América Latina: desenterrando o espelho


O desencontro entre nação, identidade e democracia



Baixar 194,28 Kb.
Página3/9
Encontro11.10.2018
Tamanho194,28 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9
3. O desencontro entre nação, identidade e democracia.
A modernidade não é um fenômeno europeu, não existe sem colonialidade: “a colonialidade é constitutiva da modernidade”, defende Mignolo (2003: 74). Até a “revolução industrial” no séc. XVIII a Europa Ocidental não produzia nada que tivesse importância no mercado mundial (Quijano, 2005: 21). Foi o controle colonial da América e o saque perpetrado na África que propiciou o desenvolvimento do capitalismo e permitiu aos europeus começar a ter uma posição dominante no mercado mundial. Tampouco sem a América (e o contato com outras formas de existência social) não se poderiam explicar as utopias européias, as quais fundaram o imaginário duma sociedade constituída em torno da igualdade social, da liberdade individual e da solidariedade social como projeto central da modernidade.
Colonialidade é um sistema de controle, em torno da hegemonia do Estado-Nação, sobre populações “racialmente classificadas como inferiores”, excluídas de participar no controle do mesmo. As presentes questões do índio, do negro, do sem terra, da violência, decorrem da colonialidade do padrão de poder vigente.
Desvela Quijano (2004: 79) que há aqui um paradoxo histórico: somos “estados independentes articulados a sociedades coloniais”. A sociedade continuou sendo colonial, ao mesmo tempo em que constituía um novo Estado independente do colonialismo britânico, espanhol ou português.
Entretanto, indaga Quijano (ibid., 80), a qual nação pertenciam os novos Estados? A nacionalidade de tais Estados não tinha nada a ver com as populações de índios, negros e mestiços, “não representava a identidade da grande maioria da população”. Ao contrário: era contrário a esta identidade. Através da ação dos Estados, nossas sociedades aos poucos adentram na modernidade, mas trata-se duma modernidade sem nação. A independência política frente à Espanha ou Portugal não significou a independência destas sociedades da hegemonia do eurocentrismo. Em muitos sentidos, ao invés, levou ao aprofundamento desta hegemonia.
A rigor, o novo Estado independente na América (Latina) “não surgia como um moderno Estado-Nação: não era nacional em relação à imensa maioria da população, e não era democrático, pois não estava fundado em, nem representava a efetiva cidadania majoritária. Era uma fiel expressão da colonialidade do poder” (Quijano, 2004: 80).
Ao invés do Estado nacional de ser constituído a partir da sua natureza pluricultural, plurilingüística e pluriétnica, o modelo de Estado-Nação na América (Latina) se fundou na exclusão e no monoculturalismo, e nas formas centralistas de organização do Estado unitário, onde as classes dirigentes se consideram racial e culturalmente superiores aos indígenas, negros, caboclos e mulatos, negando a existência de povos diferenciados e com direitos próprios.
Particularmente, o movimento indígena está a redefinir a questão nacional e da democracia, está a desafiar este padrão de poder colonial. Hoje a explosão do zapatismo, do movimento indígena (especialmente nos países onde a presença da população de origem nativa é altamente significativa, como o México, Guatemala, Equador, Bolívia, Paraguai e Peru, mas também na Venezuela, Colômbia e Brasil, nos quais importantes áreas ou mesmo a composição racial não é majoritariamente branca) – o que se pode constatar pela liderança de Rigoberta Menchu, Evo Morales ou Hugo Chávez – bem como a ascensão do movimento negro e dos sem terras, está a colocar em cheque o padrão colonial de poder na América Latina. Conclui Quijano (2004: 84) que é a sua maior crise desde seu surgimento à 500 anos.
Um outro momento de profunda crise foi a revolução no Haiti em 1804, a qual, segundo Quijano (2004: 94), é “a primeira grande revolução moderna”, pois foi ao mesmo tempo “uma vitoriosa subversão social” (escravos contra amos); anticolonial e nacional (“derrota do colonialismo francês e formação da nacionalidade haitiana“) e de porte global (“primeiro momento de desintegração da colonialidade do poder” – negros contra brancos). Foi uma revolução crucial. Por isso a repressão, após esmagar a revolução, foi extremamente cruel, mantendo o Haiti na aterrorizante história que não deixam terminar.
Como a revolução haitiana era impensável, porque incompatível com o novo poder colonial, ocorreu um bem sucedido processo de silenciamento e ocultamento da Revolução Haitiana na história das Américas. Foram as revoluções Americana e Francesa que se tornaram os padrões da modernidade, universalizando-se e apagando a questão colonial. A Revolução Haitiana desvelou os limites da democracia liberal – pois os afro-americanos e os ameríndios não cabiam no quadro iluminista de “homem” e “cidadão”, assim como hoje os zapatistas estão novamente a demonstrar (Mignolo, 2003: 429, 338).
Ao contrário da hegemônica ótica neoliberal que tenta apagar a idéia de nação, substituindo-a pela do mercado (Lessa, 2006), a construção de uma alternativa aos nossos dramáticos dilemas exige que formulemos um projeto verdadeiramente nacional. Ocorre que somos desafiados a fazer isto num contexto pós-nacional (Habermas), o que torna esta missão ainda mais complexa.
Além disso, em geral esta perspectiva nacional é confundida com mero nacionalismo e desqualificada como um atraso populista. Ernesto Laclau, um dos principais cientistas políticos contemporâneos, no recente livro A razão populista faz uma original defesa do populismo como práxis política. Constata, primeiramente, que o populismo em geral é definido em termos negativos e preconceituosos, tais como: fenômeno transitório derivado da imaturidade dos atores sociais, manipulador, mera retórica, sendo contraposto à ação política racional. O apelo populista normalmente é visto como algo vago, sendo expressão duma crise e fragilidade das instituições, como uma fórmula ambígua e instável que tende a se esgotar e a ser superado, como algo irracional.
Contrariamente, Laclau considera que o populismo é um modo de construir o político que nasce quando demandas sociais não encontram respostas no sistema institucional, e que a vaguidade dos discursos populistas é expressão da vaguidade e indeterminação da própria realidade social.
Uma das características do populismo é a presença de uma dimensão anti-institucional, um certo desafio à normalização política, à ordem usual das coisas, um “chamado aos de baixo”. Laclau discorda de que o momento institucional seja o único válido, afirmando a legitimidade do movimento de mobilização. Entende Laclau que não existe nenhuma intervenção política que não seja, até certo ponto, populista. O contrário a isto é transformar o ato político em ato administrativo, em pura manipulação elaborada por marqueteiros. O populismo é um ponto de partida para a reconstrução mais ou menos radical de uma nova ordem política, uma vez que a anterior se encontra debilitada
Distingue Laclau populismo de tipo autoritário de populismo que mobiliza a capacidade de auto-organização das massas, e que permite as mesmas participarem do sistema político. Claramente, Hugo Chávez seria uma situação que se aproxima deste último tipo, como aliás salientou em recente entrevista.
Também José Comblin, arguto observador da realidade latino-americana, em Cristãos rumo ao século XXI nos apresenta três cenários futuros, sendo o que ele considera mais realista (até por ser “recurso habitual da história latino-americana”) é a hipótese do “advento de um novo populismo” (1996: 371). É deveras interessante perceber que este livro de Comblin, uma obra de síntese onde faz um grande esforço para pensar o futuro, foi publicado em 1996 (antes de Chávez e Morales, portanto). Realça Comblin que “na América Latina os povos movem-se quando surge uma classe de líderes nacionalistas, populistas, que sabem conduzi-los” (ibid., 205). Em verdade, Comblin vê com insatisfação esta hipótese, pois imagina que “o novo líder” “dará satisfação a algumas reivindicações populares, mas não romperá com as classes dirigentes”, além de entender este fenômeno como “perigoso”, pois “se sabe que a melhor maneira de fazer a unanimidade nacional é a guerra” que em nada melhora a vida dos povos.
Neste livro, entretanto, Comblin faz o elogio das vanguardas na prática política, reconhecendo que “a irrupção dos pobres ainda tem limites bastante estreitos” (ibid., 148), e que a irrupção destes “ainda não é capaz de provocar uma mudança radical na sociedade”. Este elogio é surpreendente, considerando que Comblin é um dos principais ideólogos da perspectiva da organização popular e profundamente vinculado à Teologia da Libertação. Porém, considera o autor que entre as vanguardas e o povo na América Latina “há uma diferença de cultura”, gerando uma ausência de comunicação entre ambos. Também argumenta que é preciso compreender que “ainda hoje o povo não procura uma vanguarda, mas um padrinho”. Salienta aqui o papel de liderança das classes intelectuais, chegando a afirmar que o neoliberalismo se torna inevitável não pela “passividade das maiorias populares – o que não é nada novo –, mas a ausência de uma intelectualidade de esquerda com vontade de liderar uma insurreição popular” (ibid., 205). Para Comblin as classes intelectuais “são a única classe transformadora, a única que pode contestar e questionar o poder das classes dirigentes” (ibid., 149). “O motor de qualquer transformação social no Brasil e na América Latina continuará sendo, como sempre foi no passado, a classe dos intelectuais” (ibid., 134).


: uploads -> adjuntos
adjuntos -> Como Helder Câmara realizou o Pacto das Catacumbas em Recife. Eduardo Hoornaert
adjuntos -> O batismo de Nossa Senhora da Imaculada Conceição no Rio Paraíba e como ela se tornou “nossa” em Aparecida
adjuntos -> É preciso reinventar a democracia à altura do século xxi”. Entrevista especial com Sandro Chignola
adjuntos -> Campanha de quaresma 2018
adjuntos -> Ensino religioso, ensino das religiões e iniciação à vida do espírito?
adjuntos -> A formação histórica da igreja católica em três flashes: os anos 150, 325 e 420
adjuntos -> Sobre el sínodo de obispos extraordinario sobre la familia
adjuntos -> O batismo de Nossa Senhora da Imaculada Conceição no Rio Paraíba e como ela se tornou “nossa” em Aparecida
adjuntos -> Uma cultura cujo centro é o coração


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9


©psicod.org 2017
enviar mensagem

    Página principal