Arte e saúde mental: uma experiência com a metodologia participativa da Educação Popular Art and mental health: an experience with the participatory methodology of Popular Education Arte y salud mental


Documentando histórias: relato da experiência



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Documentando histórias: relato da experiência
No período entre agosto de 2011 e fevereiro de 2012, foi-se delineando a proposta de produção de um filme com a participação dos usuários. No período de duração desse estágio, foram realizadas trinta oficinas – dezesseis delas realizadas no primeiro semestre de 2012, doze das quais foram dedicadas ao projeto de produção audiovisual, uma ideia da estagiária desenvolvida com a participação do grupo. Depois de algumas discussões com o grupo, ficou decidido que o argumento seria a história de vida de cada usuário, com enfoque nos locais e nos tipos de tratamento a que foram submetidos, bem como sobre os projetos de futuro desses sujeitos. Em todo o processo de construção do filme, procuramos estimular a criatividade, a autonomia e o senso crítico do grupo, com as atividades que ocorriam nas oficinas. Portanto, era valorizada a participação do grupo em todas as etapas da construção do produto audiovisual, objetivando estimular o protagonismo social, uma vez que os usuários assumiram um lugar de investigação e participação (Brandão, 2001). Essa experiência foi desenvolvida com base nas potencialidades de cada usuário e respeitando o poder criador e criativo de cada um deles.

Vale salientar que, no decorrer desse estágio, a palavra “arte” não foi utilizada no sentido “mundializado”, mas como “forma de designação para aquilo que o louco expressa em seus trabalhos na oficina”, seguindo uma linha diferente daquela à qual “estamos conectados cultural e mercadologicamente” (Ávila & Fonseca, 2007, p. 117).

Inicialmente, foram necessárias duas oficinas, que foram facilitadas com o objetivo de apresentar a proposta e problematizar os encaminhamentos necessários para a produção de um filme, a organização e o planejamento para essa empreitada e o compromisso que o grupo precisava assumir para concretizar o projeto. Assim como o cinema, essa proposta se inicia com a fotografia. A partir da confecção de um porta-retratos em forma de móbile – utilizado para colocar uma foto dos participantes do grupo –, estabelecemos com os usuários, em um encontro mútuo e dialógico, uma conexão entre essas duas formas de arte. Nesse momento, destaca-se a relevância de estimular espaços de diálogo para ampliar as possibilidades de compreender as temáticas em discussão, como uma via de interação em que o silêncio sai de cena para dar lugar à voz, num processo de construção compartilhada de saberes (Ansara & Dantas, 2010; Carvalho, Acioli & Stoz, 2001; Oliveira, Ximenes, Coelho & Silva, 2008; Vasconcelos, 2004).

Em seguida, iniciamos a fase de discussão e de aperfeiçoamento da ideia. Para isso, foram facilitadas três oficinas para fomentar uma discussão sobre gêneros cinematográficos e construir, com o grupo, subsídios para embasar a escolha do tipo de filme que desejava produzir. Na primeira dessas oficinas, retomamos a conexão entre fotografia e cinema e proporcionamos a troca de saberes numa perspectiva dialógica. Depois, iniciamos uma roda de discussão sobre gêneros cinematográficos, que desaguou no que é necessário para produzir um filme.

As duas oficinas seguintes foram realizadas com base na proposta de um usuário. Então, foram exibidos dois filmes, um em cada oficina, ficcional e documentário, ambos de curta duração, com o intuito de dar subsídios para a escolha do gênero a ser produzido pelo grupo e definir o argumento, ou seja, a ideia geral do filme. Após a exibição, era facilitado um espaço em que os usuários pudessem discutir sobre suas impressões acerca do filme.

A partir daí, ficou decidido que faríamos um documentário “ilustrado” com cenas fictícias, cujos atores seriam os próprios usuários. Houve dois encontros para discutirmos sobre quais histórias seriam contadas no filme. O processo culminou com a escolha das histórias de vida deles, com enfoque nos processos de internação em hospitais psiquiátricos e projetos de futuro. Assim, a partir da própria realidade, os usuários podiam inventar novos modos de estar no mundo, criando “possibilidades para escapar do intolerável ou de tudo aquilo que os tem desapossado desse mundo” (Machado & Lavrador, 2007, p. 95).

Em seguida, discutimos sobre as histórias que seriam contadas e sobre os aspectos operacionais relativos à produção do documentário. Com a participação de todos os usuários, houve sugestões sobre o figurino, o cenário, o tempo de duração dos depoimentos e as histórias a serem contadas. Outra oficina foi dedicada à gravação dos depoimentos, com o auxílio de estudantes do Curso de Arte e Mídia. Nessa oficina, os usuários mostraram muita naturalidade diante da câmera, portanto, não foi preciso insistir em nenhum momento. Chamou-nos a atenção o fato de um dos usuários, cujo corpo era bastante marcado pela cronificação e que, geralmente, precisava de um estímulo maior para falar, levantar-se espontaneamente e contar sua história. Ele posicionou-se diante da câmera e contou-nos um tanto de suas memórias, apropriando-se desse instrumento como sujeito de direito à voz e à visibilidade.

Depois dessa fase, foi facilitada uma oficina com o intuito de definir, com os usuários e a partir da discussão do conteúdo dos depoimentos registrados, as cenas ficcionais que seriam gravadas. Um dos usuários lançou a proposta de construir um personagem que estaria rondando os usuários, inicialmente, chamado de “Doença”. Essa proposição deu margem a uma discussão cujo resultado levou à mudança desse nome e o personagem passou a ser chamado de “Sofrimento”.

Houve um planejamento conjunto sobre o cenário e o figurino e tudo o que seria necessário para confeccioná-lo. O encontro posterior teve como objetivo filmar essas cenas. Para estimular a interpretação e a descontração, antes de gravar, recorremos à facilitação do exercício de TO “Quantos ‘as’ existem em um ‘a’”. Assim, em círculo, sucessivamente, cada usuário foi até o centro e exprimiu uma emoção ou ideia, usando um dos muitos sons da letra a, com todas as inflexões ou gestos com que foi capaz de se expressar (Boal, 2008b, p. 141).

Foram realizadas, ainda, duas oficinas. Uma para escolher o nome do documentário, e a outra para planejar a divulgação. Na primeira, exibimos as primeiras cenas editadas, com o objetivo de avaliar, com os usuários, a produção e facilitar um momento em que eles pudessem propor modificações e garantir sua participação no processo de edição. Depois de muita discussão, chegamos a um acordo em relação ao título: “Um sonho de liberdade”. Sobre a divulgação, foi decidido, com os usuários, que a confecção e a afixação de cartazes seriam feitas em locais estratégicos do próprio CAPS e “boca a boca”.

Na última oficina desse período, exibimos o documentário com os participantes do grupo para técnicos e usuários do CAPS. Depois da exibição, facilitamos um espaço de discussão, em que os usuários foram os grandes protagonistas. Eles responderam às perguntas, foram elogiados e falaram como foi produzir um filme e participar como atores e autores do processo. Esse momento foi importante, visto que percebemos que eles precisavam falar, também, sobre seus projetos de vida. Se, de um lado, a loucura é dor e sofrimento, de outro, é potência e criação (Sander, 2010).


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