Aquele vírus” e o “CÃO”: entrecruzando saberes, práticas e demandas, das pessoas que vivem com hiv/aids e usam crack, para as redes de atençÃO À saúDE



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AQUELE VÍRUS” E O “CÃO”: ENTRECRUZANDO SABERES, PRÁTICAS E DEMANDAS, DAS PESSOAS QUE VIVEM COM HIV/AIDS E USAM CRACK, PARA AS REDES DE ATENÇÃO À SAÚDE.
Jhennifer de Souza Góis1

Sandra Costa Lima2

Paulo Henrique Dias Quinderé3

Fernando Virgílio Albuquerque de Oliveira4



Maria Elisângela Albuquerque Silva5
Introdução: Este trabalho tem como objetivo refletir sobre os saberes, as práticas e as demandas das pessoas que vivem com HIV/AIDS e fazem uso de crack considerando os determinantes sociais da saúde identificados em usuários internados em hospital de referência no estado do Ceará. Parte-se do pressuposto de que o viver com HIV/AIDS é singular a cada sujeito e que a experiência do uso de crack e as consequências relacionadas a este uso não dependem apenas do efeito farmacológico da substância em si, mas estão diretamente relacionadas aos aspectos subjetivos, sociais e culturais do sujeito. Para este trabalho, considerou-se relevante problematizar a condição de vida destes sujeitos e o que ela apresenta como demanda para o campo das Redes de Atenção à Saúde (RAS) no que se refere ao cuidado integral. Assim, viver com HIV/AIDS e fazer uso de crack se trata de uma relação peculiar, a qual demanda implicação nos processos de cuidado destas pessoas em todos os níveis de atenção em saúde. Considerando que a adesão ao tratamento para o HIV/AIDS também é determinada por questões de ordem pessoal, cultural, econômica e social e que as experiências de uso e os rituais de consumo de crack vivenciados podem ser determinantes no processo de produção de (auto) cuidado desses indivíduos, dialogou-se com pessoas que vivem com HIV/AIDS e fazem uso de crack, a fim de compreender os determinantes sociais presentes na vida destas pessoas. Objetivo: A partir da compreensão dos determinantes sociais da saúde, tem-se como objetivo compreender os saberes, as práticas e demandas sociais e clínicas das pessoas que vivem com HIV/AIDS e fazem uso de crack em Fortaleza e estavam internadas em hospital de referência. Metodologia: Com abordagem de natureza qualitativa, o estudo desenhou-se por meio de pesquisa bibliográfica e de campo, sendo utilizados roteiros semiestruturados para a realização das entrevistas. Os sujeitos da pesquisa foram nove pessoas que viviam com HIV/AIDS e usavam crack internadas em 2015 em um hospital de referência em doenças infectocontagiosas no estado do Ceará. Os critérios de inclusão para escolher os sujeitos desta pesquisa foram ter HIV/AIDS, sem importar o tempo de diagnóstico, e fazer uso de crack, estando ou não em abstinência. Como critério de exclusão, optou-se por não entrevistar crianças e/ou adolescentes. Os sujeitos pesquisados participaram deste estudo mediante leitura, compreensão e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), concordado em participar da pesquisa, sendo garantida uma via deste termo aos entrevistados. No referido termo foram esclarecidos os objetivos, a justificativa, os métodos, os benefícios e possíveis riscos da pesquisa, como também o sigilo das informações e o compromisso ético de manter os participantes em anonimato. A pesquisa teve início somente após a aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa, do qual obteve parecer favorável de N.º 972.891/2015. Resultados e Discussão: Os sujeitos deste estudo apresentaram aspectos sobre a condição de viver com HIV/AIDS e fazer uso de crack que extrapolam qualquer forma de cuidado rígida, padronizada e/ou centrada na clínica biologiscista e hospitalocêntrica, desafiando o campo da Saúde Coletiva a refletir sobre a potência da clínica ampliada para a (re) construção de saberes, práticas e lugares produtores de saúde. Tais aspectos se referem a  condição socioeconômica e de acesso as políticas sociais, pois o estudo revelou adultos jovens; solteiros; com baixa escolaridade, representada, predominantemente, pelo ensino fundamental incompleto; desempregados; vivendo em situação de rua e/ou abrigamento; sem acessar nenhum benefício previdenciário e/ou assistencial, sendo a Saúde a política social que insere estes sujeitos no campo da Seguridade Social brasileira; como também, referem-se a aspectos clínicos, subjetivos e culturais que se entrecruzam e determinam a condição de viver com HIV/AIDS e usar crack, tais como baixa adesão ao tratamento e sucessivas internações, a fragilidade/rompimento dos vínculos familiares e sociais, o medo da discriminação e do preconceito, a falta de suporte afetivo/social/material para lidar com a complexidade do regime terapêutico, condição dificultada na rotina de uma pessoa que vive em situação de rua. No tocante a epidemia de HIV/AIDS, pode-se dizer que nenhuma das doenças que historicamente assolaram a humanidade teve consequências tão devastadoras nos âmbitos social, econômico e político, em um tempo tão relativamente curto, como a AIDS (BARBARÁ, SACHETTI E CREPALDI, 2005). Dentre os desafios emergentes no contexto do cuidado, Pedrosa et al (2015) afirmam que os processos de feminização, juvenização, interiorização e pauperização da doença exigem um novo olhar para que as intervenções em saúde sejam mais eficazes. Os interlocutores deste estudo demonstraram dificuldade de compreensão acerca de sua condição de viver com HIV/AIDS no que diz respeito ao diagnóstico, à Terapia Antirretroviral (TARV), ao plano terapêutico, aos direitos das pessoas vivendo com HIV/AIDS, bem como, ao viver com HIV e sua relação com a droga: “Aquele vírus? Eu não sei de nada não... eu só sei tomar remédio.” (sic.). Após ser diagnosticado com uma condição crônica, como HIV/AIDS o sujeito deve passar por um processo que lhe permita assimilar uma série de informações necessárias para contribuir na resignificação de sua vida, podendo modificar suas atividades diárias, projetos de vida e relacionamentos. Neste estudo, outro aspecto evidenciado foi a condição de viver em situação de rua. É preciso dar visibilidade a esta problemática, pois envolve a inviolabilidade de vários outros direitos, não limitando-se a requisição por moradia. Viver nestas condições acarreta consequências na saúde geral das pessoas, pois, relativiza valores e estabelece padrões e perspectivas de emancipação social muito restritos bem como ocasiona maior proximidade com o tráfico e o uso de drogas, isto porque o álcool e as outras drogas fazem parte da realidade das ruas, seja como uma alternativa para minimizar a fome e o frio, seja como um elemento de socialização entre os membros dos grupos de rua (COSTA, 2005). Os sujeitos colocam a droga como questão central que interfere em sua condição de saúde, visto que atribuem o uso abusivo de crack e outras drogas como motivo que lhes causou a internação. O fácil acesso ao crack, “rapaz é assim, tem a minha casa? Passou uma, duas, uma bocada, passou outra casa,  ai outra bocada. É só duas favelinhas, dois bequinhos sem saída, cada rua que eu desço tem umas doze casas, dessas  dez casas é tráfico”(sic), e o álcool como impulsionador do uso das drogas ilícitas foram fatores identificados como predominantes neste estudo, revelando que a política brasileira de proibição e repressão ao uso de drogas, a qual tem o intuito de “livrar” as pessoas de seu consumo, não consegue alcançar os seus objetivos. Neste estudo identificou-se o uso de múltiplas drogas junto com crack, com predominância do uso combinado de álcool e crack. Denota-se a percepção de que o uso de crack (e/ou outras drogas) é o fator de maior impacto para a não adesão ao tratamento para o HIV/AIDS. Na contemporaneidade, o crack assume um caráter negativo perante a sociedade, seja devido ao seu caráter ilegal, seja porque possui em sua composição agentes químicos que podem causar sérios agravos à saúde, seja pela percepção demoníaca construída pela mídia e pela ideologia proibicionista de Guerra às Drogas (QUINDERÉ, 2013). Nessa perspectiva, atribui-se apenas ao uso do crack como a causa de todos os males que perpassam a vida das pessoas que o usam, como em suas próprias falas, revelam: “o crack é o cão!” (sic.). A personificação do crack como a própria representação do mal, do “demônio”, foi muito presente nas falas dos sujeitos, as quais enfatizam o crack como uma substância que tem capacidades extraordinárias de transformar as pessoas em más e ainda manipulá-las. Segundo Quinderé (2013) é incompreensível a ideia de que a droga por si só cause os diversos males devastadores anunciados cotidianamente. Para esse autor, a experiência do sujeito com a droga, num determinado contexto sociocultural é que definirá seus efeitos e uma possível forma patológica desta relação. O adoecer em função do uso de uma substância tem aspectos que ultrapassam o mero efeito farmacológico que esta droga tem no organismo humano. O uso de drogas é milenar, mas quando sua utilização estava relacionada aos rituais, aos costumes e aos próprios valores coletivos de uma sociedade, as drogas não representavam, em geral, um problema social (BUCHELLE & CRUZ, 2013). Se hoje, o uso de drogas vem causando problemas, o ideal é que se compreenda qual o contexto atual e as determinações sociais as quais estão vinculadas este uso bem como os significados sociais e culturais que as drogas vêm assumindo na contemporaneidade. Sobre os espaços de uso do crack, a maioria dos sujeitos referiu um lugar permeado por violência e desconfiança entre os usuários, causadas tanto pelo efeito da substância como por se tratarem de espaços ilícitos, como explicitado no seguinte depoimento: “A experiência na crackolândia não é boa, pra sobreviver ali dentro você tem que saber, porque por qualquer coisa te furam, por qualquer coisa te matam, por um pedra pedaço de crack tão brigando, tão se matando, se cortando.” (sic.). Outro resultado deste estudo se refere às estratégias de autocuidado por alguns dos interlocutores, representando, inclusive, ações de Redução de Danos, como denotada no discurso: “quando eu paro, eu fumo maconha pra poder dá fome, pra abrir o apetite”. (Sic). No contexto do uso de drogas, a Redução de Danos se constitui como uma estratégia de abordagem dos problemas com as drogas que não só parte do princípio que deve haver a imediata e obrigatória extinção do uso de drogas, seja no âmbito da sociedade, seja no caso de cada indivíduo, mas formula práticas que diminuem os danos para aqueles que usam drogas e para os grupos sociais com que convivem (CRUZ, 2013). Nos momentos de observação direta para a realização deste estudo, presenciou-se episódios de alta a pedido, nos quais as pessoas demonstravam sofrimento por conta da fissura pela droga no momento da internação, com relatos de sonhos perturbadores em seus discursos, nos quais costumam estar nos locais habituais de consumo da droga e envolvidos em alguma situação de perigo: “O sonho fica bagunçado [...] Eu fico desesperado, aí é que eu me acordo... Se eu pensar forte é mais forte do que eu [...].” (sic.). A situação de alta a pedido para estes sujeitos específicos representa um grande desafio para o cuidado ampliado em saúde, uma vez que o tratamento é interrompido e os danos à saúde dos mesmos podem ser agravada, tanto pela sua condição clínica, como pela sociocultural. Os discursos apresentaram ainda relatos de sofrimento associados à falta de autocontrole referente ao uso do crack. Almeida (2010) aponta que a compulsão pelo uso de crack e o fato de não conseguir controlá-lo causam um sentimento de culpa nos usuários, algumas vezes associado às perdas, tanto materiais quanto afetivas e profissionais. O sentimento de saber que pode morrer devido ao uso da droga também é apontado como uma das sensações dos usuários de crack, mas esta morte valerá a pena se for sem dor e com muito prazer. Em contrapartida, neste estudo, evidenciou-se também o medo de morrer por conta do uso de crack, mas este é acompanhado de sofrimento por parte dos entrevistados, mesmo que haja prazer: “Se eu voltar, vai ser só pra morrer... Acabou, não tem jeito não, tenho medo de voltar [...].” (sic.).  Ao abordar os efeitos causados pelo uso do crack, foi enfatizada a incapacidade ou dificuldade para dormir, comer e/ou beber, além da fissura por mais droga imediatamente após seu uso, como observado no relato a seguir: “Fiquei um ano e cinco meses dentro da crackolândia. Passava de noites sem dormir, sem tomar banho, sem comer, sem beber água, só tomando cachaça, aí eu sequei. Fiquei muito doente, fui internada e lá a abstinência era horrível, eu me tremia, ficava brava, ignorante.” (sic.). Tais fatores, como ficar sem dormir e sem se alimentar, baixam a imunidade e colocam as pessoas que usam crack e vivem com HIV/AIDS em situação de maior vulnerabilidade, visto que a imunidade já é prejudicada pela presença do vírus HIV, aumentando os riscos de agravos de saúde desses usuários. Ao serem questionados sobre a busca por atendimento nos serviços de saúde , emergiram das falas dos participantes aspectos relacionados à religiosidade e ao não reconhecimento do serviço: “Eu já fui no CAPS, mas eu tô frequentando uma igreja evangélica agora, o que vai me tirar é Deus.” (sic); “Lá na minha comunidade [terapêutica] o dono disse: como é que eu vou sair de uma droga e entrar em outra droga? Tem um período pra gente tomar esses remédios ou é pra sempre?” (sic.). De acordo com Marras (2008), a religião ressalva o imperativo do grupo, sinônimo de social, aspecto valorizado na sociedade contemporânea pelo fato do estado de direito garantir certa liberdade religiosa. Assim, a esfera religiosa representa um possível reencontro com o social. Sobre o não reconhecimento do serviço, Fontanella & Turato (2002) o coloca como uma barreira subjetiva que faz com que as pessoas que usam drogas e possuem problemas decorrentes deste uso adiem a busca por serviços ou até mesmo deixem de pensar em buscar tratamento. A troca de sexo desprotegido por crack também foi mencionada nas entrevistas, sendo esse um fator que aumenta o risco de infecção por Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST’s) (FIOCRUZ, 2013). Pesquisa realizada pela Fiocruz (2013) aponta que a transmissão do vírus HIV entre as pessoas que usam crack é oito vezes maior do que na população em geral no Brasil, denotando que se trata de uma relação peculiar, complexa e desafiadora ao campo da saúde coletiva. Considerações Finais: Diante do exposto, dados os contextos de vulnerabilidade dessa população, a inserção da droga nas vidas dessas pessoas faz com que emerjam diversas demandas de cuidado, de proporções maiores do que o próprio tratamento do HIV/AIDS, de acordo com os discursos dos participantes do presente estudo. Assim, a relação com a droga atravessa diversas dimensões da vida desses sujeitos e a adesão ao tratamento acaba por perder importância (além de outros fatores que conferem complexidade para essa questão). Os sujeitos, como produtores de vida que são, perpassam os equipamentos e serviços da rede de atenção à saúde levando demandas referentes ao tratamento do HIV/AIDS, como também aquelas referentes ao uso do crack, requisitando a integralidade do cuidado, como diretriz estruturante do SUS, como urgente para enfrentar o problema da transmissão pandêmica do HIV, da não adesão ao tratamento, da problematização acerca da relação dos sujeitos com a droga e a política de redução de danos. Nessa perspectiva, considera-se, atualmente, que a gestão do cuidado às pessoas que vivem com HIV/AIDS deve ser compartilhada entre a rede básica de saúde (Unidade de Atenção Primária à Saúde - UAPS) e a rede secundária (Serviço de Assistência Especializada - SAE) e que isto é a chave para melhorar a assistência a estas pessoas no Brasil (BRASIL, 2014). Ao finalizar este resumo, em julho de 2016, soube-se que das nove pessoas entrevistadas em 2015, quatro já haviam falecido. Portanto, a condição de viver com “aquele vírus” e relacionar-se com o “cão” se apresenta como um grande desafio para (re) pensar e (re) criar os lugares sociais e de cuidados terapêuticos destinados a estes sujeitos a partir da configuração das Redes de Atenção à Saúde e de sua interlocução com outras políticas sociais.
Descritores: HIV/AIDS, crack e Cuidado Ampliado em Saúde.

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