Além disso, investigamos o Colégio Pedro II considerando suas características sui generis, como por exemplo o regime das cátedras, responsável pela aproximação dessa instituição com o ensino superior



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O catedrático João Batista Ribeiro de Andrade Fernandes (1860-1934)

João Ribeiro ingressou no Colégio Pedro II pelo concurso de 1887, começando a lecionar em 1893 como catedrático de História Universal e do Brasil. Fez parte, também, do Comissionado do Governo para a Instrução Pública (1895), quando viajou pela Europa para estudar as características da instrução pública na França, Inglaterra, Holanda e Alemanha. A permanência de João Ribeiro na Alemanha foi um fator determinante para que recebesse influência do movimento “Kulturgescheschte”, “especialmente da ‘História Alemã’ de Lamprech”4.

A chamada inovação trazida por João Ribeiro aos estudos históricos brasileiros, a partir da qual a “história é feita do e pelo tempo”, se encontra na vinculação que o autor faz entre passado e presente. Em sua obra, o passado não é mais estudado como um tempo imutável, ”uma matéria acabada”, mas interpretado como um objeto de conhecimento a partir do presente e do historiador (ANDRADE , 1998, p.68).
A influência das ideias desse catedrático promoveu importantes mudanças nos programas de ensino. Na História moderna e contemporânea, por exemplo, encontramos nesse período um maior número de conteúdos sobre a América, expressando uma valorização do sentimento nacional através do destaque dos estudos do continente americano. Da mesma forma que Capistrano de Abreu, João Ribeiro defendia a História Laica e um afastamento do domínio da historiografia francesa na educação brasileira.

A concepção historiográfica inovadora do catedrático João Ribeiro rompeu com a visão de Varnhagen, anteriormente adotada, que:

descreve a História Pátria sob a égide dos aspectos político-administrativos. Defende a ciência histórica como ciência de construção crítica, sistematização de dados para atingir então a síntese. João Ribeiro preserva o paradigma do “filósofo, pensador da história”, aí está sua “nova visão” do conhecimento científico. Opta por fazer da história um canal cultural, sendo assim, preserva a mentalidade coletiva do povo brasileiro através da representação e apropriação social (PEREIRA, 1998, p.12).

Ribeiro criticava a ênfase dos conteúdos nas questões político-administrativas, elaboradas – segundo ele – por estrangeiros, em detrimento da cultura nacional e de outros acontecimentos internos do Brasil. “Em geral, os nossos livros didacticos da história pátria dão excessiva importância à acção dos governadores e à administração, puros agentes (e sempre deficientíssimos) da nossa defesa externa” (RIBEIRO, 1917, p.22).

Havia, no final do século XIX, uma polêmica entre o historicismo erudito e o historicismo científico, polêmica esta partilhada também por João Ribeiro. Em vez de tratar a História como uma sucessão de acontecimentos políticos, o catedrático optava por destacar as características peculiares do povo brasileiro.

Pela concepção da historiografia alemã, valorizava-se o povo anônimo, não apenas a história de reis, príncipes e heróis. Nessa perspectiva, João Ribeiro sustentava que a construção da História Nacional teria que passar pela população que trabalhou nas minas, na agricultura, na ocupação do território, assim como na catequese dos índios. Para o autor, os colonos, jesuítas, bandeirantes, mineiros e escravos retratavam a verdadeira imagem do Brasil, que podia ser estudado ”na sua vida interior, nas suas raças e nos seus sistemas de trabalho que a todo instante podemos verificar”5.

Seus livros didáticos retratam uma história serial e cronológica, relacionando a História do Brasil com a Europa e a América, em que os aspectos factuais são minimizados e a ênfase está nos aspectos social e cultural do povo brasileiro, apresentando um outro regime de historicidade partindo do presente para explicar o passado. Nessa perspectiva, o passado encontra-se subordinado ao presente.

Em suas pesquisas, João Ribeiro procurava o caráter nacional brasileiro de modo a buscar na cultura popular o que era ignorado pela cultura erudita, destacando a mestiçagem formadora do povo brasileiro. Criticava a história que privilegiava a ação dos governadores e militares e ignorava a ação da população comum; em sua obra, valorizava os aspectos sociais.

Percebe-se que sua influência fez-se mais presente por meio dos seus livros didáticos de História Universal e de História do Brasil, especialmente pela orientação metodológica neles contida de modo a gerar uma mudança no método de ensino da época. É nessa mudança de pensar o ensino que se percebe a grande influência desse educador, conforme suas palavras no início do livro História do Brasil6, quando compara seus escritos aos registros historiográficos que o precederam:

Ninguém antes de mim delineou os focos de irradiação da cultura e civilizamento do paiz; nenhum dos nossos historiadores ou chronistas seguiu outro caminho que o da chronologia vê da successçao dos governadores, caminho seguro mas falso em um paiz cuja historia se fazia ao mesmo tempo por múltiplos estímulos em differentes pontos ( Idem , 1917, p.3).


Acreditamos que a história ensinada guiava-se, portanto, muito mais pelas aulas do catedrático e pelos seus livros do que pelo programa, cujas marcas ainda revelavam o pensar vigente no século XIX.

O livro História do Brasil7 compunha-se de nove capítulos: ao final dos capítulos 1, 2 e 3 encontrava-se uma synopse geral, na qual o autor fazia uma síntese dos conteúdos desenvolvidos no capítulo com as respectivas datas – que o autor chamou de Isochronismos. Pode-se mesmo afirmar que o autor inaugura em seu livro didático a atenção para com o método de ensino, orientando o aluno sobre a maneira mais apropriada de estudar.

Essa obra também destaca as questões sociais, econômicas e culturais, com a intenção de valorizar as características próprias da cultura brasileira e de construir o nacionalismo no enfoque da história do cotidiano.

Em vista disso, podemos afirmar que a obra de João Ribeiro, caracterizada pela valorização de elementos peculiares da cultura brasileira, significou uma tentativa de distanciamento da concepção tradicional de História que ignorava os aspectos sociais e culturais da população das diferentes regiões do Brasil. Inegavelmente, o catedrático inaugurou também uma nova maneira de ensinar a História do Brasil. A preocupação com o método de ensino pode ser confirmada, ao final dos capítulos, pela utilização de quadros sinóticos e da cronologia dos fatos mais importantes, com o objetivo de auxiliar o aluno em seus estudos.

João Ribeiro afastou-se do Colégio Pedro II em 1925. Em 1926 foi indicado pela Congregação o professor Jonathas Archanjo da Silveira Serrano.




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