as epidemias e mortandades infantis que assolavam a “Vitrine do Brasil”, termo utilizado para designar a cidade do Rio de Janeiro, para tanto a medicina, psicologia e educação se entrelaçaram com o propósito de alcançar o objetivo de gerarem uma juventude saudável física e mentalmente, além de preparada para o trabalho e, a escola seria o lugar para por em prática todos os anseios de se ter uma nação próspera e civilizada.



Quando falamos em civilização, este termo nos remete a pensar a respeito dos estudos de Norbert Elias sobre o processo de civilização, a visão de Sigmund Freud sobre as relações entre o indivíduo e o que ele denominou a “civilização” e a higiene mental como forma de tratar as neuroses em decorrência da civilização, na interpretação de Arthur Ramos e traçar um diálogo com esse três autores. De forma resumida, podemos afirmar que os três apontam para o fato do homem ter reprimido suas pulsões a fim de se tornar civilizado em relação à cultura a qual estava inserido, tendo como resultado a neurose, pois por ter recalcado seus impulsos objetivando adaptar-se à sociedade, trouxe para si um conflito interno e, a luta que antes era diretamente com o outro, passou a ser com a própria mente. Para Elias:
[...] certos ramos dos impulsos podem ser desviados de tal modo por sérios conflitos que a natureza bruta, afetiva e apaixonada que o pequeno ser humano inevitavelmente encontra no seu caminho para se moldar como ser “civilizado”, que suas energias são transformadas de tal maneira que fluem para apegos e repulsões excêntricos, em predileções por esta ou aquela fantasia peculiar. Em todos esses casos, uma permanente inquietação interior, que parece não ter fundamento, mostra quanta energia emocional é represada numa forma que não permite satisfação real. (ELIAS, 1993, p. 204).
Segundo Freud:
[...] é impossível desprezar o ponto até o qual a civilização é construída sobre uma renúncia ao instinto, o quanto ela pressupõe exatamente a não-satisfação (pela opressão, repressão, ou algum outro meio?) de instintos poderosos. Essa “frustração cultural” domina o grande campo dos relacionamentos sociais entre os seres humanos. [...] Não é fácil entender como pode ser possível privar de satisfação um instinto. Não se faz isso impunemente. Se a perda não for economicamente compensada, pode-se ficar certo de que sérios distúrbios decorrerão disso. (FREUD, 1930, p. 104).
Ramos analisa a mesma situação, acreditamos que baseado nos estudos de Elias e Freud:
Os bens materiais da civilização contemporânea carregam no seu bojo um mal estar insuportável, muitas vezes. Na vida primitiva, os homens, em concorrência, exteriorizavam os seus impulsos na luta aberta. Isto lhes proporcionava um equilíbrio psíquico, pela catharsis, isto é, pela libertação simples dos seus impulsos de agressão. A civilização obrigou-o, porém, a calar os seus ímpetos de luta. Resultado: o homem recalcou os seus impulsos, interiorizando-os. O conflito tornou-se interno. A luta passou a travar-se no campo de batalha do seu cérebro [...]. E o perigo para a personalidade cresceu. O homem atinge a civilização a custa da neurose. Obrigado a adaptar-se cada vez mais a novas situações, é enorme o esforço psíquico despendido. (RAMOS, 1939, p. 18).
Desta forma, os conflitos passam a ser de desajustamento de personalidade, na família e na sociedade porque o mal estar, de individual, passou a ser coletivo. A higiene mental entra na história deixando de ser simplesmente um movimento com o objetivo de prestar melhor assistência ao alienado, e de prevenção da loucura, “para se tornar um largo e generoso instrumento de ação, destinado a resolver os conflitos humanos de toda natureza. Procurou ajustar a personalidade humana ao seu ambiente e a sua civilização e ao seu momento de vida” (RAMOS, idem, p. 18).

Assim a criança que apresentava comportamentos considerados desajustados, deixou de ser vista e tratada como anormal (problemas cognitivos) para ser designada e vista como criança problema (problemas emocionais). Essa mudança de olhar foi crucial para que os escolares que vinham de lares considerados desajustados fossem compreendidos em seus comportamentos e recebessem tratamentos apropriados.

Para tanto, o S.O.H.M. balizou toda a sua ação em um trabalho desenvolvido com a família e escola. Ramos não só divulgou as ideias psicanalíticas em suas publicações no período ora estudado, como introduziu, de forma pioneira no Brasil, um modelo de atendimento à criança com dificuldades escolares inspirado na teoria psicanalítica, que serviu de paradigma para as políticas de atenção ao escolar problema na primeira metade do século XX.

Portanto, um trabalho abrangente, de vulto, que durou apenas cinco anos, mas que nos faz pensar na construção de uma ação educativa que privilegia o aluno como um ser cognoscente, inserido em uma cultura que o influencia e, é influenciada por ele.



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