Antonio Arantes é doutor em antropologia pela Universidade de Cambridge, Kings College, pós doutor em cultura e política pela University of London e professor titular convidado pelo departamento de antropologia social da Unicamp


BCL/IG: Falar em comunidade, nesse caso, talvez não faça sentido. Seria melhor falar em várias comunidades de Rio Branco?



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BCL/IG: Falar em comunidade, nesse caso, talvez não faça sentido. Seria melhor falar em várias comunidades de Rio Branco?

ANTONIO ARANTES: Realmente, “comunidade ayahuasqueira” eu acho vago. É como se você falasse, por analogia, “os sambistas do Brasil”. Categorias vagas e inclusivas demais não são próprias à elaboração de planos de salvaguarda.


BCL/IG: Não sabemos exatamente qual será o objeto do eventual reconhecimento, mas, supondo que ele venha a ocorrer, a proteção aos saberes associados à ayahuasca será estendido a todos os praticantes, ou ficará restrita aos grupos que entraram com o pedido?

ANTONIO ARANTES: Depende do tipo de ação que se planeja. Há ações mais voltadas a praticantes específicos e outras que atingem os praticantes em seu conjunto. Digamos que exista um grupo de praticantes que detenha o saber do cultivo e da preparação da bebida, de uma forma exemplar, completa e diferenciada. Algumas ações poderiam ser desenvolvidas com esse grupo em particular, visando à proteção e à valorização de sua atividade. Mas é possível pensar também em um plano de ação que preveja a reunião da documentação disponível sobre as transformações que a prática vem sofrendo ao longo das décadas ou séculos, sistematizando variantes locais, a fim de criar um centro nacional de referência sobre a ayahuasca. Esse centro seria uma ação de salvaguarda que diria respeito a toda comunidade – não só de praticantes, como também de pesquisadores.


BCL/IG: Pelo que acompanhamos até agora, a Barquinha, a igreja do Ciclu-Alto Santo e a União do Vegetal foram as autoras do pedido junto ao IPHAN e a idéia é que sejam salvaguardados os conhecimentos a elas associados. Porém, o que se observa é uma tremenda variedade e uma grande expansão do uso da ayahuasca: alguns grupos se subdividiram e afirmam seguir uma determinada linhagem; outros se dizem sucessores legítimos de outro mestre e assim por diante. Como o reconhecimento estatal lidaria com a pluralidade existente?

ANTONIO ARANTES: Uma possibilidade de abordagem seria tipificar as várias ocorrências e, dentro de cada tipo, escolher casos exemplares. Isso aconteceu com os terreiros de candomblé na Bahia. Foi realizada uma pesquisa antropológica sobre centenas de terreiros existentes, patrocinada pelo IPHAN e pelo Instituto do Patrimônio Cultural da Bahia. O que eles fizeram? Mapearam os templos existentes em Salvador, identificaram tipos nos quais se encaixavam, e para cada tipo, indicaram os exemplares mais significativos. Essa classificação antropológica é uma construção que diz respeito – e isso é importante – à configuração da prática naquele momento. Evidentemente, se tivesse sido feita décadas antes ou décadas depois, o resultado seria diferente.


BCL/IG: A classificação que os antropólogos e o Estado fizeram do candomblé incorporou alguns princípios do campo, ou seja, os discursos tradicionalistas que reconhecem alguns terreiros como mais “autênticos” e tradicionais do que outros?

ANTONIO ARANTES: Não teve essa atribuição de valor. Nós estamos falando a respeito de diferenciação. Dizer que A é diferente de B não é dizer que A é superior ou inferior a B. Agora, pode ser que colocar A e B como equivalentes, no mesmo sistema de classificação, incomode tanto A, como B, que prefeririam não ser identificados como “farinha do mesmo saco”. Do ponto de vista da preservação da prática, o que interessa é o principio da formação dos vários terreiros e linhagens, a dinâmica de fragmentação e fusão. O estudo antropológico deve focalizar esse princípio dinâmico, que ajuda a explicar os casos anteriores e posteriores à tipificação. Se a idéia é salvaguardar a prática, então são necessárias garantias para que continue ocorrendo a adequada expressão da diversidade que se considere constitutiva do candomblé. Não faz sentido querer “higienizar”, enaltecer os aspectos considerados mais “puros”: seria como querer preservar a vida vegetal fazendo uma coleção de folhas secas.





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