Argumentos morais em defesa dos animais



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ARGUMENTOS MORAIS EM DEFESA DOS ANIMAIS

Danielle Maria Câmara de Lima

Departamento de Filosofia - UFRN

"Entre a crueldade para com o animal
e a crueldade para com o homem,
há uma só diferença: a vítima"
Lamartin

No mundo em que vivemos, onde a cada dia as pessoas pensam mais em benefícios próprios, precisamos seriamente voltar nosso olhar para a questão dos animais. Uma ética, ou quem sabe uma libertação para com os animais não humanos. Precisa-se entender e conceber uma senciência dos animais não humanos, evitando crueldades e efetivando uma sustentabilidade ambiental. Enfim, precisamos entender que esses seres também sofrem e que essencialmente precisamos mudar nossas idéias e atitudes em prol da consideração moral e do bem-estar de animais não humanos. Assim, concluímos que nenhuma dor nem tampouco nenhuma crueldade cometidas com os animais não humanos são eticamente justificadas e podemos reverter as práticas que as perpetuam.

Palavras- chaves : Crueldade – Ética – Animais não humanos - Especismo

Primeiramente me questiono o que nós seres racionais pensamos de nós mesmos? Será que realmente somos o que realmente pensamos que somos? seres humanos, dotados de capacidades cognitivas, intelectivas, sensitivas e possuidores de direitos e deveres? Será verdade tudo isso? Assim, se somos seres sencientes e dotados de cognição, que prezamos tanto pelas igualdades entre os seres, como explicaria tanta crueldade cometida a diversas espécies de animais não humanas? Partindo da constatação de que a crueldade humana para com os animais se manifesta de formas variadas – no abate para alimentação, em experiências científicas, na caça, na exploração de peles e couro, bem como no aprisionamento e maus tratos para servir de cortejos exóticos, seja pra fins de entretenimento como touradas e rodeios ou como mera contemplação como nos zoológicos, para citar as mais comuns, a maioria dessas ações são realizadas sem “o fator complicador da anestesia” envolvendo choques elétricos, lesões, indução a neuroses e depressão, sede, fome, exposição à radiação, congelamento, aquecimento, asfixia, cegueira e muitos outros métodos que levam ao exacerbado sofrimento animal.

Podemos perceber também que diversos testes feitos com animais em laboratórios não representam na maioria dos casos, benefícios ao homem. Adotados em áreas como a psicologia, pesquisas militares e indústrias de produtos que vão desde medicamentos até maquiagem, velas e canetas, muitos desses testes são realizados sem anestesia e além do mais, muitas destas substâncias liberadas após se mostrarem inofensivas aos animais foram muitas vezes catastróficas para os seres humanos. Nessa perspectiva, do ponto de vista cientifico,podemos até pensar que seria mais coerente realizar esses testes com bebês humanos órfãos ou pessoas com grave retardamento mental, pois são seres com senciência primitiva. Estranho não é?Se a mera idéia nos choca, admitir os testes ou qualquer outra forma de exploração animal só se explica pelo “especismo”, termo criado por Richard D. Ryder, filósofo e psicólogo contemporâneo e difundido por Peter Singer, o especismo é uma forma de preconceito praticada pelo homem pela diferença de espécies, ou seja, pressupõe que os interesses de um indivíduo de outra espécie animal, são de menor importância pelo mero fato de pertencer a um outro determinado grupo. Em geral, Singer nos diz que esses testes laboratoriais são movidos pelo prestígio no meio científico, por prêmios, bolsas e publicações, pela disputa mercadológica das indústrias e pelo lobby das empresas que fornecem materiais e cobaias, muito mais do que pelo interesse no bem-estar da humanidade. Com tanta crueldade podemos fazer a pergunta de Singer: “Como podem pessoas que não são sádicas passar a vida provocando depressão em macacos, esquentando cães até a morte ou viciando gatos em drogas? Como podem tirar o jaleco branco, lavar as mãos e ir para casa jantar com a família?” (Singer,2004:185)

Outra questão de bastante relevância e ainda mais delicada é com relação à alimentação, pois envolve hábitos culturais milenares e equivocados, pois quando o almoço está em jogo, parece mais confortável fechar os olhos à realidade dos matadouros, granjas industriais e outras unidades de produção intensiva de animais de corte. Muitos animais, como galinhas, bois, porcos passam suas vidas em habitats hiper lotados, alimentando-se de super dosagens de hormônios, com o único objetivo de irem para o abate mais novos para alimentarem e satisfazerem os prazeres de alguns. O caso extremo é o do vitelo e dos leitões, mantidos confinados e anêmicos em baias mínimas, sem estímulo visual ou convívio com sua espécie, onde são sacrificados com poucos meses de vida. A indústria de laticínios e de ovos são molas da mesma engrenagem, e sem falar da pesca intensiva que não envolve dilemas menos significativos, ameaçando perigosamente o equilíbrio frágil da ecologia oceânica.

Questões como essas são diariamente debatidas no campo da ética, pois vemos constantemente maus tratos indignos contra seres indefesos. Mas analisemos o ponto de vista de correntes filosóficas moralisticas posto em questão. Do ponto de vista utilitarista analisemos o Principio da Maior Felicidade que diz: “As ações são justas na medida em que tendem a promover a felicidade e injustas na medida em que tendem a produzir o contrario da felicidade. Por felicidade entende-se o prazer e a ausência de dor, por infelicidade a ausência de prazer” (Mill,2000:20)

Analisando essa máxima utilitarista e levando em consideração o ponto de vista da humanidade, sabendo-se que para os utilitaristas que procura maximizar a quantidade de prazer e diminuir ao máximo a quantidade de sofrimento no mundo seria moralmente aceitável, pois sacrificar alguns animais em nome do bem estar geral da humanidade seria admissível, pois segundo o próprio principio utilitarista, estaria promovendo a felicidade humanitária e em última estância estaria promovendo uma ação justa. Mas, se analisássemos essa máxima enxergando o ponto de vista dos animais não humanos, encontraríamos um nó nessa questão, pois é na satisfação da humanidade que reside a dor dos animais não humanos, ou seja, por trás de toda satisfação de saborear uma carne está todo sofrimento doloroso de um animal, até chegar ao nosso uso, diversos tipos de cosméticos e medicamentos são testados, sacrificando a vida e o prazer de diversas espécies, concluindo assim, que sacrificar animais não humanos ao nosso bel prazer seria uma ação injusta, pois estaria promovendo a eles a infelicidade, em última instância a dor. Já Singer ferrenho utilitarista, defende o principio da igual consideração de interesses, pois para ele não existe diferenças entre os humanos e animais não humanos, pois pra esse filósofo os animais são conscientes no sentido de que são capazes de sentir dor, e que por isso deveria ser banida toda e qualquer exploração decorrente de dor aos animais não humanos. Segundo Singer se os animais são capazes de sofrer, não há justificativa em fazê-los sofrer, a menos que seja para evitar um sofrimento ainda maior.

Analisemos agora o ponto de vista deontológico de Kant. A lei moral kantiana nos diz: “Posso eu querer que a minha máxima se torne uma lei universal?” (Kant,1984:115)

Assim, inspirado no Imperativo categórico Kantiano seria inadmissível sacrificar a vida de animais por meros prazeres, pois as ações devem ser realizadas por dever, ou seja, devemos realizar as ações porque são ações corretas a serem realizadas e não por motivos interesseiros, conseqüentemente, no ponto de vista deontológico não devemos sacrificar a vida dos animais não humanos por nenhuma justificativa, pois se nós seres humanos racionais temos o direito à vida, porque os animais não humanos não teriam?Pois pra Kant o que prevalece são nossas verdadeiras intenções que só encontramos na razão. Alguns poderiam afirmar que nós humanos não somos iguais aos animais não humanos, obviamente não, como homens e mulheres também não são, mas que em primeira instância devem ser tratados pelos mesmos princípios éticos.


E é por todas essas razões que tentamos mostrar que existem diversas formas para defender a exploração dos nossos amigos bichos. Hoje no Brasil estima-se que 99% das hipóteses de sofrimento animal estão na indústria dos matadouros, nas atividades de vivisseção e na política pública de extermínio de animais abandonados nas cidades, além daquela perfazida em eventos supostamente culturais-recreativos, infelizmente com um único objetivo de obter lucros, pois damos mais importância a nossos interesses mais fúteis e triviais. Mas com consciência podemos mudar essa cruel realidade, pois, vemos hoje em dia, com todos os aparatos modernos que não precisamos está sacrificando vidas não humanas para meras satisfações, pois com relação à alimentação, encontramos a culinária vegetariana que substitui os variados pratos carnívoros por um menu vegetal, saudável e eticamente correto, já com relação a acessórios e tecidos fabricados com peles e couros, encontramos variados materiais que os substituem e com a garantia de serem “eticamente corretos”, como os tecidos de fibra de bambu.Assim, muitos argumentam que a descriminação aos animais não humanos não estão no especismo, e sim na plena posse da razão, mas traçar o limite do circulo dos dignos de considerabilidade racional é bastante relevante, pois o critério da plena posse da razão excluiria diversos seres humanos de condições irracionais como bebês, comatosos e indivíduos portadores de graves doenças cerebrais, enfim, a maior parte da nossa sociedade vê os animais não humanos não como indivíduos que tem um valor em si, mas sim como instrumentos para alcançar determinado fim.Com toda essa modernidade precisamos apenas ter a consciência dos direitos que os animais não humanos possuem e conseqüentemente contribuir para a efetivação desses direitos. Assim, de que modo podemos contribuir para a não violência aos animais? Acredito que se cada um de nós fizer-mos a nossa parte, garantiríamos um futuro bem mais promissor aos nossos amigos bichos, pois violência só gera violência e os males que infligimos a outras espécies são igualmente inegáveis e é na justeza de nossas ações que residem nossas possibilidades e garantias de um futuro mais promitente para nossa fauna.

BIBLIOGRAFIA




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