Arthur ramos e a criança-problema: a higiene mental escolar e a psicanálise no antigo distrito federal (1934-1939)i



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ARTHUR RAMOS E A CRIANÇA-PROBLEMA: A HIGIENE MENTAL ESCOLAR E A PSICANÁLISE NO ANTIGO DISTRITO FEDERAL (1934-1939)i
Cátia Regina Papadopoulos – PUC-RIO

e-mail: catiapapadopoulos@yahoo.com.br

Palavras-chave: criança-problema, higiene mental escolar, psicanálise
Introdução
Arthur Ramos de Araújo Pereira (1903-1946), formado pela Faculdade de Medicina da Bahia e discípulo de Raimundo Nina Rodrigues, nasceu em Pilar, no Estado de Alagoas. Defendeu sua tese de doutorado aos 23 anos, intitulada Primitivo e Loucura, totalmente sustentada na teoria psicanalítica.

Cabe assinalar que Arthur Ramos desde o início de sua vida acadêmica se interessou pela psicanálise e por dominar idiomas como o inglês, francês e alemão, teve contato com os textos originais de Freud, além de trocar correspondências com ele. Inclusive sua tese recebeu elogios do psicanalista.

Ramos publicou alguns livros voltados exclusivamente ao estudo da psicanálise como: Estudos de Psychanalyse, em 1931; Educação e Psychanalyse, em 1934; Psychiatria e Psychanalyse, em 1933; Freud, Adler, Jung... Ensaios de Psychanalyse orthodoxa e heretica, em 1933, entre outros.

Em 1934, mudou-se para o Rio de Janeiro a fim de participar ativamente da reforma educacional empreendida por Anísio Teixeira, diretor do Departamento de Educação depois Secretaria de Educação, à época. Tal reforma aconteceu a partir de 1932 e tinha como objetivo constituir um sistema integrado de ensino que fosse do jardim de infância até a universidade.

Deste modo, Anísio iniciou seu projeto de reforma pela modernização da rede pública de educação primária e, sob a influência de educadores norte-americanos, baseou o desenvolvimento do processo pedagógico em estudos estatísticos e na higiene mental escolar. Para tanto, criou o Instituto de Pesquisas Educacionais e o Serviço de Ortofrenia e Higiene Mental (S.O.H.M.). Tal Serviço, chefiado pelo médico Arthur Ramos, a convite de Anísio, funcionou no período de 1934 a 1939 e apresentou um trabalho de cunho preventivo e corretivo, atendendo e tratando os possíveis problemas psíquicos da criança no lar e na escola, sendo desenvolvido nas instituições públicas do ensino primário do Distrito Federal, mais precisamente, nas Escolas Experimentais que surgiram com o propósito de serem laboratórios, onde técnicas da chamada escola renovada eram ensaiadas pelo corpo docente e pelos os alunos.


Essas escolas já constituem, no Distrito Federal, focos de irradiação do melhor espírito profissional do mestre moderno, e se tornaram, insensivelmente, centros de estudos da criança carioca e um repertório de experiências verificadas sobre as possibilidades e os recursos dos métodos ensaiados. (TEIXEIRA, 2007, p. 195).
A ideia de Anísio era que as experiências que tivessem êxito nas Escolas Bárbara Ottoni, Manuel Bonfim, México, Argentina e Estados Unidos (Escolas Experimentais), “cujos métodos se inspirariam na realidade e no interesse dos alunos, que impulsionariam a reconstrução permanente do seu próprio ensino” (Chaves, 2001, p. 80), fossem ampliadas às outras instituições educacionais do Distrito Federal. Segundo Teixeira (2007), as aproximações entre as Escolas Experimentais e as demais escolas se davam nas condições idênticas que tinham em relação ao magistério e o corpo discente. E as diferenças eram em relação ao objetivo que as primeiras tinham em ensaiar integralmente novos métodos de ensino, nos estudos e debates que ocorriam ali e na atitude experimental dos professores que se dispunham a examinar, ensaiar, verificar os resultados, sempre prontos a reexaminar o problema, a estudar e reestudar os processos de ensino e de educação.

Deste modo, o presente artigo surge com o objetivo de analisar como os conceitos da psicanálise influenciaram a concepção de Arthur Ramos sobre a criança-problema, mais especificamente, a mimada e a escorraçada, categorias empregadas no âmbito do S.O.H.M. As crianças mimadas eram descritas por Ramos como atrasados afetivos, em outras palavras, aquelas que ficaram presas às fixações infantis da afetividade, como: o filho único, o caçula, o primogênito, a criança com dotes físicos ou intelectuais, o filho da viúva, o filho de pais abastados etc e, as escorraçadas as que sofriam castigos físicos, morais e psicológicos, tanto na família como na escola. Sendo também um qualitativo que abrangia as crianças mal dotadas, as feias, as ilegítimas e as órfãs.

Ramos buscou (des)construir o paradigma dominante em relação aos alunos que apresentavam dificuldade de aprendizagem escolar e eram classificados como anormais. Ele afirmava que a maioria das crianças tidas como anormais, na verdade, eram vítimas de uma série de circunstâncias adversas, como desajustamento dos ambientes social e familiar. Desta forma, o autor defendia, assim, a substituição do conceito de criança anormal pelo de criança-problema e estabelecia uma relação direta entre esta e seus pais problemas.

Em um primeiro momento procuramos descrever o funcionamento do S.O.H.M. do antigo Distrito Federal, pensando sobre a mudança de conceito de criança anormal para criança-problema. No segundo momento, buscamos fazer uma leitura do uso dos conceitos da psicanálise utilizados por Ramos para compreender e tratar a criança-problema mais precisamente, a mimada e a escorraçada.

As fontes documentais utilizadas para o desenvolvimento deste trabalho foram as obras de Arthur Ramos sobre o assunto, as fichas de observação comportamental dos alunos das referidas Escolas e os impressos de vulgarização, também de autoria do médico, dirigidos aos professores e famílias. Para tanto, se realizou um entrelaçamento das informações obtidas através das referidas fichas e impressos, com o conteúdo bibliográfico, em uma perspectiva teórica baseada no conceito de civilização de Norbert Elias, Freud e Arthur Ramos.

A justificativa para a escolha de uma perspectiva teórica baseada no entrelaçamento do conceito de civilização dos citados autores, se deu porque o contexto histórico ao qual o País estava vivendo era totalmente voltado para a modernização e progresso da nação através da “civilização” dos comportamentos. E os instrumentos utilizados para alcançar tais objetivos estavam pautados no uso da psicanálise através da higiene mental, mais precisamente, a higiene mental escolar. As crianças eram o alvo da medicina e educação que enxergavam nelas os adultos de “amanhã”, ou seja, era preciso que esses escolares crescessem de forma sadia, tanto física como mentalmente, a fim de se tornarem adultos prósperos e que fariam o futuro da nação bastante promissor.




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