Angerami-camon, Valdemar Augusto (Org.). Atualidades em psicologia da saúde



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ANGERAMI-CAMON, Valdemar Augusto (Org.). Atualidades em psicologia da saúde. São Paulo: Thomson, 2004. 185 p. ISBN 852210428X.
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Atualidades em Psicologia da Saúde
Página 2
Dados internacionais de catalogação na publicação (CIP)
(câmara brasileira do livro, SP, Brasil)
Atualidades em Psicologia na Saúde / Valdemar augusto angerami – camon, (org.) – são paulo: pioneira thomson leraning, 2004.
Vários autores
Bibiliografia
ISBN 85-221-0428-X
1. Psicologia clinica 2. psicologia da saúde 3. medicina e psicologia 4. Medicina psicossomática I. Angerami – camon, valdemar augusto.
04-0535 CDD-155.916
Índice para catálogo sistemático:

1. psicologia da saúde 155.916


Página 3
Atualidades em Psicologia da Saúde
Valdemar Augusto Angerami — Camon (Organizador)

Aidyl M.de Queiroz Pérez-Ramos

Geórgia Sibele Nogueira da Silva

Gildo Angeiotti

Maria Margarida M.J.de Carvalho — Magui

Silvia Martins lvancko


THOMSON
Página 4
Gerente Editorial: Adilson Pereira
Editor de Desenvolvimento: Marcio Coelho
Supervisora de Produção Editorial: Patrícia La Rosa
Produtora Editorial: Danielle Mendes Sales
Copidesque: Ornilo Aives da Costa Júnior
Revisão: Sandra Garcia Cortes e Andréa da Silva Medeiros
Composição: DesignMakers Ltda.
Capa: Evandro Linhares Angerami
Copyright © 2004 de Pioneira Thomson Learning Ltda., uma divisão da Thomson Learning, mc. Thomson Learning TM é uma marca registrada aqui utilizada sob licença.
Impresso no Brasil.

Printed in Brazil.

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Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida sejam quais forem os meios empregados sem a permissão, por escrito, da Editora. Aos infratores aplicam-se as sanções previstas nos artigos 102, 104, 106 e 107 da Lei n° 9.610, de 19 de fevereiro de 1998.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)


Atualidades em psicologia da saúde/Valdemar Augusto Angerami — Camon, (org.) --

São Paulo Pioneira Thomson Learning, 2004.


Vários autores.

Bibliografia.

ISBN 85-221-0428-X
1. Psicologia clínica 2. Psicologia da saúde 3. Medicina e psicologia 4. Medicina psicossomática
1. Angerami — Camon,

Valdemar Augusto.

04-0535

CDD-1 55.916


Índice para catálogo sistemático:

1. Psicologia da saúde 155.916


Rua Traipu, 114—3° andar Perdizes — CEP 01235-000 São Paulo — SP

Tel.: (11)3665-9900 Fax: (11) 3665-9901 sac@thomsonlearning.com.br www.thomsonlearning.com.br


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Apresentação
Este livro traz os mais recentes avanços na área da Psicologia da Saúde. O que existe de mais significativo foi arrolado e os autores exponenciais apresentam aquilo que é a atualidade na Psicologia da Saúde.
A presente obra soma-se às publicações anteriores que igualmente procuram resgatar a dignidade do homem contemporâneo com o uso da psicologia. Novo livro. Um alento a acalentar nossos sonhos. Um novo trabalho que exibimos em forma de livro e que, certamente, será mais um pouco das nossas crenças rumo a novos horizontes profissionais.
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Os Autores
Aidyl M. de Queiroz Pérez-Ramos
Professora Titular do Programa de Pós-graduação em Psicologia da USP (Área de concentração Psicologia Clínica) e Membro Titular da Academia Paulista de Psicologia e da New York Academy of Science. Tem participado como Perito de Projetos Nacionais e Internacionais pela ONU, Unicef e Unesco, e também como docente em cursos de pós-graduação em universidades espanholas.
Geórgia Sibele Nogueira da Silva
Psicóloga com Especialização em Antropologia pela UFRN, Mestre em Psicologia Clínica pela UFRJ e Docente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Gildo Angelotti
Psicólogo Clínico, Docente da Universidade São Marcos e da Pós-graduação em Medicina Comportamental do Depto. de Psicobiologia da
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Unifesp. Diretor Clínico do Instituto de Neurociência e Comportamento de São Paulo.
Maria Margarida M. J. de Carvalho — Magui
Professora Doutora do Instituto de Psicologia da USP e do Instituto Sedes Sapientiae. Pioneira nas áreas de Arteterapia, Hipnoterapia e Psicooncologia no Brasil. Introdutora do Programa Simonton em São Paulo. Autora de vários livros, entre eles Resgatando o Viver, Introdução à Psicooncologia, Dor: um estudo interdisciplinar e A Arte Cura? Recursos artísticos em Psicoterapia.
Silvia Martins lvancko
Especialista em Gestalt terapia pelo Instituto Sedes Sapientiae. Especialista em Psicossomática pelo Ibehe. Especialista em Psicossomática Chinesa pela Universidade de Ortopedia e Acupuntura de Pequim (China). Especialista em Psiconeuroimunologia pelo IPSPP. Especialista em Estresse pelo IPSPP. Especialista em Psicologia Hospitalar pelo Hospital das Clínicas da FMUSP. Mestranda em Psicossomática e Psicologia Hospitalar pela PUC-SP.
Valdemar Augusto Angerami — Camon
Psicoterapeuta Existencial. Professor de Pós-graduação em Psicologia da Saúde na PUC-SP. Professor do Curso de Psicoterapia Feno menológico-Existencial na PUC-MG. Coordenador do Centro de Psicoterapia Existencial e Professor de Psicologia da Saúde da UFRN. Autor com o maior número de livros publicados em Psicologia do Brasil e também livros adotados nas universidades de Portugal, México e Canadá.
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Sumário
Capítulo 1 - 1
A Psicologia da Saúde no Século XXI — Contribuições, Transformações e Abrangências

Valdemar Augusto Angerami Camon


Capítulo 2 - 29

Preservação da Saúde Mental do Psicólogo Hospitalar

Aidyl M.de Queiroz Pérez-Ramos
De um aniversário.Trinta e um anos de muita luz - 57
Capítulo 3 - 61

E o Tratamento se Inicia na Sala de Espera...

Silvia Martins lvancko
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Capítulo 4 - 85

A Dor no Estágio Avançado das Doenças

Maria Margarida Mi. de Carvalho— Magui
Capítulo 5 - 103

Tratamento Cognitivo-Comportamental do Alcoolismo

Gildo Angelotti
De um sorriso doce -129
Capítulo 6 -135

A Racionalidade Médica Ocidental e a Negação da Morte, do Riso, do



Demasiadamente Humano
Geórgia Sibele Nogueira da Silva
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Capítulo 1
A Psicologia da Saúde no Século XXI — Contribuições, Transformações e Abrangências
Valdemar Augusto Angerami — Camon
Introdução
A idéia principal deste trabalho é traçar um breve panorama da psicologia da saúde e suas perspectivas de desenvolvimento. No momento em que a psicologia trilha por caminhos cada vez mais alvissareiros e, seguramente, por uma diversidade que sequer era concebível alguns anos atrás, a reflexão sobre as novas perspectivas da psicologia da saúde reveste-se de uma peculiaridade bastante promissora. A psicologia da saúde caminha por atalhos e sendas visando sempre a uma maior compreensão da condição humana em todas as especificidades e complexidades. Uma psicologia que se descortina para uma nova compreensão da saúde humana como algo que possa transcender os parâmetros de doenças vigentes em nossa sociedade.
Ao refletirmos os conceitos vigentes sobre os quesitos de saúde mental e seu enfeixamento com outros campos da saúde, deparamo-nos com uma necessidade cada vez maior de redefinirmos a abrangência da psicologia da saúde. Nesse sentido, este trabalho coloca-se como sendo um ponto de reflexão em que tais aspectos terão um
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fórum privilegiado de discussão. É um trabalho que se soma a outros, escritos igualmente sobre psicologia da saúde, que procura traçar novas perspectivas de desdobramentos de atuação nessa área que se descortina como sendo a psicologia do século XXI.
Breve Reflexão
Em um trabalho anterior’ fizemos um breve histórico da psicologia da saúde e suas principais áreas de abrangência. É um trabalho, em que pesem divergências de alguns colegas da área, que acabou se tornando referência a tantos que se debruçam em busca de material acadêmico e didático sobre psicologia da saúde. E pela dinâmica de sua estruturação conceitual, a classificação que efetivamos sobre as áreas de abrangência da psicologia da saúde acabou permitindo um arcabouço teórico de amplitude de dimensões bastante significativas para que novos enquadres e parâmetros fossem acoplados em sua explanação inicial. Assim será possível enveredarmos por novos caminhos e atalhos de reflexão para que aquela conceituação inicial seja ampliada e possa contemplar as novas exigências teóricas e epistemológicas que se impõem à psicologia contemporânea. Os desafios que se colocam diante das propostas de intervenção psicológica, nos mais diferentes e variados contextos, estão a exigir uma estrutura moderna que possa, assim, contemplar os mais diferentes matizes de abrangência e, até mesmo, de sedimentação conceitual.
São muitos os aspectos que envolvem a tentativa de conceituação e de delimitação de intervenção no campo da psicologia da saúde e, dessa forma, iremos apenas caminhar no sentido de criar espaços reflexivos sem, contudo, impedir que se abram a novas formas de reflexão e, até mesmo, de conceituação. É uma exigência cada vez maior aquela que nos impele a expandir o nosso campo conceitual de modo a permitir que ele possa se abrir às mais diferentes formas
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de intervenção reflexivas. Também é necessário que enfatizemos quantas vezes forem necessárias que a nossa preocupação conceitual é com a concepção de uma psicologia eminentemente brasileira e que possa, assim, contemplar as nossas necessidades socioculturais. Respeitamos as reflexões feitas por colegas de outros países, principalmente aquelas efetivadas em países latino-americanos, mas queremos, antes de qualquer outro balizamento, o estabelecimento de parâmetros que sejam inerentes à nossa realidade. Desse modo, divergências e excludência conceitual serão tidas, simplesmente, como meras digressões teóricas que se excluem diante de nossa realidade. O nosso olhar é totalmente direcionado para a realidade do homem brasileiro, do excluído das teorizações realizadas no Primeiro Mundo. Falamos de um homem desesperançado, que a cada eleição presidencial perde um pouco de sua esperança de uma vida digna e sem o aviltamento das elites socioeconômicas. De um homem que sofre na pele a sina de ser brasileiro, de ser alguém que sofre com os desígnios da opulência e do arbítrio dos banqueiros. Uma gente que assiste à miséria se espraiando por todos os cantos sem ter quem a defenda desse estado de coisas.
De um povo que sequer pode pensar em autocrescimento, pois está ainda preso ao estágio de luta pela pura sobrevivência. De uma população desdentada, desnutrida e que assiste a presidente após presidente curvar-se aos interesses do mercado financeiro, enquanto desfia seu corolário de sofrimento, padecendo à míngua sem trégua nem piedade de quem quer que seja. É fato que a nossa elite cultural simplesmente é atendida, em termos de intervenção psicológica, por modelos teóricos advindos de Viena, no final do século XIX, ou seja, em um total distanciamento da nossa realidade sociocultural.
A nossa conceituação de psicologia da saúde é brasileira, apresenta em seu bojo toda a nossa condição de desesperança, humilhação, dor, desamparo, submissão cultural, açoitamento existencial, falta de dignidade humana, colonização, e, principalmente, de sua falta de perspectivas diante de uma realidade tão turva e tão sem horizontes. E dizer que as possíveis divergências com as conceituações de colegas de
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outros países nada mais são do que uma conversão que fazemos para o interior da nossa própria realidade conceitual. E sem demérito a quem quer que seja estamos construindo uma conceituação teórica sobre a nossa realidade por mais que possa desagradar a um sem- número de estudiosos que vivem debruçados sobre teorias construídas em outras realidades que sequer tangenciam a nossa condição sociocultural. Uma conceituação que possa considerar o ranger de dentes da nossa precariedade existencial, na qual todos os nossos esforços de construção teórico-filosófica esbarram em nossa própria pobreza sociocultural, que, embora apresente em alguns segmentos requintes semelhantes àqueles encontrados nos países de Primeiro Mundo, na maioria dos casos são revestidos de uma quase total falta de embasamento de condições mínimas necessárias para reversão desse quadro tão desolador. O que assistimos praticamente sem alternância é o apego dos nossos profissionais a teorizações que sequer consideram a nossa especificidade. Desse modo, encontraremos desde concepções teóricas estanques diante de nossas mudanças estruturais até devaneios que impregnam a tudo e a todos de um psicologismo simplista. É dizer que a cada dia necessitamos de uma nova reestruturação de nossos postulados teóricos para não corrermos o risco de ficar à margem de nossa própria história.
Uma psicologia que se mostre soberana diante de nossos anseios libertários e que também possa considerar as especificidades de nossa população e contribuir para que tenhamos no futuro uma população mentalmente sadia. Estamos trabalhando para construir um nicho de saber e conceituação que possa dimensionar o aprisionamento do homem contemporâneo diante da cultura do medo a que ele foi exposto e da qual não tem como conseguir libertar-se. Uma concepção teórica que considere não apenas os avanços obtidos ao longo dos últimos anos no campo da psicologia, mas também de outras áreas do saber, e que de alguma forma contribuem para uma compreensão mais ampla da própria condição humana.
Somos os artífices de uma nova estruturação conceitual que possa abranger uma nova realidade de mundo, uma nova estruturação emocional
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diante dos desatinos que estão a se sedimentar na nossa realidade atual. E isso é o desafio que se lança à nossa frente, ao mesmo tempo que nos lançamos na tentativa de superação de nossas próprias limitações para construir algo que esteja solidamente sedimentado em níveis teóricos e que possa, assim, ser sustentáculo teórico-prático de tantos que sobre ele se lancem em busca de uma nova luz de compreensão da própria realidade humana. Assim, é necessário que estabeleçamos em âmbitos epistemológicos as bases de sustentação de nossa proposta conceitual, e, a partir disso, construir um novo modelo de compreensão dessa realidade que se mostra ao nosso campo perceptivo. Essa é a nossa alternância conceitual e o nosso desafio no sentido de refletir sobre o enfeixamento de uma base teórica que considere os moldes sobre os quais o século XXI se apresenta, e o modo particularmente enigmático que se mostra diante de nossos olhares.
Sempre é bom lembrar que o século XX apresentou, desde sua metade até o final, um teor de desenvolvimento tecnológico que supera todos os períodos da história. Assim, qualquer previsão que se faça sobre o novo século que estamos vivendo é, no mínimo, ingênua, pois a velocidade com que as transformações e avanços tecnológicos se sucedem superam as mais otimistas das expectativas. E, no campo do conhecimento envolvendo o comportamento humano, as novas descobertas da fisiologia estão deixando muitas das teorizações efetivadas na tentativa de compreensão do homem contemporâneo. E, de maneira estonteante, assistimos, igualmente, a uma sucessão indescritível de necessidades que são impostas e que de alguma maneira acabam se transformando em instrumento de pressão gerador de muito estresse emocional. Ou é possível negar-se o sofrimento gerado pelo consumismo de nossa sociedade em nossos adolescentes? Ou ainda a necessidade que se estabelece de consumos intermitentes dos mais diferentes objetos impostos pela tecnologia moderna? Basta se considerar, por exemplo, o paradoxo existente em nossa sociedade, na qual, ao lado de automóveis e celulares importados, assistimos a um sem-número de pessoas lançadas na sarjeta sem teto ou qualquer tipo de proteção. Falamos em uma nova sociedade e convivemos com
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situações medievais; falamos de teorizações libertárias ao mesmo tempo que estamos submissos à cultura estadunidense; sonhamos com uma realidade decididamente brasileira ao mesmo tempo que vivemos o american way of life.
Somos uma realidade que se mostra cada vez mais frágil e cada vez mais dependente de modelos teóricos importados de outros centros acadêmicos. Não temos como construir uma nova realidade teórica enquanto não voltarmos as nossas preocupações unicamente para a nossa historicidade e para a peculiaridade de nossa população.
O simples fato de utilizarmos conceituações teóricas que foram construídas diante de realidades estruturais sem a menor semelhança com a nossa já é indício de que a reversão desse desvio conceitual implica a necessidade de grandes rupturas para que possamos construir uma psicologia decididamente nacional. É dizer que não podemos continuar a utilizar elementos conceituais estanques a nossa realidade, e que tampouco consideram a nossa especificidade. Assistimos ao avanço de teorizações que tentam enquadrar a nossa realidade sem, no entanto, sequer considerarmos o caráter absurdo desses fatos. Exemplo desses abusos é o fato de muitas clínicas escolas, ligadas a cursos de formação em psicologia, apresentarem em suas estruturações modelos de atendimento que em nada atendem aos interesses da comunidade que pretendem atender; ao contrário, os atendimentos visam única e exclusivamente completar suas grades curriculares. Assim, é frequente assistirmos a tais clínicas oferecendo atendimentos de ludoterapia, psicomotricidade e outras tantas modalidades, visando muito mais cumprir com suas normas curriculares do que propriamente com a estruturação de tipos de atendimento que sejam mais condizentes com a realidade da comunidade em que tais clínicas se acham inseridas. A psicologia, nesse sentido, segue o modelo médico no qual os acadêmicos de medicina treinam suas especialidades com a população economicamente desfavorecida para, depois de se tornarem especialistas, exercerem suas atividades com uma população que possa pagar por essas especialidades. Na realidade, o modelo das faculdades de psicologia é ainda mais cruel na
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medida em que impõe a essas populações um atendimento que, muitas vezes, sequer tangencia sua real necessidade de atendimento. Ao menos os cursos de medicina focam suas especializações em cima de necessidades reais das comunidades em que se encontram inseridas. Também é bastante comum a tentativa de se acoplar às teorizações, quase sempre construídas em outras realidades sociais, sobre a nossa população, e isso em que pese sua peculiaridade. Entretanto, é fato que, na atualidade, assistimos a um movimento muito intenso nos mais diferentes cantos do Brasil, no sentido de se reverter esse quadro tão desolador.
O crescimento das grades curriculares das diferentes faculdades, espalhadas ao longo do País, e que contemplam disciplinas como “psicologia comunitária”, “psicologia hospitalar”, “psicologia judiciária” etc., é indício de que está havendo uma movimentação, pequena ainda, que se propõe a reverter o atual panorama da realidade da formação do psicólogo no Brasil. É fato, também, que essa mudança surge muito mais por uma necessidade mercadológica do que propriamente por ter sido gerada a partir de uma atitude reflexiva efetivada pelo psicólogo sobre as reais necessidades de atendimento psicológico de nossa população.
O estrangulamento do mercado de trabalho, associado a um número muito grande de faculdades oferecendo cursos de psicologia nos mais diferentes cantos do País, fez com que a busca de novos nichos de atuação se fizesse necessária. Nesse sentido, o psicólogo voltou-se, então, para diferentes campos de intervenção, e nessa empreitada passou, inclusive, a perceber necessidades da nossa população, que não se faziam presentes na estrutura curricular dos cursos de psicologia. Tomemos como ponto de reflexão dessas afirmações a psicologia hospitalar, e seguramente os pontos que levantaremos servem perfeitamente para outros modelos de intervenção psicológica.
A psicologia hospitalar tem seu início em uma data que se configura até mesmo como precedente do próprio reconhecimento da
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psicologia enquanto profissão2. No entanto, ela ganha um dimensionamento de especialização e mesmo de uma nova configuração da realidade do psicólogo clínico quando este se vê asfixiado e sem espaço para se desenvolver profissionalmente. É somente quando o modelo clínico começa a eliminar os excedentes que a busca da psicologia hospitalar ganha intensidade e adquire formas específicas de especialização para delimitarem-se modelos de intervenção. É no momento em que o psicólogo clínico se vê sem condições de exercer sua atividade em seu próprio consultório que o hospital surge como sendo o local onde todo o seu potencial clínico poderá ganhar consistência e configuração. E isso sem contarmos com os inúmeros psicólogos que buscam o hospital como forma de compensar possíveis rejeições nos vestibulares de medicina. Assim, a psicologia hospitalar será buscada como compensação à frustração do vestibular, sendo, dessa maneira, nada mais que uma mera forma de reparação emocional de desatinos trazidos pela sua inoperância acadêmica. Temos então duas maneiras distintas de encarar o surgimento da psicologia hospitalar como alternativa de trabalho do psicólogo contemporâneo. A primeira delas nos remete ao total estrangulamento do mercado de trabalho que o obrigou a procurar por novos espaços de intervenção psicológica, e a segunda a que nos remete a uma busca que procura compensar a reprovação do vestibular de medicina. A necessidade de atendimento psicológico do paciente hospitalizado, que é indiscutível e está acima de qualquer balizamento teórico-filosófico que se queira fazer, surge como uma pequena variável delineada ao longo do caminho. As verdadeiras razões da busca e do próprio crescimento da psicologia hospitalar são as apontadas acima. Tudo o mais que se colocar de acréscimo é mera digressão teórica.
A própria incongruência existente em outras áreas do saber também se faz presente na psicologia. Assim temos, no Brasil, ao mesmo tempo que os avanços tecnológicos permitem até mesmo a má formação
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congênita, um número absurdamente grande de mulheres que parem sem o menor cuidado pré-natal; ao mesmo tempo que milhões de pessoas utilizam Internet para as mais variadas atividades, incluindo-se aí até mesmo pesquisa bibliográfica e acadêmica, temos um contingente enorme de analfabetos; ao mesmo tempo que assistimos em nossas ruas ao desfile dos mais diferentes modelos de automóveis importados, presenciamos um grande número de pessoas que se amontoam nas
ruas em busca de abrigo para o frio e a chuva; ao mesmo tempo que a mais avançada tecnologia permite que nos comuniquemos com diversas pessoas simultaneamente, nos mais diferentes lugares, assistimos igualmente ao espetáculo deprimente de crianças fazendo malabarismo do mais rudimentar nos semáforos em busca de míseras moedas; paralelamente à existência de requintadas mansões nos bairros nobres das nossas principais cidades, existe um amontoado interminável de barracos compondo favelas da mais triste configuração arquitetônica. E a psicologia também traz em seu bojo o reflexo dessas contradições, pois ao mesmo tempo que se propõe a ser libertária, apresenta-se com modelos estanques de compreensão da condição humana.
Nesse sentido, até práticas que se propõem a ser libertárias como a “psicologia comunitária”, a “psicologia hospitalar” etc. estão, muitas vezes, solidificadas em embasamentos teóricos distantes de maneira abismosa de nossa realidade social. É dizer que até mesmo quando buscamos a libertação de nossa condição de estrangulamento socioemocional vamos ao encontra de um instrumental teórico que perde sua eficácia diante de nossas peculiaridades. A psicologia, assim, se alinha com outras áreas do saber que, igualmente, estão sedimentadas em outras realidades sociais e se distancia das especificidades brasileiras. É cada vez mais importante trazer-se à tona das discussões sobre a eficácia de abrangência da intervenção psicológica o célebre pensamento de Maslow, segundo o qual somente após realizar suas necessidades básicas de sobrevivência é que o homem pode pensar em quesitos como autocrescimento e autoconhecimento. O que não significa necessariamente afirmar-se que alguém que vive
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em péssimas condições socioeconômicas não tenha necessidades de sustentação emocional. No entanto, vemos com frequência cada vez maior afirmações que nos direcionam para ideias simplistas as quais mostram que pessoas expostas a estados calamitosos de precariedade econômica não podem, igualmente, apresentar problemas na área emocional. É como se essas pessoas não tivessem o direito de ter conflitos na esfera emocional pelo simples fato de terem suas vidas estraçalhadas pela miséria socioeconômica. Esse tipo de afirmação não apenas despreza a própria realidade da condição humana como também, o que é muito pior, distancia-se de modo abismoso de uma tentativa mais digna de compreensão do homem contemporâneo.
A psicologia, de outra parte, e na medida em que faz parte do rol das especialidades incluídas na chamada área da saúde, também apresenta, além das contradições e dos modelos teóricos de realidades de países de Primeiro Mundo, somo citamos anteriormente, outro aspecto bastante complicador, que é a diversidade de suas abordagens teóricas. Assim, se em alguns campos do conhecimento como a matemática, a física, a engenharia etc. se busca com intensidade cada vez maior um denominador comum, uma resposta única para os problemas, a psicologia convive com diferentes tipos de compreensão representada pelas mais diferentes abordagens. E muitas vezes não encontramos sequer congruência entre as diferentes tentativas de compreensão da realidade humana com cada abordagem trazendo para si a “verdade” sobre a maneira mais eficaz de intervenção psicológica. E com uma abrangência cada vez mais disforme e repleta de controvérsia, a psicologia vai abrindo os mais diferentes espaços nos mais diferentes campos de atuação. E sempre que se questiona a real importância da atuação do psicólogo fica evidenciado que muitas dessas atuações são, como dissemos anteriormente, uma necessidade ditada muito mais pelo estrangulamento de seu mercado de atuação do que propriamente por uma real necessidade do paciente.
Não se questiona aqui neste espaço os avanços obtidos pelos experimentos e pesquisas da psicologia nos mais diferentes campos, citando aí conquistas importantíssimas na área da neurofisiologia,
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psiconeuroimunologia etc. Apenas estamos refletindo sobre a maneira muitas vezes abrupta e desordenada como são buscadas novas frentes de atuação do psicólogo contemporâneo. Exemplo dessas citações pode ser uma entrevista de um profissional da área da psicologia do esporte publicada em uma revista especializada, na qual ele, que era o psicólogo responsável por uma tradicional
equipe de futebol paulista, trazia para si os méritos da vitória da equipe que estava sob seus cuidados profissionais. Assim, ele não era um dos coadjuvantes dessa vitória, e sim o responsável maior, e não se trata aqui de se questionar a abrangência e eficácia de um profissional da área da psicologia do esporte, mas sim de balizar que são os atletas quem enfrentam o adversário e, portanto, devem ser considerados os principais responsáveis pela eventual vitória ou derrota. E em que pese sabermos da importância da condição emocional na influência de desempenho desses atletas, não é cabível o psicólogo colocar-se como sendo o único responsável por essa vitória, ainda que de seu trabalho tenha surgido o sustentáculo emocional dessa equipe. Trata-se apenas de equacionar que, em um trabalho de equipe, todos têm sua parcela de contribuição. O depoimento do nosso colega era descabido e sem propósito, parecendo, assim, algo forçado para mostrar-se mais importante do que na realidade era, e isso a despeito das variáveis presentes em um trabalho de equipe.
De outra parte, é também notório que, ao adentrarmos nas reflexões sobre a inserção da psicologia nas mais diferentes áreas do conhecimento, estamos, igualmente, refletindo sobre as circunstâncias que implicam essa junção do mesmo modo que construímos os balizamentos teóricos que fundamentam a nossa prática profissional. Vivemos um momento ímpar no qual a importância da psicologia é cada vez mais clara e ganha repercussão que transcende toda e qualquer previsão que se fazia anteriormente por mais otimista que pudesse ser. O que se torna realmente necessário é que a psicologia consiga atender às solicitações de intervenção que lhe são feitas e que possa, assim, ir ao encontro das reais necessidades sociais, e não, ao contrário, tentando impor à comunidade modalidades de intervenção
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que digam respeito apenas ressaltar nesse ponto que não somos contrários aos avanços obtidos pela psicologia nos mais diferentes segmentos sociais, apenas queremos enfatizar ser preciso que essas conquistas representem uma nova dinâmica no quesito de necessidades de intervenção psicológica, e não apenas um mero acoplamento determinado pelas nossas necessidades mercadológicas. É na psicologia que se depositam as esperanças de construção de uma sociedade mais saudável do ponto de vista emocional, derivando daí, inclusive, uma nova configuração da saúde física em sua totalidade.
A psicologia necessita assim de uma renovação contínua de seus postulados para que possa acompanhar as demandas sociais e, dessa maneira, tornar-se coadjuvante no processo de transformação social. Uma psicologia que, ao mesmo tempo que se mostre libertária, seja também referência de reflexão sobre as vicissitudes humanas e ainda sustentáculo e acolhimento para o sofrimento emocional contemporâneo. É sobre essa abrangência que iremos refletir em seguida.
Contribuições, Transformações e Abrangência
No quesito contribuições há o fato de o raio de ação da psicologia na atualidade ser tão amplo e abrangente que seria praticamente impossível delimitá-la em urna reflexão isolada de um capítulo. Assim, vamos fazer um delineamento envolvendo apenas o campo de atuação da psicologia da saúde. Estaremos então reduzindo nosso esboço de intervenção para aspectos meramente conceituais, abrindo-o, inclusive, para perspectivas que não tenham sido contempladas nesta reflexão e que, porventura, possam igualmente fazer parte do delineamento de intervenção da psicologia da saúde.
É no interior das reflexões acerca da abrangência da psicologia na contemporaneidade que iremos encontrar a tentativa de seu comprometimento com a demanda das necessidades sociais. Assim, práticas como a psicologia comunitária serão encontradas no bojo da tentativa
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de se estender o nosso raio de ação, em âmbitos de intervenção psicológica, para realidades que igualmente se mostram carentes no campo da compreensão emocional. Outras práticas também seguem nesse mesmo caminho com a busca
cada vez mais delineada da necessidade de um comprometimento da psicologia com as reais necessidades da população.
Em nossa vivência cotidiana, envolta nos mais diferentes afazeres, a virada do século XX para o século XXI nada mais significou que apenas uma mudança no calendário. No entanto, e considerando a passagem de séculos anteriores, quando as referências das criações teóricas são situadas a partir da intenção da realidade histórica dos séculos nos quais se achavam inseridas, temos então de modo claro a projeção de que, igualmente no futuro as nossas produções teórico- acadêmicas serão referendadas a partir do momento dos séculos em que foram criadas. E no momento em que propomos uma reflexão da abrangência da psicologia para o século XXI, temos uma tarefa que, além de árdua, seguramente se mostrará estéril. O avanço vertiginoso da tecnologia na atualidade, superando todas as expectativas mais otimistas, mostra que até mesmo no campo da psicologia essas transformações se farão presentes. Ou então seria crivei que as discussões envolvendo a psicologia dos anos 1990 previsse o surgimento das psicoterapias por meio da Internet?! Ou ainda os recursos de videoconferências levando os mais diferentes níveis de conhecimento para cantos onde a própria imaginação sequer poderia conceber?! A própria realidade acadêmica contemporânea com os mais diferentes cursos de graduação e pós-graduação com afinco e apuro cada vez mais sofisticados no quesito das pesquisas científicas está igualmente a mostrar que o surgimento d novos padrões epistemológicos e até mesmo investigativos exige cada vez mais novos parâmetros de compreensão e abrangência.
A rapidez com que as informações circulam pela Internet, exigindo que todos aqueles que minimamente tenham algum compromisso acadêmico estejam continuamente ligados a essa rede, é indício da necessidade da constante atualização exigida na realidade contemporânea. Basta se comparar, por exemplo, que apenas há uma década para se fazer uma pesquisa acadêmica era necessário uma série de visitas
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a várias bibliotecas nos mais diferentes cantos da cidade, algo totalmente distante da atualidade quando, com a facilidade proporcionada pela Internet, a partir de simples comandos de botões temos todo o panorama mundial de pesquisas e publicações diante de nós na tela do computador. E na medida em que esses avanços são incorporados ao nosso cotidiano simultaneamente aos seus aparecimentos não nos surpreendemos com a mudança que efetivaram em nossas práticas teórico-acadêmicas. Apenas e tão-somente quando refletimos para o passado, embora não tão distante, é que vemos escancarado o abismo que separa a área do conhecimento em apenas algumas décadas. Hoje não é mais possível se conceber um pesquisador acadêmico que, mamamente, não possua o seu e-mal e com o qual se relaciona e se mantém infoiimado com todos os avanços da ciência. Apesar disso tudo, ainda não conseguimos desvincular a psicologia do pejorativo de que se trata de uma área do conhecimento que tenta se impor enquanto ciência, mas que, na realidade, apenas comprova com instrumentos ditos científicos aquilo que a sabedoria popular já constatou livremente. Essas críticas, longe de estarem distantes do real, ao contrário, mostram de modo contundente a necessidade de um aprumo que incorpore não apenas as verdadeiras necessidades sociais, como também, e principalmente, mostrem que o avanço das reflexões e das pesquisas em psicologia estão à frente desses impropérios que nos são lançados livremente. É fato que uma simples consulta ao conjunto de teses acadêmicas em psicologia constata nua e cruamente o grande número de pesquisas efetivadas com animais como se fôssemos apenas um ramo da zootecnia.
A psicologia caminha a passos céleres para ocupar seu lugar de destaque na construção de uma ciência que decididamente possa entender a condição humana de modo mais abrangente e que também esteja livre para abrir-se a novas perspectivas de desdobramento e desenvolvimento. Não é mais possível conceber-se quaisquer tipos de atividade que envolvam a condição humana na qual a psicologia não se faça presente de modo irreversível e absoluto. Quando fazemos uma reflexão a partir do desenvolvimento da psicologia e seus primeiros acordes ainda no início do século XX, vamos perceber que de uma ciência que buscava formas e contornos para ser aceita temos
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hoje, uma plenitude de produção teórica e acadêmica que lhe assegura lugar de destaque na proeminência das ciências contemporâneas. E, ao contrário de outras áreas nas quais se buscam o consenso e a uniformidade teórica, temos na psicologia um universo cada vez mais amplo de ideias e teorizações que, debatidas, geram inúmeras outras abordagens nesse fascínio e mistério que é a tentativa de compreensão da condição humana.
A psicologia da saúde, de outra parte, ganha espaços cada vez mais significativos no rol das teorizações contemporâneas. E seguramente desde as nossas primeiras publicações, quando tartamudeávamos as nossas primeiras criações teóricas e práticas, certamente os nossos universos e perspectivas de atuação se expandiram de modo absolutamente alvissareiro. Um exemplo desse panorama são justamente os encontros e simpósios realizados na tentativa de discussão das atividades empreitadas nessa área. Desde o início dos anos 1980 são realizados os Encontros Nacionais de Psicólogos da Área Hospitalar, aos quais se somaram também os Congressos Brasileiros de Psicologia Hospitalar. Trata-se de encontros dos quais participam elementos de todas as áreas do País, não apenas para se atualizarem sobre os avanços ocorridos na área, mas também para efetivarem presença naqueles que são os mais significativos eventos da área. Em 2001, surge o 1 Congresso Brasileiro de Psicologia da Saúde e Psicossomática, ao qual se somou também o 1 Simpósio Brasileiro de Psiconeuroimunologia. Esse congresso marcou o início de uma junção de diferentes áreas que se acoplavam ao escopo da Psicologia da Saúde. Igualmente, o encontro de muitos colegas dos mais diferentes cantos do País em busca de diferentes matizes que pudessem embasar suas práticas clínicas. No Quadro 1 podemos observar os diversos segmentos que se fizeram presentes nesse congresso. Em 2003, ocorre o II Congresso Brasileiro de Psicologia da Saúde e Psicossomática e novamente agregando o II Simpósio Brasileiro de Psiconeuroimunologia. Novamente, colegas de todos os cantos do País comparecem ao evento, fazendo com que ele passe a fazer parte do calendário dos principais eventos ocorridos em âmbito nacional. E, o que é mais importante, contemplando os mais diferentes matizes teóricos em uma perfeita complementaridade. No Quadro 2, podemos observar o perfil do evento e a sua abrangência conceitual. E,
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na medida em que o primeiro desses eventos ocorre justamente no primeiro ano do novo século, é como se iniciássemos o novo século dando uma nova formatação à psicologia da saúde, enfeixando, assim, diferentes segmentos de sua abrangência em eventos conjugados.

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Um novo tempo da psicologia que se imbrica com o novo século para determinar novas perspectivas teóricas e também novas abrangências metodológicas. E para que não nos percamos em nossa exposição é sempre importante ressaltar que a cada evento que reúne os diferentes profissionais dos mais diferentes cantos, o somatório das discussões sempre faz com que o enriquecimento estrutural da área seja não apenas promissor, mas tenha também contornos e especificidades reais. É dizer, sem medo de erro, que caminhamos muito a cada encontro. E que a perspectiva de novas publicações sempre traz em seu bojo um pouco do que foi discutido nesses eventos. Em cada novo livro temos um pouco da fragrância que restou de cada encontro. É importante ainda destacar que, segundo levantamento dos conselhos regionais, é uma das abrangências da psicologia da saúde, a psicologia hospitalar, a área que mais cresce em termos de procura pelos acadêmicos em sua busca de espaços de atuação.
Citamos anteriormente a questão mercadológica como determinante da abertura de novos espaços de atuação na psicologia, e a área hospitalar igualmente se destaca nesse quesito. No entanto, infelizmente, assistimos a um quadro desolador na procura dos acadêmicos em busca da psicologia hospitalar. Pois, se de um lado é fato notório o crescimento da busca de interessados na temática, de outro constatamos que a inserção do psicólogo no hospital na quase-totalidade dos casos se efetiva por meio de estágios sem nenhuma remuneração. Ou seja, o psicólogo foi acolhido no hospital, mas como estagiário, e temos diante de nós uma situação que apenas se agrava, pois juntamente com outras áreas que partem em busca do estágio para a especialização profissional, igualmente a psicologia hospitalar trilha esses caminhos do estágio profissional sem remuneração. A agravante nesse tipo de situação é que a instituição hospitalar recebe trabalhos altamente especializados sem ter a necessidade de contratação. Para se ter uma ideia da gravidade, basta citarmos os principais cursos de São Paulo, que são ligados aos principais hospitais da cidade. Esses cursos apresentam uma estrutura acadêmica com o que existe de mais avançado na área e seus alunos estagiam nos hospitais
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que lhes dão chancela. Assim, esses hospitais possuem um trabalho de alto esmero sem a necessidade de contratação, pois o serviço de psicologia é praticamente desenvolvido pelos alunos sob a supervisão de alguns poucos profissionais contratados. Frise-se ainda que alguns hospitais sequer apresentam profissionais contratados, pois a respectiva coordenação e supervisão são feitos por profissionais pertencentes às instituições acadêmicas que, no afã de ministrarem cursos de psicologia hospitalar, fazem convênio com esses hospitais para que seus alunos possam efetivar o respectivo estágio. Ocorre que dessa maneira temos a efetivação do estágio pelo estágio, pois esses alunos, ao adquirirem seus certificados de conclusão, não possuem campo efetivo de atuação, na medida em que a maioria dos hospitais sensíveis à atuação do psicólogo já possui serviços de psicologia hospitalar estruturados a partir de estágios não remunerados. E é evidente que a empresa hospitalar não pretende modificar essa estrutura na medida em que tem um trabalho altamente especializado e totalmente sem ônus. As unidades hospitalares que geralmente possuem psicólogos contratados são aquelas pertencentes à rede pública de saúde e também aquelas que fazem parte da estrutura acadêmica de algumas universidades. Ainda assim, no entanto, vamos encontrar, mesmo nesse segmento, hospitais que têm sua estrutura de funcionamento de psicologia hospitalar totalmente estruturada nos cursos de especialização em psicologia hospitalar mantidos por essas instituições. Entretanto, é necessário que se ressalte ainda que essa estrutura de estágios que praticamente viabiliza uma mão-de-obra especializada sem nenhuma remuneração não é “privilégio” apenas da psicologia hospitalar. Vamos encontrar, dessa maneira, em quase todos os segmentos universitários esse mesmo tipo de exploração sem que nenhum organismo competente tome alguma providência para inibir esse abuso.
As universidades, no afã de qualificar seus cursos, assinam convênios com diferentes empresas para possibilitar que seus alunos possam adquirir experiência prática das teorizações que estudam nas lides acadêmicas. Ressalte-se que essa nova estruturação dos
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estágios é contrária ao que ocorria décadas atrás, quando o estágio era uma passagem de experiência para uma possível efetivação contratual da empresa. Hoje, infelizmente, o novo panorama solidifica, como vimos anteriormente, o estágio pelo estágio, sem nenhum compromisso por parte da empresa que não seja apenas abrir seu espaço para que o acadêmico possa, então, adquirir experiência em um ambiente profissional. Evidentemente que a mudança desse estado de coisas irá depender de uma ação conjunta dos acadêmicos e das universidades às quais pertençam.
A psicologia hospitalar apresenta números muito eloquentes da adesão de acadêmicos e profissionais para a sua área de atuação, basta apenas que não nos deixemos levar pelas propostas de estágios apresentadas pelos principais cursos de especialização, pois do contrário teremos um contingente bastante significativo de psicólogos especializados na área hospitalar e que não possuem espaço de desenvolvimento profissional com a devida remuneração.
A psicologia da saúde, entretanto, não tem apenas a psicologia hospitalar em sua abrangência, e outros segmentos apresentam desenvoltura e desempenhos profissionais bastante significativos e alvissareiros. Basta refletirmos, como exemplo, sobre a psicossomática que atinge diferentes âmbitos de abrangência penetrando nos mais diversos segmentos do conhecimento com contribuições significativas para uma verdadeira compreensão da realidade humana. Temos também a psiconeuroimunologia, que se apresenta com perspectivas cada vez mais promissoras no esboço de compreensão de quesitos imunológicos e seu enfeixamento com determinantes psicológicos. Certamente, esse tipo de reflexão é bastante importante, pois faz com que a psicologia possa, então, adquirir importância significativa em suas buscas de uma compreensão mais abrangente da condição humana. É cada vez maior o número das vertentes da psicologia da saúde que estão intervindo em pacientes que, até bem pouco tempo, eram alvo de atenção apenas de organismos especializados em saúde pública. Assim, casos como alcoolismo e mesmo outras formas de drogadicção são, hoje, objeto de
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intensa reflexão dos instrumentos de intervenção da Psicologia e estão, cada vez mais, disponíveis e a serviço da população necessitada. É que, concomitante ao aumento do número de profissionais de houve também uma preocupação qualitativa sobre os desígnios da psicologia e seu real comprometimento para construção de uma sociedade libertária na qual os verdadeiros anseios da população sejam considerados em toda a sua dimensão. E maneira bastante promissora teremos no século XXI, ao menos é que se descortina nesses momentos iniciais, uma psicologia que esteja preocupada apenas e tão-somente com as questões que permeiam a realidade de nossa elite socioeconômica.
Uma psicologia que se comprometa com a construção de teorias inerentes à realidade brasileira e que possa estar, assim, disponível ao alcance de tantos quantos queiram fundamentar se em seus princípios para um verdadeiro dimensionamento das condições psicológicas de nossa População. Trata-se, sem dúvida alguma, de um desafio que estará a exigir que os nossos esforços sejam contínuos desdobrados diante da nova exigência que se impõe perante nossa realidade conceitual Esse desafio é, seguramente, uma das maiores barreiras a serem superadas no percurso que implica a construção de uma psicologia com traços e contornos decididamente brasileiros. Essa revisão de cada etapa de nosso percurso é condição primeira para que possamos, a partir de reflexões sistematizadas e contínuas, perceber a necessidade de eventuais mudanças de rumo e, até mesmo, de horizontes e ‘perspectivas teóricas. Nesse sentido, inclusive as observações citadas anteriormente, sobre a questão do estágio pelo estágio na prática do psicólogo hospitalar, nos remetem à necessidade de uma reflexão bastante pormenorizada sobre o sentido desses atalhos, em que, certamente, não se questiona o papel da Psicologia em humanizar as relações ocorridas na instituição hospitalar, mas colocamos em questionamento o sentido da exploração do psicólogo nesse emaranhado de fatos nos quais sempre encontramos a figura de outros Psicólogos explorando e tirando proveito desse estado de coisas. E o mais interessante, para não dizer dantesco, é que a psicologia
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hospitalar surgia na década de 1980 como uma das possibilidades que tirariam a psicologia da situação autofágica, ou seja, algo que vive de si mesmo, que come a si próprio. Tentou-se ampliar o leque de possibilidades de intervenção do psicólogo, mas acabou-se lançando- o nas garras de outros psicólogos que, de maneira ladina, souberam explorar de modo ardiloso seu afã em busca dessa nova perspectiva de atuação.
Isso tudo mostra de modo bastante claro que a construção de um conjunto de teorias que contemple a realidade brasileira também precisa contemplar uma reflexão minuciosa sobre o modo de exploração da mão-de-obra dos profissionais de psicologia pelas empresas que os recebem como estágio, e o exploram da maneira mais contundente possível. E a empresa hospitalar não se difere em nada, nesse quesito de exploração, de outras modalidades empresariais.
E na realidade quando fazemos tais reflexões sobre a psicologia hospitalar não estamos fazendo referência à sua inviabilidade enquanto área de atuação do psicólogo, ao contrário, tentamos trazer um pouco de luz para que, principalmente, os mais novos possam fazer suas escolhas de modo lúcido. Dessa maneira, serão consideradas todas as variáveis presentes nessa escolha, e não apenas a busca por uma atividade extremamente prazerosa do ponto de vista de gratificação emocional, mas que se mostra totalmente árida no tocante a uma remuneração digna. O que não podemos, incluindo-se aí até mesmo a nossa responsabilidade de autor que possui uma grande quantidade de títulos publicados sobre a área hospitalar, é nos calar diante desse estado de coisas. Chegamos, inclusive, ao absurdo de ver cursos que reproduzem o modelo médico de residência de especialização, e que, no entanto, ainda assim não remuneram esses psicólogos. Ou seja, esses profissionais ou estão pagando para atuar na medida em que esses cursos apresentam preços compatíveis com os cursos de graduação, ou simplesmente depois de se especializarem fazem a chamada residência e atuam sem nenhuma remuneração. Está em nossas mãos a mudança dessa perspectiva; apenas se faz
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necessário que tais questionamentos sejam refletidos de modo amplo para que se estabeleçam, então, novas diretrizes nessa área.
De outra parte, a psicologia da saúde apresenta um dimensionamento bastante importante para a psicologia, na medida em que, ao caminhar em direção aos anseios da comunidade, abre-se também para a perspectiva da criação de novos modelos de intervenção bastante interessantes. Quando refletimos, por exemplo, sobre a psicologia comunitária, vemos que o seu raio de abrangência contempla pessoas que estavam à margem da psicologia até bem pouco tempo. Não há como negar a contribuição que esse segmento está trazendo para a construção de uma sociedade mais justa e libertária na medida em que, atuando junto aos excluídos, pode dar-lhes voz e guarida no sentido de fazer com que seus anseios de uma vida mais digna se tornem realidade. Os trabalhos que são produzidos nessa área já começam a se tornar referência na construção de concepções teóricas que abarquem a nossa realidade social. E seguramente estarão na vanguarda quando, efetivamente, adquirirmos a consciência da necessidade da construção de teorias verdadeiramente brasileiras. Infelizmente, com o grande número de desempregados que cresce a cada dia no Brasil, e isso sem incluirmos os mais jovens que sequer conseguem adentrar no mercado de trabalho, temos, então, um panorama que nos mostra que o contingente de excluídos sociais será cada vez maior sem que possamos avaliar com precisão as consequências desses dados. A violência que se espraia por todos os cantos do País, por exemplo, certamente ganhará dimensões ainda mais desesperadoras, e isso sem dizermos da depauperação da nossa população que, a cada dia, se vê privada das condições básicas mínimas para uma vida digna. A sobrevivência passou a ser a única perspectiva de milhões de pessoas que, atiradas às raias da desesperança e do desespero, não possuem outra perspectiva que não apenas e tão-somente buscar o mínimo para continuar simplesmente sobrevivendo. E uma psicologia para ser decididamente libertária não pode simplesmente desconsiderar tais aspectos, pois eles fazem parte de modo indissolúvel da realidade de nossa população.
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Ao lançar seus raios de ação sobre a população excluída, a psicologia avança significativamente rumo ao seu desígnio mais nobre, que é, justamente, o de ser um instrumento colocado ao alcance das pessoas para que elas alcancem sua plenitude de vida. E também rechaça um antigo preconceito o qual simplesmente afirmava que pelo fato de essas pessoas estarem em total situação de penúria econômica não apresentam problemas emocionais. É como se a vida totalmente carente de recursos econômicos básicos determinasse uma gama tão grande de problemas e sofrimentos que não seria possível também a existência de problemas emocionais. Mas como é possível, então, uma vida sem a menor consistência de dignidade não apresentar os mais variados tipos de sofrimentos emocionais? Esse tipo de questionamento passava ao largo da psicologia, que não apenas ignorava tal asserção, como igualmente lhe virava as costas da maneira mais simplista possível. A psicologia comunitária resgata esse modo distorcido de compreensão da realidade, ao mesmo tempo que se coloca na vanguarda no sentido de resgatar essa população para novas perspectivas existenciais. Dessa maneira, o leque de possibilidades de intervenção psicológica atinge todos os segmentos da população, e não apenas aquelas pessoas que possuem condições econômicas privilegiadas.
É importante ressaltar, nesse aspecto, que a construção de uma psicologia da saúde cujas pilastras atinjam todos os segmentos sociais certamente precisa considerar as necessidades desses diferentes contextos sobre os quais, se deseja sua intervenção. Citamos anteriormente os avanços da psicossomática e quanto ela contribui na atualidade para que um novo diagnóstico sobre os sintomas apresentados pelos pacientes também considere de maneira relevante os aspectos emocionais. E essa conquista se mostra irreversível na medida em que determinados aspectos de certas ocorrências meramente orgânicas já são vistos e analisados pela própria medicina como decorrentes de disfunções emocionais. Assim, por exemplo, as patologias envolvendo o trato gastrointestinal e mesmo cardiopatias são vistas e analisadas de modo indissolúvel como comprometimentos orgânicos decorrentes única e
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exclusivamente de situações de estresse emocional que foram impostas ao organismo.
Dessa maneira, temos todos os motivos para acreditar que a psicologia ocupará seu lugar no século XXI e corresponderá a todos os anseios daqueles que sonham com uma condição humana mais digna. Uma psicologia que poderá enfeixar-se com outras áreas do conhecimento e trabalhar para que a fragmentação contemporânea seja algo que fique apenas como reminiscência de um passado distante, pois urge com cada vez mais frequência a necessidade de uma compreensão global da condição humana na qual todas essas áreas sejam contempladas. Uma abordagem psicológica que considere igualmente os conhecimentos da sociologia, da economia, da antropologia, da medicina etc. Um esboço teórico que traga em seu corpo as marcas do seu tempo; algo que possa transcender o reducionismo que encontramos em muitas das teorias que são apresentadas como modernas, mas que trazem, na realidade, traços de outras épocas, ponteamentos em que não cabe contemporaneidade. Uma psicologia que traga para os campos de discussão da realidade humana contribuições significativas para que possamos avançar nesse detalhamento que é a compreensão humana em seus aspectos emocionais.
Os avanços obtidos na área da psicologia da saúde estão iluminando os caminhos de todos que se interessem pela compreensão humana em seus aspectos contemporâneos. E na medida em que avança rumo a novas perspectivas teóricas, certamente, temos como real a possibilidade de que está próximo o dia em que ela ocupará lugar de destaque em todas as formas de discussão que envolvam o homem contemporâneo. E não é só. A simples perspectiva de desdobramento que a psicologia da saúde apresenta em seu leque de alternativas de atendimentos já é indício de que não apenas um novo tempo se inicia na psicologia, mas principalmente que estamos construindo uma psicologia decididamente brasileira, criada e teorizada sobre a nossa realidade. E esse aspecto é bastante interessante para mostrar que não existe a necessidade de rejeitarmos teorias criadas em outras realidades
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sociais, apenas precisamos estudá-las e considerá-las no momento de criarmos as nossas formas de concepções teórico-práticas. Como dissemos anteriormente, temos de unir todos os esboços de diferentes áreas do conhecimento, e isso tem de incluir, naturalmente, outras teorizações psicológicas. Os modelos concebidos em outras realidades não podem ser simplesmente desprezados em nome de uma possível xenofobia, mas considerados em suas limitações, que são determinadas pela origem de suas criações. A nossa realidade de Terceiro Mundo, e aí incluindo-se países das Américas Latina e Central, se consideramos todo o atraso de nossas sociedades que determina, inclusive, condições precárias de pesquisas universitárias, mostra-se surpreendente no quesito de produção acadêmica em psicologia. Frise-se que até mesmo publicações nossas, criadas e concebidas na realidade brasileira, são referência em países da Europa, o que, seguramente, traz contornos de que, embora ainda tenhamos muito para caminhar, certamente também temos muito para contribuir na construção de novos parâmetros no campo da psicologia da saúde.
É fato que, ao produzirmos nossas publicações, não temos consciência nem mesmo dimensionamento do alcance que esses escritos atingirão. No entanto, uma vez lançado, o livro segue caminhos que nos surpreendem e mostram que a nossa contribuição, embora pequena, soma-se a outras experiências na formação de novos parâmetros na construção de uma nova psicologia. O nosso primeiro livro de Psicologia da Saúde, publicado em 2000, já traz contribuições significativas do modo como concebemos diferentes matizes da compreensão da realidade humana. Esse livro delimitou não apenas aquelas áreas que julgávamos pertencer ao campo da psicologia da saúde, como também estabeleceu parâmetros bastante dinâmicos para novas conceituações e reflexões sobre o nosso campo de intervenção. Ao se tornar referência nacional e mesmo internacional na psicologia, mais do que simplesmente estabelecermos novos limites de atuação, ampliamos os horizontes de perspectivas que podem ser abarcados pela psicologia da saúde. E ao constatarmos o tanto que avançamos nesse quesito, sem dúvida alguma, espraiamos nossas ideias de modo amplo a ter, na retrospectiva
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teórica que fazemos, novos denominadores sobre possibilidades que se descortinam no campo da psicologia. Temos um trabalho muito árduo pela frente, principalmente se considerarmos que os fatos são dinâmicos e estão em constante mudança, de modo a fazer com que determinados aspectos que prevaleciam em determinado período percam sua importância em outros momentos. E a psicologia assim terá de, igualmente, ser dinâmica para acompanhar os fatos e se instrumentalizar, inclusive, para poder alterá-los. Novos aspectos que se formam em uma nova forma de concepção de valores e nos quais a psicologia estará presente fazendo-se catalisadora e contribuindo para que os avanços das diversas áreas do conhecimento direcionem seus avanços para a verdadeira humanização da condição humana, tão aviltada e acachapada pelo tecnicismo que assolapa a dignidade do homem contemporâneo de modo tão impiedoso e cruel. E embora seja fato irreversível que os avanços tecnológicos estão determinando até mesmo diferentes configurações inclusive nas relações interpessoais, é mister que os avanços da psicologia caminhem no sentido de fazer com que não percamos ainda mais a nossa característica humana diante desses avanços. Assim, estaremos de fato caminhando para a construção de paradigmas teóricos que façam da psicologia um instrumento eficaz em nossa busca libertária. Outras vertentes da psicologia da saúde que trazem em seu bojo avanços da medicina, como a neuropsicologia, trazem diferentes desdobramentos para o verdadeiro alcance do raio de ação da psicologia.
Vertentes como a psiconeuroimunologia, a neuropsicologia e o neurocomportamento, certamente, estão trazendo à luz das discussões contemporâneas aspectos da condição humana que, seguramente, a psicologia do século XX não ousava sequer conceber. E de fato os avanços a que assistimos e que são fruto de diferentes pesquisas nos mais variados campos de intervenção dão-nos a dimensão de que as mudanças que se mostram ainda assim não nos permitem imaginar os contornos que terão os esboços teóricos da psicologia dentro de apenas uma década. Muitas mudanças ocorrem em uma velocidade incompatível com as nossas mais otimistas previsões. Nesse sentido, mais do que nunca, é necessário repensar-se o apego que determinados estudiosos apresentam diante de teorizações concebidas
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das no final do século XIX, pois esse modo de agir é por demais dogmático e está a exigir uma completa revisão de posturas e atitudes.
Uma psicologia da saúde revigorada e que se atualize a cada nova conquista dos avanços científicos e que se mostre na vanguarda do pensamento contemporâneo. Isso é o que estamos construindo com nossas reflexões e digressões teóricas. Algo que seja parte de sua historicidade, presença do seu tempo nos avanços dos instrumentos utilizados na tentativa de compreensão da condição humana. Uma psicologia verdadeiramente humana. Uma psicologia que pulse em nosso peito como o coração, com vigor e irrigando a todos que sobre ela se debrucem em busca de conhecimento. Uma psicologia que possamos escrever com a certeza de que ela será um pouco de nós, é fato, mas também parte de todas as pessoas envolvidas em nosso tecido social.
Referências Bibliográficas

ANGERAMI, V. A. (org.). Psicologia da Saúde. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.


______________________ O Doente, a Psicologia e o Hospital. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.
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Capítulo 2
Preservação da Saúde Mental do Psicólogo Hospitalar1
Aidyl M. de Queiroz Pérez-Ramos

Introdução: Importância do Tema


Apenas por uma visão sumária do que se tem escrito sobre os profissionais que trabalham nas instituições hospitalares, pode-se deduzir que o eixo das atenções à sua saúde mental vem sendo dirigido aos médicos e ao corpo de enfermeiros, embora existam nesse contexto psicólogos, assistentes sociais e educadores, entre outros. Temas de natureza psicológica constituem assuntos frequentemente referidos na bibliografia especializada, não só em relação à clientela em atendimento, mas também aos profissionais citados. Com respeito a estes últimos, são priorizados o seu relacionamento com o usuário e com demais funcionários, os valores éticos em sua defesa e os cuidados com sua saúde mental, incluindo o desgaste que lhes causa o trabalho no hospital, em atenção especial o burnout (estado de exaustão), a que estão sujeitos, entre outros fatores que podem estender-se também aos demais membros da equipe clínica.
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Quanto ao psicólogo hospitalar, conotação que o diferencia dos outros na área, pouco se tem escrito, nem mesmo são realizadas ações pertinentes, em prol de sua saúde mental, apesar de sua incorporação nas instituições hospitalares, em nosso meio, ter acontecido há mais de 50 anos. Acrescem-se a este fato o aumento cada vez maior de sua representação numérica no referido ambiente, como também da abrangência de suas funções. Esse profissional, entre outras funções importantes, integra-se plenamente na equipe interprofissional de diagnóstico e tratamento; atua como promotor do movimento de humanização hospitalar; participa da comissão de bioética; é agente de mudanças na mentalidade dos funcionários, como também dos familiares do atendido, e também destes últimos. Ademais, é porta-voz de esclarecimentos e conscientização em tais mudanças, promovendo o acolhimento e a atenção às necessidades individuais da clientela, como recurso propulsor na resolução ou minimização de muitos dos problemas de natureza psicológica que esta apresenta. Ao sentir-se acolhida e compreendida, a adesão às intervenções se mantém, evitando abandoná-las e de ir ao encontro de vias alternativas sem base científica, nas quais poderia obter maior receptividade.
O exposto é suficiente para se afirmar o quanto o psicólogo é profissional indispensável nos programas de natureza clínica que se desenvolvem no contexto hospitalar. É óbvio prever que, no exercício de suas funções, em um ambiente de risco, como é o do hospital, ele esteja exposto continuamente a situações estressantes. O impacto que lhe causa o contato com doentes portadores de enfermidades das mais diversas, muitas vezes graves e sem perspectivas de cura, confrontado com as manifestações angustiantes de sofrimento, dor, aflição, tristeza, desesperança, perante a doença e a própria morte. Complementa-se a esta problemática o frequente desconhecimento das reais funções, como psicólogo, por parte dos funcionários, até dos pertencentes à equipe clínica; as resistências por sua inserção, mesmo na qualidade de estagiário ou de residente nesse ambiente institucional, considerado equivocadamente de exclusivo domínio
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médico; e o escasso reconhecimento de seu valor profissional, entre outras dificuldades. Deve-se considerar, por outro lado, que nem sempre a formação do psicólogo hospitalar e seu equilíbrio emocional são condizentes com as exigências de seu próprio desempenho.
Perante este quadro de frustrações e de tensões emocionais, torna-se premente conhecer, cientificamente, o fenômeno do stress2 a que o psicólogo hospitalar está sujeito, causando-lhe preocupações, ansiedade e até transtornos psicossomáticos. E, em complemento, saber quais as estratégias ou coping3 que desenvolve como defesa a essa situação.
Trata-se de um chamado dirigido ao próprio psicólogo hospitalar para que centralize sua atenção nessa problemática, a fim de resguardar seu equilíbrio emocional e, por conseguinte, promover um satisfatório desempenho profissional em favor das pessoas atendidas nessas instituições, propiciando relações apropriadas entre os membros da equipe clínica e também com os demais funcionários, enfim, proporcionando um ambiente harmônico indispensável em todo ambiente hospitalar. Tais iniciativas devem ser fundamentadas cientificamente, conforme abordagens teóricas e procedimentos metodológicos resultantes das escassas pesquisas existentes, tanto no âmbito internacional como no local.
Considerações Teóricas e suas Aplicações
Analisam-se os temas referidos como consequência das aquisições mais atualizadas sobre os fatores de stress que ocorrem no ambiente hospitalar e também sob o coping que utiliza a equipe clínica, em especial o psicólogo como membro desta.
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Com base neste posicionamento, adota-se a concepção interacionista do stress, por ser considerada a mais atual e por integrar-se melhor ao assunto em pauta. Com esse fim, utiliza-se do Paradigma SOR, S (estímulo), O (organismo) e R (reação), que compreende a relação entre agentes estressantes que incidem no organismo humano, extrapolando as reservas adaptativas deste e dando origem a transtornos emocionais e/ou fisiológicos específicos. O stress assim concebido é resultante do confronto entre recursos individuais (equilíbrio emocional, capacidade cognitiva e fatores de proteção, de resiliência, entre outros) e certas variáveis ambientais identificadas como estressantes, provocando as reações referidas, acompanhadas, no melhor dos casos, de estratégias de superação (Magnusun, 1986; Marin, 1999 e PérezRamos, 1992).
Interpretando o modelo em referência, considera-se como S (estímulo) o contexto estressante de ambiente hospitalar, tanto para aqueles que aí trabalham, quanto para os que usufruem de seus serviços. A própria natureza dessas instituições, o tipo de atendimento que proporcionam e a condição de saúde física e emocional dos clientes atendidos provocam a ocorrência de situações estressantes que afetam a estes e a qualquer funcionário que presta seus serviços nesse contexto. O momento histórico em que o contexto hospitalar está inserido é também fator condicionante.
Citam-se como exemplo dessas instituições consideradas mais estressantes as psiquiátricas, as geriátricas, as oncológicas e as destinadas ao tratamento de dependentes químicos. Destacam-se os serviços de pronto atendimento (PS), terapia intensiva (UTI) e centros cirúrgicos, cujo clima emocional é expressivamente propício à existência de intensos agentes estressores. Complementa-se o rol dessas unidades, como intensamente traumatizante, a denominada Terapia de Dor e Cuidados Paliativos para atendimento de pacientes com câncer avançado, já existentes em hospitais oncológicos no Brasil. Kovács et ai. (2002) descrevem o sofrimento da equipe clínica, inclusive do psicólogo hospitalar, manifestado por sentimentos de impotência,
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tristeza e angústia perante a luta entre a vida e a morte dos pacientes atendidos nesses serviços. Situações que, mais uma vez, clamam por um apoio efetivo a esses profissionais.
Na atualidade, é preocupante o aumento da violência, que ocorre também nas instituições hospitalares, em diversos países e inclusive em nosso meio, segundo os estudos realizados por Gbézo (2001), consultor da OIT (Organização Internacional do Trabalho) sobre a mobilização de recursos humanos no contexto hospitalar. Para este autor, os atos de violência estão presentes até em unidades mais protegidas, como são as de medicina geral, pediatria e maternidade, colocando em perigo a vida dos usuários, dos funcionários e até a segurança desses setores, aumentando, assim, os fatores estressantes nesses contextos. São exemplos desses atos os ocasionados por grupos de delinquentes e de dependentes químicos que penetram, pela força, nos serviços hospitalares atraídos pela possível disponibilidade de drogas, equipamentos e valores. Além disso, os funcionários dos hospitais vêm enfrentando, com maior freqüência, hostilidade dos clientes e familiares, assim como assédio sexual, no caso das enfermeiras, particularmente.
A situação de violência, conforme reitera o autor referido, tem sido mais intensa nos grandes hospitais, onde é livre a movimentação das pessoas, há grande volume de população a ser atendida, com extensas filas de espera, frequentemente com insuficiente dotação de pessoal, entre outras circunstâncias que colocam os funcionários e os assistidos em estado de tensão e de perigo iminente, aumentando, por conseguinte, a interferência de outros agentes estressantes.
Baseando-se no exposto sobre a violência nessas instituições, as quais deveriam caracterizar-se por ser um ambiente de tranquilidade, Gbézo faz um chamado à implantação de políticas públicas de prevenção e controle dessa situação, com o compromisso do envolvimento de todas as autoridades e profissionais responsáveis pelo cumprimento de tais medidas. Condição que resultará em evidente diminuição da intensidade de fatores estressantes, resultantes dessa situação perigosa.
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Voltando à análise do paradigma SOR, consideram-se como O (organismo) os profissionais da equipe clínica, particularmente o psicólogo, e como R (reações), as manifestações emocionais e/ou fisiológicas resultantes da incidência dos estressores próprios do ambiente hospitalar. Acrescem-se, como reação, as estratégias defensivas, o coping, que permitem a esses profissionais poder alcançar um razoável equilíbrio na sua saúde mental. Tais profissionais estão sujeitos a maiores efeitos de impacto, somente pelo fato de manterem contato direto e regular com clientes e familiares angustiados. Situação que poderá ser mais intensa no psicólogo hospitalar, em razão de sua própria formação profissional, o que ocasiona maior conhecimento e sensibilidade em relação aos problemas humanos.
Para a integração do psicólogo nessa equipe, é importante que este esteja convenientemente informado sobre os fatores de stress que, segundo estudos específicos, mais incidem nos enfermeiros e nos médicos. Com respeito aos primeiros, a bibliografia analisada informa que, independentemente do setor hospitalar em que atuam e das funções que desempenham, os principais agentes estressores que aqueles experimentam encontram-se nas dificuldades que sentem no relacionamento com os profissionais e na inabilidade que apresentam para a resolução de problemas resultantes da doença e da morte (Guppy e Gutteridge, 1991). Tratando-se de impactos ainda mais intensos, tais funcionários os sentem, como se prevê, quando atuam em setores hospitalares de maior risco (cuidados intensivos — UTI e centros cirúrgicos), como também nas variações do turno de trabalho. Nessas situações, os fatores de stress de maior intensidade são os referidos à gravidade da doença e ao risco de morte dos atendidos, como também à subordinação ao médico, com expressiva falta de autonomia na tomada de decisões (Bianchi, 1990; Jamal e Baba, 1992). Em relação aos médicos, constatam-se como principais estressores a pressão do tempo, excessivo número de clientes, contato direto e regular com doentes e também as dificuldades que apresentam no relacionamento com outros profissionais (Richardsen e Burke, 1991).
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Quanto ao stress no psicólogo do ambiente hospitalar, dispõe-se de uma única pesquisa realizada em nosso meio, referente à atuação daquele em um dos contextos considerados altamente estressantes, isto é, hospitais psiquiátricos e centros-dia de atendimento ao psicótico (Rego, 2000). Dos seus resultados se infere que do contato deste profissional com os portadores de psicose, e seus familiares, derivam os mais intensos e significativos estressores, seguidos dos relacionados com as dificuldades inerentes ao relacionamento com os outros membros da equipe clínica; a falta de clareza no desempenho de suas funções e as limitadas perspectivas de auto-realização; além dos referentes à instabilidade da estrutura e dinâmica organizacionais. É de se estranhar que tais fatores mostrem-se mais evidentes nos psicólogos que atuam em centros-dia, embora seus usuários sejam portadores de quadros psicóticos menos pronunciados e estejam convivendo na comunidade de onde procedem. Outras razões a serem investigadas poderão explicar essa situação.
Com respeito ao coping, ainda em referência às instâncias O (organismo) e R (reação) do modelo escolhido, dispõe-se também de outra pesquisa inovadora (Cunha, 2000) orientada pela autora do presente artigo, referente ao psicólogo que exerce funções clínicas em hospitais não psiquiátricos. Para a compreensão dessas reações defensivas ao stress há necessidade, a princípio, de verificar qual é o conceito sobre esse construto que a autora adotou no trabalho. Com tal finalidade, valeu-se de dois critérios: a concepção mais atualizada sobre o tema, a partir de uma análise efetuada sobre sua evolução, e o instrumento de avaliação do coping que mais se adaptasse à ideia escolhida. Neste sentido, também estudou vários deles.
Foi nas contribuições mais atualizadas de Lazarus e Folkman (1996) e de Schaefer e Moss (1993) que a autora encontrou respostas para empregar tais critérios. Quanto ao coping, este é concebido como um conjunto de tentativas estratégicas, de natureza cognitiva e comportamentais, utilizadas pelas pessoas para perceber os agentes estressantes e sua intensidade, como também o impacto emocional
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que poderão experimentar em consequência. Para alcançar esses objetivos, realizam avaliação cognitiva do estressor e preveem os seus possíveis efeitos, assim como os recursos pessoais de que dispõem para tentar superá-los. Tendo uma ideia de ambos, passam a empregar comportamentos defensivos de confronto ou de evasão (fight or flight), sobre a causa e a intensidade da ameaça percebida. É importante considerar que tais processos se desenvolvem tão rapidamente que nem sempre é possível diferenciá-los.
No entanto, eles existem em forma individualizada e são avaliados por instrumentos apropriados e caracterizados conforme dimensões de confronto e de evasão. A primeira é compreendida pelo emprego de estratégias cognitivas de avaliação realística dos estressores e de seus efeitos, como também dos recursos pessoais para enfrentá-los, seguidos de decisões dirigidas diretamente à situação estressante. Por outro lado, a dimensão evasão é concebida por avaliações racionalizadas e evasivas, por aceitação resignada dos agentes estressantes, seguidas de alternativas depreciativas, de extravasamento emocional, ou, ainda, de compensações satisfatórias estranhas à situação. Da análise dessas dimensões, infere-se que a primeira é percebida como uma estratégia saudável, e a segunda, como problemática.
Os resultados da pesquisa comprovam que, a julgar pela observação do Quadro 1, em geral, os psicólogos participantes desta apresentam defesas saudáveis, perante o stress (dimensão de confronto), com diferenças significantes a seu favor, quando comparadas com aquelas consideradas problemáticas (dimensão de evasão). Observa-se também neste quadro grande variabilidade nas pontuações, principalmente na primeira, a de confronto. Neste quadro, quando analisadas as frequências individualmente, denotam—se resultados atípicos, representados por inversão de valores (dimensão de evasão maior que a de confronto), no número 13. Percebem- se, igualmente, semelhanças de ambas estratégias no número 7 e diferenças pouco sensíveis nos números 28, 29 e 30. Quanto à distribuição
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da dimensão evasão, encontram-se picos acima da linha média nos indivíduos identificados com os números 7 e 23.
Quadro 1 – Distribuição Individual das Médias das Respostas dos Sujeitos nas Dimensões de confronto e de Evasão

Inventario sobre superação de Stress Profissional (ISSP)



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Com o intuito de compreender o significado de tais variações, Cunha (2000) realizou cruzamentos entre ambas dimensões de coping e as variáveis sociodemográficas e situacionais no trabalho, apresentados pelo grupo de psicólogos participantes na pesquisa. A autora encontrou diferenças significantes apenas no variável estado civil e na da especialidade hospitalar. Em relação à primeira, os solteiros ou separados se manifestaram muito mais evasivos do que os casados. Por outro lado, diferentemente do que se espera, os psicólogos que trabalham em hospitais especializados, incluindo os de moléstias infectocontagiosas e de oncologia, apresentam mecanismos de confronto significantemente mais intensos do que aqueles que atuam em instituições hospitalares de caráter geral. Em síntese, pode-se afirmar que esta pesquisa proporciona informações e diretrizes para a realização de novos estudos sobre este importante tema.
Questões Metodológicas
Para fins de continuidade a novas pesquisas sobre a saúde mental do psicólogo hospitalar, apresentam-se subsídios de natureza metodológica relativos às funções deste profissional, focalizando os temas em referência, stress e coping, bem como a seleção, adaptação ou elaboração de instrumentos utilizados para a coleta de dados.
Com respeito ao primeiro item, é importante reiterar, como requisito principal, o cumprimento de normas éticas e, mais especifica- mente, da bioética nos estudos e pesquisas que se realizam com pessoas humanas e, no caso particular, com os psicólogos como funcionários dos hospitais. Tais normas se referem, principalmente, à sua proteção como ser humano, em referência à sua saúde física e psicológica e ao sigilo profissional, entre outros aspectos de real importância. Também prevê a preservação da boa imagem da instituição, bem como a confiabilidade dos dados obtidos na pesquisa e o necessário retorno dos resultados às suas origens. Antecipa-se, outrossim, em termos de proteção à saúde mental dos funcionários, em especial dos
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profissionais da equipe clínica, destacada atenção ao stress a que estão sujeitos em um ambiente de risco, como é a instituição hospitalar. Os códigos de Ética de Psicologia (Conselho Regional de Psicologia, 1997) e de Medicina (Dailari, 1999) respaldam, em seus respectivos campos, tais normas.
Percebem-se, em decorrência ou paralelamente a esses esforços, mudanças dos procedimentos na realização de pesquisas no gênero, bem como na redação e publicação dos trabalhos resultantes. Para fins de controle destas atividades, estão as comissões de ética, e mesmo de bioética, que atuam nos hospitais e nas universidades. A elas competem a supervisão e o controle dos procedimentos que possam garantir a proteção dos participantes e dos pesquisadores, assim como a qualidade das contribuições que nesse sentido se realizam e a divulgação pertinente. Esses grupos de trabalho estão no dever de exigir, de um lado, termos de compromisso por parte do pesquisador e, de outro, a necessária anuência, bem como a acessibilidade e a facilidade proporcionadas pela instituição para obter as informações requeridas por aquele.
Em termos de redação e publicação são válidas as sugestões apresentadas por Pérez-Ramos (2002), quanto aos cuidados no uso de designações e referências que possam desvalorizar a pessoa humana. Nesse sentido, é aconselhável a substituição de “sujeitos da pesquisa’ usual em muitos trabalhos, pela de “participantes da pesquisa”. Evita- se dessa forma denegri-la ao designá-la como “sujeitos”, termo este que vem sendo vulgarizado com conotação negativa. Acrescenta-se, ainda, a necessidade de esclarecer devidamente o uso desta substituição para não confundi-la com as de “auxiliares” e “colaboradores” da investigação, entre outras. Com tal propósito, considera-se como da maior importância a motivação e o interesse dos participantes de tomar parte na pesquisa, respeitando sempre a dignidade e o anonimato dos mesmos.
Com respeito aos instrumentos de coleta de dados, vários critérios são utilizados para a seleção, adaptação e mesmo para sua elaboração, se for necessário. Citam-se os considerados mais importantes:
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a disponibilidade em nosso meio; a atenção às normas éticas; a adaptabilidade ao objeto da pesquisa e a sua fundamentação teórica; as características individuais dos participantes e, por outro lado, as qualidades de validade, precisão, fidedignidade e, também, a comprovação de sua pertinência mediante estudo piloto.
Dos instrumentos disponíveis no Brasil, que atendem às principais exigências citadas e destinados a avaliar o stress e o coping experimentados pelo psicólogo no contexto hospitalar, apresentam- se dois deles, recentemente elaborados: o Questionário S-1 de Stress Ocupacional, de Juan Pérez-Ramos (Rego, 2000), e o Inventário sobre Superação do Stress Profissional (ISSP), do mesmo autor, em uma adaptação do Coping Responser Inventary — CRI, de Moos, 1993 (Cunha, 2000).
O primeiro instrumento, isto é, o Questionário S-1 de Stress Ocupacional (Anexo 1 deste artigo), tem por finalidade avaliar as situações identificadas como estressantes na atuação do psicólogo em hospitais e centros-dia de atendimento às pessoas portadoras de psicose. Constituiu instrumento de coleta de dados da pesquisa citada anteriormente sobre o tema, realizada por Rego (2000), sob orientação de Juan Pérez-Ramos. Foi elaborado baseando-se em um levantamento dos principais fatores estressantes que sentiam os psicólogos, atuando nos contextos citados, bem como dos instrumentos disponíveis para avaliar tais agentes no ambiente de trabalho. Serviram de exemplos, neste sentido, o Scope-stress de Vasconceilos (Chaves, 1994) e o Índice de Stress de Gmelch e colaboradores, adaptado por Juan Pérez-Ramos (Schimidt, 1992). Sua validação foi assegurada não somente pela realização de um estudo piloto, mas também pela pesquisa citada, efetuada por Rego (2000). Nesta se comprovou que o instrumento em referência mostrou-se adequado à população estudada e metodologicamente consistente.
Este instrumento, como pode ser observado no Anexo 1, consta de duas partes: a primeira, referente aos dados sociodemográficas que investigam as características individuais e a situação profissional, de modo a configurar um perfil do psicólogo participante; a segunda,
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constituída por 56 afirmações com respostas tipo Likert, subdivididas em sete blocos relativos às fontes de stress, de acordo com as categorias apresentadas na Tabela 1, com os itens do questionário a elas referentes.
Tabela 1 - Categorias de estressores e seus respectivos itens



CATEGORIAS

ITENS

(1) Desempenho profissional

1 a 8

(2) Inter-relacionamento com a equipe multiprofissional

9 a 16

(3) Desempenho de papéis

17 a 24

(4) Reconhecimento/compensação profissional

25 a 32

(5) Perspectivas de progresso

33 a 40

(6) Estrutura e dinâmica organizacional

41 a 48

(7) Relacionamento com o cliente e seus familiares

49 a 56

Os resultados de sua aplicação permitem verificar um perfil do psicólogo respondente quanto a seus dados pessoais (idade, sexo, estado civil e número de filhos) e a identificação funcional no trabalho (tipo de instituição, área de atendimento, tempo de serviço, regime de trabalho, situação funcional e nível hierárquico) como também um perfil das categorias citadas na Tabela 1, a fim de se configurar as situações estressantes que incidem no psicólogo que atua nos hospitais psiquiátricos e centros-dia para psicóticos. Os dados obtidos nestas categorias poderão ser analisados de acordo com as variáveis sociodemográficas e situacionais de trabalho citadas, obtendo assim um conhecimento relacional das possíveis circunstâncias que podem explicar as diferenças entre as situações estressantes identificadas.


O segundo instrumento mencionado, isto é, o Inventário sobre Superação do Stress (ISSP), tem por finalidade avaliar as estratégias de coping utilizadas pelo psicólogo como membro da equipe de hospitais não psiquiátricos. Foi comprovada sua eficiência em estudo piloto e na
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pesquisa realizada por Cunha (2000),já referida. Compõe-se, além das instruções para a sua aplicação, de dois blocos: um sobre os dados pessoais e profissionais e outro que é compreendido de 48 afirmações, com respostas tipo Likert, destinadas a avaliar as tentativas de coping.

Os dados pessoais a serem obtidos pelo primeiro bloco compreendem: sexo, idade, estado civil e número de filhos, e os de natureza profissional, tipo de hospital, regime de trabalho, situação funcional, tempo de trabalho, setor de atendimento e nível hierárquico. Os itens que compõem o segundo bloco destinam-se à avaliação das dimensões de confronto e de evasão, em suas categorias (Tabela 2). São distribuídos em forma simulada para evitarem-se respostas influenciadas pela referida classificação.




CONFRONTO

CATEGORIAS

ITENS

(1) Raciocínio lógico

Tentativas cognitivas para compreender e preparar-se mentalmente para enfrentar essa situação

(2) Reavaliação positiva



Esforços cognitivas de construir ou reestruturar mentalmente uma situação estressante aceitando sua realidade positivamente

(3) Orientação/apoio

Ações comportamentais para a busca de informações orientação ou ajuda.

(4) Tomada de decisão

Ações comportamentais para tomar decisões e atuar diretamente na situações estressante

EVASÃO

(5) Racionalização evasiva

Esforços cognitivos para evitar pensamentos realísticos sobre a situação estressante.

(6) Aceitação resignada

Tentativas cognitivas para aceitar, com resignação a situação estressante.

(7) Alternativas compensatórias

Ações comportamentais para criar, em substituição, novas fontes de satisfação.

(8) Extravasamento emocional



Esforços comportamentais para reduzir a situação estressante mediante a expressão de emoções intensas e depreciativas.

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Para avaliação dos resultados obtidos pela prova, relacionam-se os dados obtidos em ambos os blocos, cuja pertinência foi comprovada na pesquisa de Cunha (2000).
Considerações Gerais
A compreensão integral deste trabalho conduz à inferência básica de que a relevância da preservação da saúde mental do psicólogo hospitalar é comprovada cientificamente, além de constatar a possibilidade de desenvolver esta área do conhecimento mediante estudos e pesquisas, e suas aplicações no exercício clínico desse profissional.
Trata-se de um tema, a inferir pelo conteúdo desta exposição, complexo, abrangente e de premência na continuidade dos esforços que se realizam sobre o mesmo, não somente pela sua importância prática e teórica, como também pela escassez de estudos que permitem fundamentar novos empreendimentos.
Atenta-se para a realização de pesquisas semelhantes em outros contextos hospitalares, para poder generalizar as observações e inferências desta exposição. Questões mais específicas e de necessidade prática clamam pela efetivação de trabalhos sobre a resiliência dos psicólogos hospitalares e/ou sobre os fatores de proteção existentes no contexto de trabalho, os quais, de alguma forma, possam contrastar a influência negativa dos agentes estressantes incidentes. São estes exemplos de investigações que poderão motivar os pesquisadores ou estudantes de pós-graduação na área de psicologia da saúde, ou mesmo dos cursos de aprimoramento ou de especialização que se realizam no próprio ambiente hospitalar.
Em termos de prática clínica na instituição hospitalar, há muito o que realizar. Constitui sugestão importante a realização de treinamentos em serviço para os profissionais referidos ou, ainda, para residentes ou estagiários em psicologia hospitalar, que contemplem mecanismos de auto-aprendizagem relacionados com a sensibilidade
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aos fatores de stress provenientes dos diferentes setores e serviços do hospital e, particularmente, das condições críticas das pessoas aí internadas. Por outro lado, devem ser postos à reflexão os recursos pessoais para enfrentar tais agentes negativos, como são o fortalecimento da autoestima, a avaliação do potencial resiliente, o equilíbrio emocional e a habilidade cognitiva para avaliar situações estressantes e tomar decisões realísticas de superação.
Nesses cursos são também propícios temas sobre a análise das condições do ambiente hospitalar que possam compensar a influência negativa dos agentes estressores existentes, como seriam a valorização das funções do psicólogo na equipe clínica, o acolhimento do mesmo nesse contexto, a consideração que possa receber de seus companheiros de trabalho e a clara identificação do seu rol profissional, entre outros.
Para concluir, segue-se uma mensagem aos psicólogos hospitalares:

Sinta-se orgulhoso de poder, mesmo enfrentando dificuldades, contribuir com sua pessoa e sua bagagem de conhecimentos para aliviar os momentos de angústia e de dor dos seres humanos. Fortaleça-se em sua saúde mental, pois ela constitui um pilar imprescindível para essa importante missão.


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Anexo 1 — Questionário “5-1 de Stress Ocupacional”
Instruções
O presente questionário tem por finalidade identificar as principais fontes de stress percebidas por você, na sua atuação, nos hospitais ou centros-dia que atendem portadores de psicose. Ele consta de duas partes: a primeira se refere aos dados pessoais e de seu emprego; a segunda compreende 56 itens especificativos de situações de stress relacionados com o seu trabalho.
Não se trata de uma prova de rendimento ou de um teste de capacidade; por essa razão, não há respostas certas nem erradas. O importante é que você, além de indicar os dados referidos na primeira parte, expresse o grau de intensidade ou de freqüência com que percebe as condições estressantes apresentadas na segunda parte deste instrumento. Trata-se de um questionário que deve ser preenchido por você mesmo, com a maior franqueza e naturalidade. Ao realizá-lo, evite, no caso de pesquisa, escrever seu nome ou qualquer identificação de ordem pessoal, para assim assegurar o anonimato e o caráter confidencial do conteúdo de suas respostas.
As informações da primeira parte devem ser preenchidas colocando um X nos parênteses correspondentes de cada item, especificando sua resposta quando solicitada. Os dados da segunda parte serão marcados por um círculo no número que corresponde ao grau de freqüência ou intensidade percebido por você, em relação a cada uma das situações estressantes indicadas.
Por exemplo: “Preocupam-me os comentários negativos em relação a minha profissão”:
Início da imagem

Fim da imagem


Descrição da imagem: sequência de número de 1 a 5. onde o 1 é “nunca. O 2 é “raramente”. O 3 é às vezes. O 4 é frequentemente. O 5 é sempre. Deve-se circular número que lhe representa. No exemplo da imagem está circulado o número 4.
Fim da descrição
Nota-se que foi circundado o item 4 (frequentemente), porque a pessoa que respondeu esse item percebeu que a citada preocupação é sentida frequentemente (4).
Agora que você sabe como proceder, procure responder completamente o questionário, não deixando nenhum item sem resposta. Reflita sobre o conteúdo de cada um deles, respondendo com toda liberdade e amplitude de julgamento, como também com a maior sinceridade possível.
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Marque com um X, nos parênteses correspondentes, o número indicativo que lhe for aplicável.
1.1 Idade

1.( )até 20 anos

2.( )de 21 a 25anos

3.( )de 26 a 30 anos

4.( )de 31 a 35 anos

5.( )de 36 a 40 anos

6.( )de 41 a 45 anos

7.( )de 46 a 50 anos

8.( )de 51 a 55 anos

9.( )de 56 a 60 anos

10.( ) mais de 60 anos
1.2 Sexo

1. ( ) masculino

2. ( ) feminino
1.3 Estado civil

1.( )solteiro(a)

2. ( ) casado(a)

3.( )separado(a)

4. ( ) divorciado(a)

5.( )viúvo(a)


1.4 Filhos

0.( )nenhum

1.( )1 filho

2.( )2filhos

3.( )3filhos

4.( )4filhos

5. ( ) 5 filhos ou mais
1.5 Tipo de instituição

1.( )hospital

2.( )centro-dia
1.6 Área de atendimento

1.( ) ambulatório

2.( )internação

3. ( ) laborterapia

4. ( ) outras (indicar)
1.( )de6al0anos

2.( )dellal5anos

3.( )del6a2oanos

4.( )de2la25anos

5.( )de26a3oanos

6.( ) mais de3l anos

1.7 Tempo de serviço (instituição atual)
1.8 Regime de trabalho

1. ( ) tempo parcial

2. ( ) tempo integral
1.9 Nível hierárquico

1. ( ) chefe de setor ou unidade

2. ( ) profissional da equipe

3. ( ) outros (especifique)


2.0 Situação funcional

1.( ) efetivo

2. ( ) contratado
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