Alfinetes de lapela



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CURRICULUM VITAE



A ASSESSORA
Mateus Dias já estava acostumado com as sombras. Passou a compreender o que cada movimento refletido representava. Os dias corriam preenchidos pelos despachos já digitados sobre a condição de cada caso. As autoridades não percebiam, mas os casos se limitavam nos limites do possível. Não havia tantas situações!

Um farfalhar de folhas de processos manuseados. O barulho vigiado pelos supervisores como prova cabal da realização do trabalho para ser descrita nos relatórios semanais de produtividade. Mateus Dias achava que tudo estava definitivamente perdido na monotonia, deveria arcar com esse custo para sobreviver em suas particularidades.

Tudo estava previsto, até que começaram os telefonemas... Uma mulher misteriosa, supostamente de um alto escalão da matriz, telefonava diariamente querendo informações. Os questionamentos eram os mais inusitados, casos que efetivamente nunca haviam se concretizado em processo, mas ela queria respostas para indagações.

Aparecido Aranha estava empenhado no perfeito atendimento da Dra. Maria Rita, nome com o qual se identificava. Parte dos funcionários do escritório estavam perdidos nos “e se” apresentados. No início, ele dirigia as pesquisas a funcionários diversos, até que percebeu que não podia controlar o andamento de tantas dúvidas e de tantos funcionários.

Constatou também que, sozinho, não poderia assumir o compromisso de responder aos questionamentos da doutora. Ficaria muito vulnerável. As respostas muitas vezes não estão à vista e ele não tinha estrutura para assumir suas deficiências.

Diante do impasse gerado pelas ligações, o chefe pediu ao secretário que agendasse uma reunião semanal extraordinária para que ficasse estabelecida a prioridade no atendimento à assessora.

Todos estavam ansiosos para saber qual o procedimento a ser adotado. Como ele resolveria os inquietantes telefonemas da Dra. Maria Rita com uma solução possível de ser anotada como um mérito em sua qualificada ficha funcional.

No horário marcado, todos os funcionários se sentaram na sala de reunião. O chefe atrasou um pouco, pois estava atendendo a um ligação importante.

Não era a Dra. Maria Rita.

Aparecido sentou-se ao lado do secretário. Colocou sobre a mesa uma agenda de couro de cor vinho com o nome gravado em dourado. Ganhou tal objeto como uma homenagem por seus serviços no Natal. Era importante mostrar para os subordinados que o trabalho da equipe havia sido reconhecido.

Começou a reunião, com os elogios de praxe para cada funcionário, mencionando a relevância de cada serviço e do trabalho em conjunto. Quando terminou essas formalidades, mostrou a agenda com todo o orgulho de ter sido merecedor de tal presente.

Mateus Dias permanecia calado. Não se sentia a vontade de comentar o trabalho. Na verdade, desejava apenas que a reunião fosse o mais breve possível e que não fosse escalado para nenhuma tarefa nova.

Sua insatisfação era evidente, era mais uma sombra a desfilar na parede do escritório. Não se sentia motivado a assumir novos serviços, até porque ficaria limitado nas determinações e limitações de como deveria proceder e o mérito por suas descobertas seria gravado na próxima agenda ofertada.

Procurou outro emprego durante um tempo, mas compreendeu que os encaixes possíveis dentro dos cargos ofertados eram muito semelhantes ao que ocupava, seria apenas mudar os nomes e se sujeitar às mesmas posturas. Resolveu se conformar com a situação e costurar nos autos processuais algumas criações suas. Resolveu utilizar o dia-a-dia como inspiração para compor algo de sua autoria. Era um homem em busca, queria encontrar uma forma.

O chefe vestia uma gravata cor de burro quando foge. Pela primeira vez a cor não era evidente. Aliás a própria reunião estava nebulosa. Era basicamente sobre os telefonemas da Dra. Maria Rita e perdidamente na tentativa de soluções.

Todos os funcionários fizeram breves relatos sobre os trabalhos executados durante a semana e os resultados obtidos. O chefe demonstrava satisfação com o que ouvia. Mateus Dias permanecia em silêncio, observava atentamente a mosca que se movimentava no apoio da cadeira do chefe.

Entregando-se ao devaneio, incorporou uma mosca em torno de uma insignificância de cor indefinida. Havia outras acomodadas ao redor da mesa. O poder atraía o voo e a atenção de alguns insetos.

- Será que todos somos como moscas a voar ao redor de algo abundante?

- Mateus Dias! Mateus Dias!

Quando aterrissou do voo, percebeu que era o centro da atenção da reunião. A voz do chefe chamando seu nome ecoava na sala, refletindo a atenção dos subordinados. Assustou a mosca...

Chegara sua vez de relatar a semana. Disse um número aproximado de processos analisados e resumiu a semana dentro do normal. Não percebeu o erro de tal simplificação. O chefe achando que ele não estava assoberbado de trabalho, deu-lhe a função de atender os telefonemas da Dra. Maria Rita e de responder as questões por ela propostas.

- Quem é a Dra. Maria Rita? Perguntou Mateus.

Já havia ouvido falar sobre os telefonemas dela, mas sem manifestar interesse de se inteirar sobre o assunto. Aliás cada dia estava menos motivado.

- É uma assessora da diretoria jurídica. Vê-se pelo tom de voz que é uma mulher de grande experiência e competência. O chefe respondeu em tom de voz alto e com movimentos largos de braço.

O chefe havia participado de um curso para executivos, realizado num hotel fazenda, sobre a postura e o comportamento dos homens de negócio. Esse movimento de braço ele aprendera na aula prática de expressão corporal como elemento da linguagem corporal.

Mateus Dias balançou a cabeça num gesto sem grande expressão. Conteve o riso, achou que não deveria ironizar a grande percepção do chefe, afinal, todos estavam certos do conhecimento da senhora e da sua capacidade de criar questionamentos.

- O nome de minha finada mãe era Maria Rita. Uma santa mulher! Que Deus a tenha em bom lugar! (disse o chefe em tom de sublimação).

A reunião estava encerrada com essa afirmação. O chefe mostrou-se como filho de uma santa mulher. Talvez no auge de sua autoridade, pudesse se sentir como um Messias – um Jesus Cristo moderno guiando um bando de peregrinos.

Mateus Dias ficou estupefato com tal afirmação. Será que a finada mãe do chefe era virgem? Será que o chefe em algum momento aceitaria com resignação a cruz ou sacrificaria seu rebanho?

Acostumado a ser surpreendido com os assuntos do escritório, conformou-se com a designação de atender a assessora. Afinal, seria inútil recusar tal serviço. Restaria saber qual o limite para as dúvidas da senhora assessora da diretoria jurídica.

A reunião terminou com a conclusiva recomendação - todos que recebessem ligações da Dra. Maria Rita encaminhassem para o ramal do Mateus. Quando retornou para sua mesa, Mateus colocou o fone no ouvido e fez pequenos movimentos com a cabeça. Conseguiu terminar o expediente com uma ligação imaginária.

Naquele dia, a Dra. Maria Rita não ligou mais. Pelo menos, no horário do expediente, enquanto o ramal de Mateus Dias estava ocupado.





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