Angelus Novus Conrado Ramos



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Angelus Novus


Conrado Ramos 

(Inspirado no poema Amor, de André Sant'Anna)

...E o desejo. Ai o desejo. O desejo de transformação na cabeça de uns e na cabeça de outros o medo de perder aquilo de que gozam. Crianças aos milhões em trânsito fora de casa sem casa sem pais sem país sem paz sem desejo. Crianças sem. Crianças magras muito magras mais que magras andando de uma fronteira a outra escapando dos traficantes de órgãos. E o casal que se conheceu no aplicativo segue escolhendo o vinho caro do cardápio pra incrementar a trepada e mascarar a falta de amor. E no natal cada um com sua família vai cantar criança feliz feliz a cantar alegre a embalar seu sonho infantil. E aquele político na televisão elogiando o torturador da presidenta. E as nigerianas que têm os genitais mutilados. E as moças no sex shop escolhendo vibradores e comprando camisinhas com sabor de tangerina. E as pessoas com uniforme da CBF na avenida Paulista. E as 11.909 pessoas que foram mortas pela polícia militar no Estado de São Paulo. E as pessoas na avenida Paulista cantando eu te amo meu Brasil eu te amo meu coração é verde amarelo branco azul anil. E o Emicida cantando chapa desde que cê sumiu todo dia alguém pergunta de você onde ele foi? mudou? morreu? casou? tá preso, se internou, é memo? por quê? E aqueles secundaristas todos ocupando as escolas com todo aquele desejo de transformação. Olhai as crianças do nosso Brasil. E aquela lama toda em Mariana engolindo tudo. E o professor tomado pelo entusiasmo de seu assunto escreve lindas frases na lousa para a sala repleta de idólatras. A sala cheia de pessoas que não entendem as frases e amam o professor. E o professor fala de paixão e cita Nietzsche para quem os maiores atos nesse mundo realizam-se num tal excesso de amor. E na barriga do professor os gases passeiam e ninguém ouve, enquanto seu suor com o cheiro do alho da massa comida às pressas no almoço lhe escorre na testa. E aqueles estudantes todos ocupando as escolas públicas com desejos de transformação. E aquele cara do MBL postando foto com o Ney Matogrosso. E o Cunha. Ai o Cunha. E aqueles homens que viram mulheres e aquelas mulheres que viram homens e as religiões que dizem que só podem gozar de um jeito. E todos transando e transando pela webcam e pelo aplicativo. Quantos desejos e quantos aparelhos. E tem a mulher recatada e do lar vestida de Barbie e falando barbaridades. E aqueles deputados na tribuna falando que os secundaristas são vagabundos e baderneiros. E o ex-governador com mais de 1,80m na foto de perfil com cabelo cortado e que já disse que os professores são um bando de vagabundos. E o professor pensando no Nietzsche para quem a memória nasceu da mutilação do corpo. Não haveria memória se não houvesse dor. E as nigerianas. Ai as nigerianas. E o professor falando de paixão sua na testa com cheiro de alho. E na frente do professor as mocinhas com olhar colegial olham com seus olhos de amor ouvindo tudo e não entendendo nada. Na cabeça delas o professor é cheio de Nietzsche e não sofre de gases. Na cabeça delas o professor é paixão e não lembra da dor. E do lado de fora da sala repleta as crianças sem casa sem país sem comida circulam de um lado pro outro bebendo água estragada e comendo comida da ONU. Crianças pretas e mouras. Crianças magras. As crianças e os velhos sem país e sem Nietzsche mas com muita dor e muita memória. E os traficantes de órgãos vendendo pedaços de crianças como naquele filme do Sérgio Bianchi. E os secundaristas. Ai os secundaristas. E em Mariana a floresta debaixo da lama as casas debaixo da lama os animais debaixo da lama os peixes no meio da lama e os homens e mulheres e crianças na lama. E a lama escorrendo como uma gigantesca cagada pelo vale adentro e pelos rios afora. Toda aquela lama e aqueles helicópteros das emissoras de televisão sobrevoando e filmando a lama como quem filma o esgoto entupido. E as pessoas em casa assistindo pela televisão a lama cobrindo tudo enquanto comem carne e massa com alho. Pessoas que no natal cantam criança feliz. A lama solta e gosmenta como milhões de litros de merda jorrando sobre Minas Gerais. E tem aquele prefeito que disse que tem nojo de pobre. E aquele poema do André Sant'Anna que se chama Amor e que começa com o Cristo e o governo e as bocetas nesse mundo. E o Cunha. E a mulher recatada que se masturba vendo filmes de zoofilia no iphone 7 quando sai da missa. E o Bob Dylan que ganhou o Nobel de literatura e que canta eu desejo eu desejo eu desejo em vão que pudéssemos simplesmente sentar naquele quarto novamente. Que você possa permanecer para sempre jovem jovem para sempre jovem para sempre. Ninguém segura a juventude do Brasil. E o Drummond que nunca ganhou Nobel escreveu que as casas espiam os homens que correm atrás de mulheres e a tarde talvez fosse azul não houvesse tantos desejos. E no clube a mãe dá bronca no filho porque ele disse que não gosta de roupas de marca. E aqueles caras na televisão mandando recados para os Estados Unidos antes de terem suas cabeças cortadas. E a menina vietnamita corre nua depois que sua vila foi bombardeada. E os amantes que precisam se vestir de Batman e Robin pra gozar melhor. E o gozo. Ai o gozo. E os homens comprando fantasias no sex shop pra vestir na frente da webcam. E o ônibus lotado ao lado do BMW blindado. E dentro do BMW o rapaz bombado de camisa polo procurando no aplicativo do iphone 7 alguém que diga que gosta dele. E tem aquela mulher do prefeito que disse que os pobres só precisam de um abraço. E dentro do ônibus lotado aqueles pobres todos esperando o abraço da mulher do prefeito. E tem aquele governador que disse que quem não reagiu está vivo. Amor amor muito amor no coração. E aquelas pessoas todas correndo tossindo e lacrimejando nas manifestações. Correndo de vermelho de um lado para o outro. Pra lá e pra cá chorando e gritando. E tem aquele ministro que comprou apartamento no empreendimento embargado de Salvador. La Vue Ladeira da Barra. C'est la vie. E aquela menina refugiada afegã que estava no Paquistão e virou capa da revista de 1985 e que foi presa em 2016 no Paquistão como refugiada afegã. E o presidente americano do topete amarelo que era dono do concurso de miss e disse que pega garotas pela xoxota. E no supermercado as coisas. As coisas. Quantas coisas. As coisas vendo as pessoas passarem empurrando carrinhos de compras como quem leva bebês pra passear no parque. As coisas olham as pessoas e as convidam. As coisas com suas marcas seus logos suas fotos lindas seus índices e virtudes escritos nas embalagens lindas suas tabelas de informações nutricionais cheias de porcentagens lindas. As coisas lindas que têm datas de validade endereços e códigos de barras e chamam as pessoas e pedem o amor delas. As coisas só precisam de um abraço. As enigmáticas coisas e seus lindos segredos. As amadas coisas do supermercado. As pessoas também têm seus códigos e seus prazos. Mas as mulheres nigerianas não podem gozar. Nem as crianças fugitivas que morrem nas praias turcas e não têm endereços. As pessoas envelhecem e são demitidas e são tiradas das gôndolas do mercado e substituídas e não valem mais nada. E os velhos. Ai os velhos. Aqueles velhos se aposentando cada vez mais velhos e sem servir pra nada e ganhando quase nada. Assim são as crianças e os velhos sem país e sem casa. São crianças e velhos quase nada. Crianças e velhos pretos e magros e mais que magros. Aos milhões perambulando sem abraços fora do mercado em campos de refugiados. Eles não empurram carrinhos de compras e não almoçam massas com alho e nem tomam vinhos caros de cardápio mas ainda se amam no escuro e ainda querem ter validades e códigos e endereços e iphones e conhecer os segredos lindos das coisas lindas. Eles ainda querem ler as porcentagens lindas das tabelas de informações nutricionais das coisas lindas do mercado. Eles talvez conheçam o Nietzsche da dor da mutilação e da memória mas não o Nietzsche do ato e da paixão. E a palavra magérrimo que é mais chic que macérrimo e magríssimo. É chic falar magérrimo e magérrima. É chic falar dos velhos e das crianças magérrimas daqueles barcos de refugiados que viram e afundam na costa da Líbia. Mas não é chic morrer afogado e com fome na costa da Líbia. E as pessoas com iphones tirando fotos de comida e as comidas lindas pousando para as fotos lindas. E aquelas fotos lindas de comidas no facebook. As trufas e os caviares e as ostras e os watermelons e as tortas e os chantillys e os cogumelos. E todos aqueles comentários lindos das pessoas que se amam no facebook. Comentários cheios de chantillys. Aquelas pessoas quase nada mas felizes por estarem cheias de seguidores. E o Japão cheio de cogumelos. Cogumelos de Hiroshima e Nagasaki. E o círculo vermelho da bandeira do Japão. E na avenida Paulista os jovens cantando na frente da FIESP que as tardes do Brasil são mais douradas e mulatas brotam cheias de calor. E o Brasil. Ai o Brasil. E as mocinhas que amam o professor e se sentam na frente e que não sabem das milhões de pessoas crianças e velhos e mulheres magérrimas que não têm casa nem país nem iphones e não cheiram alho mas cheiram suor e falta de banho porque só encontram água estragada e agenciadores de trabalho escravo e traficantes de órgãos. As pessoas pretas mouras indígenas. Peles vermelhas magras mais que magras que perambulam sem fronteira e sem abrigo e que não podem por fotos da comida da ONU no facebook. Pessoas sem chantillys. Pessoas sem seguidores e cheios de lama. E as 5 pessoas estupradas por hora no Brasil que a mão de Deus abençoou. Mulher que nasce aqui tem muito mais amor. E o Caetano Veloso dizendo que o Brasil vai dar certo porque eu quero. Mas no supermercado as pessoas desejam as coisas e pegam as coisas e olham para as coisas e abraçam e cheiram as coisas e tocam as coisas e levam as coisas pra casa pra gozar delas mais tarde. E as pessoas gozam do vinho português da abóbora japonesa do snack americano do molho árabe do queijo francês da massa italiana da fruta argentina e compram toda aquela carne. Aquelas bandejas todas de carne arrumadinhas nas gôndolas refrigeradas. Carnes vermelhas em pedaços bonitos de corpos fatiados mutilados moídos naquelas bandejas de isopor. Carnes vermelhas como as bandeiras comunistas. E as pessoas levam aqueles corpos todos e comem aquela carne toda. E gozam daqueles pedaços com bastante alho. E a lama. Ai a lama. E o triplex do Lula e o apartamento do Geddel e os pedalinhos da Marisa. E as cinzas de Fidel Castro viajando por toda Cuba. E tem a frase dele dizendo que a revolução é mudar tudo o que deve ser mudado. E as crianças e os velhos e as mulheres de um lado pro outro bebendo esgoto e comendo comida da ONU sem seguidores e sem fotos no face. E as crianças com alegria qual um bando de andorinhas. E a Ana Julia falando na Assembleia que não viu nenhum político no enterro do Lucas. E as pessoas empurrando seus carrinhos cheios de carne e amando seus carros novos com os porta-malas cheios de carne e o professor falando de Nietzsche cheio de gases. E o André Sant'Anna no poema Amor escrevendo sobre a carne se descolando dos ossos envelhecendo de dor no meio do sangue e restos de carbonos dramáticos todos os dias e o Tarcísio Meira naquele filme convocando o "fogo das paixões revolucionárias". E aquelas assemblages do Farnese de Andrade com aqueles pedaços de bonecas parecendo pedaços de corpos de bebês cheios de pregos e parafusos e porcas com tintas vermelhas naqueles oratórios de madeira rústica como se fossem oferendas de sacrifício humano de fanáticos religiosos. E as tabelas de informações nutricionais nas embalagens das coisas com as porcentagens de sódio de proteínas de gorduras saturadas e de gorduras trans. E o Sebastião Salgado naquele filme dizendo que não acredita mais na humanidade e plantando uma floresta inteira em Aimorés depois de tirar fotos de pessoas fugitivas pretas mouras e índias pessoas mais que magras. Fotos que o Salgado tira de pessoas sem face e sem book. Pessoas com muito osso e pouca carne de tão magras. Pessoas magríssimas. Velhos crianças mulheres com o futuro magro e de costas para o passado pra onde não podem mais voltar. E a lama de Mariana chegando em Aimorés bem perto da floresta do Salgado. E o anjo do Klee que voa de costas para o futuro empurrado pelo progresso enquanto vê as ruínas se acumularem até o céu. Ruínas de corpos de carnes mutiladas moídas de pedaços de crianças vietnamitas e mulheres nigerianas e velhos sírios sem endereço sem país e sem desejo. E o napalm. Ai o napalm. O anjo do Klee que o Benjamin viu não ama porque não pode tirar os olhos do resto de gozos que a história acumula. É difícil amar sem virar de costas pra barbárie. Mas também é difícil aguentar ver a barbárie estando de costas para o amor. Benjamin disse que o anjo do Klee gostaria de acordar os mortos e juntar os fragmentos. O anjo do Klee não perdeu a memória e a dor de tanto comer carne e suar alho e tentar amar pelo aplicativo. O anjo do Klee tem o desejo de transformação mas não consegue deter a cegueira do progresso que sopra do paraíso e segura as asas dele e empurra ele para o futuro com ruínas até o céu. E os cogumelos. Ai os cogumelos. E o Fidel dizendo chega já dessa ilusão de que os problemas do mundo podem ser resolvidos com armas nucleares! As bombas poderão até matar os famintos os enfermos e os ignorantes mas não podem matar a fome as enfermidades e a ignorância. E tem aquele ex-governador que foi preso e que esperneou na maca ao entrar na ambulância. E o homem que já foi mulher convidando a mulher recatada pra trepar pelo aplicativo. A mulher que se veste de Barbie e se excita quando vê bandeiras vermelhas. E o consumo. Ai o consumo. Quanta gula. E os jovens que botam fogo em mendigos. E as 13 mulheres em média por dia que ao invés do amor encontram a barbárie e morrem no Brasil por violência doméstica. Muitas delas mulheres pobres e pretas e cheias de desejo de transformação. E as pessoas com nomes falsos que xingam a esquerda naquela parte de comentários dos jornais. Devem ser os mesmos que dizem que mulheres que se dão ao respeito não são estupradas. São homens de costas para o amor e de costas pra barbárie e sem desejo de transformação. São pessoas que dizem que os secundaristas são um bando de vagabundos mas que têm crianças felizes qual um bando de andorinhas. São pessoas que gostam muito de ver as pessoas diferentes delas chafurdando na lama. Deve ser bom chafurdar na lama com os índios e os ribeirinhos de Minas Gerais. Aquela lama toda chegando em Brasília e invadindo gabinetes e aquela lama cobrindo os prédios dos bancos e da FIESP na Avenida Paulista. Aquele pato amarelo gigante boiando na lama. Aquela lama suja e gosmenta parecendo merda de pobre. A merda de todos os pobres sem abraços do Brasil invadindo os Jardins e a Barra da Tijuca. A merda de mulheres e homens brasileiros cheios de amor para dar. E tem as senhoras que compram brinquedos no sex shop pra vender na saída do culto para as mulheres evangélicas amarem mais. As mulheres evangélicas que também desejam e gozam quando trepam. E homens e mulheres cheios de amor pra dar trocando likes no aplicativo. E os casais cis que fazem o papai-e-mamãe romântico agendado duas vezes por semana depois de assistir aqueles homens perderem a cabeça no jornal da noite. E os brasileiros que trepam em média 2,9 vezes por semana enquanto uma pessoa é assassinada a cada 9 minutos no Brasil. Morre mais gente assassinada no Brasil do que na Síria mas os brasileiros trepam menos que os gregos. E as mais de 1000 escolas ocupadas no Brasil inteiro. E tem as mocinhas que sentam na frente na sala cheia e sonham em casar com o professor. O professor desenha na lousa coisas sobre o progresso arrotando a massa que comeu com pressa no almoço. E o anjo conta as milhões de pessoas e crianças e velhos e mulheres tentando cruzar fronteira pra não morrer de fome ou no genocídio. E as bibliotecas das universidades cheias de teses sobre o amor o desejo e o gozo. Teses e mais teses sobre a pobreza e sobre as soluções para o Brasil. E o povo americano elegendo o Trump que nunca deve ter lido uma tese. E os pesquisadores todos correndo para seus notebooks para escrever novas teses sobre a eleição do Trump. As bibliotecas vão ficar cheias de teses sobre a eleição do Trump e os pesquisadores cheios de títulos acadêmicos. Pesquisadores que comem massas e carnes vermelhas cheias de alho e suam enquanto falam de suas teses. E o black friday. Ai o black friday. E aquela foto do policial turco pegando o garotinho morto de bruços e com camisetinha vermelha sem marca na praia de Bodrum. E a mulher do clube que gosta de roupas de marca e que conhece um cara pelo aplicativo e sai pra trepar sem tomar o vinho caro do cardápio e diz que gosta de ver filmes de amor. E aquela cidade do Pará em que a menina de 15 anos foi presa na cela dos homens e foi estuprada queimada e espancada como um pedaço de carne e o chefe de polícia que explicou tudo no senado dizendo que ela tem debilidade mental. E a menina que senta na frente na sala repleta do professor e que escrevia bilhetes de amor no diário quando tinha 15 anos. Diário com capa de princesa cor de rosa. Diário que ficava no quarto cor de rosa ao lado da boneca com vestido cor de rosa. Boneca que o Farnese encheu de pregos e parafusos. E no Brasil tem mais gente morrendo do que trepando. Gente que trepa vestindo roupas de herói e colocando chantilly na boceta. Gente que morre esguichando sangue vermelho e expulsando as tripas e as carnes vermelhas pelos furos e cortes de balas e facas. E a mulher do clube que gosta de roupas de marca e vai para os Estados Unidos comprar roupas e veste as roupas de marca de lá pra se sentir mais americana e menos brasileira. Ela veste camisetas com frases em inglês e gostaria de ser levantada pela xoxota pelo Trump. Mas o filho dela não gosta de roupas de marca e ouve Chico Buarque. E a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. E os brasileiros que fazem 50 compras por segundo no varejo eletrônico do black friday. E aquele irmão do Garotinho e alguns políticos e empresários que prenderam crianças e adolescentes entre 8 e 16 anos em cativeiro lá perto de Campos de Goytacazes e as obrigavam a fazer sexo com adultos e a usarem drogas. E o Isidore Ducasse ou Conde de Lautréamont que fazia literatura fantástica no século XIX e escreveu que se deve deixar crescer as unhas por quinze dias e depois arrancar brutalmente da cama uma criança para enterrar-lhe as unhas compridas no peito mole de modo a que não morra pra depois beber o sangue e lamber a ferida e que durante esse tempo que devia durar tanto quanto dura a eternidade a criança chora. E o Fidel que disse que hoje milhões de crianças dormirão na rua mas nenhuma delas é cubana. E aqueles americanos que entram na escola e atiram em todo mundo até serem mortos pela polícia. E no shopping as roupas de marca nas vitrines cheias de desejo. Roupas cis roupas trans roupas teens roupas saturadas roupas de mulheres Barbies e de homens bombados mas não têm aquelas roupas feitas com pano dos sacos de carregar coisas de comer. E as pessoas passeando no corredor do shopping olhando as vitrines como se fossem gôndolas refrigeradas cheias daquelas bandejas de carne. Carne vermelha. E tem aquela patriota que achou que a bandeira do Japão era uma bandeira comunista. E o Cunha. E as mulheres com botox e os teens que tiram selfies com a PM e os homens de camisa polo que não gostam de ser fechados no trânsito passeando no corredor do shopping como aborígenes sedentos de morder as coisas como se quisessem comer aqueles nacos crus de carne vermelha com isopor e tudo. As pessoas batendo palmas para as coisas. Palmas palmas e napalm. As pessoas cheias de gula e as coisas cheias de gula. Pessoas e coisas cheias de gula. Coisas e pessoas cheias de gula. Gula e mais gula. E os gulags. E quanto consumo. E o didjeridu. Aquele shofar aborígene. A voz de deus e o sacrifício do carneiro. Aquele carneiro esquartejado. Aqueles pedaços de carne de sacrifício. Aqueles altares cheios de carne vermelha por amor aos deuses. E aquele monte de carne mutilada nos quadros das paredes das igrejas. Aqueles santos e santas cheios tripas de sangue e de sofrimento. E tem aqueles carros caros que andam pelo corredor de ônibus mimetizando seus donos. E as pessoas magras pessoas mais que magras pessoas macérrimas pretas e mouras sem casas e sem país naquelas tendas de lona da ONU vestidas com aquele pano de sacos de carregar coisas de comer sonhando com trepadas com iphones e com nacos de carne. E as mais de mil crianças sem ninguém na selva de Calais morando naqueles contêineres fugindo de estupradores cheios de gula e esperando atravessar o Canal da Mancha. Crianças maculadas na beira do Canal da Mancha. E o Pelé dedicando o milésimo gol às crianças necessitadas. E o professor falando de paixão suando com fedor de alho na camisa de marca. E a mulher do clube e que gosta de roupa de marca sentada na primeira fileira da sala cheia ouvindo o professor falar de um tal de Nietzsche e ela pensando no botox e lembrando da trepada com o professor que cheirava a alho. E aquela escola de princesas cheia de coisas cor de rosa pra ensinar as jovens a serem recatadas e do lar. E o Farnese brincando de bonecas. E tem aquele prefeito que disse que a homossexualidade é causada por tentativa de aborto. E o ex-governador de mais de 1,80m com cabelo cortado na foto de perfil e que disse quem já não teve uma namoradinha que teve que abortar. E o Rio de Janeiro continua lindo. E as praias do Brasil ensolaradas e o chão onde o país se elevou. E as mães de maio naquele vídeo clipe do Emicida mostrando as fotos dos filhos pretos mortos pela polícia na periferia de São Paulo. E tem aqueles homens-bomba com nomes difíceis de lembrar e os carros-bomba e mulheres-bomba. Os homens-bomba se espalhando em pedaços de carne vermelha no metrô e na porta da embaixada. E aqueles homens bombados que põem fotos no face com aqueles corpos cheios de músculos e aquelas veias saltadas parecendo peças de açougue. E o açougue. Ai o açougue. E a foto da Sharbat Gula que era aquela menina afegã refugiada no Paquistão com aquelas roupas vermelhas rasgadas e com aquele olhar de anjo do Klee. E o Trump sendo eleito e o Fidel morrendo. E o Gil dizendo aquele abraço. E o Bob Dylan que é magro mais que magro e que escreveu precioso anjo você acredita em mim quando eu digo o que Deus nos deu nenhum homem pode tirar. E o Drummond que também era magro e escreveu que quando nasceu um anjo torto desses que vivem na sombra
disse Vai, Carlos! ser gauche na vida. E tem também o anjo safado do Chico Buarque que era o chato de um querubim. Mas o Dylan ganhou Nobel e o Drummond não. Apesar de você amanhã há de ser outro dia. E ainda tem o André Sant'Anna que escreveu no poema Amor deuses deuses deuses festas do paraíso cheias de anjos sem sexo que nunca pensam nas bocetas que nunca esguicham sangue que nunca absorvem o veneno das mulheres cascavéis e por isso são felizes tocando harpa. E o filho que não gosta de roupas de marca procurando no Google pelo iphone o trecho em que o Benjamin fala do anjo do Klee mas pensando em bater punheta com o cara que conheceu no aplicativo. E o Chacrinha morreu mas continua balançando a pança. O Chacrinha. Ai o Chacrinha. E gente é pra brilhar e não pra morrer de fome. E nas gôndolas refrigeradas do supermercado vazio durante a noite aquelas carnes todas nas bandejas de isopor descansando cheias de gula e de desejo esperando o mercado abrir. Esperando os aborígenes com seus carros novos blindados. Esperando pra passear nos carrinhos de supermercado como se fossem a carne viva dos jovens pretos espancados na favela. Esperando enfim pra virar foto de facebook. E no facebook ninguém põe foto de gente na lama. E o nojo dos pobres. E as pessoas no supermercado empurrando carrinhos como quem leva o corpo de um parente morto passeando de um corredor ao outro sem se verem mas vendo as coisas e as coisas que veem elas passando de um corredor ao outro. Aquelas pessoas passeando as carnes com o orgulho dos traficantes de órgãos. E as carnes. Ai as carnes. Vermelhas como o comunismo. Vermelhas como o sol da bandeira do Japão. Vermelhas como a carne viva dos jovens que apanham em manifestações. Lotando os carrinhos e os porta-malas dos carros novos que circulam pelos corredores de ônibus. Eu te amo meu Brasil eu te amo. E as coisas na lama. Coisas caras boiando na lama que nem corpos de refugiados na costa da Líbia. A lama afundando os iphones 7 e os vinhos caros do cardápio. E aquela lama toda de Mariana recheando os supermercados e os shopping centeres. E as Bárbies nadando na lama no meio dos pregos e dos parafusos. E os deputados e senadores nadando na lama feito corruptos e caranguejos. E palma palma palma pé pé pé roda roda roda caranguejo peixe é. Lama e caranguejos do Capibaribe. E aquele poema Cão sem Plumas do João Cabral de Melo Neto que diz que na paisagem do rio difícil é saber onde começa o rio onde a lama começa do rio onde a terra começa da lama onde o homem onde a pele começa da lama onde começa o homem naquele homem. E palmas para a lama de Mariana. E palmas para a merda brasileira. E as pessoas trepando na lama. Paus e bocetas cheios de lama. Lama e merda cobrindo tudo feito um chantilly cósmico. E as pessoas chics na frente da webcam com merda até o pescoço e comendo comida da ONU. Merda e mais merda subindo dos esgotos e entrando pelas janelas maculando os corredores e as gôndolas. E as misses bebendo merda e dando tchauzinho com sorriso no rosto como quem bebe silicone e pede a paz mundial. E na FIESP os empresários se equilibrando em cima do pato amarelo pra não cair na lama. A merda invadindo as escolas públicas e engasgando os professores que falam de Nietzsche. A merda chegando nas universidades e entrando nas bibliotecas. Aquele monte de teses cheias de merda. A lama gosmenta lambuzando todas aquelas roupas de marca com escritos em inglês e contaminando todas as bandejas de isopor cheias de carne. A carne na lama. A carne das meninas vietnamitas e das mulheres nigerianas. A carne das crianças cubanas e das crianças de Calais. A carne dos velhos sírios e dos homens aborígenes.A carne dos homossexuais evangélicos e da criança feliz feliz a cantar. A carne das meninas que amam o professor. E a carne do professor cheirando a alho e a merda. Lama e mais lama queimando como napalm. E os ricos abraçando os pobres. Merda e mais merda se acumulando até o céu. A merda dos americanos. A merda do Trump. E um tsunami de merda europeia invadindo a África. Merda e lama globalizadas. E a polícia jogando bombas na merda atirando na merda e a merda subindo e o cheiro da merda entrando pelas narinas dos policiais. E as pessoas todas correndo no meio da merda e gritando e agora? e agora? e agora? E o didjeridu e o shofar em silêncio enquanto Deus volta ao mundo em forma de divina merda a gozar dos fiéis e a afogar os carneiros. E as pessoas empurrando carrinhos de supermercados vazios pra lá e pra cá gritando e agora? e agora? e agora? E o cheiro da merda que sobe apagando as estrelas. E agora? e agora? e agora? E o angelus novus da aquarela do Klee de 1920 prevendo o nazismo de boca aberta e olhos esbugalhados sem saber de onde vem tanta lama e tanta merda e sem entender o porquê de tanto gozo e sem encontrar o desejo de transformação e sem saber mais nada sobre o amor. E o amor. Ai o amor...

Conrado Ramos – Psicanalista. Analista Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano. Membro do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo. Mestre e doutor pelo Instituto de Psicologia da Universalidade de São Paulo. Pós-doutor pelo Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Social da Pontifícia Universalidade Católica de São Paulo. Pesquisador do Núcleo Psicanálise e Sociedade da PUC-SP. Autor de A dominação do corpo no mundo administrado (Escuta, 2004). e-mail: conrado_ramos_br@yaho.com.br.


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