Alunos públicos: professores privados


Os quatro discursos na instituição escolar



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Os quatro discursos na instituição escolar

Para Lacan (1992), cada discurso implica numa forma própria de operar com o real do gozo. Mas, há sempre um impossível de calcular, um gozo que não se submete à linguagem, um limite do discurso.

Podemos localizar os diferentes discursos nas falas dos professores. O discurso universitário tem como agente o saber, ele se sustenta na existência de um saber universal. A instituição escolar defende um saber científico que corresponde a uma verdade absoluta, inquestionável, sem falhas. O saber científico é utilizado para obturar a falta, a impossibilidade. O discurso universitário faz calar o outro, faz calar o subjetivo que perturba o modelo universal. Mas, o fracasso escolar aponta para um fracasso no discurso universitário, uma falha no modelo universal. Os educadores utilizam o “saber científico” para nomear os alunos, classificá-los, segundo parâmetros biológicos, tentando submeter o gozo a um saber universal. O que se oculta é que esse saber “científico” foi produzido por alguém e atende a interesses de comunidades de pessoas. O resultado disso é a perda da possibilidade de se refletir sobre as relações existentes entre as condições subjetivas, institucionais, sociais, políticas e econômicas, e a produção do fracasso escolar.

O discurso do mestre é o discurso, por excelência, presente nas falas das professoras. Ele opera sobre o real, numa tentativa de governá-lo, submetê-lo ao saber. O mestre busca apropriar-se do saber fazer do outro com o real do gozo que o invade. O mestre apela para o discurso científico para tentar domar o real, controlá-lo. Há aqui uma promessa de um saber sem furo. Mas, o fracasso escolar aponta para um impossível de governar, um real que não se submete ao saber.

O discurso histérico também se fez presente nas conversações. Lacan evidencia o paradoxo deste discurso, pois ao mesmo tempo em que o sujeito se coloca nas mãos do Mestre idealizado que ele mesmo cria, oferecendo-lhe seu sintoma como enigma a ser decifrado, em seguida o desmascara, apontando a sua impotência em produzir um saber que dê conta de tratar seu gozo. Ou seja, ao mesmo tempo em que se coloca nas mãos do Outro, fazendo crer que se submete ao Outro, ele domina a relação. Esse discurso aparece frequentemente na instituição escolar nas falas dos educadores, coordenadores e dos alunos. Os educadores buscam um mestre que possa elucidar as causas do mal-estar que aflige a educação, que possa erradicá-lo. As professoras demandam dos psicólogos cursos de capacitação, para obturar o não saber que as angustia. No entanto, nas conversações, elas se queixavam dos cursos até então oferecidos a elas, reclamando dos “mestres” que lhes ofereceram capacitação, apontando para a incapacidade deles em resolver as dificuldades no campo educacional.

Lacan (1998), ao apresentar o discurso do analista, nos mostra a possibilidade de operar com este discurso para além do âmbito dos consultórios, nas diferentes instituições sociais. O discurso do analista, ao contrário dos demais, não visa dominar o real, mas se coloca frente a ele. Ao ser demandado a responder com um saber sobre o outro, ou seja, a partir do discurso do mestre, o analista responde promovendo um giro discursivo, colocando-se no lugar de causa. Ele coloca o sujeito em posição de produzir um saber próprio sobre o seu mal-estar.

Assim, fizemos a proposta de um trabalho junto aos professores, visando à implicação de cada sujeito em seu sofrimento, a partir do seguinte questionamento: de que forma cada professor subjetiva o fracasso escolar?

Estabelecemos um número determinado de encontros, pois acreditamos que esse limite poderia favorecer uma precipitação da fala das professoras a partir daquilo que as angustiava. Ao colocá-las para falar sobre as suas dificuldades, o problema deixou de ser o aluno, ou seja, um problema externo, ao qual elas não tinham nenhuma implicação, e gradativamente, elas passaram a falar a partir daquilo que as incomodava.

Acreditamos que não há uma verdade que sirva para todos. Nas conversações, cada professora pôde falar a partir da própria dificuldade. Assim, cada professor pode ocupar a posição de sujeito, que, enquanto tal, pode falar sobre seu mal-estar, e a partir daí, em lugar de alienação ao saber do Outro, ela pode se apropriar de algum saber sobre o seu gozo. A partir do dispositivo da conversação, o professor busca a resposta do mestre, mas a partir do momento em que o analista não se coloca nesse lugar, cada professor pode encontrar novos significantes que lhes tocam, de forma singular.

Se o fracasso escolar é o resultado de maus encontros entre educador e aluno, entre a escola o Estado, ou entre a família e a criança, como salienta Cohen (2006), apostamos na possibilidade de uma nomeação desse mal-estar que pode ocasionar uma saída desse impasse. A oferta da escuta pode levar o professor a localizar o seu desejo de transmitir, apagado pelas exigências burocráticas e normativas. Causado pelo desejo, ele pode criar uma solução própria para tratar o real que não cessa de não se escrever.

Para observar empiricamente, formamos dois grupos, um com os professores do turno da manhã (grupo A) e o outro com os professores do turno da tarde (grupo B). Cada grupo de conversação era conduzido por um psicólogo, mestrando em psicologia, que estava em processo de análise e fazendo formação em psicanálise, acompanhado por dois alunos de graduação em psicologia, que faziam os registros das conversações. O professor coordenador do projeto supervisionava semanalmente o trabalho.
As conversações tiveram como tema central as dificuldades encontradas pelas professoras (todas eram do sexo feminino) em suas práticas docentes. O projeto teve a duração de um ano e as conversações ocorreram quinzenalmente. No primeiro semestre, os temas foram livres, e no final do semestre, levantamos os principais temas abordados pelas professoras nos dois grupos. No segundo semestre, realizamos conversas temáticas, a partir dos temas levantados pelos dois grupos, que foram: sexualidade, família e políticas públicas. Os temas foram ratificados pelas professoras. Os dois grupos tiveram percursos e resultados diferentes, como será visto.


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