Antonio Arantes é doutor em antropologia pela Universidade de Cambridge, Kings College, pós doutor em cultura e política pela University of London e professor titular convidado pelo departamento de antropologia social da Unicamp


BCL/IG: E quanto às ceramistas de Goiabeiras?



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BCL/IG: E quanto às ceramistas de Goiabeiras?

ANTONIO ARANTES: As paneleiras de Goiabeiras confeccionam aqueles pratos usados na culinária capixaba. Nesse caso, foi registrada a técnica de feitura da cerâmica e isso foi muito importante porque as ceramistas estavam enfrentando um problema seríssimo, que era a instalação de um aterro sanitário ao lado do barreiro onde elas recolhiam argila para fazer as panelas. O fato de as técnicas de confecção das panelas terem sido reconhecidas como patrimônio nacional fez com que o Estado tivesse que tomar medidas perante o processo de degradação dos recursos naturais necessários à produção desse bem.


BCL/IG: Então, o reconhecimento pode servir como atalho para uma reivindicação política que o grupo já fez em outras esferas, sem sucesso? No caso indígena, por exemplo, se uma etnia tem uma prática reconhecida como patrimônio, isso pode facilitar a demarcação de suas terras?

ANTONIO ARANTES: Eu acho que poderia fortalecer uma demanda em outra área, sim, já que certas práticas e valores são especialmente ancorados no espaço. Estou pensando no reconhecimento de lugares sagrados, por exemplo, que aconteceu com os índios Tariano, do Alto Rio Negro. Foi muito importante o reconhecimento da apropriação cultural que eles fazem da natureza naquela região, onde cachoeiras, rochas e corredeiras são lugares que cristalizam referências cosmológicas. O conceito de lugar pressupõe o de espaço, mas não se confunde com ele, já que lugar se refere aos modos de apropriação de estruturas edificadas ou naturais. Por exemplo, um templo: considere-se primeiro a edificação. Se ela for usada continuamente para as atividades religiosas para as quais aquele espaço foi concebido, o lugar religioso se realiza e se renova constantemente. Em outras palavras, o lugar religioso se concretiza no espaço edificado da igreja ou do terreiro. Mas também pode-se considerar um templo que se transformou em centro cultural, ou em museu. O espaço da edificação está lá, mas o sentido do lugar, a forma social de apropriação daquele espaço já é outra, não tem a ver com o sentido original. De qualquer forma, voltando à pergunta, salvaguardar um lugar socialmente construído implica também em proteger o espaço, o território no qual as práticas e crenças se desenvolvem.





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