Alunos públicos: professores privados



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Encontro03.12.2019
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Momento de concluir
A análise do material possibilitou demarcar, portanto, os três tempos lógicos nas conversações.
Num primeiro momento, o instante de olhar. As professoras utilizaram esse espaço para falar de suas insatisfações, responsabilizando o Outro pelos seus sofrimentos. Criaram um cenário de grandes problemas, sem se implicarem nele. No entanto, com o prosseguimento das conversações, percebemos a diminuição das queixas relativas aos alunos, aos pais ou ao Município.
Em um segundo momento, o tempo de compreender. As professoras começaram a utilizar aquele espaço para falar das próprias dificuldades, que caracteriza o “tempo de verificação”, quando começam a se implicar em suas queixas: “A gente faz muita coisa com o coração, temos certeza que fazemos mais que nosso papel, a gente não consegue fazer menos”. Gradativamente, houve um deslocamento em relação a esse lugar de “dar conta de tudo”: “Precisei dessa terapia para chegar à conclusão de que estou errada, dar conta de tudo é impossível”.

Em um terceiro momento, o tempo subjetivo do momento de concluir objetiva-se, a ênfase se desloca gradativamente dos problemas para as soluções, marcando, entretanto, os limites de suas ações. Durante as discussões acerca do tema “família”, houve um deslocamento, da ênfase nos problemas familiares, para o trabalho possível com as crianças na escola. Uma professora disse: “eu entendo os pais dos alunos de inclusão que não colocam limites, mas aqui não podemos deixar. Queríamos robozinhos, mas não tem jeito, não”. Assim, elas percebem que é possível fazer o trabalho na escola com os alunos “apesar de suas famílias”.

No grupo A, em uma das conversações, as professoras falaram sobre as dificuldades vivenciadas pela escola de acionar os pais para informá-los sobre os problemas de aprendizagem do filho. Como uma das saídas para esse impasse, elas criaram um projeto de reforço escolar ministrado por uma professora da própria escola. Elas disseram: “tem que ter um olhar individual, porque se olhar igual para todo mundo não percebe certas coisas”. Esta fala foi marcada pelo psicanalista que conduzia as conversações. Outra professora falou: “não dá para tratar tudo no “geralzão”. Se não usarmos o particular, não chegaremos aos pais”. Chegaram então à seguinte questão: Qual é o papel da escola diante dessa diversidade de famílias? Concluíram que, diante dessa diversidade, há um limite na atuação dos docentes. Finalizaram que seria importante pensar cada caso/aluno na sua particularidade, para então construir uma saída. Uma professora diz: “o cuidado com o particular é necessário porque são alunos muito novos”.

No grupo B, as professoras, ao retomarem as conversações do segundo semestre, comentaram sobre os estilos dos professores para ministrar aulas. Fizeram duras críticas a uma professora que elas consideraram ter perdido o “controle” dos alunos. Nesse grupo, houve uma preponderância da fala de uma das professoras, que assumia também o cargo de supervisora na escola. Essa posição persistiu até ao final do projeto, insistindo em ocupar o lugar de mestria, o que trouxe impasses no estabelecimento da transferência ao dispositivo da conversação, para algumas professoras.

Na segunda conversação sobre o tema da sexualidade, começaram a surgir soluções para os impasses no campo da sexualidade. No grupo A, uma professora coloca: “Acho que por agora esse tema deu uma tranquilizada”. “Eles estavam mais agitados no primeiro semestre. Acho que eles amadureceram também”. Complementaram: “Acho que o professor precisa mais ouvir do que falar, se precisar esclarecer algo, a gente faz a intervenção”. Finalizaram a conversação dizendo: “a gente tem que ser flexível né, tanto com os alunos bons, quanto com os outros”.

Nesse mesmo grupo, o tema das políticas públicas foi gradativamente deslocado, das queixas para as soluções que elas construíam para lidar com os impasses vivenciados. A última conversação permitiu colher os efeitos das conversações durante o ano nas falas das professoras. Nos dois grupos, as professoras ressaltaram a importância do espaço para a palavra.

Destacamos três efeitos principais das conversações. Em primeiro lugar, a mudança de posição, da impotência à impossibilidade. As professoras do “grupo A” chegaram à conclusão de que a angústia em relação ao tratamento dos alunos e aos temas discutidos diminuiu muito, pois foi possível perceber os limites do professor. Com isso, se sentiram mais dispostas ao trabalho, dentro das suas possibilidades.

Em segundo lugar, a abertura de novos espaços para a palavra na instituição. As professoras do “grupo B” iniciaram um encontro entre elas, mensal, para conversar sobre as dificuldades enfrentadas em suas práticas docentes.



Em terceiro lugar, localizamos o surgimento do singular no espaço coletivo. Cada professora teve a chance de nomear o seu sofrimento, o seu ponto de gozo. Se para uma delas o mais difícil era lidar com a questão da sexualidade do aluno, para outra era enfrentar a “não-aprendizagem” da criança. Nesse enlace do gozo à palavra, abre-se o acesso a um saber-fazer com isso.


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