Após a Crise? Robert B. Zoellick



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Após a Crise?

























Robert B. Zoellick
Presidente
Grupo Banco Mundial

Escola de Estudos Internacionais Avançados Paul H. Nitze


da Johns Hopkins University

28 de setembro de 2009


As grandes insurreições produzem ondas de choque que ampliam as brechas nas ordens política, econômica e de segurança. Às vezes as ordens antigas se rompem. No entanto, o poder dos líderes e dos povos é o que pode moldar as direções da mudança.

Hoje em dia, a maioria das pessoas supõe que quando Edmund Burke escreveu a obra Reflections on the Revolution in France (Reflexões sobre a Revolução Francesa) ele estava denunciando uma revolução que já tinha executado um rei e uma rainha e lançado o Terror. Mas ele publicou seu trabalho em 1790, antes de as ruas de paralelepípedo de Paris ecoarem com o ruído das carroças e o rugido das multidões na guilhotina.

1789 foi uma das grandes insurreições da história. Embora Burke tivesse feito advertências de bom senso, a maioria dos seus contemporâneos esperava que a França trilhasse um "caminho inglês” na direção de uma democracia constitucional.

Os efeitos de eventos monumentais podem reverberar com o correr do tempo. Ao ser indagado mais de um século depois sobre o impacto da Revolução Francesa, Zhou Enlai, Primeiro-Ministro da China, teria respondido: “Ainda é muito cedo para saber.”

Este ano comemoramos o 20º aniversário da revolução pacífica de 1989. As insurreições em toda a Europa naquele ano, tão diferentes das de 1789, puseram fim à Guerra Fria. Levaram à abertura do Muro de Berlim, à liberdade da Europa Central e Oriental, à unificação da Alemanha democrática e reunificação da Europa, bem como à divisão da União Soviética e ao retorno da Rússia. Para muitos, esses eventos tumultuosos realmente pareciam o “fim da história”, segundo o famoso dizer do meu amigo e seu professor Frank Fukuyama. Entretanto, a narrativa europeia deslocou-se para novos capítulos com a expansão do que se tornou a União Europeia, a criação de uma moeda comum e a ampliação da Aliança da OTAN.

Embora a maioria dos olhos estivessem focalizados na Europa daquela era, novas histórias começavam a ser esboçadas no mundo inteiro: O Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) ofereceu uma reorientação fundamental do México, inclusive no sentido da democracia e integração potencialmente mais profunda da América do Norte; a Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) implicou um novo “regionalismo aberto” que poderia conectar um Leste Asiático em ascensão às Américas com fronteiras no Pacífico; e uma coalizão baseada em uma ação da ONU reverteu a conquista brutal do Kuwait pelo Iraque, abrindo o caminho para a Conferência de Madri que iniciou as negociações entre Israel e os Estados árabes. Essas sementes de mudança foram plantadas por líderes de visão que perceberam oportunidades em meio a mudanças sísmicas e tendências em evolução.

Minha experiência naquela época – e desde então – reforçou meu sentido de que os eventos ocorrem em um contínuo. Conforme observou Burke, há “uma parceria não somente entre os que estão vivos, mas entre os que estão vivos, os que já morreram e os que ainda não nasceram.”

Os resultados não são predeterminados. Dependem tanto dos eventos como de ações intencionais.

Em 2009 vivemos em meio a outra insurreição que está mudando o nosso mundo. Quais serão suas implicações para o futuro?

A insurreição de hoje não surgiu do nada. As sementes foram plantadas antes.

Nos últimos 20 anos temos presenciado uma mudança econômica enorme. A separação das economias planejadas na União Soviética e na Europa Central e Oriental, as reformas econômicas na China e na Índia e as estratégias direcionadas à exportação do Leste Asiático contribuíram para uma economia mundial de mercado que saltou de cerca de um bilhão para quatro ou cinco bilhões de pessoas. Essa mudança oferece oportunidades enormes. Mas também abalou um sistema econômico internacional que ainda opera por meio de acordos celebrados em meados do século XX com mudanças remendadas nas décadas subsequentes.

Algumas sementes dos problemas de hoje foram lançadas pelas respostas -- ou a ausência delas -- às crises financeiras do final da década de 90. Após a crise financeira asiática, os países em desenvolvimento determinaram que nunca mais se iriam expor às tempestades da globalização. Muitos “seguraram-se” por meio de gestão das taxas de câmbio e enormes acúmulos de reservas monetárias. Algumas dessas mudanças contribuíram para desequilíbrios e tensões na economia global, porém durante anos os governos conseguiram escapar graças a um crescimento geralmente bom.

Os bancos centrais não enfrentaram os riscos inerentes à nova economia. Aparentemente dominaram a inflação de preços de produtos na década de 80, mas a maioria decidiu que era difícil identificar as bolhas de preços de ativos e restringir a política monetária. Argumentaram que o prejuízo à “economia real” de empregos, produção, poupanças e consumo poderia ser refreado uma vez furadas as bolhas por meio do afrouxamento agressivo das taxas de juros. Estavam errados.

Os reguladores e supervisores das instituições financeiras já não tinham mais os pés na realidade. A inovação financeira e a concorrência ampliaram vastamente os serviços – incluindo empresas e famílias frequentemente postas de lado no passado – mas o atraente desenho simples da teoria de “mercados racionais” levou os regulares a se afastarem das realidades da psicologia, comportamento organizacional, riscos sistêmicos e complexidades dos mercados e seres humanos.

Tal como no passado, as ações que tomamos hoje formarão as oportunidades e desafios de amanhã.

Precisamos aprender as lições do passado – sem sermos por elas limitados. Com demasiada frequência nos preparamos para enfrentar as crises do passado em vez de prevermos as crises do futuro. De algo podemos estar certos: outra insurreição acontecerá em nossas vidas e será diferente desta que estamos experimentando atualmente.

Todos vocês da SAIS têm a sorte de estarem preparados para contribuir e espero que decidam fazê-lo. Ao estudarem esforços anteriores, poderão perguntar: como o nosso mundo será mudado por esta crise?

Em 1944 os delegados em Bretton Woods aproveitaram o momento para moldar um novo acordo global. Passaram três semanas em New Hampshire desenvolvendo um sistema de normas, instituições e procedimentos para as relações financeiras e comerciais na economia mundial.

Esse mundo mudou imensamente nos últimos 65 anos – especialmente com as transformações de 1989. O panorama da insurreição atual está mudando novamente.

Já podemos observar mudanças potenciais no poder e nas instituições, bem como na cooperação internacional. Em parte, as mudanças dependerão de como os atores se adaptam às novas circunstâncias; em parte, da rapidez da recuperação; em parte das mudanças naqueles países que detêm o capital, a tecnologia e os recursos humanos mundiais e o que fazem com eles; em parte ainda, de como ocorre ou não a cooperação entre os países. .

Quais são as percepções e a realidade do poder após esta crise?

A hipótese atual é que a economia pós-crise política refletirá a crescente influência da China, provavelmente da Índia e de outras grandes economias emergentes. Supostamente, os Estados Unidos, o epicentro da crise financeira, verão seu poder econômico e sua influência diminuírem.

Existem bons motivos para essa percepção. A China respondeu fortemente à crise, tanto em termos de estímulo como de políticas monetárias, e parece ter uma arca do tesouro para garantir seus primeiros passos. A China conseguiu uma rápida recuperação que ajudou outros países, ressaltando sua crescente influência.

Na realidade, a China atua hoje como uma força estabilizadora da economia global. Juntas, a China e a Índia respondem por 8,5% da produção mundial. Essas duas nações e outros países em desenvolvimento estão crescendo consideravelmente mais rápido do que os países desenvolvidos.

E mesmo assim... o futuro da China ainda não está definido. Sua rápida recuperação em 2009 foi impulsionada por uma expansão de crédito de 26% do PIB nos oito primeiros meses deste ano. Essa oferta excessiva está agora diminuindo e as autoridades provavelmente a limitarão ainda mais, com medo dos efeitos sobre os preços e a qualidade dos ativos e finalmente da inflação em geral. A China ainda enfrenta grandes incertezas para 2010.

Os líderes chineses reconhecem esses riscos, inclusive da continuada dependência do crescimento baseado nas exportações por parte da China e de outras economias emergentes . Não será fácil para a China mudar para uma crescente dependência da demanda interna, especialmente para um maior consumo que pode ajudar a equilibrar o crescimento mundial e, ao mesmo tempo, contribuir para o objetivo da China de uma “sociedade harmoniosa”. A proteção aplicada pela China ao setor de serviços, inclusive serviços financeiros, restringe as oportunidades para empreendedores e os aumentos de produtividade.

Os Estados Unidos, por sua vez, foram fortemente atingidos pela crise. Mas a América tem uma cultura de capacidade de recuperação de reveses, adaptação a novas circunstâncias e de se refazer.

O futuro dos Estados Unidos dependerá de se o país tratará os grandes déficits e de que modo, como se recuperará sem inflação que poderia prejudicar seu crédito e sua moeda e como reformulará seu sistema financeiro para preservar a inovação enquanto aumenta a segurança e a solidez. Os Estados Unidos precisam também ajudar as pessoas a se adaptarem à mudança para que o país possa manter seu maior trunfo: abertura para o comércio, investimentos, pessoas e ideias. Os geopolíticos ficarão em alerta aguardando sinais de que os problemas econômicos da América estejam produzindo um enfraquecimento da confiança, da energia e dos recursos nos EUA para projetar seus interesses em âmbito global em cooperação com outros países.

O Japão é a primeira grande potência industrial a experimentar uma insurreição política após a crise. A eleição do Partido Democrático do Japão pode criar pela primeira vez na história do país uma democracia sustentável com dois partidos.

O Japão re-ergueu-se das cinzas da Segunda Guerra Mundial como uma “nação comercial”, o modelo do crescimento baseado nas exportações. Não está claro se o antigo modelo de exportação de crescimento conseguirá sustentar-se em uma economia global mais “equilibrada” que não dependa tanto do consumidor dos Estados Unidos. Um Japão em fase de envelhecimento terá novas necessidades de consumo. Uma economia global com mais polos de crescimento pode oferecer novos mercados para o Japão, especialmente por sua impressionante capacidade de usar a energia com eficiência.

O mundo ficará profundamente interessado no formato de uma política externa japonesa que possa ser sustentada acima de partidos e que assuma novas responsabilidades. Essa política externa pode aproveitar as experiências do Japão sobre desenvolvimento. O Japão pode aprofundar a cooperação com outros atores da região Ásia-Pacífico na Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), Austrália, China e Coreia e, ao mesmo tempo, manter sua função global, especialmente por intermédio de suas relações com os Estados Unidos. As oportunidades de desenvolvimento na África, América latina, Ásia Central e Oriente Médio permitiriam também ao Japão “prosperar enquanto faz o bem”.

A União Europeia talvez tenha demorado para reconhecer que esta crise econômica foi o primeiro grande teste da Nova Europa possibilitado pelas revoluções de 1989. Mas adaptou-se relativamente depressa e, em consequência, as instituições europeias podem tornar-se mais fortes.

As economias da Europa Central e Oriental foram atingidas mais fortemente pela crise. E seus problemas estão longe de serem solucionados. Contudo, pelo menos para os membros da União Europeia o apoio oferecido pela Comissão Europeia, Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento e o Banco Europeu de Investimento – com assistência do Grupo Banco Mundial -- está sendo fundamental. Parece que os bancos europeus que investiram nos seus vizinhos da Europa Central e Oriental permanecem com eles. A boa notícia do ponto de vista estratégico é que os países da Europa, apesar de todos os seus debates internos e negociações, reconheceram sua interdependência. Sob tensão, desta vez, a Europa não se despedaçou.

O Banco Central Europeu desempenhou um papel decisivo sob a competente liderança de Jean-Claude Trichet, seu presidente. O Banco Central Europeu enfrentou sérias dificuldades para apoiar o sistema financeiro europeu e até mesmo para ajudar europeus fora da Zona do Euro, enquanto assegurava a credibilidade do euro. Consequentemente, os membros mais novos da UE fora da Zona do Euro podem esforçar-se para obter segurança.

Mesmo assim, em tempos econômicos mais difíceis, a União Europeia ainda deve enfrentar inseguranças. Sua vulnerabilidade energética alimenta preocupações, agravando as já difíceis relações com seus vizinhos ao leste, especialmente a Ucrânia e a Rússia. Os Balcãs ainda estão fumegando e a desatenção com a Bósnia pode reacender a preocupação acerca da capacidade da UE de proporcionar segurança, mesmo no seu próprio continente. A UE e a Turquia ainda precisam desenvolver uma visão comum do seu futuro compartilhado. À medida que sua população envelhece, a Europa terá de cuidar da integração de imigrantes.

O Sudeste da Ásia pode também ser fortalecido pela crise – dependendo de como as oportunidades são aproveitadas. A região fica em um cruzamento geográfico entre a Índia e a China, duas potências ascendentes. A ASEAN parece ter reconhecido o momento e tomou providências para aprofundar sua integração, mesmo enquanto procurava atrair outros países.

Diante do considerável peso da Indonésia e da crescente influência do Vietnã, seu desempenho sólido em meio ao turbilhão econômico permaneceu em profundo contraste com o da década passada. Mas ainda há as questões de ajustes e transições políticas em países como a Tailândia e a Malásia. Existe também a questão de se os outros países reconhecerão a emergente ASEAN. A China e a Índia parecem estar reconhecendo – mas qual será a atitude da América do Norte e da União Europeia?

Para outros, o impacto de longo prazo da crise pode depender de produtos básicos, especialmente dos preços do petróleo que nos últimos anos proporcionaram rendimentos elevados. Quando o preço do barril de petróleo alcança US$ 100, esses países estão fortes. Quando está em US$ 30, a maioria está com graves problemas. Essa dependência do petróleo e de produtos básicos é uma base precária sobre a qual construir uma economia em um mundo que se está esforçando para reduzir sua dependência de combustíveis fósseis e no qual os preços dos produtos básicos giram à medida que os investidores entram e saem de uma “classe de ativos”. Os países usarão esses rendimentos com sabedoria – para diversificar e construir um desenvolvimento econômico com uma base mais ampla? Essas são perguntas para a Rússia, países do Golfo e alguns países da América Latina e da África.

Compreender as mudanças nas relações de poder é fundamental para moldar o futuro -- como avaliaram os delegados de Bretton Woods. A base política desse sistema foi formulada por meio de uma experiência comum em falta de responsabilidade após a Primeira Guerra Mundial e uma clara determinação de poder após a Segunda Guerra Mundial. Mudar aquelas relações de poder – e a natureza dos mercados que as unem – e o sistema parece impossível. Vejamos alguns exemplos:

O dólar continuará a ser a moeda de reserva predominante?

O sistema de moedas de Bretton Woods foi substituído em 1973 por taxas flutuantes, sendo o dólar a principal moeda de reserva do mundo. Apesar de todas as questões relativas à confiabilidade do dólar como moeda de reserva, seu valor aumentou durante a crise, uma vez que ele proporcionou um refúgio seguro aos investidores.

Os Estados Unidos têm uma sorte incrível que o dólar desfrute dessa condição especial. Quando trabalho com países que lutam para pagar orçamentos ou financiar déficits comerciais, penso em como os americanos não gastam um só minuto pensando nas vantagens singulares de poder emitir títulos e imprimir papel-moeda livremente. As histórias das guerras napoleônicas falam de grandes campanhas e batalhas, mas a vitória final da Grã-Bretanha e sua coalizão dependeram do árido capítulo sobre a reabilitação do crédito britânico por Pitt.

Os Estados Unidos estariam enganados se dessem como certa a condição do dólar como a principal moeda de reserva do mundo. Com relação ao futuro, haverá um número cada vez maior de alternativas para o dólar.

Tendo em vista o recente desempenho do Banco Central Europeu, existem todos os motivos para acreditar que a aceitabilidade do Euro possa crescer. A influência do Euro dependerá, em parte, da competitividade dos países da União Europeia nos próximos anos e da profundidade e liquidez dos seus mercados financeiros. A demografia e a perspectiva de crescimento também serão importantes. Mas o financiamento em euros representa uma alternativa respeitável se o dólar estiver enfraquecido.

Ademais, a China está caminhando para a internacionalização gradual da sua moeda. A China está tornando mais fácil para os seus parceiros comerciais fazer negócios em Renminbi – por exemplo, mediante trocas de moedas. Provavelmente também veremos essa mudança no mundo dos investimentos: este mês, a China emitiu pela primeira vez títulos soberanos em Renminbi para investidores estrangeiros. A China anunciou recentemente que as empresas estrangeiras poderão registrar suas ações na China, um passo para tornar Shanghai um centro financeiro internacional. Como a China é um importante importador de produtos básicos, pode-se imaginar que novos índices de referência sejam estabelecidos em Shanghai ou outros portos chineses, em última análise em Renminbi.

Os líderes chineses serão cautelosos. A maioria quer manter o controle gerado por uma conta de capital fechado. O mercado financeiro e o bancário provavelmente continuarão sujeitos a diversas ferramentas de intervenção e controle. Mesmo assim, penso que a China inevitavelmente se voltará para o exterior. Em 10 ou 20 anos, o Renminbi se tornará uma moeda forte nos mercados financeiros.

Os países e mercados também poderão fazer experiências com financiamentos expressos em Direitos Especiais de Saque (SDRs), que refletem um portfólio de moedas importantes.

Obviamente, o dólar dos Estados Unidos é e continuará a ser uma moeda importante. Mas o destino do papel-moeda dependerá muito das escolhas dos Estados Unidos. O país resolverá seu problema da dívida sem recorrer à inflação? A América é capaz de estabelecer uma disciplina de longo prazo para os gastos e seu déficit orçamentário? O país está restabelecendo a capacidade de um setor financeiro saudável para a inovação, liquidez e rendimentos, sem produzir o mesmo risco de grandes bolhas e colapso das instituições? O valor do dólar dependerá também do grau em que ocorrer o retorno a uma economia do setor privado dinâmica e inovadora.

As relações de poder também estão sendo questionadas pelos países em âmbito nacional. Os bancos centrais tiveram papel importantíssimo nesta crise.

Os governos democráticos permitirão que bancos centrais independentes assumam mais autoridade ainda?

O Congresso dos EUA ficou surpreso ao tomar conhecimento da abrangência da autoridade da Reserva Federal para criar fundos, comprar ativos, planejar linhas de swap globais e fazer transações fora do processo usual para gastar o dinheiro público.

O Congresso tem um relacionamento desconfortável com bancos e banqueiros desde Alexander Hamilton. Somente em 1913 os Estados Unidos criaram um banco central. A Reserva Federal conquistou com grande dificuldade sua independência após anos de esforço.

Portanto, não deveria constituir nenhuma surpresa o fato de a democracia americana estar relutante em autorizar o Fed a supervisionar os riscos bancários sistêmicos, bem como a operar a política monetária, aumentando o seu poder.

No Reino Unido está acontecendo um debate sobre os papéis do Banco da Inglaterra e da Autoridade de Serviços Financeiros. Os países da Zona do Euro também enfrentam esse problema com a complexidade adicional de várias autoridades nacionais de supervisão. Este é também um tópico para os países em desenvolvimento em ascensão com mercados bancários e financeiros cada vez mais desenvolvidos.

Os bancos centrais tiveram desempenho impressionante quando a crise atingiu os países com força total. Mas há perguntas razoáveis acerca do modo como administraram o aumento da crise, inclusive a inflação dos preços dos ativos, e as falhas significativas de supervisão. Ainda não sabemos se os Bancos Centrais são capazes de administrar a recuperação sem perder o controle sobre a inflação.

Stanley Fischer, Governador do Banco Central de Israel e ex-Governador Adjunto do FMI, é um exemplo da associação das ferramentas da política monetária com a supervisão prudente das normas do banco central com base na eficácia da organização. Outros sugerem que uma das funções será inevitavelmente tratada como o primo pobre ou que uma única autoridade para as duas funções aumenta o risco de erros sem uma segunda opinião. Outros ainda sugerem um conflito de interesses.

Este debate refletirá diferentes tradições e atitudes políticas com relação a bancos e bancos centrais. Nos Estados Unidos será difícil conferir mais autoridade aos tecnocratas independentes e poderosos da Reserva Federal. Minha leitura sobre a gestão da crise recente é que o Departamento do Tesouro precisaria de mais autoridade para reunir um grupo de diferentes reguladores. Além disso, o Tesouro é um departamento do Executivo e, portanto, o Congresso e o público podem supervisionar mais diretamente de que modo ele utiliza qualquer autoridade adicional.

Outra herança dos arquitetos de Bretton Woods é o nosso sistema global de comércio.

Ele está acompanhando as demandas da economia global?

A resposta é evidentemente “não”.

Olhando o lado positivo, as experiências catastróficas do isolacionismo econômico da década de 1930 alertaram a maior parte do governo para não arriscar uma continuação. Até agora, o tradicional protecionismo comercial tem sido como uma febre baixa. Mas a temperatura está subindo.

A economia política de comércio pode ser resumida na “teoria da bicicleta”. Diante da influência local dos produtores protecionistas na maioria dos países, a única forma de combater sua força gravitacional é seguir em frente com uma agenda comercial liberalizante. Os ganhos potenciais da abertura de mercados podem então ajudar a mobilizar interesses que se oporão àqueles que clamam por barreiras.

Hoje, os pedais movem com dificuldade a Rodada de Doha na OMC. Além disso, com uma agenda criada há quase uma década, a Rodada de Doha está rapidamente ficando aquém dos novos desafios. Devemos executar imediatamente a Rodada de Doha -- e depois olhar para frente.

A Rodada de Doha poderia cortar, disciplinar e até mesmo eliminar alguns subsídios agrícolas que durante anos ficaram de fora o sistema comercial baseado em regras. Poderia abrir de forma reduzida mercados para produtos de manufatura e agrícolas em economias desenvolvidas e em grandes economias em desenvolvimento. Poderia “amarrar” as barreiras dos principais países em desenvolvimento em níveis muito mais baixos, aumentando o sentido de contribuições mútuas e limitando os riscos de grandes saltos em tarifas. A Rodada de Doha poderia ainda abrir mercados de serviços e cortar os picos de tarifas dos países desenvolvidos que limitam a manufatura básica e a produção de valor agregado nos países mais pobres. A Rodada poderia corrigir as regras que foram dirigidas para limitar o comércio de forma exageradamente livre. Esses são ganhos reais e demonstrariam a capacidade das economias desenvolvidas e das principais economias emergentes de assumirem o compromisso de alcançar um interesse mútuo e sistêmico.

Depois da execução de Doha, teremos de passar rapidamente para uma nova agenda. A integração regional faz parte da globalização, mas precisamos de novas regras que permitam aos países apreenderem os benefícios de uma liberalização mais profunda e mais abrangente com outros países e, ao mesmo tempo, estimularem um regionalismo aberto. A OMC precisa apoiar a agenda da mudança climática sem ter de recorrer a novas tarifas de carbono. Precisamos de contrapontos ao protecionismo financeiro e de subsídios que surgiram em consequência da crise. Precisamos reduzir as barreiras ao comércio Sul-Sul. O comércio de serviços precisa ser ampliado para corresponder às oportunidades de desenvolvimento em crescimento. Precisamos de mais ajuda para os países mais pobres com menos capacidade para aproveitar as oportunidades de crescimento proporcionadas pelo comércio.

A nova agenda precisa aproveitar os primeiros esforços empreendidos por Pascal Lamy, Diretor-Geral da OMC, apoiados pelo Grupo Banco Mundial de unir a facilitação do comércio à ajuda ao comércio. Para beneficiar-se da redução das barreiras ao comércio, os países pobres precisam: integração regional para criar mercados maiores e acesso para os países sem saída para o mar; energia; infraestrutura; sistemas logísticos; pronto acesso ao financiamento do comércio; ajuda com padrões; e agilização das alfândegas e procedimentos nas fronteiras. Eram necessários dois dias para os caminhões obterem licença para cruzar a fronteira entre o Quênia e Uganda. Hoje, um posto de fronteira que o Banco Mundial ajudou a criar reduziu o tempo de transferência para duas horas ou menos.

O sistema de Bretton Woods for criado por 44 países em uma época que o poder estava concentrado em um pequeno número de nações. As grandes ondas de descolonização estavam apenas se movimentando; os poucos países em desenvolvimento eram vistos como objetos e não sujeitos da história. Aquele mundo já ficou para trás há muito tempo. As novas realidades da economia política exigem um sistema diferente.

Qual será o papel dos países em desenvolvimento após a crise?

A crise ressaltou a crescente importância das grandes economias emergentes, especialmente da China e da Índia, mas outras também. Na realidade, a economia mundial está sendo “re-equilibrada” no sentido das participações relativas de cerca de duzentos anos atrás, antes da revolução industrial, mais uma nova América do Norte.

As crescentes economias em desenvolvimento devem desempenhar um papel-chave na recuperação. A maioria dos autores de prognósticos espera que a demanda seja fraca, com retração do consumidor dos Estados Unidos. Muitos países em desenvolvimento podem ampliar a demanda se tiverem acesso ao financiamento. Eles têm espaço fiscal para tomar empréstimos, mas não podem obter os volumes de que necessitam a preços razoáveis sem deixar de fora seus setores privados. Ademais, os países de renda média abrigam 70% das pessoas em pobreza extrema do mundo. O Grupo Banco Mundial e os bancos regionais de desenvolvimento podem ajudar.

Olhando mais além, um modelo de crescimento mais equilibrado e mais inclusivo para o mundo se beneficiaria de vários polos de crescimento. Com investimentos em infraestrutura, pessoas e empresas privadas, os países da América Latina, Ásia e o Oriente Médio em sentido mais amplo poderiam contribuir para um “Novo Normal” para a economia mundial.

Com o tempo, a África também poderá tornar-se um polo de crescimento. As mensagens que escuto na maioria dos países africanos são as mesmas: Os africanos querem energia, infraestrutura, agricultura mais produtiva, um setor privado dinâmico e mercados integrados em âmbito regional vinculados ao comércio aberto. É uma mensagem que deve ter sido ouvida em uma Europa devastada há 60 anos.

Antes da crise, as taxas de crescimento de diversos países africanos estavam alcançando níveis impressionantes com consistência. Como resultado da crise, pode surgir uma nova oportunidade. Algumas fábricas chinesas, com o apoio do governo, estão pensando em mudar sua produção básica para a África. O Grupo Banco Mundial está trabalhando com a China para explorar o desenvolvimento de novas zonas industriais que tornem a infraestrutura, energia e treinamento compatíveis com esses empreendimentos.

As perspectivas da China na África – que incluem desenvolvimento de recursos e infraestrutura – provavelmente serão complementadas por outras. O Brasil está interessado em compartilhar sua experiência em desenvolvimento agrícola. A Índia está construindo estradas de ferro. Esses são os primeiros dias de uma tendência que crescerá.

O Grupo Banco Mundial pode oferecer um contrapeso ao protecionismo financeiro e comercial mediante o apoio a esse desenvolvimento. Lançamos uma nova Corporação de Gestão de Ativos, por intermédio da IFC, nosso braço do setor privado, para investir em bancos, patrimônio social, infraestrutura e reestruturação da dívida. Temos uma iniciativa paralela para apoiar e investir no desenvolvimento de mercados de títulos em moedas nacionais. Os investidores de prazos mais longos – tais como fundos soberanos e fundos de pensão – reconhecem hoje que os mercados desenvolvidos também representam riscos e que os mercados em desenvolvimento podem oferecer boas perspectivas de crescimento.


Conclusão


Como resultado desta crise, temos uma oportunidade de reformular nossas políticas, arquitetura e instituições. Temos uma oportunidade de produzir um novo sistema global para um século XXI de “Globalização Responsável” – que estimule um crescimento mundial equilibrado e estabilidade financeira, adote os esforços globais para combater a mudança climática e aumentar a oportunidade para os mais pobres. Significa ampliar os benefícios de mercados abertos e comércio, investimentos, concorrência, inovação, empreendedorismo, crescimento, informação – e debates sobre ideias. Deve ser uma globalização ao mesmo tempo inclusiva e sustentável – ampliando a oportunidade com cuidado com o meio ambiente.

Contudo, ela não acontecerá por si só.

Na Reunião de Cúpula do G-20 realizada em Londres em abril, os líderes olharam espantados para um abismo econômico. O perigo hoje não é mais a queda livre, mas a tranquilidade. À medida que a intensidade da crise diminui, será mais difícil pressionar os países a cooperarem para “criar novamente melhor”. A revisão por pares de um novo Contexto para Crescimento Forte, Sustentável e Equilibrado acordado na Cúpula do G-20 realizada na semana passada é um bom começo, mas exigirá um novo nível de cooperação e coordenação internacionais, inclusive uma nova disposição para levar a sério as constatações do monitoramento global. A revisão de pares terá que ser pressão de pares.

A mudança climática representa um teste precoce. Uma tarefa-chave em Copenhagen em dezembro será criar os incentivos para que os países em desenvolvimento participem do crescimento com baixa emissão de carbono. Os formuladores de decisões precisarão formular um processo contínuo que reduza os gases do efeito estufa e, ao mesmo tempo, incentive a mudança tecnológica, a adaptação e o crescimento.

Precisamos de um sistema de economia política internacional que reflita uma nova multipolaridade do crescimento. Esse sistema precisa integrar as crescentes potências econômicas como “partes interessadas responsáveis” e, ao mesmo tempo, reconhecer que esses países ainda abrigam centenas de milhões de pessoas de baixa renda e enfrentam espantosos desafios ao desenvolvimento. Precisa integrar as energias e o apoio dos países desenvolvidos, cujas populações sentem o pesado ônus da dívida e ansiedades da concorrência e consideram que as novas potências precisam compartilhar das responsabilidades. Precisa oferecer ajuda aos países mais pobres e mais fracos – o 1,6 bilhão de pessoas que ainda vivem sem energia elétrica e o “bilhão de baixo” aprisionado na pobreza em consequência de conflitos e governança destruída.

Finanças globais e moedas. O sistema de comércio. Desenvolvimento inclusivo e sustentável. Mudança climática. Países lutando contra a fragilidade e os conflitos. E uma infinidade de outras questões de segurança. Cada tópico é por si só importante. Mas cada um deles está interligado aos outros.

Os países do mundo nunca lidarão efetivamente com essa agenda a menos que cooperem entre si. O multilateralismo econômico de outra era não reflete as realidades atuais. Precisamos modernizar multilateralismo e mercados.

Conforme ficou acordado em Pittsburgh na semana passada, o G-20 deve tornar-se o principal fórum para a cooperação econômica internacional entre os países industrializados desenvolvidos e potências em ascensão. Mas ele não pode ser uma comissão independente. Nem pode ignorar as vozes de mais de 160 países que ficaram de fora.

O G-20 deve operar como um “Grupo de Coordenação” em uma rede de países e instituições internacionais. Poderia reconhecer as interligações entre os problemas e promover pontos de interesse comum. Esse sistema não pode ser hierárquico e não deve ser burocrático. Se receberem um impulso, os tópicos podem ser abordados por outros grupos de negociação, regimes internacionais ou instituições mundiais e regionais. O FMI, Grupo Banco Mundial, OMC, Diretoria de Estabilidade Financeira e órgãos das Nações Unidas podem alertar os países para as questões, fornecer análises, criar soluções de cooperação e ajudar a executar políticas.

Para serem eficazes e reforçarem sua legitimidade, as instituições internacionais também devem evoluir. Seus direitos a voto devem refletir a importância e as novas responsabilidades das potências emergentes, garantindo, ao mesmo tempo, o direito de expressão aos pobres. Essas instituições precisam de transparência e agilidade para trabalhar dentro de redes de empresas privadas, fundações e sociedades civis, bem como entre elas próprias.

A antiga ordem econômica internacional estava lutando para acompanhar a mudança antes da crise. A insurreição atual revelou os imensos hiatos e as necessidades prementes. Já é hora de recuperarmos o terreno perdido e irmos adiante.

A questão é se os líderes podem cooperar com a condução das mudanças. Eles serão atraídos para os interesses das populações que representam, como devem fazer. Ainda assim, enfrentarão o desafio de reconhecer e construir interesses comuns, não apenas caso a caso, mas por intermédio de instituições que reflitam a “Globalização Responsável”.



Bretton Woods está sendo reformulado diante de nossos olhos. Desta vez, levará mais tempo do que três semanas em New Hampshire. Terá mais participantes. Mas é igualmente necessário. Qualquer que seja a próxima insurreição, ela está tomando forma agora. Molde-a ou será moldado por ela.



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