ApresentaçÃo da obra



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APRESENTAÇÃO DA OBRA

Acredito em numerologia. Acho que Aechimedes foi um iluminado ao descobrir o significado dos números, ao dizer: “Tudo é Número!” ou quando afirmou: “Deus é Número 1, Ele representa a Unidade, o Indivisível, o que está multiplicado em todas as coisas do Universo!” O visionário iluminado sabia que a numerologia iria servir à toda a evolução do ser humano, dos tempos da caverna, aos dias atuais, nos quais a troca de informações entre a NASA, e as suas sondas espaciais no longínquo universo, e realizada apenas numerológicamente. Ou seja, todos os comandos das sondas, e mesmo as imágens que elas enviam à Terra, são convertidas em números coodificados, enviados à Terra, e em seguida reorganizados e recoodificados, para expressarem as informações de texto e imagem inteligentes.


Por exemplo, se pegarmos o nome “BURITIS” e lhe atribuirmos valôres numerologicos, conforme Archimedes, teremos: B= 2, U=3, R =9, I=9, T=2, I=9, S=1, resultando 2+3+9+9+2+9+1=35. (3+5=8) Portanto Oito é o número da frequência da cidade.
Ocorre que 8 é o número perfeito sob todos os aspectos: O seu foúmero perfeito sob todos os aspectos: O seu fomato é redondo e sem quaisquer arestas, O oito (8) é o número natural que segue o sete e precede o nove. O 8 é o cubo de 2. O próximo cubo perfeito é o 27. Pode ser escrito de forma único como a soma de dois números primos: .. E o mais importante é que é invencível, se derrubado, na horizontal, ele assume o símbolo do infinito.
Na numerologia chinesa, o oito representa sorte, saúde, fortuna, O que nos entristece, é que apesar de toda essa vantagem numerológica, a cidade tenha um IDH Índice de Desenvolvimento Humano, de apenas 0,75 conforme o IBGE. Isso significa que em termos de desenvolvimento um Sueco pesa mais do que 134 buritisenses.
Mas Buritis MG. precisa apenas de um empurrãozinho para as oportunidades. Se o poder constituido não atrapalhar, complicando com excesso de soberba e arrogância, logo a cidade encontrará o seu caminho.
Quando se está num cruzamento, ou encruzilhada da vida, e se está diante de diversas opções, fica se indeciso quanto ao caminho a ser tomado. Essa indecisão ocorre por analisarmos apenas técnicamente as opções que se nos apresentam. Qualquer caminho que tomarmos será definitivo até chegarmos à próxima encruzilhada onde teremos novamente de optar tendo por Bussula apenas a nossa intuição. Nada tem volta, exceto que rodemos em círculos.
A presente obra: QUÃO AMARELO É O VERDE URUCUIANO é uma crônica mista de ficção, romance, comédia, regionalismo, e política. Um relato de uma região acostumada com as tradições de consumir queijos, gostar de queijadas, e amar vaquejadas.Um lugar pobre até de adjetivos, onde as coisas boas são “Trem Bão”, e as muito boas são “Trem Bão Danado” Como tal, seus personagens, nomes, situações e ocorrências, foram manipuladas pelo autor, num divertido enrêdo, não podendo lhes ser atribuidos quaisquer valores históricos, jurídicos, ou documentais. QUALQUER SEMELHANÇA com ocorrências reais é MERA COINCIDÊNCIA. Trata se apenas de modesto ensaio para o seu entretenimento.
O escritor Sr. Ariano Suassuna, da Academia Brasileira de Lêtras, hábil juiz no julgamento do que é, ou não Lixo Cultural, certamente conclamará a todos os membros, que possuem uma cadeira na Academia, para uma Reunião de Emergência, para proibirem a publicação da primeira edição deste livro. Portanto se Você Leitor o encontrou publicado, leia o, e faça seu julgamento.

Perdoem me portanto os eventuais personagens citados, caso se sintam ultrajados. Perdoem me os maridos caso o nome de suas esposas apareça ligado a qualquer escândalo. Não se sintam traidas as espôsas, caso identifiquem o nome de seus maridos e ele apareça ligado a uma situação inusitada.


É a estória da vinda de um maluco para Buritis, o qual pretende implementar um projeto de desenvolvimento da cidade, com os objetivos de Diminuir a Pobreza de uma região basicamente rica; Aumentar o baixissimo IDH Índice de Desenvolvimento Humano hoje situado em 0,75; Reter o potencial intelectual o qual está emigrando por falta de oportunidades; Criar emprêgos agregando valôr à produção local. O Parque Empresarial de Buritis MG. Conta os motivos, e as manobras favoráveis e desfavoráveis do destino, para a conclusão desse sonho.

A presente obra terá oito capítulos, de oito páginas, no máximo vinte linhas por página, e no máximo oitenta páginas incluindo Prólogos, ïndice, Introdução, enrêdo, e epílogo. Serão 1.620 linhas de besteirol e pseudoalcovitagem, com as quais você certamente apreenderá pouco, e rirá bastante. Adquirindo sobretudo um pouco de conhecimento sobre a ALMA URUCUIANA.

A referência ás côres Amarelo e Verde, é para ilustrar o patriotismo urucuiano diferente do patriotismo do resto do nosso país, que é Verde e Amarelo. O Verde, símbolo da flora, natureza, e ecologia, é mais o Amarelo no Vale do Urucuia, significando isso que na mente urucuiana a ecologia e o ambientalismo são autosustentáveis. Ou seja: Além da preservação e observação das leis ambientais, a mente urucuiana sabe ser necessário gerar riquezas materiais, Ouro Amarelo, Crescimento, Educação, Saúde, Lazer e Diversão, também custam dinheiro.

Esta obra eu a dedico ao grande amigo Zé Miguel, uma das principais colunas de sustentação da Cultura Urucuiana, a qual também é peculiar e diferente dos demais Valôres Culturais desse nosso grande e diversificado BRASIL verde e amarelo.



Como eu já disse, esse livro é àtemporal. Ele pretende lhe levar ao passado, presente, e futuro de uma cidadezinha pobre do Noroeste de Minas Gerais, possibilitando lhe a conhecer o seu grande potencial produtivo latente e adormecido.
Em viajando no tempo, Você terá oportunidade de conhecer por exemplo o Cruzeiro, um lugar quase no limíte do município, na divisa com a cidade de Formoso MG. onde os antigos dizem que havia uma viúva malvada, que matara o marido para ficar com seus bens.
Depois ela montara uma hospedaria, onde hospedava os nortistas, vindos da Bahia, tocando Boiadas, os seduzia, e mandava enforcá los para ficar com o seu gado. Com isso ela enriquecera. Depois mandar um padre itinerante fazer aquele cruzeiro de madeira para socegar as Almas Penadas, que assombravam os viajantes.
Conhecerá também a estória de uma velha senhora rica, cuja filha não podia namorar, pois ela mandava o capataz afogar o pretendente num riacho que vinha da serra, e atravessava o centro de sua casa. O côrpo da vítima sendo depois encontrado entre as pedras de uma cachoeira.
Essa estória é também o relato do primeiro caso de homosexualismo feminino, pois segundo ela, a filha acaba se apaixonando por uma moreninha, e a contrata como empregada. A velha mãe também se apaixona pela nova empregada. Quando descobre o românce da filha, a velha cai da escada que usara para espreitar por sobre a parêde, da casa sem fôrro. A moreninha e a filha riem da cena. A velha com raiva manda o Capataz afogar a empregada, e a jogar do penhasco na cachoeira. O caso parece que deu até processo para as duas na época. Dizem.
Contam que o cangaceiro “Lampião” andou por aqui assombrando o Vale do Urucuia. Teve um caso com uma rapariga, que por ele se apaixonara. Para seguir o bando, ela se travestira de homem, sendo posteriormente a “Diadorim” do romance de Guimarães Rosa, Grande Sertão Veredas. Quem me contou sabe até o nome da família de Diadorim, cujos remanescentes vivem aqui até hoje. Jura que o próprio autor do livro já andou por aqui, nas pegadas de Lampião, antes de escrever o livro.
Particularmente não acredito muito nesse tipo de estória. Penso ser fruto da imaginação das pessoas que não dispondo de Rádios, e TVs para se distrairem, ficavam inventando esses folclores para passar o tempo.
A felicidade do povo daqui é algo contagiante que chama a atenção de qualquer forasteiro que esteja apenas de passagem. Mesmo sem muitos recursos materiais, apesar das carências até do essencial, as pessoas riem e brincam com tudo. A gente se encanta c om a simpatia expressa em todos os semblantes, por mais carentes que sejam os seus proprietários. Nota se que é yma alegria que brota da alma.
É uma verdadeira terapia comportamental estar conversando com as jovens do vale do Urucuia. Apesar do português carente de plurais, e de concordância, dá para se tirar grandes lições de vida, no convívio diário com esse povo peculiar.
Quero também agradecer a Você leitor por haver escolhido ler essa obra. Por ter tido a paciência de a ler, discutir, e comentar com seus amigos. Desejo lhe uma boa leitura, e peço desculpas se as minhas opiniões e pontos de vista diferirem dos seus. Enfim somos todos pensadores. O nosso pensamento e as nossas opiniões são o único bem nosso não tributável. A democracia há bem pouco tempo conquistada nos permite manifestar as nossas opiniões. Elas também evoluem e mudam no decorrer do tempo. Não tenho certeza de que as minhas opiniões sejam as mesmas daqui há um ano, seis mêses, um mês, ou na semana que vem.

Muito obrigado!


Heinz:.

A LENDA


Foi há séculos, ainda na era précolombiana, que a pequena tribo “Urukuyana”, vinda do norte dos estados hoje denominados Pará e Amapá, chegou à Lagoa Azul no centro do planalto central.

O cacique Urukum tinha muita fé no pagé da tribo, o Índio Abaeté, o qual se entendia muito bem com Tupã, e com o deus Kauê. Fora por conselho de Pagé Abaeté, que ele trouxera seu povo para o planalto central, fugindo do feroz guerreiro Kaluana da tribo Kamaiurá, quem os perseguira por oito luas seguidas através da floresta anazônica.

Há diversas luas, que os Urukuya não viam mais sinal de Kaluana, e de nenhum Kamaiurá a persegui los, mas sempre que Urukum queria parar, Abaeté apontava a sua borduna para a frente, e dizia: “A instrução de Kauê é seguirmos em frente até alcançarmos a Lagoa Azul, onde devemos esperar por Kubicé, o grande espírito Inca, que está vindo da grande cordilheira oriental, para fundar uma gloriosa comunidade aqui no Chapadão!”

Finalmente os Urukuya chegaram à Lagoa Azul que lhes fora profetizada por Abaeté, às margens da qual ele cravou a sua borduna dizendo: “Chegamos! Agora teremos de esperar por Kubicé, o grande líder Inca, quem já está vindo das montanhas da cordilheira, pela Estrada do Sol!”

A região agradou a Urukum, pois era farta em alimentos, abundante de rios e cachoeiras, muito piscosas. Ali havia a grande cachoeira de 179 metros de altura, intransponível para os cardumes em piracema, aos pés da qual a água fervilhava de fêmeas de Surubins, Pintados, Dourados, de até 70 Kg, bem como também peixes menores, possíveis de captura até com as mãos. Mas os Índios respeitavam a época de desova. Sabiam por instinto que cada fêmea capturada representava uma diminuição de peixes no futuro. Pela lei da tribo, as ovas das fêmeas tinham de ser lançadas à água, podendo apenas a sua carne ser consumida.

A tribo foi ficando naquela região abençoada da nascente do Rio Urucuia, e os seus descendentes foram povoando o Vale do Rio Urucuia, até a su foz, onde ele despeja a sua água abençoada por Kauê, no grande Rio São Francisco. Os homens foram casando com as índias das tribos ribeirinhas. Já as mulheres ficaram famosas pela sua beleza, sendo muito disputadas por caciques e pajés.

A média da estatura daquela tribo, era de indivíduos bem mais altos do que os das demais tribos daquele região. A fisionomia também era diferente, mostrando rostos morenos acobreados, testa alta, nariz mais afilado, mandíbulas suaves, e olhos inteligentes e penetrantes. Era enfim uma tribo que denotava ter mais caráter, e inteligência superior às demais tribos. Por essa razão o sangue urukuyano, era bastante disputado, tornando se os seus descendentes alvo da cobiça de Pajés, Caciques, e de seus filhos. Eram também chamados de “Etês” o que na língua índia significa Homens Bons

Mas eram índios pacíficos, tanto que nunca lutavam com as outras tribos. Só uma vez tiveram de pegar em armas. Foi na batalha das kurumís, quando a tribo Geribá invadira a aldeia e raptara todas as indiazinhas meninas de até 15 anos.

Como as armas dos Urukuyas, eram mais bem engenhadas, e as suas estratégias mais inteligentes, eles interceptaram os Geribá no caminho de volta para a sua aldeia, e resgataram as crianças. Nessa batalha os Urukuyas tiveram 13 baixas, contra 40 baixas dos Geribá. Finalmente os dois conselhos de Anciãos entraram num acordo, ficando estabelecido poderem ocorrer apenas 13 casamentos intertribais, por ano com descendentes da tribo Geribá. Em homenagem póstuma aos treze guerreiros Urukuyas tombados no confronto.

Urukum viveu 107 anos, e Abaeté 112 anos, indo ambos para o mundo dos espíritos. Até os últimos dias, quando já no conselho de anciões, eles contavam sobre a profecia de Kauê, que afirmava que o Grande Cacique Kubicé viria do país do Sol, para fundar uma grande aldeia nos chapadões do planalto central.

Essa profecia transmitida por Kauê, o deus sol, para o cacique Abaeté, levaria ainda 11.544 Luas, ou 888 Sóis para se cumprir. foi quando o Grande Cacique Kubicé (Kubitscheck) fundou a Grande Aldeia (Brasília) à 80 Quilômetros da Lagoa Azul.

As águas abençoadas dessa lagoa tinham o poder de conferir um certo sedentarismo a qualquer nômade que delas bebesse. Por essa razão se diz ainda hoje: “Se se bebeu água do Rio Urucuia, não se consegue deixa lo jamais.”

Durante esses 888 últimos anos as Kurumins ficaram também mais evoluídas, tanto física e antropologicamente, como mental e psicologicamente. Como Sereias Urukuyanas, elas populacionaram com sua desova, todo o vale desde Formosa GO. até a cidade de São Romão MG. Passando por oito cidades: Formosa, Cabeceiras de Goiás, Buritis, Arinos, Urucuia, Riachinho, Pintópolis, e São Romão, até a foz, no Rio São Francisco.

Eu suponho que o próprio nome da cidade de Formosa, deve se à formosura dessas jovens indiazinhas de estatura alta, quadís largos, cabêlos nêgros, olhos verdes amendoados, sorriso lindo, e porte inteligente. Raça posteriormente aprimorada pela miscigenação com sangue europeu.

Como o texto desse livro contenha muitas palavras da língua Urukuyana, às quais você leitor encontrará pela frente, elaborei um pequeno glossário, com a ajuda de meu amigo Julio Pancho, um paraguaio falsificado, quem também bebeu da água do rio. Note se que por ser um vocabulário relativamente pobre, algumas palavras tenham mais de um significado. Vide glossário no final do livro.

I – CHEGADA AO PARAÍSO


Trabalhando com nacionalização de tecnologias para uma emprêsa européia fabricante de medidores de fluídos, nacionalizando um desses equipamentos cujos mancais eram feitos de uma pedra sintética, importada do Japão, o componente mais caro do medidor, resolvi pesquisar uma semipreciosa nacional, mais barata.
Munido de algumas cuecas na mala, e de um durômetro, vim à Cristalina GO., famosa pelas suas inúmeras pequenas lapidações, e pela grande variedade de cristais, e pedras semi-preciosas. Alí cheguei numa quinta-feira, por volta da hora do almôço, a primeira coisa que fiz. No restaurante conheci uma môça simpática, revendedora de semi-joias de Goiânia, a qual vinha para lá habitualmente se abastecer. Ela conhecia as melhores lapidações de Cristalina, e citou algumas.
“E qual é a que possui maior variedade de pedras?” Pelguntei.

“O nome do dono é Senhor Osni. O nome da lapidação eu não lembro, mas estou indo para lá após o almôço. Se quiser ir comigo?”


Fomos e realmente ela tinha razão. A lapidadora possuia enorme variedade de cristais. O Sr.Osni, um velhinho baixinho, calvo, e simpático nos recebeu com um largo sorriso de boas vindas. Quando lhe falei a que viera, ele disponibilizou todo o seu estoque para eu medir com o durômetro. Felizmente ele mantinha todas as espécies devidamente separadas, catalogadas e identificadas.
“Muito obrigado!” Eu disse à môça que viera comigo, despedindo me. “Devo demorar me um pouco por aqui. Talvez horas ou dias!”

“Nos veremos ainda hoje. Vou dar uma volta pela cidade, e lhe encontro aqui novamente no fim da tarde. O meu ônibus para Unaí só sai à noite!”


“Pensei haver entendido que Você fosse voltar para Goiânia!”
“Moro e trabalho em Goiânia. Vou passar o fim de semana em Buritis MG. onde tenho parentes. Como não há ônibus direto para lá, vou para Unaí, e de lá para Buritis, se achar transporte!”
“Buritis. Há uma família de alemães vinda do Sul, amigos de meus pais, que venderam tudo no Paraná, e compraram uma área grande em Buritis MG.”
Ela se foi e passei a tarde tôda alí com o Senhor Osni. Percebi que êle anotava cuidadosamente a dureza das pedras que eu media, na sua lista de preços, e também nas gavêtas de seu estoque. “Toda informação adicional é Válida!” disse. Com isso ele me ajudava muito, pois eu não perdia tempo escrevendo os nomes das pedras, e anotando as suas respectivas durezas. Às dezoito horas já haviamos terminado, e eu já encontrara uima Turmalina com a durêza idêntica à da pedra sintética usada no mancal do medidor de fluídos, porém com um custo de cerca de um décimo da padra sintética japonesa.
Tive muita sorte naquele dia, pois além de encontrar logo o que procurava, a Turmalina foi aceita pela emprêsa minha cliente, e incorporada ao projeto hoje fazendo parte dos medidores fabricados no mundo todo, além de me render comissão de 10% sôbre a economia resultante, pelos cinco anos seguintes. Poderia voltar para casa no mesmo dia. Só não o fiz porque aquela môça de Goiânia lembrou me da família Bauer de Buritis MG. Eu poderia também passar o próximo fim de semana na fazenda desses amigos de meus pais, já que estáva tão próximo dalí. Convidei a minha nova amiga Vânia, e ela imediatamente desistiu de tomar o ônibus.
Partimos no dia seguinte bem cêdo. No comêço a viagem foi maravilhosa. O asfalto novo na BR 40 até Paracatu, não tinha quaisquer buracos. A estrada plana e reta oferecia paiságens ricas de culturas de Milho, Soja, Sorgo, e Arroz, verdes e bonitas devido às últimas chuvas de verão. Vânia sorridente cantarolava ao meu lado, também tocada por aquela beleza toda. Na estrada havia um tráfego intenso de caminhões, em sua maioria graneleiros, transportando a última safra de Soja. As áreas de lavoura onde a colheita fôra recente, tinham uma côr dourada da palhada, onde gado nellore branco, aproveitava um último alimento.
Almoçamos em Paracatu, de onde seguimos para Unaí, por uma estrada mais esburacada, mas não menos bonita. Lá paramos apenas para um Pipi, e para bebermos água e café.
De Unaí para Buritis, naquela época ainda não havia asfalto. A estrada além de poeirenta estava esburacada pelo intenso tráfego trazendo Soja das chapadas de Buritis. A cada caminhão com que cruzávamos, tinhamos de acender as luzes, fechar os vidros, e apoiar o parabrisas com as palmas das mãos, para evitar que as pequenas pedras o estilhaçassem. O calôr dentro da nossa cabine ficou intenso por defeito no ar condicionado. As borrachas ruins das portas, não impediam a entrada das pequenas partículas de poeira da estrada. Elas aderiam ao suor de nossa pele, fazendo máscaras ao redór dos olhos.
Fiquei tentado a brincar com Vânia sobre a sua maquiagem exótica, não o fazendo por não a conhecer ainda o suficiente. Tive um mau pensamento ao imaginar, quão pouco atraente estaria agora a sua intimidade.
A água que trouxeramos, duas PET de 1,5 L., além de estar morna, estava quase acabando. Só podendo ser usada em pequenos goles, conservados na bôca o máximo de tempo possível.
Com todo esse desconforto Vânia pareceu não perder o seu humor. Ao lhe perguntar por que ela parara de cantarolar, ela respondeu: “Entra muita terra na bôca, já estou com os dentes rangindo de tanto pó!”
“Realmente há momentos em que se tem até de segurar a respiração. Dois dias nesta jornada estaremos ambos falando com a vóz nasal dos pilôtos da Fórmula Um!” Acrescentei.
“Você tem razão. Quase todos eles tem uma voz bem nasal!”
“É para não inalarem os gases dos motores que vão à frente!”
“Você já foi Pilôto de Corridas?”
“Quando bem jovens, eu e meu primo nos matriculamos num curso de pilotagem promovido pelo Wilson Fittipaldi, em Interlagos. Além das aulas teóricas só podiamos andar numa velha carroceria feita artesanalmente pelo próprio Fittipaldi, e dotada de motor do Fusquinha 1.200. Paramos por falta de dinheiro. Cada aula nos custava uma fortuna!”

Ao cair da noite, as condições de visibilidade pioraram, pois por não enxergar o barranco da direita, se ficava completamente sem referência. Não se podia parar por mêdo de se ser abalroado por tráz pelos caminhões vazios que vinham no mesmo sentido, e por já conhecerem a estrada, com mais velocidade que nós. Por outro lado eles também levantariam pó, dificultando ainda mais as coisas.


Chegamos à Buritis, quase às 22hs. Muito tarde para ainda procurarmos os tios de Vânia, ou a família Bauer. Portanto nos hospedamos no Hotel Plaza. Ao nos vermos no grande espêlho do saguão, não nos reconheciamos. Os nossos cabêlos estavam duros e revoltos pelo raro vento da estrada, de quando se podia abrir uma pequena fresta do vidro, para amenizar o calôr. Por cavalherismo, deixei Vânia tomar banho antes. Fiquei num barzinho próximo ao hotel, e tomei a cerveja mais deliciosa que já bebera. Chegada a minha vêz de banho, observei que ao lavar as narinas, alí havia tijólos de barro.
Após o banho, agora já limpos e cheirosos, fomos jantar num pequeno restaurante, que ficava próximo ao Rio Urucuia.
“Qual o peixe que vocês querem comer?Temos Dourado, Matrichan, e Pacú no freezer!”
“Não tem Pintado?”
“Congelado Não. Mas eu tenho uma seva aí no fundo. Vou buscar um para vocês!”
“Podemos assistir o senhor pescar?” Perguntou Vânia.
“Claro, Venham!” Respondeu acenando. “Não demora mais que descongelar os do freezer!”
Pôs isca num anzol que já alí estava amarrado no pé direito da varanda do fundo. Imediatamente a linha puxou. “Viram?” depois sacudiu a cabêça negativamente, “Outro Dourado!” Soltou o peixe que pegara, repôs a isca, lançou novamente em qualquer direção, e

em segundos fisgou outro peixe. “Esse é pesado!” Disse ao puxar o peixe da água. Um belo Pintado de cerca de 25 quilos. “Ainda bem que tenho espaço no freezer, êsse dura uns três dias, sua carne é bastante procurada, principalmente nos fins de semana, todo mundo almoça fora!”


Após limpar o peixe, ele cortou duas grossas fatias do mesmo, e as levou para a cozinha. “Vocês fiquem tomando a cervejinha que a Muqueca estará logo pronta!”
Voltamos à mesa, pedimos outra cerveja, e tagarelávamos animadamente enquanto um aroma de côco, cebôla, alho, e coentro fritos se espalhava no ar. “Pouca malaguêta Julia!” Gritou para a espôsa. “Se eles quiserem mais, acrescentam no prato!” E dirigindo se a nós.
“Gostam de pimenta? Julia é bahiana, as vezes exagera!”
“Eu gosto com moderação! Respondeu Vânia.
“Pimenta do reino não como. Me faz mal, e queima meu escapamento. Mas côres fortes, beijos molhados, e pimenta Malagheta, ou quaisquer outras pimentas vermelhas eu aprecio em qualquer quantidade!”

Vânia soltou uma gargalhada. O anfitrião pediu emprestado o meu isqueiro, acendeu um palheiro que acabara de enrolar, e foi para a varanda dos fundos, para não nos incomodar com a fumaça. “Só para espantar as Muriçocas!” Acrescentou.


Ficamos alí conversando: “Notou quanta riqueza essa região oferece?” Perguntei.
“Sim. Se tivessemos um bom Lambrusco para acompanhar o peixe seria melhor ainda!”
“Aquele vinho tinto frisante italiano? Mas com peixe combinaria melhor um Almadém Nacional da Vinícola Aurora. Duvido que aqui o encontremos, de qualquer forma, se começo com cerveja, não gosto de mudar. Como você conhece Lambrusco. Já esteve na Itália?”
“Não. Mas meu ex marido ganhava sempre de uma sua loja de artigos importados de Goiânia!”
Vânia tinha um jeito meigo e franco de falar com a gente, com os olhos sempre olhando diretamente nos olhos de seu interlocutor. Além disso falava muito com as mãos, me tocando carinhosamente para enfatizar o que estava dizendo. Além de possuir um vasto vocabulário de expressões corporais, mímicas, e até carêtas, para comunicar e ilustrar o que dizia.
Por causa do cansaço da viagem demorada e ruim, que exigira de mim muito esfôrço e me expusera à condições estafantes, não consegui disfarçar um bocêjo.
“Minininho está cansadinho! Logo mais no hotel pegarei outro quarto para mim, para Você dormir socegado!”
“Desculpe Vânia eu haver bocejado. A sua conversa é tão agradável, que eu ficaria de bom grado conversando até de madrugada com você. Quanto a dormir em outro quarto, foi tão ruim assim dormir comigo? Não atendi a expectativa foi? Só se você quiser, fiquei tão feliz por você não haver recusado dormirmos juntos novamente quando chegamos ao Plaza!”
“Desculpe Você por eu haver exigido muito de sí a noite passada lá em Cristalina. É que estou sem sexo desde me separar de meu ex marido!”
“Só acredito pois você está dizendo isso sem desviar o seu olhar do meu! Mas me conte mais sobre sí. Você me pareceu uma mulher culta, apesar de bem bonita!”
“Estudei sociologia, morava com meus pais, pequenos pecuaristas em Goiânia, após a faculdade trabalhei cerca de dois anos lecionando numa escola de segundo grau. Fiz diversos concursos para cargos públicos na minha área. Fui aprovada em quase todos, mas estou aguardando ser chamada até hoje!”
Nisso Dona Julia serviu a Muqueca numa grande terrina de louça de barro, artesanal e muito bem trabalhada. “A fragrância está ótima!” Disse Vânia lançando seu simpático sorriso à anfitriã. “Com certeza o sabor está melhor!” Completou.
“Saíu do fogão à lenha. Cuidado não queimarem a bôca. Fogão à lenha esquenta mais a comida! Querem outra cerveja?” Disse o marido, trazendo uma tijela de arroz branco, e uma baciada de salada de Rúcula.
“Agora vamos primeiro nos regalar apreciando o peixe. Depois talvez aceitaremos outra cerveja!” Respondi.

Educadamente eles se afastaram de nossa mesa, e pudemos retomar a conversa:


“Você acaba de dizer haver sido aprovada, e não haver sido convocada!”
“Sim. Acontece muito aqui no Brasil. Continuei lecionando, até meus pais conseguirem me convencer a casar com Marco um figurão lá de Goiânia, envolvido numa série de negócios, alguns dos quais eu suspeito serem excusos ou obscuros!”
“Como por exemplo?”
“Casas de Bingo, caça niqueis, jôgo do bicho. O fato é que casamos por conveniências de ambas as partes, e não por amôr! Ao ambos nos convencermos disso, decidimos pela separação amigável. ”
“Então Você herdou dele uma porção de bens!”

Ela se calou pensativa por alguns instantes, depois disse séria:


“Embora ele quizesse me indenisar, eu não aceitei nada. Montei a minha lojinha de semijóias, folheados, e bijouterias finas, com algumas economias minhas, reforçadas com a ajuda de meus pais. Ainda tudo é muito recente. Com um ano de existência nesse ramo, tenho tido um sucesso relativo, apoiada pelo SEBRAE. Já consegui pagar o que tomei emprestado de Papai, e agora estou me preparando para o mercado externo. Também cogito criar uma griffe própria, e conseguir fazer uma franquia, com franquados a nível nacional. Não tive filhos, e não os terei. Sou estéril, útero infantil. Apesar do tratamento para ovular, a minha ovulação é rara. Meu ciclo ocorre apenas a cada três ou quatro mêses, e tenho cólicas insuportáveis. Mas fale me de você, não gosto muito de falar nesse meu problema!”

“A minha estória é curta. Sou casado há 23 anos com uma mulher maravilhosa quem me deu duas filhas lindas, hoje adultas, ambas namorando excelentes carinhas, minha mulher é muito recatada. Tão contida que nunca a ouvi soltar um pum. Quando em viagens, ela fica tão constrangida, que seu intestino só é capaz de funcionar após voltarmos para casa. Isso a deixa irritada, e ela só fica incomodando fazendo pressão para retornarmos logo. Já tentei me separar, mas ela até engravidou de um terceiro filho para segurar me. Está no primeiro mês de gestação e vomita o tempo todo.


“Vai ser menino dessa vez?”
“Ainda não fizemos ultrasom por ser muito cêdo, e sabermos ser uma gravidez de risco!”
“Mas você deseja que seja homem?”
“Eu desejo que seja saudável e bem definido!”
Agora foi ela quem não conteve o bocêjo. Chamei o Senhor para lhe pedir a conta, perguntando antes:
“Esse rio é tão piscoso assim, ou é por causa da seva que o senhor faz?”
“Esse rio já foi muito piscoso, com a vinda dos grandes produtores de grãos, e consequente aumento do uso de defensivos, os peixes escassearam. Eles vem mesmo atraidos pelos restos de comida da seva!”
“Culpa dos imigrantes Gaúchos?”
“Nem tanto os Gaúchos, eles até estão trazendo manejos menos poluentes e que necessitam de menos defensivos. O Plantio Direto, é um manejo trazido pelos irmãos Taborda, o Getúlio e o Paulo Taborda foram os dois precursores desse sistema aqui!”
“Por favor, detesto desperdicio e gostaria de levar o que sobrou dessa Muqueca deliciosa para o nosso almoço de amanhã. O senhor tem embalagem para viagem?”
“E guardar aonde? No frigobar do hotel? Esquentar aonde? Sequer sabemos onde iremos almoçar amanhã!”Interveio Vânia.
“Não briguem criânças. Eu guardo aqui no meu refrigerador, e ao voltarem da casa de seus parentes amanhã ou depois, eu reaqueço a comida para Vocês. Só terão de pedir nova salada e arroz!”
“Perfeito. Agora por favor traga a conta!”
“São R$7,40!”
“O senhor se enganou. Foram três cervejas, e essa grande porção de Pintado!”
“Isso mesmo. Três cervelas dá R$2,40 e a Muqueca R$5,00!”
Paguei com uma nota de R$10,00 dizendo: “Fique com o trôco!”
“Muito obrigado, ao voltarem amanhã a salada e o arroz já estão pagos. Reservarei esta mêsa para vocês. Amanhã deverá estar cheio pois começará a Feira na Exposição, e aos Sábados normalmente o movimento aumenta!”
“Obrigado pelo excelente atendimento!” dissemos saindo, e seguimos abraçados para o hotel, cambaleando mais de cansados, bastante também de bêbados.
Ao chegarmos perguntei para a recepcionista:
“Pode por favor conseguir mais um apartamento? Esquecemos que não somos casados ao chegarmos. Temos de dormir separados!”
“Lamento mas enquanto Vocês foram jantar, o hotel lotou por causa da Exposição!”
“Par ou Impar. Quem vai dormir no banheiro?” Afirmei, apontando alguns dedos.
No dia seguinte, sexta-feira, após me informar onde ficavam, fomos visitar os Bauer. Felizmente a fazenda dos tios de Vânia era nas proximidades, distando apenas cinco quilômetros uns dos outros. Deixei a môça primeiro e voltei para os conhecer, pois deles apenas havia ouvido falar, haviam sido amigos de Papai e de meus tios.
Ao chegar, na porteira da fazenda Bauer, tive de descer da caminhonete para abrir o “Colchete”, cancela de arame que impede a entrada e saída de animais. Havia um frondozo pé de Ipê Roxo, sem flôres, mas em plena folhação, em cuja sombra resolvi fazer um Pipi. Desliguei o motor, e minha vista se regalou com a imensa planície da Chapada. Um vento frio soprava do sul assoviando no suspensório de meus óculos. De quando em quando havia rebaixos feitos por retroescavadeira, para recolher a água da chuva, sisternas que retinham a humidade no solo. Ao longe ví um bando de Emas, que corriam enfileiradas ao longo da cêrca.

Ao se aproximarem à cerca de 30 metros, pararam para observar o estranho intruso, depois começaram a se aproximar passo a passo. Fiquei imóvel para não as assustar. Tratava-se de uma família grande. Três Casais adultos, com cerca de 17 filhotes cada. Contei 56 aves, caso não tenha errado a conta.


Dei partida ao motor da caminhonete, as aves assustaram com o barulho, e saíram em polvorósa. Embiquei a caminhonete na palhada de soja, perseguindo as por algum tempo. Alcançamos a velocidade de 70 Km./h. desistindo por mêdo de encontrar algum buraco.
Hans e Lothar Bauer, dois irmãos que possuiram uma Retificadora de Motores em Apucarana PR, após conhecerem Buritis, se encantaram com as condições favoráveis que a região oferece, e com o baixo prêço de terras. Venderam tudo que tinham no Paraná, comprando uma enorme fazenda aqui, trouxeram as máquinas que já possuiam, e começaram a plantar.
Lothar separado, não teve grandes problemas. Hans trouxe a espôsa e os cinco filhos pequenos, sendo três meninos, e duas meninas. Por motivos religiósos radicais, eles queriam preservar as criânças do contágio pecaminoso da modernidade. Instrução os filhos só teriam a da mãe. Televisão e Rádio nem pensar. A lingua que usavam era uma corruptela de Alemão, do sul do Brasil,cheia de palávras adaptadas da língua portuguêsa. Em suma acreditavam convictamente numa cultura melhor, livre dos pecados e da corrupção de valôres da cultura moderna e atual.
Os meninos tinham de trabalhar duro na fazenda, e as meninas nas tarefas domésticas. Quando raramente recebiam visitas eles o faziam perfilados junto à porta da sala. Criânças se intrometerem na conversa de adultos, opinarem, ou participarem da conversa, nem pensar. Quando também raramente se ia à cidade para as cpmpras, também se caminhava em fila indiana, todos usando roupas da mesma côr, confeccionadas em casa, à partir de peças de tecido inteiras. Ao passarem assim perfilados e uniformisados, eram alvo de piadas e comentários maldósos.
Afora as excentricidades mencionadas, tratava-se de uma gente simpática, inteligente, e hospitaleira. Após eu me identificar, o assunto girou em tôrno de velhas estórias havidas com meu pai, e tio, algumas das quais eu já ouvira.
Também já ouvira acerca das excentricidades, e do modo diferente de pensar, pois meu pai também pensava que haveria um govêrno teocrático com o advento do novo milênio. Eu sempre discordava muito dessas opiniões, afirmando:
“Concordo que talvêz, e muito provávelmente ocorrerão essas tais transformações apocalípticas por João profetizadas para o ano 2000. Mas não creio que tenha de ser um processo tão radical. Ser um eremita, e me privar do conhecimento da evolução da Ciência, não irá me proteger. Como evolucionista acredito mais num processo menos radical. Não creio que Deus destruirá a maravilha de sua criação!”
Agora repetindo essa opinião para o Senhor Lothar recebi uma resposta surpreendente:
“Estamos perto, começando a Década de 1990. As evidências apontam para o fato. Os Cataclismos já começaram, temos cerca de nove anos para que a profecia se cumpra. Não ficará pedra sobre pedra.”
“Sempre houve catástrofes. Elas oc orriam mas só tomávamos conhecimento muito depois. Hoje graças à evolução da mídia recebemos a informação da odorrência, quase que em tempo real. Mas o homem, devido .as agressões ambientais, é o principal agente dessas catástrofes!”
De onde conversávamos, uma rica nascente na Verêda, que abastece a propriedade durante o ano todo, acompanhei com os olhos o bando de Emas com que eu correra ao chegar.
“Penso serem as mesmas aves que encontrei na porteira!” Afirmei.
“São Emas. Aqui além da proteção do IBAMA, elas tem também a nossa proteção. A cada safra de milho, reservamos uma parte, para alimenta lãs na estiagem. Um dos meninos tem a incumbência de as tratar, naqueles cochos que se vâ sob as árvores, ali mais em baixo. É onde elas podem beber do excesso da fonte!”
“Notei que aqui não há energia elétrica, usam apenas aquela Bomba Carneiro?”
“Tem também uma Roda D’água com bomba a pistões, dois pistões acionados por um eixo excêntrico. Mas a tivemos de levar ao conserto!”
“Parabéns. Estão adotando soluções ecológicas e usando energia natural, mais barata, e renovável!”
“Também estamos começando com o Plantio Direto. Ele evita a perda de umidade do solo, por diminuir a sua exposição à insolação!”
“E as ervas daninhas?”
“Essa expressão não existe, há ervas e espécies de plantas que não conhecemos, ou cuja aplicação ainda não foi descoberta. Isso não significa que por isso elas sejam daninhas!”
“Desculpe Sr. Lothar. Não seria esse um bom motivo para seus sobrinhos irem à escola, se tornarem amanhã biólogos famosos?”
O semblante do homem se fechou, e eu me arrependi de haver tocado nesse assunto.
Ficamos calados por alguns minutos, eu entretido com a beleza da paisagem, ele provavelmente ruminando o que eu dissera. Depois disse:
“Quando a Grande Profecia se cumprir, e Deus reinar entre os homens, ou seja, logo antes do ano 2.000, e após a grande catástrofe que virá, estaremos no milênio de paz. Então as crianças estarão preparadas a usarem mais a Intuição do que o Intelecto!”
“Discordo dessa opinião. Acredito numa melhoria do ser humano, através da Inteligência!”
“Mas olhe as outras crianças, estão todas se voltando para os vícios!”
“Sinceramente apesar de respeitar a opinião de meus pais, tios, e dos senhores; como evolucionista eu não acredito que Deus seja tão mau, a ponto de destruir a sua obra. Por que isso terá de acontecer de modo tão radical como pregam as religiões?” E se 2.000 houver chegado, e todas essas coisas não acontecerem? Seus sobrinhos terão ficado para traz, reclusos nesse regime ditatorial? Com medo de tudo e de todos, completamente despreparados para enfrentar as dificuldades que a vida lhes imporá?”
Estávamos em 1990. Eu fui embora mas ficara fortemente influenciado com tudo o que vira em Buritis. O modo de falar cantado, cortando as palávras, usando diminutivos, e pseudônimos para tudo, peculiar dos Urucuianos, a sua hospitalidade, as planícies, os rios, as veredas abundantes em água, o baixo custo de vida, tudo marcou fundo a minha mente.
Em 1994, a idéia partiu de minhas filhas Renata e Karin, ambas cursando psicologia, e ambas aficcionadas por esoterismo, e livros de autoajuda, e congêneres de Louise Hai, Norman Vincent Peale, etc.:
“Papai. Você poderia nos levar para Alto Paraíso GO nas próximas férias. Lemos uma reportagem que afirma ser aquela cidade um forte Chákra do planeta!”
“Podemos pensar. Posso remanejar a minha agenda no escritório, e fazer um cálculo do que gastaremos em combustível, hospedagem, e alimentação. Falaremos nisso na segunda-feira próxima!”
“Hoje é Quarta, teremos de esperar até Segunda?” Lamentou Karin. “Prometa que terá uma definição até Sábado Papai. Pretendemos convidar o Márcio e o Aníbal para irem conosco! Disse Renata.
“Entendo que queiram levar seus namorados. Mas eles terão de arcar com as próprias despesas!”
Ao consultar o mapa e fazer os cálculos, notei uma anotação à lápis que fizera três anos antes, na altura de Cristalina GO. quando fora e conhecera Buritis MG. Rapidamente as principais cenas daquela vuagem me voltaram à mente. Sem fazer qualquer cálculo, peguei o telefone e liguei para casa. Renata atendeu,
“Rê. Diga à Karin que resolvi irmos à Alto Paraizo, se vocês concordarem em passarmos por Buritis MG. na ida!”
“Em quantos dias isso atrazará a viagem?”
“Dois ou três no máximo. Discuta o assunto com os demais!”
“Deixa comigo Papai, lhe dou retôrno após falar com a Karin!
“Não é tão urgente!”
“Para nós é Papai. Senão você desiste, só não digo que concordamos pois não quero afrontar o direito democrático dos demais!”
Desliguei sem me despedir pois sabia que em menos de dez minutos, ela retornaria.
Encontrei o Planejamento de Viagem que fizera há três anos, no computador, e comecei a somar as quilometragens, à partir de Buritis. Tomariamos a BR030, passando por Cabeceiras de Goiás. De lá até a BR020 a qual pegaríamos à esquerda até Formosa, mais alguns quilômetros, no trêvo de São Miguel pegaríamos à direita. Daí em diante sempre em frente.
O telefone tocou, e sabendo quem era atendi: “Ôi Renata!”

“Papai é a Karin. Você é o melhor pai do mundo. O Aníbal não poderá ir conosco, tem trabalho na Gráfica por toda a primeira quinzena de Julho. Ele que fique. Márcio Confirmou. Concordamos em passar por Buritis na ida!”


“E a Mamãe?”
“Ela acha que Agnes é muito pequena para fazer uma aventura dessas, só tem três mêses!”
“Mamãe tem razão. Mas quem ficará com ela?”
“Já cuidei de tudo Papai. A Vovó ficará, Shirley também irá se você concordar!”
“Além de levar a cunhadinha, concordo em pagar a despesa dela também!”
Eu tinha compromissos até sexta-feira depois poderiamos ir.
“OK Karin. Que tal irmos Sábado de manhã?”
“Esse é o meu Papai. Pedi uma posição até Sábado, e já estaremos partindo!”
“Ora se vamos, então vamos logo. Sábado já é dia dois de Julho, em plenas férias!”
Então partimos de Americana SP naquele dois de Julho de madrugada. As meninas, não acostumadas a acordar cêdo, reclinaram seus bancos, e continuaram cochilando. Apenas

Shirley, a minha cunhada mantinha se acordada. Por saber da estrada ruim que teríamos de enfrentar entre Unaí e Buritis, aproveitei a qualidade da Via Anhanguera para ir adiantando o tempo. Naquela época não havia tantos radares, e contrôles de velocidade, como hoje.


“Nossa. Você está a quase 150 Km/h. disse ela olhando o velocímetro. Por que tanta pressa?”
“Dona Shirley. Falando em velocidades, diariamente sem o percebermos, viajamos à veloidade de 1.584 Km/h. em torno da terra. A terra viaja à velocidade de 110.611 Km/h. em tôrno do Sol. O Sol viaja à velocidade de 130.000 anos luz pelos 225.000.000 de anos luz à volta do centro da Galáxia. E você está impressionada com o meu velocímetro?” Eu disse.
“A Estrada é boa, está vasia, e por conhecer o que enfrentaremos, quero adiantar um pouco a viágem. Quando as meninas acordarem, eu voltarei ao rítmo familia. Então teremos de parar diversas vêzes, para chichi, água, etc.!” Acrescentei.
“Não tem mêdo dos postos policiais?”
“Sei onde estão. Falando nisso há uma logo aí na frente!” Eu disse tirando um pouco o pé.
Aproveitei para reduzir o dimer da luz do painel, para evitar alarmá la.
Quando as minhas filhas acordaram, paramos, vinte minutos antes do planejado, na primeira parada. Depois do café a juventude voltou ao veículo de “Pilhas Novas”, brincando e cantando na maior alegria. Eu adorava viajar com minhas filhas. Ficava contagiado com a athosfera hilária e pândega que conseguiam criar. Rejuvenecia e me sentia um garôto, quando no meio de gente jovem. Principalmente por as minhas filhas haverem saído da idade da Aborrecência, e terem criado mais maturidade.
Cantávamos, contávamos piadas, e ríamos o tempo todo. “Papai o magazine de CD’s está carregado?” Perguntou Karin ligando o som.

“De músicas Country da maior qualidade. Na próxima parada Vocês põe as músicas de vocês!” Eu disse. “Não precisa. Todos gostamos de country!”


Almoçamos em Uberlândia, e sem descanso continuamos a viagem. Felizmente o trêcho entre Unaí e Buritis já havia sido asfaltado. Um asfalto novo, liso e reto, permitindo uma boa viagem, diferente daquela que eu fizera há anos atraz.
Chegamos em Buritis no mesmo dia, por volta das 19hs. sem sobressaltos, nem trocas de pneus. Havíamos nos revezado ao volante. As minhas filhas, por terem apreendido a dirigir cêdo, eram ótimas motoristas, e como consequência genética, gostavam de correr.
“Na última vez, eu me hospedei no Plaza. Hoje que somos um batalhão, e por termos tempo, sugiro que procuremos algo mais barato!” Eu disse.
“Também por o Márcio não estar com muito dinheiro!” Disse Rê.
“Não pensem haver hotéis cinco estrêlas em Buritis. Todos êles são muito humildes!”
“Qualquer cama limpa está ótimo. Cansada como estou dormirei como um anjo!” Acrescentou Karin.
“Eu também concordo. Estamos apenas no comêço da viagem, tudo o que pudermos economizar, nos poupará de constrangimentos em caso de algum imprevisto!” Disse Shirley.
Hospedamo-nos no Hotel Itamaraty. “Depois do banho eu pago a Peixada. Conheço um lugar ótimo!” Eu disse garganta.
O restaurante que eu conhecera havia fechado. Indicaran nos um outro lá na Rua Brasilia, mas era muito inferior tanto em qualidade, como em matéria de prêços. Muito mais caros.
Estávamos famintos, cansados, e com os ouvidos zunindo ainda de ouvirmos aquele motor Diesel o dia tôdo.
“Márcio e Papai dormem num quarto, e nós três mulheres em outro!”
“Se Márcio não roncar tudo bem!”
“E Você Papai, não ronca?” Perguntou Renata defendendo o namorado.
“Eu apenas ressono baixinho, mas peido alto pra caramba!”
“Isso é coisa de se falar à mêsa?”
“Desculpem! foi mal!” Ao que diz uma carêta de remorso.
Karin estava bebendo Coca Cola. Ia dar uma gargalhada, mas engasgou e lançou o conteúdo da bôca para fora.
“Eh família!” Disse Shirley. “Desse jeito o Márcio não casará com a Renata!”
“Eu é que não vou casar, se ele antes não tratar do chulé!”

Todo mundo riu. Nisso serviram o peixe. Não estava ruim, mas não era igual ao que eu comera da outra vêz. Faltava a Malagheta. Pedi ao garçon. Ele trouxe um vidro cheio.


“Curada na Cachaça Urucuiana. Um produto de exportação daqui!” Explicou.




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