Acerto de contas



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acerto de contas

Acerto de contas



Treze histórias de crime & nova literatura latino-americana

Organização

Daniel Galera


Introdução

Júlio Pimentel Pinto


Tradução

Luiz Eduardo Brandão



Copyright © 2014 by McSweeney’s Quarterly Concern e colaboradores, San Francisco, California

Todos os direitos reservados.


Tradução do conto de Alejandro Zambra gentilmente cedida pela editora Cosac Naify e publicada originalmente na obra “Meus documentos”.
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
Este projeto foi criado com o apoio de rt/ Features
Título original

Latinoamérica criminal


Capa


Foto de capa


Preparação

Silvia Massimini Felix


Revisão




[2017]


Todos os direitos desta edição reservados à

editora schwarcz s.a.

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Sumário
Introdução — Júlio Pimentel Pinto


A cara

Santiago Roncagliolo
O menino sujo

Mariana Enríquez
Cadelas

Jorge Enrique Lage
Tentar lembrar

Alejandro Zambra
O sol dos cegos

Joca Reiners Terron
América

Juan Pablo Villalobos
White Flamingo

Andrés Felipe Solano
1986

Rodrigo Rey Rosa
Emunctórios

Rodrigo Blanco Calderón
No corpo escuro da noite

Andrés Ressia Colino
Ciúmes

Bernardo Carvalho
Tanta água tão longe de casa

Rodrigo Hasbún
Cavalos na fumaça

Carol Bensimon
Biografias dos autores
Introdução

júlio pimentel pinto
No início de 1945, o grande crítico norte-americano Edmund Wilson sentenciou: “Os leitores de histórias policiais sentem culpa, estão sempre na defensiva, e toda a sua conversa sobre mistérios ‘bem escritos’ é apenas uma desculpa para seu vício — como os motivos que um alcoólatra sempre pode inventar para tomar um drinque”.1

Wilson não estava sozinho em sua denúncia do caráter escapista e relativamente indigno dos contos e romances policiais. A crítica literária da época punha as histórias de mistério nas prateleiras mais rebaixadas da produção literária e as acusava de promover textos descartáveis, voltados ao mero entretenimento.

A sentença de Wilson hoje parece datada — assim como seu comentário, feito num ensaio de 1944,2 de que o sucesso comercial do policial se devia ao cenário de medo, culpa, insegurança e desesperança do período de guerras. Mas há, nela, um detalhe que não pode ser negligenciado: a percepção de que as histórias de mistério dependem fortemente do leitor, esse personagem tão importante e muitas vezes esquecido.

Esqueçamos, portanto, a acusação de vício e nos concentremos na questão do leitor — essencial para que a narrativa policial se complete. É ele que se imiscui na trama, acompanha o investigador, pretende antecipar a solução e alcançar, antes dos personagens, a verdade. Borges — que percebeu precocemente que as histórias policiais não eram apenas brincadeira — chegava a afirmar que, mais do que um gênero literário, elas haviam provocado o surgimento de um novo tipo de leitor. Desconfiado e continuamente alerta, ele se interessa tanto pelas “histórias de raciocínio” de Edgar Allan Poe, decifradas no conforto de bibliotecas e salas elegantes, quanto pela sordidez das ruelas e bares sujos por onde andam os detetives de Dashiell Hammett ou Raymond Chandler.

O leitor habitual de histórias policiais — viciado ou não — talvez se surpreenda com os treze contos deste livro. Eles não se passam em ambientes requintados nem em becos escuros, evitam reiterar os clichês do gênero e revelam que a narrativa policial do início do século xxi é bastante plural e complexa. Nenhum dos autores é especialista em histórias policiais, mas todos percebem com agudeza que as matrizes do gênero há muito deixaram de ficar restritas aos volumes com capas estampadas por cenas brutais. A tensão, o suspense, a ocasional ação tomaram de assalto toda a literatura e ninguém mais se surpreende em encontrar caraterísticas da ficção de mistério combinadas com histórias, por exemplo, de forte preocupação psicológica ou social. Também nenhum leitor deixa de agir, diante de qualquer texto, sem a desconfiança que aprendeu nos relatos policiais.

A intimidade do leitor de Acerto de contas com o risco é reforçada pelo fato de os contos percorrerem a vizinhança continental: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Cuba, Guatemala, México, Peru, Uruguai e Venezuela — além, claro, do Brasil. De país para país, alteram-se enredos, personagens, narradores. Mas persistem pontos em comum que nos ajudam a pensar na ideia de América Latina — ideia que, mais de um século atrás, moveu José Martí e José Enrique Rodó, Sousândrade e Manoel Bomfim. Martí falou de “Nossa América”, Sousândrade preferiu “Transamérica”, Rodó defendeu a “latinização da América”. Bomfim, por sua vez, valeu-se da expressão cunhada por Francisco Bilbao e José María Torres Caicedo e que em nossos dias é tão comum: América Latina.

O nome, porém, nem sempre correspondeu ao mesmo referente geográfico, cultural e até temporal. Para alguns, tratava-se de um sinônimo de América Espanhola — Brasil excluído. Para outros, um elo que atava definitivamente ao passado e ao antigo colonizador. Foi nos bosques da ficção e no decorrer dos anos 1960 que a conotação positiva de “América Latina” afinal prevaleceu: a expressão se difundiu e passou a significar uma comunidade de vontades, uma utopia generosa que precisávamos buscar e pela qual devíamos lutar. Ler Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa ou Carlos Fuentes, entre tantos outros, era então uma maneira de frequentar esse território do desejo e sonhar com o futuro redentor do continente. Era também uma maneira de aprender que a noção de conjunto não implicava homogeneidade: da mesma forma que a literatura se revelava complexa e plural, o continente se mostrava bastante diverso em seus itinerários históricos e culturais.

Só que a utopia da década de 1960 não se cumpriu: as heranças do passado, o espectro da pobreza e do autoritarismo, as simplificações e os oportunismos intelectuais reduziram toda esperança. Avançaram os projetos políticos e sociais excludentes e a América Latina voltou a ser apenas um retrato dolorido na parede ou a expressão banalizada que autenticava acordos comerciais precários e alianças políticas suspeitas. O crime ganhou ares governamentais, impregnou as instituições legais e avançou por um brutal labirinto que envolve grandes corporações, políticos e empresários influentes, somas assustadoras de recursos públicos e privados, conglomerados transnacionais. A verdade, fetiche central das histórias policiais tradicionais, acabou estilhaçada em relatos diversos e contrapostos.

Os treze autores destes contos buscaram se situar nesta dupla encruzilhada: compreender o lugar atual da narrativa policial e a circunstância vivida pela América Latina.

É assim que acompanhamos a combinação de extrema violência com calculado prosaísmo que percorre as ações dos personagens caricaturais — a autoironia é outro elemento frequente da narrativa policial — de “A cara”, de Santiago Roncagliolo. Conforme os depoimentos se encadeiam, outras vozes proliferam e a trama se constrói em meio a uma desconfortável naturalidade diante do crime e a marcas cifradas da cultura popular peruana.

Mariana Enríquez, em “O menino sujo”, radiografa a decadência de um bairro antes aristocrático de Buenos Aires, visita formas de religiosidade popular e expõe a derrocada de um conjunto de valores sociais e humanistas, corroídos pela miséria e pela vertigem da cidade despersonalizada. Recupera e atualiza, assim, os primórdios da narrativa policial — as metrópoles e sua relação com a passagem do tempo.

Havana e, de forma mais geral, Cuba são as protagonistas de “Cadelas”, conto de Jorge Enrique Lage, em que tudo é ambiguidade e deslocamento: dos edifícios em ruínas à busca pela sobrevivência, do prevalecimento de uma economia paralela à truculência das autoridades, da ironia diante do discurso oficial que elide os problemas aos personagens que não se ajustam aos padrões estabelecidos — política ou sexualmente.

As drogas e a violência sexual são o pano de fundo para que Alejandro Zambra reitere o caráter ficcional do conto “Tentar lembrar” e recorra aos clichês das histórias policiais e, por meio deles, ironize outros clichês, inclusive da crítica que trata da ficção latino-americana e a resume a meia dúzia de rótulos.

A sátira e a caricatura também sustentam “O sol dos cegos”, de Joca Reiners Terron, com sua crueza manifesta nos cheiros, nas cores e texturas que simbolizam a violência extrema das chacinas, a presença ininterrupta das drogas, mortes, dos urubus e crimes no cotidiano de uma favela. Entre um sombrio campo de futebol e um polonês que confunde o Brasil com o Uruguai, desvela-se um país derrotado.

No fio da ironia já expressa no título do conto, os personagens de “América”, de Juan Pablo Villalobos, não têm nome. Seu improvável protagonista, um “jornalista de merda”, assiste a uma sequência de crimes acidentais ou brutais e se enreda numa trama de mentiras.

Uma história antiga move o conto de Andrés Felipe Solano, “White Flamingo”, e conduz duas pessoas na direção de um acerto de contas consigo mesmos, com poderosos bandidos e, sobretudo, com um passado que insiste em se manifestar no presente.

“1986”, de Rodrigo Rey Rosa, transcorre parcialmente num aflitivo ambiente de controle, incerteza, suspeição e medo, misto de prisão e sanatório em que as únicas formas possíveis de resistência são a dissimulação e a burla — mesmos caminhos a que o protagonista recorre quando afinal escapa das mãos dos “americanos”.

O aparato do Estado é a grande ameaça em “Emunctórios”, de Rodrigo Blanco Calderón. Um estado centralizado e autoritário, medularmente corrompido, associado ao crime organizado e destinado à vigilância, à censura, ao aprisionamento, à tortura e à morte.

Sexo, assédio, violência e crimes banais durante uma temporada num luxuoso local de veraneio no Uruguai compõem a rotina dos personagens endinheirados de “No corpo escuro da noite”, de Andrés Ressia Colino, que se valem de uma justiça desigual e nada cega.

Bernardo Carvalho traz, em “Ciúmes”, um monólogo ameaçador de uma alta autoridade — um secretário de segurança — que confronta um criminoso preso. Pela voz do político e pelos supostos gestos do encarcerado, constrói-se um duelo de poder e um triângulo de sedução que ainda envolve um terceiro personagem, “o advogado”.

Histórias e vozes dissonantes se combinam em “Tanta água tão longe de casa”, de Rodrigo Hasbún, que expõe o embate entre passado e presente, os desencontros e enganos que articulam as duas temporalidades e que, quase sempre, vedam o acesso ao futuro.

O narrador de “Cavalos na fumaça”, de Carol Bensimon, projeta numa relação privada os protestos públicos de 2013 contra a realização da Copa no Brasil e a crueza da violência policial. Entre “estilhaços da memória”, lança o leitor num abismo: os crimes são tantos e tão difusos que, embora óbvios, podem passar despercebidos.

No conjunto, as histórias ultrapassam suas aparentes limitações temáticas e regionais e desenham um panorama comum e sombrio, repleto de ambiguidades e deslocamentos, cifrado na onipresença das drogas e na atuação do crime organizado, que reorienta toda investigação e, muitas vezes, a inviabiliza. As marcas locais territorializam as narrativas e, mesmo quando parecem universais, indicam a singularidade da experiência vivida em cada país e em cada cidade.

O leitor transita pelas histórias e pelo continente em meio à presença orgânica da corrupção na política institucional e a um dramático panorama social, repleto de personagens marginalizados. Ele é forçado, então, a abandonar qualquer ilusão maniqueísta de que haja um lado dos bons e outro controlado pelos maus, e a reconhecer a impossibilidade de acesso à verdade, lançada numa zona cinzenta e encoberta por camadas de mistificações, inconsciência e interesses escusos.

E esse leitor — sempre desconfiado e às vezes viciado — percebe que a ficção continua a ser um poderoso sismógrafo das tensões e impasses que nos cercam e que a narrativa policial e a própria ideia de América Latina não podem ser resumidas a definições e rótulos prévios e esquemáticos.

Talvez até Edmund Wilson reconhecesse que não há nada de escapismo nestes contos, assim como não há mordomos ou restaurantes chineses suspeitos. Há a percepção dura de um mundo marcado por ações ilegítimas do ponto de vista legal ou moral. Há a atmosfera misteriosa, que mantém leitores em suspenso. Há o medo e a insegurança de que falava Wilson, só que ambos estão perigosamente próximos do leitor. E ele percebe, com um olho na ficção e outro na história, que a América Latina continua a se reinventar, continua a se mostrar complexa, ambígua, diversificada. Que toda identidade — nacional, supranacional ou de gênero literário — é porosa e instável. Que a ficção policial não é feita de modelos fixos, não é fuga do mundo real, não é entretenimento; é um diagnóstico terrível que pode até ajudar a criar, em tempos sombrios, alguma consciência.

A cara

santiago roncagliolo
― É ela ou não é?

― Não sei, doutor. Poderia ser qualquer uma.

O procurador Félix Chacaltana franziu o cenho. Ao longo da sua carreira havia sido responsável pela identificação de todo tipo de cadáveres: mortos conhecidos e desconhecidos, muitos deles sem documentos, alguns em avançado estado de decomposição. Quase sempre havia sido possível identificá-los com a ajuda de algum parente ou amigo. Mas para o reconhecimento era preciso que o corpo tivesse uma cara. E este não tinha.

― Tomara que não seja ela ― disse o agente Basurto, movendo a cabeça com preocupação. ― Cantava bem bonito, doutor.

― “Canta”, agente. No presente. Até que não se ateste o óbito por escrito, ela está oficialmente viva.

― E então quem é esta?

O procurador deu de ombros. Dentro do trailer não dava para ficar em pé, e os dois funcionários estavam sentados diante do corpo inerte, cada um de um lado de uma mesinha de café, como num almoço campestre. Voltaram a olhar para a massa sanguinolenta, uma mescla informe de cabelos, pele e ossos. No lugar daquele muco vermelho, horas antes havia um rosto.

― Com que bateram nela? ― perguntou em seguida o policial. ― Uma pedra?

― Não creio. Uma pedra é difícil de manejar. E a vítima deve ter se defendido. Para fazer isso é preciso um martelo.

Chacaltana imaginou a ponta do martelo afundando na carne, penetrando nos globos oculares, quebrando os ossos do crânio. Mas sua mente se voltou rápido para o problema principal: o procedimento de identificação do cadáver. Não se lembrava de nenhuma especificação no regulamento para um caso como aquele. E sem identificação, não poderia fechar o relatório. Odiava deixar os procedimentos administrativos pela metade.

― Será que não está com um documento de identidade em algum bolso? ― perguntou.

― Só que a roupa não tem bolsos, doutor ― riu Basurto, que de procedimentos não entendia patavina, mas devia ser uma autoridade em vestuário folclórico.

Os olhos do procurador Chacaltana pousaram no majestoso vestido da vítima: a blusa de flores rosa e verde, a saia gigantesca e o lenço amarelo amarrado nos ombros. Depois de matá-la, o assassino tinha se dado ao trabalho de lhe pôr seu chapéu andino. Assim, à parte a cara destroçada a bordoadas, a mulher estava muito apresentável.

― A gente tem que andar sempre com o documento de identidade ― recriminou o procurador. ― Eu sempre ando com o meu, para facilitar o trabalho das autoridades no caso de ser vítima de homicídio, seja culposo, seja doloso.

― A-hã ― confirmou o policial, e os dois guardaram silêncio por um momento e olharam pela janela, para o terreno cheio de garrafas vazias e pontas de cigarro.

No fundo, o cenário continuava instalado, mas sem luzes nem músicos, nem instrumentos, parecia nu. Isso lembrou algo ao procurador.

― As mulheres às vezes guardam coisas na roupa de baixo. E se ela pôs a carteira de identidade aí?

― Pode ser.

― E se você verificar?

― Eu?


― Claro. Você não é um policial?

― Suboficial de terceira classe, doutor.

― Pois é. Olhe.

― Quer que eu manuseie uma morta?

Os dois se viraram para a dita-cuja, como se ela os houvesse pegado falando mal dela. Tinha um ar plácido, e o procurador esteve a ponto de lhe pedir desculpas.

― Quero que cumpra com seu dever ― murmurou.

― Doutor, com todo o respeito que merece sua pessoa no aspecto profissional e humano, permita lhe lembrar que a morta aqui presente tem a compleição física da sra. Casilda Martínez Vilcas, veste o traje da sra. Casilda Martínez Vilcas, foi achada no trailer-camarim da sra. Casilda Martínez Vilcas, a cem metros de onde a sra. Casilda Martínez Vilcas deu um show horas antes. Não podemos deduzir que se trata efetivamente da sra. Casilda Martínez Vilcas?

― Olhe, você não está aqui para deduzir. Está aqui para investigar. E se o assassino quiser nos fazer acreditar nisso para nos confundir? E se a sra. Martínez Vilcas estiver viva?

― Tomara, doutor. Porque era uma mulher muito boa. E cantava muito bonito.

― “Canta”, suboficial. E agora reviste.

O policial se resignou. Procurou não olhar nos olhos do cadáver, ou para onde estiveram seus olhos, e lentamente aproximou as mãos do busto e as introduziu na blusa, aproveitando-se das amplas e vaporosas mangas. Ficou revirando por um bom momento, esquadrinhando a região do antepeitoral, até que exclamou:

― A-ha!


Tirou as mãos e olhou para o procurador Chacaltana com olhos triunfais.

― Olhe, doutor, uma nota de cem soles. Com isso podemos ir almoçar.

A terrível morte de Casilda Martínez Vilcas comoveu o Peru inteiro. Correu a história de que havia sido violentada e assassinada por ladrões selvagens. Lima é um lugar violento, e nem mesmo a Princesinha de Huancayo estava a salvo. Assistiram a seu enterro milhares de fãs chorosos, muitos deles crianças. As personalidades da música a recordaram como uma mulher com um coração de ouro. Os vendedores ambulantes lançaram uma linha de decalques com sua figura, com asinhas de anjo nas costas. Uma associação católica de Huaraz pediu ao Vaticano que a declarassem santa.

A imagem da cantora, sempre vestindo o traje típico da sua região centro-andina, se multiplicou nas capas dos jornais populares. Suas tristes canções de amor e dor inundaram as rádios. O procurador Chacaltana nunca tinha ouvido essas canções antes, mas agora elas se gravaram na sua memória. Chamou sua atenção sobretudo o huaino “O mentiroso”, cujo estribilho dizia: “Me enganaste, sem-vergonha, devias perder a cara”.

O único que não parecia comovido era o suboficial de terceira classe Basurto, cuja penosa investigação não contemplava os requisitos mínimos da sua profissão. Conseguira confirmar a identidade do cadáver com a ajuda do marido. A vítima era sem sombra de dúvida Casilda Martínez Vilcas. Mas, à parte isso, não havia progresso. Chacaltana não parava de telefonar para o policial reclamando relatórios para poder dar curso aos procedimentos de rigor. Mas Basurto ou não estava, ou não tinha nada a relatar. O temperamento de Félix Chacaltana estava mais para o reservado e tímido, mas a inépcia do policial o tirava do sério.

― Como é que não realizou nenhuma diligência, Basurto?

― É, doutor. Por ora as coisas estão estáveis.

― Agente, as coisas não têm que ficar estáveis. Têm que avançar.

― O senhor tem muita pressa, doutor ― respondia Basurto com evidente impaciência. ― Eu lhe pediria um pouquinho de respeito para com a autoridade que represento.

O procurador ficava sabendo de mais detalhes pela imprensa amarela do que pelos canais oficiais. O sindicato dos professores de Huancayo e o Ministério da Cultura prestavam homenagens à artista que nos havia deixado prematuramente. Mas Basurto não dedicava a ela nem meia hora diária. Demorou semanas para remeter à procuradoria as declarações das testemunhas. Eram apenas três, cheias de contradições, lacunas e erratas. Além do mais, nenhum depoimento trazia a assinatura do depoente.

― Basurto, esses relatórios não servem para nada! ― disse-lhe Chacaltana por telefone naquela tarde, fora de si.

― O senhor é detalhista demais, doutor.

― Não é um detalhe! A testemunha tem que assinar, ora. Se não, como é que eu vou saber se não foi você que inventou os relatórios?

― Eh, não seja maldoso assim ― ofendeu-se o policial. ― E eu lá ia inventar?

― É uma hipótese.

― Eu não sou nenhuma prótese. Nem sou nenhum mentiroso, doutor. Sou um policial honesto.

― Você não entende…

― Agora está me chamando de burro?

― Basurto, não…

― Sabe de uma coisa, senhor procurador? Quer depoimentos? Procure o senhor mesmo.

E o policial bateu o telefone. Chacaltana ficou com o aparelho na mão. Não sabia ao certo se devia se desculpar ou exigir desculpas. Sem dúvida, Basurto dizia a verdade: não podia inventar os relatórios. Esse trabalho requereria uma inteligência que o suboficial simplesmente não tinha.

O procurador aumentou o volume do rádio. No programa de música, o locutor falava justo da Princesinha de Huancayo. Com o tom meloso e solene, dizia que o Peru ainda chorava a morte de uma das suas artistas mais queridas, a rainha do sentimento andino, que uns ladrões desgraçados haviam matado. Depois tocou uma canção, e o procurador Chacaltana voltou a ouvir aquela letra, que não parava de lhe ecoar na cabeça:

― “Me enganaste, sem-vergonha, devias perder a cara.”

― Bom dia. Meu nome é Félix Chacaltana e represento o Ministério Público. Venho cumprir devidamente um procedimento administrativo.

― Ah?

O homem que abrira a porta era gordo e tinha a boca grande, como um sapo gigante. Devia ter acabado de acordar, porque seus olhos remelentos tardaram vários segundos para se fixar no rosto de Chacaltana. O funcionário quis imprimir certo rigor à situação, de modo que explicou:



― Sou procurador.

― Ui, caceta… Eu não sei de nada, chefe. Hã?

Chacaltana trazia no rosto um sorriso amável e tranquilizador, mas não funcionou. A tez escura de seu anfitrião adquiriu certo tom amarelo, e seus olhos, agora sim, se abriram nervosos e começaram a olhar para todos os lados. O procurador leu os dados da declaração:

― O senhor é Elmer Cachay, trinta e seis anos, tez acobreada, primo da sra. Casilda Martínez Vilcas?

O outro murmurou um sim, o mais fraco que pôde. Depois guardou silêncio. O procurador perguntou:

― Posso entrar?

― Por quê?

― É sobre seu depoimento à polícia, com respeito ao falecimento da sua prima. Encontrei algumas irregularidades que requerem minha intervenção…

― Ui, caceta ― repetiu Cachay.

Seus olhos continuavam se movendo de um lado para o outro, como um pêndulo. Mas deixou o procurador entrar.

A casinha, no distrito de Ate-Vitarte estava parcialmente construída. A sala onde Chacaltana sentou estava terminada, inclusive com grades nas janelas. Mas as escadas de cimento ainda sem pintar levavam a um segundo andar onde apareciam tijolos nus e vergalhões sem parede. Chacaltana escolheu sentar-se de costas para a escada, em frente a uma mesa com toalha de plástico. Cachay sentou-se diante dele.

― Pelo que entendi o senhor atuava como… ― Chacaltana revisou seus papéis, para não falhar em nenhuma qualificação, e leu: ― … guitarrista, compositor, empresário, chofer, chefe de segurança, assessor de imprensa e encarregado da venda de cervejas nos shows da vítima.

― De quem?

― Da sua prima.

― Ah. Também vendo os cadernos escolares com a cara dela. E as lapiseiras “Princesinha de Huancayo”. Casilda é a rainha dos colégios. Seus shows estão cheios de adolescentes.

― Compreendo. ― Chacaltana tinha posto os óculos e, armado de uma velha caneta, tomava notas num bloco quadriculado. ― E se exercia todas essas responsabilidades, como é que havia abandonado o local quando a senhora faleceu? Deixou-a sozinha no trailer?

― Ui, caceta… ― repetiu o homem coçando a cabeça. Na parede, às suas costas, estava pendurada uma foto da Princesinha de Huancayo perto de uma lhama, que parecia fuçar nos cabelos de Cachay. ― Não quer uma cervejinha?

O procurador fitou-o por cima dos óculos e respondeu:

― São dez da manhã.

― Um pisco?

Sem esperar resposta, abriu uma garrafinha de metal que descansava em cima da mesa. Tomou um trago rápido e voltou a fechá-la. Agora parecia mais aturdido do que um minuto antes. O procurador tratou de continuar:

― Sr. Cachay, repassei seus antecedentes. O senhor recebeu condenações por roubo, tráfico de entorpecentes, falsificação de moeda e fraude documental. Me chama a atenção que trabalhe como “chefe de segurança”.

― Pois é ― disse o outro. ― É que falta trabalho, chefe.

― Não sou seu chefe.

Não disse aquilo num tom duro. Limitou-se a constatar um fato. Mas o outro se calou. O tempo se arrastou pesadamente ao seu lado. No relógio de parede, o ponteiro dos segundos marcava uma longa marcha fúnebre.

― Olhe, chefe ― anunciou por fim o dono da casa. ― Posso lhe contar o que sei, mas não tenho nada a ver com o presunto, viu?

― Eu lhe agradeço se se referir com um nome mais respeitoso à sra. Martínez Vilcas, que descanse em paz.

― Em paz não creio que descanse ― cortou Cachay num tom seco.

― Pode se explicar, por favor?

O anfitrião suspirou. Enquanto organizava os pensamentos, seus olhos avermelhados se viraram para cima, como se lesse a verdade no teto.

― Quer saber de uma coisa, chefe? É muito caro ter um grupo que excursiona. É preciso pagar hotéis, locais, luzes e som, transporte. E nosso público é popular. Não podem pagar caro a entrada. De modo que a bilheteria mais os concursos pagam os gastos fixos. O lucro está na venda de acréscimos.

― Acréscimos?

― Cerveja, cigarros, sanduíches…

― Compreendo. Cadernos escolares, lapiseiras…

― Camisetas da Princesinha de Huancayo…

― Fotos autografadas.

― Coca…

O procurador ficou paralisado. Levou alguns instantes para confirmar que tinha ouvido bem. Pensou nos decalques da Princesinha vestida de anjo. E na associação de católicos que queria canonizá-la.



― A sra. Casilda estava a par de que incorria no tráfico de entorpecentes com agravante?

― A par? Estava feliz. Adorava a brincadeira! ― Cachay riu, mas amansou diante da cara inexpressiva de Chacaltana. ― Os bancos do trailer eram cheios de sacolas. Como o grupo viaja por todo o Peru, vamos distribuindo. Trazemos da selva e entregamos na costa. Eu cuido da microvenda nos shows, mas o verdadeiro chefe dos negócios é o marido de Casilda, o Ajipanca. Ele faz as vendas gordas, inclusive durante os shows.

― E poderiam tê-la matado por isso?

Cachay tomou outro gole de pisco e deu de ombros.

― A única coisa que sei é que havia uns fornecedores bem zangados com Ajipanca. Acho que tinha passado a perna neles, mas nesses casos é melhor não perguntar. Na noite do show continuavam ali, paradões. O Ajipanca me disse: “Tranca tudo e leva as pessoas. Tenho que fechar um negócio”. E eu obedeci. Não posso lhe contar mais, porque não sei.

“Ajipanca” era o apelido de Teddy Quispe Malpica, cinquenta anos, tez morena, ocupação esposo da vítima. O supracitado havia reconhecido o cadáver pessoalmente por várias marcas na pele, e sua dor parecera sempre sincera, ou pelo menos isso dizia o relatório do suboficial Basurto. Embora o relatório só tivesse dois parágrafos e sua conclusão fosse a mesma que em todos os depoimentos: “Depoente ausente do lugar dos fatos na hora da incidência”.

No caminho, Chacaltana parou para tomar um emoliente* num carrinho de Barrios Altos. O vendedor estava com o rádio ligado. Nas notícias, uma mãe dizia que a Princesinha de Huancayo fizera um milagre para ela. Havia curado sua filha. Ela tinha pólio, mas ao ouvir “Serrano meu” se levantara da cadeira de rodas. Os fregueses do carrinho comemoraram a bondade de Casilda Martínez Vilcas. Chamaram-na de “a cantora do povo”. O procurador seguiu seu caminho.

Quando Quispe Malpica abriu a porta, o procurador compreendeu a razão do seu apelido: tinha a cara enrugada e curva, quase torcida, como uma pimenta ají panca. Era uma cara que não combinava com um nome suave como Teddy. E de um lado, junto da orelha, havia um telefone celular que ele afastou um pouco para interrogar com o olhar sua visita. Chacaltana se explicou:

― Sr. Quispe Malpica? Venho da procuradoria a respeito do seu depoimento sobre a noite do passamento da senhora sua esposa.

Só de ouvi-lo, o Ajipanca arregalou uns olhos negros cheios de ilusão.

― Já sabe quem foi o filho da puta que fez isso com ela?

― Estamos procurando saber, senhor.

O homem assentiu, sem especial pesar, e continuou falando ao telefone enquanto voltava para dentro da casa. Chacaltana se deu por convidado e o seguiu.

A casa de Casilda Martínez Vilcas era mais bem mobiliada do que a do seu empregado de Ate-Vitarte, embora a decoração fosse um tanto carregada para o gosto do procurador: almofadas cor-de-rosa, tapetes azul-cobalto e uma nutrida coleção de estatuetas de porcelana: cupidos, cantores vernaculares e bichinhos. Quispe Malpica continuava falando ao telefone, dando ordens a alguém:

― Que a gente deixe sua oferenda e pronto, aí mesmo, no túmulo. E em troca lhes damos um presentinho. Ainda temos fotos que tiramos para promover O engano da vida… Sim… Sim… Mas que não deixem qualquer oferenda, viu? Nada de galinhas vivas ou porcos. Se começarmos assim, acabaremos precisando de um sítio. É melhor deixarem dinheiro vivo.

A conversa girou por uns dez minutos em torno das oferendas fúnebres e seus possíveis valores de troca. Depois de desligar, Quispe Malpica lembrou que tinha se esquecido do procurador no sofá. E se virou para fitá-lo.

― Me desculpe. O povo gosta muito da Princesinha de Huancayo. Estão visitando em massa seus restos mortais. Pelo menos, minha senhora se vai rodeada da sua gente, do seu povo. Não é mesmo?

― Suponho que sim ― concordou o procurador.

― Em que posso ajudá-lo?

― Só queria confirmar alguns detalhes do seu depoimento. E pedir que o assine.

― Diga então.

Ao contrário do caráter fugidio de Elmer Cachay, Quispe Malpica tinha o ar seguro de um empresário, um homem acostumado a lidar com as pessoas. O procurador abriu seu caderninho e começou as averiguações.

― O senhor reconheceu o corpo da sua senhora. É verdade?

O rosto apimentado do empresário se torceu mais do que de costume. Um olhar carregado de vinagre assomou nas suas pupilas.

― Não tinha nariz ― lembrou-se secamente. ― Não tinha nada. Arrebentaram ela, senhor… Com um martelo, acha possível?

O procurador negou com a cabeça. Assaltou-o a lembrança daquele rosto moído. Quispe suspirou com uma exalação seca.

― Esses miseráveis. Como puderam fazer isso com ela?

Chacaltana viu naquilo uma ocasião para continuar suas perguntas. Lamentava a dor do viúvo, mas isso não devia distraí-lo do procedimento.

― É estranho que o senhor não tenha estado presente no lugar dos fatos. É estranho que ninguém tenha estado presente. Ela desceu do palco e ficou sozinha no trailer? Por acaso pensava em dormir lá?

― Senhor procurador ― respondeu Quispe Malpica, com um sorriso indulgente, como para um analfabeto ―, é que Casilda era uma mulher muito espiritual, muito religiosa. Às vezes exigia ficar sozinha nos lugares mais esquisitos, a fim de passar a noite orando e agradecendo ao Senhor por tudo o que Ele fez por ela e por nós.

O procurador anotou a resposta, depois passou um instante revisando seu caderninho, antes de perguntar:

― Quer dizer que o assassinato não teve nada a ver com os vinte quilos de cocaína que vocês transportavam no trailer?

Agora o rosto de Quispe se estirou numa careta pálida, como uma banana. Seu olhar esfriou. Guardou silêncio. Chacaltana o informou:

― O primo da sra. Casilda, que em paz descanse…

― O babaca do Elmer.

― O sr. Elmer Cachay admitirá perante o juiz o carregamento para demonstrar que não tem nada a ver com o homicídio. E disse que naquela noite houve um encontro entre os senhores e outros… bom, outros…

Delinquentes? Traficantes? Chacaltana não queria pressupor nada. Por fim se decidiu:

― Fornecedores.

O celular do empresário começou a tocar, com a música de “Tristeza de mi alma”. Ele o silenciou, mas o aparelho continuou vibrando. Quispe parecia a ponto de atacar o procurador com uma furadeira.

― Os… fornecedores… ― começou medindo as palavras ― … fizeram seus negócios e se foram. Tranquilamente como sempre.

― O senhor não brigou com eles?

― Todos temos desacordos de negócios às vezes, mas é melhor para todos nos entendermos bem.

― Mas o senhor mandou embora toda a equipe do show para ficar a sós com esses senhores.

― Mandei os fornecedores embora também. E depois eu mesmo fui embora.

― Sem sua senhora?

De repente, o rosto e o corpo de Quispe se amansaram. Ele se transformou num Teddy de verdade, desprotegido e assustado. Abandonou o celular em cima da mesa como quem deixa um revólver. Ao falar, sua voz era cortada pela dor:

― Casilda e eu já não éramos… Estávamos casados mas ela… ― O homem se deteve por alguns instantes. Recobrou forças e declarou: ― Eu a amava, senhor. Eu a amava com toda a minha alma. De verdade. No início subia ao palco mais animada, e então ficava festejando a noite toda. Depois as ressacas eram insuportáveis. No final, as festas começaram a durar dias. E cada vez chegava um pessoal mais estranho. E faziam umas coisas mais esquisitas. Fazia cinco meses que eu já não ficava nas festas. Fazia três que não dormia com Casilda.

― Por que simplesmente não pararam de traficar?

Ao ouvir o verbo “traficar”, Quispe teve um estremecimento. Revirou-se incomodado em sua almofada cor-de-rosa. Chacaltana lembrou-lhe:

― Seus negócios não me importam, sr. Quispe. Vim investigar um assassinato.

O anfitrião voltou a acusar a dor. E cedeu:

― Não podíamos parar de comerciar tudo que era possível. É preciso manter famílias grandes, a de Casilda e a minha: primos, cunhados, enteados, tios. Todos os dias chegam mais parentes querendo trabalho. Não se pode dizer não para eles. Se você puder lhes dar um trabalho, tem que lhes dar um trabalho. Se não, o que eles vão fazer? Alguns desses babacas espalham merda por tudo que é lugar que passam. Você tem que resolver os problemas deles. Mas a vida é assim.

― Houve festa aquela noite no camarim da sra. Casilda? Por isso o senhor despachou todo mundo e se foi?

― Acho que sim. Eu também não queria cuidar dessas coisas, entende? Eu também fui embora porque me disseram para ir.

― Quem disse?

― Mercy. É sobrinha e assistente pessoal de Casilda. Ela organizava as festas privadas, convidava os participantes e nos dizia quando devíamos cair fora. Ela me disse aquela noite para ir embora. E é a única pessoa que vi ficar.

“Sobrinha” era uma excelente palavra para descrever Mercy Gálvez Pinchi, vinte e um anos, um metro e cinquenta e nove. Era uma mulher tão miúda e com um aspecto tão infantil que parecia ter nascido para ser sobrinha de alguém. Suas maneiras muito suaves e sua voz baixa contrastavam com a rudeza dos parentes homens. Mesmo em seu próprio apartamento se movia como se temesse quebrar alguma coisa. Deslocava-se com a delicadeza de um fantasma.

E era o lugar adequado para ser um fantasma, porque a residência de Mercy Gálvez Pinchi era quase um santuário dedicado à Princesinha de Huancayo. Os cartazes da cantora cobriam as paredes e o teto. Objetos promocionais com seu rosto se amontoavam em todas as mesas. Até os móveis estavam forrados com lembranças das suas canções, como uma poltrona que trazia bordada a letra de “A hora da tua partida”.

― Posso lhe oferecer um chá, senhor procurador? ― perguntou a jovem, chamando Félix Chacaltana de “senhor procurador”, e não de “chefe” ou “doutor”, pela primeira vez naquele dia.

Chacaltana aceitou, e ela lhe deu as costas, indo pôr água para ferver numa chaleira elétrica. Sua comprida trança negra permanecia rígida, como uma segunda coluna vertebral. O procurador olhou à sua volta, àquele templo dedicado à Princesinha de Huancayo, e comentou:

― Vejo que a senhorita admira muito sua tia, a sra. Casilda…

Mercy se virou para vê-lo. Tinha os olhos arregalados como dois pratos de sopa, e pronunciou as palavras devagar, como se tivesse que lhe explicar uma lição muito óbvia:

― Todo o Peru a admira! Mas eu não a chamo de Casilda. Para mim, ela é a Princesinha de Huancayo o dia todo, desde que se levanta até se deitar.

O procurador notou que a moça falava no presente. Às vezes, pensou, levamos um tempo para nos acostumar com os que já não estão mais entre nós. Continuamos falando deles como vivos.

― Era uma cantora muito boa ― confirmou, recebendo seu chá. ― Tocava a alma da gente.

― É a cantora do povo ― a mulher insistiu no presente, sempre com aquela voz como um suspiro.

Às suas costas, Casilda Martínez Vilcas a observava atentamente num cartaz publicitário. Até a xícara do procurador fazia parte de um jogo de chá Princesinha de Huancayo, com desenhos andinos e o rosto da defunta. O procurador a devolveu a seu pires e acreditou ter chegado o momento de trabalhar.

― Srta. Gálvez Pinchi…

― Mercy, por favor.

― … Mercy. Pelo que soube, na noite do último concerto a senhorita ficou com a sra. Casilda até o fim, inclusive depois que o marido dela saiu do local. É verdade?

― Claro. Ninguém sabe cuidar da Princesinha como eu. Ela precisa de mim. Eu tenho que tirar seu traje de cena, a maquiagem, vestir-lhe o penhoar, fazer-lhe massagem nos pés porque dançou muito tempo, e rezar com ela, porque sempre agradece a Nosso Senhor pelo sucesso dos seus shows. Depois é preciso lhe aplicar a máscara de abacate para manter sua pele fresca e lhe fazer companhia até que durma, caso necessite de alguma coisa.

A moça recitou todas as suas atividades de cor e com orgulho. O procurador sentiu-se incomodado. Perguntou-se como pronunciaria a palavra “cocaína” em frente a uma senhorita tão doce.

― Olhe, Mercy ― começou, com toda a amabilidade de que era capaz ―, não precisa me esconder nada. Elmer Cachay e Teddy Quispe já me confessaram suas atividades ilícitas… E também me falaram das… festas.

― Como?


A jovem lhe fez a pergunta imperturbável, como se na realidade não ouvisse. O procurador limpou a garganta e explicou, sem levantar a vista do chão:

― Estou a par das propensões da sra. Casilda em matéria de substâncias controladas e de relações extramatrimoniais.

Os mansos olhos negros de Mercy permaneceram inalterados. Até então, Chacaltana havia pensado que eles o fixavam. Então prestou mais atenção: ela olhava para algum ponto perdido no horizonte, vários centímetros à direita do seu crânio.

― Isso que o senhor disse é uma bobagem. A Princesinha é uma mulher decente com um coração que não lhe cabe no peito. Todo mundo sabe. Ligue a televisão e verá como todos falam dela. Gostam dela porque ela é boa.

― Então o que aconteceu naquela noite? A do último show. O que aconteceu quando a senhorita ficou a sós com ela?

No rosto de Mercy Gálvez Pinchi se formou a última coisa que o procurador esperava: um sorriso.

― Já lhe disse. Fiz meu trabalho: tirar seu traje de cena, a maquiagem, vestir-lhe o penhoar, fazer-lhe massagem nos pés e rezar com ela, porque sempre agradece a Nosso Senhor pelo sucesso dos seus shows. Depois tive de aplicar a máscara de abacate para manter sua pele fresca e lhe fazer companhia até dormir. Aquela noite ela queria dormir com o traje do show, e eu a vesti. Eu lhe pus até o chapéu. Estava linda.

― E a senhorita continuava lá quando a assassinaram?

― Quando o quê?

― Espero não ser mal-educado demais. Compreendo que minhas perguntas podem soar…

― Ela não está morta.

― Desculpe?

― Eu já disse. Ligue a tv. Ligue o rádio. Todo mundo está falando da Princesinha de Huancayo. De como ela é na realidade. Meus tios contaram ao senhor todas essas mentiras porque têm inveja dela. A Casilda que eles descrevem não é a de verdade. A Princesinha real está na tv. O tempo todo.

O procurador Chacaltana esquadrinhou aquele rosto à espera de um sinal de ironia, ou de que suas palavras fossem uma forma de falar, uma licença poética. Mas só encontrou nele a mesma expressão plana de antes. Foi ela quem perguntou:

― Mais chá?

O procurador negou com um gesto. Mal havia tocado na xícara. Tratou de continuar a diligência, apesar das palavras de Mercy lhe serem confusas. Ela dava respostas a perguntas que ele não havia feito e vice-versa.

― A senhorita nunca viu sua tia… incorrer em excessos… ou em negócios dúbios?

― Seria impossível ― respondeu ela com a maior naturalidade. ― Iria contra o mais importante que ela tem: sua música. Isso a transformaria numa mentirosa. O senhor sabe o que ela cantava do mentiroso?

― “Se te debería caer la cara” ― sussurrou, quase cantarolando, Chacaltana.

Mercy presenteou-o então com uma expressão beatífica, como se a houvesse aspergido com água-benta.

― O senhor sabe! Essa é a canção mais bonita da Princesinha. E ela é fiel ao seu público e às suas canções. Compreende agora? Como ia ela, justamente ela, ter duas caras? Não é possível.

Chacaltana passeou seu olhar pelos cartazes das paredes. Sentiu-se vigiado por um exército de Princesinhas de Huancayo. Todas com a mesma cara. Pelo menos nessas fotos ela tinha uma.

― Posso usar o banheiro?

― No fundo à esquerda.

O corredor era muito curto, e o apartamento só tinha um quarto. O procurador calculou que poderia proceder a uma revista em poucos minutos.

― Sabe o que eu lhe pediria, Mercy? Um cafezinho, por favor. Tem?

― Tenho que passar. Mas tem, sim.

Ela se enfiou na pequena cozinha, e o procurador pôs-se a esquadrinhar. O corredor, inclusive o banheiro, mantinha a multidão de fotos e pôsteres da Princesinha de Huancayo. Procurando não olhar a cantora nos olhos, algo quase impossível, Chacaltana revistou o armário de remédios, a cesta de lixo do banheiro, a caixa d’água do sanitário, depois passou ao quarto: apalpou a superfície da cama, levantou um pouco o tapete e abriu as gavetas.

Na penúltima, encontrou o que procurava.

Um martelo. Mercy nem o lavara. Quase todo o cabo estava manchado de vermelho escuro, mas também havia algumas marcas de cores indefinidas e esverdeadas, sobretudo na cabeça.

Saiu e foi encontrar Mercy na cozinha. Antes de falar com ela, teve o cuidado de se postar numa posição intermediária entre a mulher e as facas.

― Mercy, você guarda um martelo no seu quarto?

Ela estava passando o café. Nem hesitou em responder:

― Não é um martelo. É uma arma de Deus. Serve para eliminar a mentira e o mal.

― Claro… Eeehh, posso dar um telefonema?

Ela deu de ombros. Sem sair do lugar, o procurador digitou o número de Basurto.

― Boa tarde, suboficial.

― Por que ligou para mim, doutor? Encontrou algum erro de pontuação nos meus relatórios?

― Não, ao contrário… Preciso que dê um pulo no domicílio de uma das testemunhas: Mercy Gálvez Pinchi.

Ao ouvir seu nome, ela lhe dedicou um sorriso de amabilidade. Ele tentou retribuí-lo.

― Doutor, tenho o que fazer. Agora mesmo estou com o caso do taxista.

Chacaltana suspirou fundo. Contou mentalmente até dez antes para soar tranquilo ao responder:

― Basurto, é muito importante que venha aqui. E venha rápido, por favor.

― Está bem, mas primeiro vou comer um sanduíche, doutor. Não almocei.

― O quanto antes, Basurto.

― Quer que lhe leve alguma coisa?

Um computador, pensou o procurador. Para ensinar-lhe a redigir um relatório de verdade. Mas só repetiu:

― O quanto antes, Basurto.

Quando desligou, Mercy já havia depositado diante dele uma fumegante xícara de café comemorativa do disco Todos os sucessos da Princesinha. Os dois voltaram para a sala, mas dessa vez ele sentou na cadeira perto da porta, a mais próxima das facas e do martelo.

― Espero que não esteja com pressa ― disse à sua anfitriã.

― Só se a Princesinha me ligar. O senhor sabe que devo estar pronta para acompanhá-la vinte e quatro horas por dia.

― Claro, é normal.

Enquanto esperavam Basurto, ela pôs um cd da sua idolatrada tia, a única cantora da sua coleção de música. Os alto-falantes anunciaram os primeiros compassos de “Para ti, cholita”.

― Uma vez ela me dedicou essa canção num show ― comentou Mercy, orgulhosa.

― É muito boa ― respondeu o procurador, cortês.

― Oh, sim. Ela é a melhor mulher do mundo.

O menino sujo

mariana enríquez
1
Minha família acha que estou louca porque decidi viver na casa familiar do bairro de Constitución, a casa dos meus avós paternos, uma massa de pedra e portas de ferro pintadas de verde na Calle Virreyes, com detalhes art déco e velhos mosaicos no chão, tão gastos que, se me ocorresse encerar o assoalho, eu poderia abrir uma pista de patinação. Mas sempre fui apaixonada por essa casa e, ainda menina, quando um escritório de advocacia a alugou, lembro do meu mau humor, ao sentir saudade daqueles cômodos de janelas altas e do pátio interno que parecia um jardim secreto, e da minha frustração, porque quando passava pela porta já não podia entrar livremente. Não sentia tanta saudade do meu avô, um homem calado que mal sorria e nunca brincava. Nem chorei quando ele morreu, chorei muito mais quando, depois da sua morte, perdemos a casa, pelo menos por alguns anos.

Depois dos advogados chegou uma equipe de odontologistas; e, por fim, o imóvel foi alugado para uma revista de viagens que fechou em menos de dois anos. A casa era bonita e cômoda, e estava em ótimas condições levando-se em conta sua idade; mas ninguém mais, ou muito poucos, queria se estabelecer no bairro. A revista de viagens o fez somente porque o aluguel, àquela altura, era muito barato. Mas nem isso a salvou da rápida bancarrota e com certeza o fato de que roubassem seus escritórios não ajudou: levaram todos os computadores, um forno de micro-ondas e até uma fotocopiadora pesada. Constitución é o bairro da estação dos trens que vêm do sul até a cidade. No século xix, era a zona onde a aristocracia portenha vivia, por isso existem essas casas, como a da minha família ― e há muitas outras mansões convertidas em hotéis ou asilos de velhos ou sendo derrubadas do outro lado da estação, em Barracas. Em 1887, as famílias aristocráticas fugiram para o norte da cidade, escapando da febre amarela. Poucas voltaram, quase nenhuma. Com os anos, famílias de comerciantes ricos, como meu avô, puderam comprar as casas de pedra com gárgulas e aldravas de bronze. Mas o bairro ficou marcado pela fuga, pelo abandono, pela condição de indesejado.

E está cada vez pior.

Contudo, se você sabe se movimentar, se entende as dinâmicas, os horários, não é perigoso. Ou é menos perigoso. Sei que sexta-feira à noite, se eu me aproximar da Plaza Garay, posso ser pega em alguma briga entre vários contendores: os mininarcos da Calle Ceballos, que defendem seu território de outros ocupantes e perseguem os perpétuos devedores; os dependentes que, descerebrados, se ofendem por qualquer coisa e reagem atacando com garrafas; as travestis bêbadas e cansadas que também defendem seu chão. Também sei que, se eu voltar para casa caminhando pela avenida, estou mais exposta a um roubo do que se vier pela Calle Solís, e isso apesar de a avenida ser bem iluminada e a Solís ser escura, porque as lâmpadas são poucas e muitas estão quebradas: é preciso conhecer o bairro para aprender essa estratégia. Duas vezes me roubaram na avenida, as duas foram meninos que passaram correndo, arrancaram minha bolsa e me jogaram no chão. Da primeira vez, dei queixa à polícia; da segunda, já sabia que era inútil, que a polícia deixava que eles roubassem na avenida, tendo como limite o viaduto da rodovia ― três quarteirões livres ―, em troca de outros favores que os adolescentes lhes prestavam. Há alguns macetes para poder se movimentar com tranquilidade nesse bairro e eu os utilizo perfeitamente, muito embora, claro, o imprevisível sempre possa acontecer. É uma questão de não ter medo, de fazer alguns amigos-chave, de cumprimentar os moradores, mesmo que sejam delinquentes ― sobretudo se forem delinquentes ―, de andar de cabeça erguida, prestando atenção.

Gosto do bairro. Ninguém entende por quê. Eu sim: ele me faz sentir precisa e audaciosa, atenta. Não restam muitos lugares como Constitución na cidade, que, tirando as vilas da periferia, está mais rica, mais amável, intensa e enorme, porém mais fácil para viver. Constitución não é fácil e é bonita, com todos esses cantos que um dia foram luxuosos, como um templo abandonado e reocupado por infiéis que nem mesmo sabem que, entre aquelas paredes, um dia se ouviram louvações a velhos deuses.

Também mora muita gente na rua. Não tanta como na Plaza Congreso, a alguns quilômetros da minha porta; ali há um verdadeiro acampamento, bem em frente aos edifícios legislativos, esmeradamente ignorado mas ao mesmo tempo tão visível que, todas as noites, há grupos de voluntários que levam comida para eles, checam a saúde das crianças, distribuem cobertores no inverno e água fresca no verão. Em Constitución a gente da rua é mais abandonada, poucas vezes chega ajuda organizada. Em frente à minha casa, numa esquina que um dia foi um empório e agora é um imóvel tapado para que ninguém possa ocupá-lo, com portas e janelas bloqueadas com tijolos, mora uma mulher com o filho. Está grávida de poucos meses — mas nunca se sabe, em se tratando das mães narcodependentes do bairro, tão magras. O filho deve ter uns cinco anos, não vai à escola e passa o dia no metrô, pedindo dinheiro em troca de imagens de santo Expedito. Sei disso porque certa noite, quando voltava para casa vinda do centro, eu o vi no vagão. Tem um método muito inquietante: depois de oferecer o santinho aos passageiros obriga-os a lhe apertar a mão, um aperto breve e sujo. Os passageiros contêm a pena e o nojo: o menino é imundo e fede, mas nunca vi ninguém suficientemente compassivo para tirá-lo do metrô, levá-lo para casa, dar-lhe um banho, chamar assistentes sociais. As pessoas o ajudam, compram um santinho. Ele tem o cenho sempre franzido e, quando fala, a voz soa gasta; costuma estar resfriado e às vezes fuma com outros meninos do metrô.

Uma noite caminhamos juntos da estação até minha casa. Ele não falou comigo, mas nos acompanhamos. Perguntei-lhe algumas bobagens, sua idade, seu nome, mas ele não me respondeu. Não era um menino doce nem meigo. Quando cheguei à porta da minha casa, no entanto, me cumprimentou.

― Tchau, vizinha ― me disse.

― Tchau, vizinho ― respondi.

O menino sujo e sua mãe dormem sobre três colchões, tão gastos que, empilhados, têm a mesma altura de um somiê comum. A mãe guarda a pouca roupa em vários sacos pretos de lixo e tem uma mochila cheia de outras coisas que nunca consigo distinguir. Ela não sai da esquina e ali pede dinheiro com uma voz lúgubre e monótona. A mãe não me agrada. Não só pela irresponsabilidade, porque fuma crack e a cinza queima sua barriga de grávida, ou porque nunca a vi tratando com amabilidade seu filho, o menino sujo. Há algo mais que não me agrada.

Eu dizia isso à minha amiga Lala enquanto ela cortava meu cabelo na sua casa, no feriado da última segunda-feira. Lala é cabeleireira, mas faz um tempo que não trabalha num salão: não gosta dos chefes, diz ela. Ganha mais dinheiro e tem mais sossego no seu apartamento. Como salão de cabeleireiro, o apartamento de Lala tem alguns problemas. A água quente, por exemplo, chega de maneira intermitente porque o aquecedor funciona muito mal e, às vezes, quando ela está lavando meu cabelo depois da tintura, recebo um jorro de água fria na cabeça que me faz gritar de surpresa. Ela revira os olhos e explica que todos os encanadores a enganam, cobram mais, nunca voltam. Acredito nela.

― Essa mulher é um monstro, menina ― grita, enquanto quase me queima o couro cabeludo com seu secador velho e me acomoda as mechas com os dedos grossos.

Faz muitos anos que Lala decidiu ser mulher e brasileira, mas nasceu homem e uruguaio. Agora é a melhor cabeleireira travesti do bairro e já não se prostitui; fingir o sotaque brasileiro era muito útil para seduzir homens quando era puta de rua, mas agora não tem mais sentido. Mesmo assim, está tão acostumada que às vezes fala ao telefone em português e reclama por vingança ou piedade com a Pombajira, seu exu pessoal, para a qual tem um pequeno altar no canto da sala onde corta cabelo, bem ao lado do computador, que fica ligado perpetuamente num chat.

― Você também acha que ela parece um monstro, então.

― Me dá calafrios, mami. É como se estivesse amaldiçoada, não sei.

― Por que diz isso?

― Eu não digo nada. Mas aqui no bairro dizem que faz qualquer coisa por dinheiro, que até vai a reuniões de bruxos.

― Ai, Lala, que bruxos o quê, aqui não existem bruxos, não acredite em qualquer coisa.

Ela me deu um puxão no cabelo que pareceu intencional, mas pediu desculpas. Foi intencional.

― Você lá sabe o que acontece de verdade por aqui, mamita. Você vive aqui, mas é de outro mundo.

Lala tem um pouco de razão, mas me incomoda ouvir a coisa assim, me incomoda que ela, tão sincera, me ponha em meu devido lugar, a mulher de classe média que acredita ser desafiadora porque resolveu morar no bairro mais perigoso de Buenos Aires. Suspiro.

― Tem razão, Lala. Mas quero dizer, mora em frente à minha casa e está sempre lá, em cima dos colchões. Nem se mexe.

― Você trabalha muitas horas, não sabe o que ela faz nem a controla de noite. A gente deste bairro, mami, é muito… como se diz? Você mal percebe, já te atacaram.

― Furtiva?

― Isso. Você tem um vocabulário que dá inveja, não é, Sarita? Moça fina, ela.

Sarita está esperando que Lala termine meu cabelo faz uns quinze minutos, mas não se incomoda em esperar. Folheia as revistas. Sarita é uma travesti jovem, que se prostitui na Calle Solís, e é muito bonita.

― Conte para ela, Sarita, conte o que contou para mim.

Mas Sarita franze os lábios como uma diva de cinema mudo e não tem vontade de me contar nada. Melhor. Não quero ouvir as histórias de terror do bairro, que são todas inverossímeis e críveis ao mesmo tempo e que não me dão medo, pelo menos de dia. De noite, quando me dedico a terminar trabalhos atrasados e fico acordada e em silêncio para poder me concentrar, às vezes me lembro das histórias ditas em voz baixa. E verifico se a porta da rua está bem trancada e também a da sacada, e às vezes fico olhando para a rua, em especial para a esquina onde o menino sujo e sua mãe dormem, totalmente quietos, como mortos sem nome.

2
Certa noite, depois do jantar, soou a campainha. Estranho: quase ninguém me visita a essa hora. Salvo Lala, às vezes, quando se sente sozinha, e então ficamos juntas ouvindo rancheiras tristes e tomando uísque. Quando olhei pela janela para ver quem era ― ninguém abre a porta sem pensar neste bairro se a campainha toca por volta da meia-noite ―, vi que era o menino sujo. Fui correndo pegar as chaves e o deixei entrar. Havia chorado, dava para notar os sulcos mais claros que as lágrimas abriam na sua cara imunda. Entrou correndo, mas se deteve antes de chegar à porta da sala de jantar, como se necessitasse da minha licença. Ou como se tivesse medo de ir em frente.

― O que aconteceu? ― perguntei.

― Minha mãe não voltou ― disse ele.

Tinha a voz menos áspera, mas não parecida com a de um menino de cinco anos.

― Deixou você sozinho?

Sim, com a cabeça.

― Está com medo?

― Estou com fome ― respondeu.

Também estava com medo, mas já estava suficientemente endurecido para não reconhecer diante de um estranho que, além do mais, tinha uma casa, uma casa linda e enorme, bem em frente à sua desgraça.

― Bom ― disse a ele. ― Entre.

Estava descalço. A última vez que eu o vira calçava um par de tênis novos. Teria tirado por causa do calor? Ou alguém os roubara durante a noite? Não quis lhe perguntar. Fiz que sentasse numa cadeira da cozinha e pus no forno um pouco de arroz com frango. Para a espera, passei queijo num pão caseiro apetitoso. Comeu olhando-me nos olhos, muito sério, e com tranquilidade. Estava com fome, mas não famélico.

― Aonde foi sua mãe?

Encolheu os ombros.

― Ela sai muito?

Outra vez encolheu os ombros. Tive vontade de sacudi-lo e logo me envergonhei. Precisava de ajuda; não tinha por que saciar minha curiosidade mórbida. No entanto, algo no seu silêncio me irritava. Eu queria que fosse um menino amável e encantador, não esse menino rude e sujo que comia o arroz com frango devagar, saboreando cada bocado, e arrotava depois de terminar seu copo de Coca-Cola. Não tinha nada para lhe servir de sobremesa, mas eu sabia que a sorveteria da avenida devia estar aberta, no verão costumava ficar aberta depois da meia-noite. Perguntei se queria ir e ele me disse que sim, com um sorriso que lhe mudava a cara por completo, tinha dentes miudinhos e um, de baixo, estava para cair.

Eu tinha um pouco de medo de sair tão tarde e ainda por cima ir para a avenida, mas a sorveteria costumava ser um território neutro, quase nunca havia roubos ou brigas por ali. Não levei a bolsa e guardei um pouco de dinheiro no bolso da calça. Na rua, o menino sujo me deu a mão e não o fez com a indiferença com que cumprimentava os compradores de santinhos no metrô. Agarrou-a bem forte: vai ver que ainda estava assustado. Atravessamos a rua: o colchão no qual dormia com a mãe ainda estava vazio. A mochila também não estava lá.

Tínhamos que andar três quarteirões até a sorveteria e escolhi a Calle Ceballos, uma rua estranha, que podia ser silenciosa e tranquila algumas noites. Certas travestis, as menos esculturais, as mais gordinhas ou as mais velhas, costumavam escolher essa rua para trabalhar. Lamentei não ter tênis para calçar no menino sujo: nas calçadas podia haver restos de vidro, de garrafas quebradas, e eu não queria que ele se machucasse. Ele andava descalço com grande segurança, estava acostumado.

Naquela noite, os três quarteirões estavam quase vazios de travestis, mas estavam cheios de altares. Lembrei-me do que celebravam: era 8 de janeiro, dia do Gauchito Gil. Um santo popular da província de Corrientes que é venerado em todo o país, sobretudo nos bairros pobres. Antonio Gil, contam, foi assassinado como desertor em fins do século xix: um policial o pendurou numa árvore e se dispunha a degolá-lo quando o gaucho desertor lhe disse: “Se você quiser que seu filho se cure, tem de rezar por mim”.

Depois de decapitá-lo, o policial fez o que ele disse, porque seu filho estava muito doente. O menino sarou. Então o policial tirou Antonio Gil da árvore, sepultou-o, e no lugar em que ele sangrou se ergueu um santuário, que existe até hoje e que todos os verões recebe milhões de pessoas. Eu me vi contando a história do gaucho milagroso ao menino sujo, e paramos diante de um dos altares. Lá estava o santo de gesso com a camisa azul-celeste e o lenço vermelho no pescoço ― uma faixa de cabelo vermelha também ―, e uma cruz nas costas, também vermelha. Havia vários panos vermelhos e uma ou outra bandeira pequena, vermelha: a cor do sangue, a lembrança da injustiça e a degola. Mas nada era macabro ou sinistro. O gaucho dá sorte, cura, ajuda e não pede muito em troca, apenas que lhe façam essas homenagens e às vezes um pouquinho de álcool. Ou a peregrinação ao santuário de Mercedes, em Corrientes, com um calor de cinquenta graus e os devotos que chegam a pé, de ônibus, a cavalo, e de todas as partes, até da Patagônia. As velas ao redor o faziam pestanejar na semiescuridão. Reavivei uma das que tinham se apagado e com a chama acendi um cigarro.

O menino sujo parecia inquieto.

― Já vamos chegar à sorveteria ― disse a ele. Mas não era isso.

― O gaucho é bom ― falou. ― Mas o outro não.

Disse aquilo em voz baixa, olhando para as velas.

― Que outro? ― perguntei.

― O esqueleto ― me disse. ― Lá atrás tem esqueletos.

Lá atrás. No bairro, “lá atrás” é uma referência ao outro lado da estação, passando as plataformas, lá onde as vias férreas e seus aterros se perdem em direção ao sul. Lá costumam aparecer altares para santos menos amáveis que o Gauchito Gil. Sei que Lala leva ao aterro ― sempre de dia, porque pode ser perigoso ― suas oferendas à Pombajira, seus pratos coloridos e seus frangos comprados no supermercado, porque não se anima a matar uma galinha. Ela me contou que há um monte de sãos Morte lá atrás, o santinho esqueleto com suas velas vermelhas e pretas.

Mas não é um santo mau, disse ao menino sujo, que me olhou com os olhos bem arregalados, como se eu estivesse dizendo uma loucura. É um santo que pode fazer mal se lhe pedirem, mas a maioria das pessoas não pede coisas ruins: pede proteção.

― Sua mãe te leva lá atrás? ― perguntei.

― Leva, mas às vezes eu vou sozinho ― respondeu.

E depois me deu um puxão no braço para que continuássemos até a sorveteria. Fazia muito calor. A calçada da sorveteria estava grudenta, de tantos sorvetes que deviam ter pingado, pensei nos pés descalços do menino sujo, agora com toda essa nova sujeira. Ele entrou correndo e pediu, com sua voz velha, um grande de doce de leite e de chocolate. Não pedi nada. O calor me tirava a fome e eu não sabia o que fazer com o menino se sua mãe não aparecesse. Levá-lo para a delegacia? Para um hospital? Fazer que ficasse em casa até ela voltar? Existia algo como serviços sociais nesta cidade? Existia, sim, um número para ligar durante o inverno, para avisar se alguma pessoa que vivia na rua estava passando muito frio. Porém eu não sabia muito mais. Eu me dava conta, enquanto o menino sujo lambia os dedos respingados, de como me importava pouco com as pessoas, de quão natural eram para mim essas vidas infelizes.

Quando terminou o sorvete, o menino sujo se levantou do banco e saiu caminhando para a esquina onde morava com a mãe, sem prestar muita atenção em mim. Eu o segui. A rua estava muito escura, tinham cortado a luz, costumava acontecer nas noites de muito calor. De qualquer modo eu o enxergava bem, graças às luzes dos carros; também o iluminavam, a ele e a seus pés já completamente negros, as velas dos altares improvisados. Chegamos à esquina sem que ele voltasse a me dar a mão.

Sua mãe estava no colchão. Como todos os dependentes, não tinha noção da temperatura e vestia um abrigo de moletom com o capuz posto, como se chovesse. A barriga, enorme, estava desnuda, a camiseta curta demais não podia cobri-la. O menino sujo a cumprimentou e sentou no colchão. Não disse nada.

Ela estava furiosa. Aproximou-se de mim rugindo, não há outra forma de descrever o som, me lembrou o da minha cadela quando quebrou a anca e ficou enlouquecida de dor, mas havia parado de se queixar e só grunhia.

― Aonde você o levou, sua filha da puta? O que quer fazer com ele, hein, hein? Nem pense em tocar no meu filho!

Estava tão perto que eu via cada um de seus dentes, como suas gengivas sangravam, os lábios queimados pelo cachimbo, o cheiro de alcatrão no hálito.

― Comprei um sorvete para ele ― gritei, e retrocedi, quando vi que ela tinha uma garrafa quebrada na mão.

― Cai fora ou eu te corto, sua filha da puta!

O menino sujo olhava para o chão, como se não estivesse acontecendo nada, como se não nos conhecesse, nem à sua mãe nem a mim. Fiquei brava com ele. Que mal-agradecido, esse panaca, pensei, e saí correndo. Entrei em casa o mais depressa que pude, apesar das mãos tremerem e de ter demorado para encontrar a chave. Acendi todas as luzes, no meu quarteirão não haviam cortado a eletricidade, por sorte: tinha medo de que a mãe mandasse alguém me pegar, me bater, não sabia o que podia passar pela sua cabeça, não sabia que amigos ela tinha no quarteirão, não sabia nada dela. Depois de um instante, subi ao primeiro andar e a espiei da sacada. Ela estava deitada, de barriga para cima, fumando um cigarro. O menino sujo parecia dormir a seu lado. Fui para a cama com um livro e um copo d’água, mas não conseguia ler nem prestar atenção à televisão; o calor parecia mais intenso com o ventilador ligado, que só revolvia o ar quente e atenuava os ruídos da rua.

De manhã me obriguei a tomar o café da manhã antes de sair para trabalhar. O calor já era sufocante, e o sol mal acabava de sair. Quando fechei a porta, a primeira coisa que notei foi a ausência do colchão na esquina em frente. Não restava nada do menino sujo nem da sua mãe, não haviam deixado para trás nem um saco, nem uma mancha, nem uma ponta de cigarro. Nada. Como se nunca houvessem estado ali.

O corpo apareceu uma semana depois do desaparecimento do menino sujo e da mãe. Quando voltei do trabalho, com os pés inchados pelo calor e sonhando com o frescor da minha casa de tetos altos e cômodos amplos, que nem o verão mais infernal podia esquentar totalmente, encontrei o quarteirão enlouquecido, com três patrulheiros da polícia, a faixa amarela que isola as zonas onde ocorreu o delito e um monte de gente aglomerada logo depois do perímetro. Não me custou reconhecer Lala, com seus sapatos brancos de salto e seu coque dourado; estava tão nervosa que se esquecera de pôr os cílios postiços do olho esquerdo e sua cara parecia assimétrica, quase paralisada de um lado.

― O que aconteceu?

― Encontraram uma pessoa.

― Morta?

― Claro. Degolada! Tem tv a cabo, meu amor?

Tinham cortado havia meses a conexão de Lala por falta de pagamento. Entramos em casa, deitamos na cama para ver televisão com o ventilador de teto dando giros perigosos de tão rápidos e a janela da sacada aberta, caso ouvíssemos algo da rua que valesse a pena. Em cima da cama, numa bandeja, pus um jarro de suco de laranja gelado, e Lala reinou sobre o controle remoto. Era estranho ver nosso bairro na tela, ouvir pela janela os jornalistas correndo, assomar a ela e ver as caminhonetes dos diversos canais. Era estranha a decisão de esperar os detalhes do crime pela tv, mas nós duas conhecíamos bem a dinâmica do bairro: ninguém ia falar, não a verdade, pelo menos nos primeiros dias. Primeiro o silêncio, caso algum dos envolvidos no crime merecesse lealdade. Mesmo que fosse o crime horrível contra um menino. Primeiro, a boca calada. Dentro de umas semanas começariam as histórias. Ainda não. Agora era hora da televisão.

Cedo, por volta das oito da noite, quando Lala e eu iniciamos uma longa noite que começou com suco de laranja, continuou com pizza e cerveja e terminou com uísque (abri uma garrafa que meu pai tinha me dado), a informação era sucinta: no estacionamento desativado da Calle Solís havia aparecido um menino morto. Degolado. Tinham encontrado a cabeça ao lado do corpo.

Às dez, sabia-se que a cabeça estava raspada até o osso e que não havia sido encontrado cabelo por perto. Também que as pálpebras estavam costuradas e a língua mordida, não se sabia se pelo próprio menino morto ou ― e isso arrancou um grito de Lala ― pelos dentes de outra pessoa.

Os programas noticiosos continuaram informando até altas horas, trocando jornalistas, cobrindo ao vivo da rua. Os policiais, como de costume, não diziam nada na frente das câmaras, mas forneciam constantemente informação à imprensa.

Por volta da meia-noite, ninguém ainda reclamara o corpo. Também se sabia que ele havia sido torturado: o torso estava coberto de queimaduras de cigarro. Suspeitavam de um ataque sexual, que foi confirmado por volta das duas da manhã, quando saiu o primeiro informe da perícia médica.

E até essa hora ninguém reclamava o corpo. Nem um familiar. Nem mãe nem pai nem irmãos nem tios nem primos nem moradores do bairro nem conhecidos. Ninguém.

O menino decapitado, dizia a televisão, tinha entre cinco e sete anos, era difícil calcular porque, em vida, fora mal alimentado.

― Gostaria de vê-lo ― disse a Lala.

― Não seja louca! Como vão mostrar um menino decapitado! Para que quer vê-lo? Que macabra você é. Sempre foi exibidinha, a condessa mórbida do palácio da Calle Virreyes.

― É que acho que o conheço, Lala.

― Conhece quem, o menino?

Disse que sim e me pus a chorar. Estava bêbada mas também tinha certeza de que o menino sujo era agora o menino decapitado. Contei a Lala o encontro, naquela noite em que tocou minha campainha. Por que não cuidei dele, por que não apurei como tirá-lo da mãe, por que pelo menos não lhe dei um banho! Se tenho uma linda banheira antiga, grande, que mal uso, na qual tomos chuveiradas rápidas sozinha, que muito de vez em quando desfruto um banho de imersão, por que pelo menos não tirei a sujeira dele? E, sei lá, não comprei um patinho e aqueles canudos de fazer bolhas para que ele brincasse. Tranquilamente poderia ter lhe dado um banho e depois ido tomar o sorvete. E, sim, era tarde, mas na cidade há hipermercados que não fecham nunca, e vendem tênis, e eu poderia ter lhe comprado um par, como o deixei andar descalço, de noite, por aquelas ruas escuras? Não devia tê-lo deixado voltar para a mãe. Quando ela me ameaçou com a garrafa, deveria ter chamado a polícia para que a prendessem e ficado com o menino, ou ajudar que fosse adotado por uma família que o quisesse. Mas não. Irritei-me com ele por ser mal-agradecido, por não ter me defendido da sua mãe! Irritei-me com um menino aterrorizado, filho de uma mãe drogada, um menino de cinco anos que vive na rua! Que vivia na rua, porque agora está morto, degolado!

Lala me ajudou a vomitar na privada, e depois foi comprar uns comprimidos para minha dor de cabeça. Eu vomitava de bêbada e de assustada que estava, e também porque tinha certeza de que era ele, o menino sujo, violentado e degolado num estacionamento.

Por que fizeram isso com ele, Lala, perguntei-lhe, aconchegada nos seus braços fortes, outra vez na cama, nós duas fumando lentamente nossos cigarros da madrugada.

― Minha princesa, não sei se é o seu menino que mataram, mas quando der a hora vamos à procuradoria, assim você fica sossegada.

― Você me acompanha.

― Claro.

― Mas por quê, Lala, por que fizeram uma coisa dessas.

Lala apagou o cigarro num prato ao lado da cama e se serviu outro copo de uísque. Misturou-o com Coca-Cola e mexeu o gelo com o dedo.

― Não acho que seja seu menino. Esse que mataram… Se excederam. É uma mensagem para alguém.

― É uma vingança narco?

― Só os narcos matam assim.

Ficamos caladas. Tive medo. Havia narcos assim em Constitución? Como os que me surpreendiam quando eu lia sobre o México, dez cadáveres sem cabeça pendurados numa ponte, seis cabeças atiradas de um carro na escadaria de uma casa legislativa, uma fossa comum com setenta e três mortos, alguns decapitados, outros sem braços? Lala fumou em silêncio e acertou o despertador. Decidi faltar ao trabalho para ir direto à procuradoria.

De manhã, ainda com dor de cabeça, preparei café para as duas, para Lala e para mim. Ela pediu para usar o banheiro, ouvi o chuveiro e soube que ia passar pelo menos uma hora lá dentro. Liguei outra vez a tv: o jornal não trazia nenhuma informação nova. Nem ia encontrá-la na internet, que seria sobretudo um caldeirão de boatos e de loucura.

O noticiário da manhã dizia que aparecera uma mulher reclamando o filho decapitado. Uma mulher chamada Nora, que havia chegado ao necrotério com um bebê recém-nascido nos braços e alguns familiares. Quando ouvi falar no “bebê recém-nascido”, meu coração deu uma pancada no peito. Era definitivamente o menino sujo, então. A mãe não tinha ido buscar o corpo antes porque ― que casualidade mais espantosa ― a noite do crime havia sido a noite do parto. Fazia sentido. O menino sujo tinha ficado sozinho enquanto sua mãe paria, e então… Então o quê? Se era uma mensagem, se era uma vingança, não podia ser dirigida a essa pobre mulher que havia dormido em frente à minha casa tantas noites, essa moça viciada que devia ter pouco mais de vinte anos. Só se fosse o pai: isso, o pai. Quem seria o pai do menino sujo? Mas aí as câmaras enlouqueceram, os cameramen corriam, os comentaristas ficavam sem fôlego, todos se atiravam sobre a mulher que saía da procuradoria e gritavam “Nora, Nora, quem você acha que fez isso com o Nachito?”.

― Ele se chamava Nacho ― sussurrei.

E de repente lá estava Nora, na tela, num primeiro plano do seu pranto e dos seus gritos, e não era a mãe do menino sujo. Era uma mulher completamente diferente. Uma mulher de uns trinta anos, já grisalha, morena e muito gorda, os quilos que havia ganhado na gravidez, decerto. Quase o contrário da mãe do menino sujo.

Não se entendia o que gritava. Caía, alguém a amparava por trás, com certeza uma irmã. Mudei de canal, mas todos mostravam aquela mulher gritando, até que um policial se interpôs entre os microfones e os gritos, e apareceu um patrulheiro para levá-la. Havia muitas novidades. Contei-as a Lala sentada no vaso sanitário, enquanto ela se barbeava, arranjava a maquiagem, prendia o cabelo num coque prolixo.

― O menino se chama Ignacio. Nachito. E a família deu parte do seu desaparecimento domingo, mas quando viram na televisão o que acontecia acharam que era seu filho porque esse menino, Nachito, desapareceu em Castelar. São de Castelar.

― Mas é longe demais! Como veio parar aqui? Ai, princesa, que incrível tudo isso. Vou cancelar todas as minhas clientes, já decidi. Não dá para cortar cabelo depois disso.

― Está com o umbigo costurado também.

― Quem, o menino?

― Sim. Parece que lhe arrancaram as orelhas.

― Rainha, neste bairro ninguém mais vai dormir, é o que te digo. Aqui somos delinquentes, mas isso é satânico.

― É o que estão dizendo. Que é satânico. Não; satânico não. Dizem que foi um sacrifício, uma oferenda a São Morte.

― Salve Pombajira, salve Maria Padilha!

― Ontem à noite te contei que o menino me falou de São Morte. Não é ele, Lala, mas ele sabia.

Lala se ajoelhou à minha frente e cravou em mim seus enormes olhos escuros.

― A senhora, princesa, não vai decidir nada disso. Nada. Nem na procuradoria nem nada. Ontem à noite eu estava louca para te deixar ir falar com a juíza. Não, não, não, somos um túmulo, com o perdão da palavra.

Eu a escutei. Ela estava certa. Eu não tinha nada a dizer, nada a contar. Apenas uma caminhada noturna com um menino de rua que havia desaparecido, como costumam desaparecer os meninos de rua. Seus pais se mudam de bairro e os levam junto. Unem-se a um bando de crianças ladras ou de lavadores de vidro na avenida ou de mulas de droga; quando os usam para vender droga, têm que mudá-los várias vezes de bairro. Acampam numa estação de metrô. Os meninos de rua nunca ficam no mesmo lugar; podem demorar um tempo, mas sempre se vão. Também fogem dos pais. Ou vão embora porque aparece um tio distante que se compadece e o leva para casa, longe, no Sul, uma casa numa rua de terra, para compartilhar um quarto com cinco irmãos, mas pelo menos está sob um teto. Não era nem um pouco estranho que mãe e filho houvessem desaparecido de um dia para o outro. O estacionamento onde o menino decapitado aparecera não ficava no percurso que o menino sujo e eu havíamos feito naquela noite. E aquela história de São Morte? Casualidade. Lala dizia que o bairro estava cheio de devotos de São Morte, todos os imigrantes paraguaios e o pessoal de Corrientes eram fiéis do santinho, mas isso não os transformava em assassinos; ela era devota da Pombajira, que tem o aspecto de uma mulher demônio, com chifres e tridente, e por acaso isso fazia dela uma assassina satânica?

Claro que não.

― Quero que fique uns dias comigo, Lala.

― Óbvio, princesa, eu mesma arrumo meus aposentos.

Lala adorava minha casa. Ela gostava de pôr música bem alto e descer as escadas lentamente, com seu turbante e um cigarro, uma mulher fatal negra, “sou Josephine Baker”, dizia, e depois se lamentava por ser a única travesti de Constitución que tinha alguma ideia de quem era Josephine Baker. “Você não tem a menor ideia de como essas meninas novas são toscas, ignorantes e ocas como um cano d’água. Cada vez piores. O mundo está perdido.”

Para mim, era difícil andar pelo bairro com a segurança de antes do crime. O assassinato de Nachito havia exercido um efeito quase narcótico nessa parte de Constitución. De noite não se ouviam brigas, os dealers tinham se mudado para alguns quarteirões mais ao sul. Havia polícia demais tomando conta do lugar onde o corpo fora encontrado, que, diziam os jornais e os investigadores, não tinha sido a cena do crime. Alguém o depositara, já morto, no velho estacionamento.

Na esquina onde o menino sujo e sua mãe costumavam dormir, os moradores fizeram um altar para o Degoladinho, como o chamavam. E puseram uma foto que dizia “Justiça para Nachito”. Apesar das aparentes boas intenções, os investigadores não acreditavam muito na comoção do bairro. Ao contrário: pensavam que poderiam estar encobrindo alguém. Por isso a procuradoria havia mandado interrogar muitos moradores.

Também me chamaram para depor. Não avisei Lala, para que não ficasse desesperada. Ela não recebera nenhuma notificação. Foi uma entrevista bem curta, e eu não disse nada que pudesse ajudá-los.

Naquela noite dormi profundamente.

Não, não ouvi nada.

Há vários meninos de rua no bairro, sim.

Mostraram-me a foto de Nachito. Neguei tê-lo visto. Não mentia. Era completamente diferente dos meninos do bairro: um gorducho de covinhas e cabelo bem penteado. Eu nunca havia visto um menino assim (e sorridente!) em Constitución.

Não, nunca vi altares de magia negra na rua ou em alguma casa. Somente do Gauchito Gil. Na Calle Ceballos.

Se eu sabia que o Gauchito Gil morrera degolado?

Sim, todo o país conhece o mito. Não creio que tenha a ver com o Gauchito, vocês sim?

Não, claro que não têm de me responder nada. Bom, seja como for, não creio, mas não sei nada sobre rituais.

Trabalho como designer gráfica. Para um jornal. Para o suplemento de Moda & Mulher. Por que moro em Constitución? O imóvel é da minha família e é uma casa bonita, podem ver quando forem ao bairro.

Claro que aviso se ouvir alguma coisa, não há dúvida, estou a seu dispor. Sim, demoro para dormir, como todos. Estamos com muito medo.

É claro que não desconfiavam de mim, mas tinham que falar com os moradores. Voltei para casa de ônibus, a fim de evitar os cinco quarteirões que tinha de percorrer se fosse de metrô.

Desde o crime, eu preferia não pegar o metrô porque não queria encontrar o menino sujo. E, ao mesmo tempo, queria voltar de uma maneira obsessiva, doentia, a vê-lo. Apesar das fotos, apesar das provas ― inclusive das fotos do cadáver, que um jornal havia publicado, para falso escândalo e horror público, e que esgotou várias edições com o menino decapitado na primeira página ―, eu continuava acreditando que o menino sujo era o morto.

Ou que seria o próximo morto. Não era uma ideia racional. Disse isso a Lala no salão, na tarde em que resolvi voltar a tingir as pontas de rosa, um trabalho de horas. Agora ninguém folheava revistas nem pintava as unhas nem enviava mensagens de texto quando tinha de esperar sua vez no salão de Lala. Agora só se falava do Degoladinho. O tempo de silêncio prudencial tinha se esgotado, mas eu ainda não ouvira dizer que alguém houvesse apontado um suspeito, senão de maneira geral. Sarita contava que no seu povoado, no Chaco, tinha acontecido algo parecido, mas com uma menina.

― Encontraram-na com a cabeça ao lado, também, e muito violentada, pobre alminha, estava toda cagadinha.

― Sarita, por favor! ― disse Lala.

― Mas se foi assim, o que você quer que te conte? São coisas de bruxos.

― A polícia acha que são os narcos ― disse eu.

― Está cheio de narcos bruxos ― disse Sarita. ― Lá no Chaco você não imagina como é. Fazem rituais para pedir proteção. Por isso cortaram a cabeça dela e a puseram do lado esquerdo. Acreditam que se fizerem essas oferendas a polícia não os pega, porque as cabeças têm poder. Não são apenas narcos, também estão envolvidos na venda de mulheres.

― Mas você acha que tem disso aqui em Constitución?

― Estão em toda parte ― disse Sarita.

Naquela noite, sonhei com o menino sujo. Eu saía à sacada e ele estava no meio da rua. Eu lhe fazia sinais com a mão para que se mexesse, porque vinha um caminhão em disparada. Mas o menino sujo continuava olhando para cima, olhando para mim e para a sacada, sorrindo, os dentes sujos e miúdos. E o caminhão o atropelava e eu não podia evitar ver como a roda arrebentava a barriga dele como se fosse uma bola de futebol e arrastava seus intestinos até a esquina. Mas a cabeça do menino sujo, ainda sorridente e com os olhos abertos, permanecia no meio da rua. Acordei suando, tremendo. Da rua chegava uma música preguiçosa. Pouco a pouco voltavam alguns sons do bairro, as brigas de bêbados, a música, as motos com o escapamento aberto para fazer barulho, coisa que os adolescentes adoravam. A investigação corria sob sigilo sumário, uma maneira de dizer que a desorientação era total. Visitei várias vezes minha mãe e, quando me pediu que mudasse para a casa dela, ao menos por um tempo, eu disse que não. Ela me chamou de louca e discutimos aos berros, como nunca.

Naquela noite eu voltava tarde porque, depois do trabalho, fui ao aniversário de uma colega. Era uma das últimas noites de verão. Voltei de ônibus e desci antes, para caminhar pelo bairro, sozinha. Já sabia me movimentar novamente. Se você sabe se movimentar, Constitución é bastante fácil. Ia fumando. Então a vi.

A mãe do menino sujo era magra, sempre foi magra, inclusive quando grávida. Por trás, ninguém teria adivinhado seu barrigão. É o físico típico das dependentes: as cadeiras continuam estreitas como se resistissem a deixar espaço para o bebê, o corpo não produz gordura, as coxas não se alargam, aos nove meses as pernas são dois palitos frágeis que sustentam uma bola de basquete, uma mulher que engoliu uma bola de basquete. Agora, sem a barriga, a mãe do menino sujo parecia mais do que nunca uma adolescente, encostada numa árvore, tentando acender seu pequeno cachimbo de crack à luz do poste, sem se incomodar com a polícia ― que rondava muito mais o bairro depois do crime do Degoladinho ― nem com os outros viciados, nem com nada.

Aproximei-me devagarinho e, quando ela me viu, houve um reconhecimento imediato nos seus olhos. Imediato! Os olhos se estreitaram, se estreitaram: quis sair correndo, mas alguma coisa a deteve. Um enjoo, talvez. Esses segundos de hesitação me bastaram para impedir sua passagem, parar em frente dela, obrigá-la a falar. Empurrei-a contra a árvore e a mantive ali. Ela não tinha força suficiente para resistir.

― Onde está seu filho.

― Que filho. Me larga.

As duas falávamos baixo.

― Seu filho. Você sabe muito bem do que estou falando.

A mãe do menino sujo abriu a boca e fiquei nauseada com seu hálito de fome, doce e podre como uma fruta ao sol, misturado ao cheiro medicinal da droga e àquele fedor de queimado permanente; os drogados fedem a borracha fumegante, fábrica tóxica, água poluída, morte química.

― Não tenho filhos.

Apertei-a mais contra a árvore, agarrei-a pelo pescoço. Não sei se ela sentia dor, mas cravei as unhas nela. Tanto fazia, não ia mesmo se lembrar de mim dentro de algumas horas. Eu também não tinha medo da polícia. Além do mais, não iam se preocupar muito com uma briga entre mulheres.

― Vai me dizer a verdade. Até outro dia você estava grávida.

A mãe do menino sujo quis me queimar com o isqueiro, mas pude perceber sua intenção, a mão fina que queria aproximar a chama do meu cabelo, queria me tocar fogo, a filha da puta. Apertei seu pulso com tanta força que o isqueiro caiu na calçada. Parou de resistir.

― eu não tenho filhos! ― gritou, e o grito da sua voz grossa demais, doente, me despertou.

O que eu estava fazendo? Estrangulando uma adolescente moribunda em frente à minha casa? Vai ver que minha mãe tinha razão. Vai ver que eu tinha mesmo que me mudar. Vai ver, como me dissera, que eu tinha uma fixação pela casa porque me permitia viver isolada, porque ali ninguém me visitava, porque estava deprimida e inventava histórias românticas sobre um bairro que, na verdade, era uma merda, uma merda, uma merda. Foi o que minha mãe gritou e eu jurei não voltar a falar com ela, mas agora, com o pescoço da mocinha dependente entre as mãos, pensei que ela podia ter alguma razão.

Que eu não era a princesa no castelo, mas a louca trancada na torre.

A moça viciada se soltou da minha mão e pôs-se a correr, devagar: estava meio sufocada. Mas quando chegou à metade do quarteirão, justo onde o poste principal a iluminava, se virou. Ria e a luz deixava ver que suas gengivas sangravam.

― Eu o dei! ― gritou.

O grito foi para mim, olhava nos meus olhos, com aquele horrível reconhecimento.

Depois acariciou o ventre vazio com as mãos e disse, bem alto e claro:

― Este também eu dei. Prometi os dois.

Corri atrás dela, mas era rápida. Ou tinha se tornado rápida de repente, não sei. Atravessou a Plaza Garay como um gato e consegui segui-la, mas quando os carros arrancaram na avenida ela conseguiu atravessar entre eles, eu não. Eu mal respirava. Minhas pernas tremiam. Alguém se aproximou para me perguntar se a garota tinha me roubado e eu disse que sim, com esperança de que a perseguissem. Mas não: só me perguntaram se eu estava bem, se queria tomar um táxi, o que tinham me roubado.

Um táxi, sim, falei. Parei um e pedi que me levasse para casa, somente cinco quarteirões. O taxista não se queixou. Estava acostumado a esse tipo de corridas breves naquele bairro. Ou vai ver que não estava a fim de resmungar. Era tarde. Devia ser sua última corrida antes de voltar para casa.

Quando fechei a porta de casa não senti o alívio dos cômodos frescos, da escada de madeira, do pátio interno, dos azulejos antigos, dos tetos altos. Acendi a luz, e a lâmpada piscou. Vai queimar, pensei, vou ficar no escuro, mas por fim se estabilizou. Embora desse uma luz amarelada, antiga, de baixa tensão. Sentei no chão, com o ombro encostado na porta. Esperava a batida suave da mão pegajosa do menino sujo ou o barulho da sua cabeça rolando escada abaixo. Esperava o menino sujo que ia me pedir, outra vez, que o deixasse entrar.

Cadelas


jorge enrique lage
Não sei o que estou fazendo neste lugar, me disse Amy Winehouse. É verdade que sofro de depressão, sou um pouco anoréxica, um pouco bulímica, não estou cem por cento bem, mas não creio que nenhuma mulher cubana esteja.

Uma enfermeira passou diante de nós empurrando um carrinho.

Conhece alguma mulher que não tenha seus problemas aqui em cima?, me perguntou Amy Winehouse com um sorriso, batendo na têmpora com o indicador.

Minha resposta foi sorrir também. Pensava em quantas mulheres ela teria conhecido. E, sobretudo, que tipo de mulheres.

Olhe, disse ela, esta é a minha mãe.

Me mostrou uma foto. Uma mulata jovem e alegre posava na entrada de uma casa de madeira. Ao lado dela, abraçada à sua cintura, havia um menino.

Minha casa, lá em Baracoa, disse Amy, e acariciou com uma unha comprida, esmaltada de vermelho, a cabecinha do menino da foto. Este sou eu. Tinha sete anos.

Olhei mais atentamente, e sim, era ela sem dúvida, vinte anos mais moça e com muitos hormônios a menos, olhei e a imagem ficou impressa na minha memória. Tempos depois, voltaria a meus olhos, como um flash, quando a mulata jovem e alegre apareceu na porta da minha casa subitamente envelhecida e com os olhos cansados pelo pranto.

Perguntei a ela se tinha ido à polícia. A mulher fez que sim:

― Me disseram que iam cuidar do assunto, me garantiram que fariam todo o possível… Mas já passaram três dias e eu sem ter notícias… Estou desesperada. Hoje voltei à unidade, perguntei, falei com outros funcionários, falei com os superiores, e todos me disseram para não me preocupar, que meu filho já era um adulto responsável, que vai ver tinha ido para os Estados Unidos, que com certeza eu logo ia saber dele…

Ofereci-lhe um copo d’água. Continuou entre soluços:

― Ele não iria para lugar nenhum, tenho certeza…. Vim porque ele me chamou, queria que eu viesse visitá-lo, queria que conversássemos, sentia-se muito sozinho… Até me disse que quem sabe voltava comigo para Baracoa, porque não suportava mais Havana…

― Contou isso à polícia, suponho ― insisti.

― Sim, tudo, tudo. Dei a eles seu nome, sua descrição, umas fotografias velhas que eu tenho… Mas hoje não pareciam mais interessados no caso, me trataram como se eu fosse uma mãe histérica inventando uma tragédia.

Olhou suplicante para mim, talvez tentando descobrir se eu era da mesma opinião. Pensei que a maior tragédia era como aquilo tudo soava lógico.

― No hospital me sugeriram que fosse vê-lo, me deram seu endereço ― esclareceu. ― No último dia que meu filho esteve lá o viram muito com você… Eram amigos?

― Bom, na verdade…

― Qualquer coisa que souber, por favor, qualquer coisa que me ajude a encontrar meu menino… Ficarei eternamente agradecida.

O que eu podia dizer? Que voltasse no mesmo trem em que veio? Que fosse para o outro extremo da ilha contemplar o oceano dos nossos desaparecidos?

Me perguntei o que teria dito o Autista numa situação semelhante.

Se você tivesse me visto no dia em que cheguei a Havana, me disse Amy Winehouse. Esse esplêndido corpo era outra coisa. Eu parecia um cabo de vassoura com roupa de homem.

Ainda não havia sacudido a poeira da província de Guantánamo quando conheceu o amor da sua vida. O cara a levou para morar com ele, instalou-a com todo o conforto a seu alcance num quartinho perto do Malecón. Ali sonharam projetos e viveram agarradinhos, em permanente lua de mel.

Não podíamos nos casar, disse Amy, mas ele era meu marido. Um dia me deu de presente um vestido curto, sapatos, uma bolsa cheia de todo tipo de maquiagem… E uma peruca lindíssima. Nessa noite eu me vesti para ele, e saímos. Encontramos com vários estrangeiros que ele já conhecia. Um deles me levou para um hotel e depois de se deitar comigo me deu oitenta dólares. Foi incrível. Oitenta dólares! Nunca na vida tinha tido tanto dinheiro nas mãos. Nunca tinha me sentido tão bem. Meu marido e eu comemoramos em grande estilo. Comemos, trepamos, tomamos rum… Passados dois dias, voltei à carga; dessa vez cobrei cem euros. Era como se eu estivesse tocando o céu com as mãos. Comecei a me vestir três, quatro vezes por semana. Choveu dinheiro. Meu marido me comprava as melhores roupas, os sapatos mais caros. “Vou fazer de você uma diva, mami”, me sussurrava no ouvido, e eu repetia: “Te amo, papi, te amo”. Continuamos trepando como animais, mas agora em vez de rum aspergíamos a goela com litros e litros de uísque. Eu estava tomando os hormônios que ele me arranjava, um vidro depois do outro. Uns hormônios ótimos, claro, fabricados na Inglaterra. Eu me olhava no espelho e me achava linda, divina, estava vivendo dentro de um sonho. Até que… ele desapareceu.

Passei uma semana sem saber do meu marido, chorando e tremendo de medo. Por fim ligou. Estava em Miami. Tinha ido num desses barcos ilegais. Ele me disse: “Sinto muito, mami, não podia te dizer nada ou a coisa complicava pra mim”. Gritei, esperneei, arranhei as paredes, e ele me acalmou dizendo que assim que pudesse viria me buscar, que íamos nos encontrar logo na gringa. Lembro que, quando desliguei o telefone, caí na cama sem forças pra me levantar. Estendi o braço, peguei uma garrafa e enchi a cara até perder os sentidos. Quis me matar. Queria que o álcool me matasse. Falando sério, eu estava um lixo. Mas então, depois da ressaca mais horrível da minha vida, eu disse a mim mesma que tinha de olhar para a frente. Tinha de seguir meu caminho. Porque eu não tinha vindo para a capital pra desmoronar como um dos seus velhos edifícios, mas sim para triunfar… Não estou te chateando com minha história, né?

Claro que não, disse a ela cortesmente.

Ela acendeu um cigarro e ficou pensativa, olhando para o céu por uma das janelas do hospital psiquiátrico. Intuí que seu relato ia ter um tom de náusea, de inferno, um tom de música popular que não se escuta no rádio.

Amy Winehouse, guajira guantanamera, pensei estupidamente.

Me encontrei com o Autista num dos novos cafés de El Vedado. O Lateral. Sabia que ia encontrá-lo ali. Estava sentado perto do balcão, vendo na tv uma partida de futebol da Premier League. Levou alguns segundos para me reconhecer.

― Londres, Londres ― falou. ― A bola roda até aqui, mas aqui não sabemos chutá-la. Que fazer? A pergunta de Lênin. Os que se sentam num café e decidem fazer isso ou aquilo não têm futuro. As circunstâncias históricas é que decidem.

O Autista deve esse apelido a uma singular conjunção: sua carência de expressões faciais e sua estranha maneira de falar. Amiúde dizia coisas que só ele entendia, como se estivesse falando consigo mesmo, ou metido dentro de si mesmo: uma linguagem privada.

A partida acabou. Tottenham e Arsenal empataram por dois a dois.

― Lembra de tudo o que eu te disse da Winehouse? ― fui direto ao assunto. ― Pois acho que alguma coisa aconteceu. A mãe dela veio me ver. Me acompanhe numas investigações que vou fazer e pelo caminho te conto.

O Autista olhou para mim com sua cara desprovida de expressão e disse:

― É sempre a mesma coisa neste país. Você, eu e uma mulher morta.

A primeira decisão que tomei foi fazer uma tatuagem, me disse Amy Winehouse. Creio que foi uma maneira de adquirir mais controle sobre meu próprio corpo. Gravei o nome do meu marido entre os peitos, acima do coração, e ao lado pus uma lágrima negra como símbolo da minha tristeza por estar longe dele. Senti que minha dor ia clareando, como a tinta, na dor que a agulha na pele me provocava. Isso me agradou. Tornei-me viciada nessa dor. Sou assim: me vicio facilmente. Continuei me tatuando sem parar, como você pode ver. Não sei quantas tatuagens eu fiz. Perdi a conta.

Eu tentava contar suas tatuagens visíveis, as que ostentava nos braços e nas pernas: figuras humanas, figuras muito femininas. Bonequinhas pin-up, algumas com os peitões à mostra. Ícones old school: Betty Boop, Jessica Rabbit…

Amy Winehouse enxugou algumas lágrimas. Eu me perguntei se era a lembrança de velhas agulhas na pele que a tinha feito chorar. Mas se recuperou no mesmo instante: depois de esfregar os olhos remexeu na bolsa, pegou uns óculos e os pôs. Agora seus olhos eram verdes e brilhavam num lamaçal de delineador escorrido.

Eu criei um novo look pra mim com esses olhos e esse cabelo, que é meu natural, sabe?, não é peruca, disse apontando para o penteado afro que se erguia sobre sua cabeça. Tinha que sair para conquistar a noite, lutar pelo dinheiro… Mas quando você está sozinha tudo é mais difícil. Eu era nova nas ruas, e as velhas travestis de Centro Havana começaram a me ver como uma ameaça. Não me queriam nos seus domínios. Defendiam suas esquinas, seus parques mal iluminados, seus cantos imundos entre as ruínas como se eu fosse tomá-los delas… Elas tinham é inveja! Eu era toda glamour e elas pareciam uns palhaços de salto alto. Quando eu me aproximava de um grupinho, ouvia coisas como: “Olhe quem está passando, a cabeluda que caiu do palco, hahaha”. Cadelas invejosas… Ah, mas não sabiam com quem estavam se metendo. Uma noite respondi às provocações. “Quer ver como te corto o pau e enfio no teu cu?”, disparei para uma delas. A partir daí as coisas foram de mal a pior. A primeira com quem saí na porrada terminou com a cabeça careca dentro de uma sarjeta. Esvaziei no nariz de uma outra a caneca de rum que eu sempre levava comigo, escondida na bolsa. Eu também recebia meus sopapos, claro, mas não ligava. Fui ganhando respeito nessas brigas de rua, que muitas vezes terminaram no posto policial…

E então Amy começou a se dar conta de que as outras eram soltas em poucas horas, mas ela, ela deixavam até um dia inteiro no xadrez. E que em certas ocasiões faziam-na entrar sem mais nem menos no carro patrulha, algemada. E que quase sempre era o mesmo carro com os mesmos dois caras.

Certo dia, essa patrulha para em frente de mim, disse. Eu estava andando, ia sozinha, não estava fazendo nada. Um dos agentes desce e me manda entrar no carro. “O que foi dessa vez, menino?”, pergunto a ele. “Estou violando alguma lei?” Ele sorri e aponta para a porta de trás. Eu entro. Arrancamos. O que dirige pergunta meu nome. “Amy”, respondo. “Vamos dar uma voltinha, Amy”, ele me diz. Quando a patrulha pegou a Zanja, pensei que estavam me levando de novo para o posto de polícia. Mas não.

A caminho do posto na esquina da Zanja com a Dragones, ou Unidade Municipal da pnr ― a Polícia Nacional Revolucionária ―, o Autista tapou os ouvidos com seus fones. Parecia decidido a aumentar seu isolamento.

― O que você está ouvindo? Quer dizer, se é que está ouvindo alguma coisa.

― Jazz ― respondeu.

― Desde quando gosta de jazz?

Entramos no velho quartel e nos dirigimos à mesa de atendimento.

― Bom dia, em que posso ajudá-lo? ― me perguntou uma oficial jovem.

― Gostaria de falar com dois patrulheiros, mas não tenho a placa do carro.

― Sabe o nome deles?

Hesitei. Os nomes que eu tinha certamente eram falsos.

― Sombras chinesas ― disse o Autista. ― Afinal de contas, detrás de cada camada de cebola há outra camada de cebola, e uns tantos fetos, demônios nacionalistas…

― Cale a boca ― pedi em voz baixa. A jovem policial começava a olhar para mim com ar preocupado. ― Olhe, acontece que…

― Algum problema, companheiro? Quer apresentar uma queixa por maus-tratos? Uso indevido da força? É isso?

― Não… Não exatamente. Eu… ― Percebi que vários uniformes azuis retardavam seus passos, parando perto da mesa para ouvir a mim e ao Autista. ― Pelo que sei, eles detiveram várias vezes um jovem travesti que agora está desaparecido. A mãe dele veio me contar faz uns dias. Quero escrever alguma coisa sobre ele.

― Sobre o rapaz que foi de barco para os Estados Unidos? ― disse um homem atrás de nós. Ao me virar, observei nos seus ombros a patente de major. ― Pobre mulher. O filho dela tinha problemas, sabe? Com o álcool, com as drogas… Você é jornalista?

― Não. Só quero escrever uma história baseada em fatos reais.

― Mas se a imaginação é o melhor que há! ― Ele me deu um tapa afetuoso no ombro e se dirigiu a outro recém-chegado, um oficial grisalho e sorridente. ― Não é, Santiesteban?

Quando fomos embora, o Autista me disse:

― Essa paisagem cáustica é a nova época, com suas muitas postagens, suas muitas falhas de sistema e suas muitas peças de reposição… Mas pelo menos continuamos sendo inocentes.

Em nenhum momento tinha tirado os fones de ouvido.

Já estavam de olho em mim, estavam me caçando, me disse Amy Winehouse. Eram dois negros grandes e fortes. Eu me lembro como se fosse hoje. Primeiro quiseram saber de onde eu era. Disse-lhes que tinha nascido em Baracoa, mas que vivia em Havana fazia muitos anos. “Que coisa”, disse um deles, “você não perdeu o sotaque.” “Nem a vozinha de homem”, disse o que dirigia, o mais moço. “Não se meta com ela, compadre”, disse o outro. “Vai ver que esteve guardada em casa, como uma boa menina, até que resolveu sair para exercer a prostituição. Por isso não a tínhamos visto antes.” Disse-lhes que mais putas eram suas respectivas mães, que eles não tinham me pegado fazendo nada disso, não tinham provas. Eles me disseram que era verdade, que até agora só haviam me pegado agredindo outras putas, mas que sempre me soltaram apesar de poderem apresentar acusações de ofensa à ordem pública e periculosidade pré-delitiva. O que estava ao lado do motorista esticou a mão para trás, apertou minha coxa e disse: “Então você não cobra? Faz grátis?”. Fiquei calada olhando pela janela. Ele prosseguiu: “Fique sossegada, se bem entendi, você precisa do dinheiro para comprar comida, roupa, esse aspecto de roqueira sensual…”, e eu comecei a me lembrar de todos esses filmes americanos em que a polícia sempre te diz que você tem direito a permanecer em silêncio porque tudo o que disser vai ser usado contra você. Estava morta de medo, mas ao mesmo tempo estava me excitando… O motorista acrescentou: “E para o aluguel também, tenente”, e o tenente tirou a mão suada de cima de mim e disse que sim, que os aluguéis estavam nas nuvens, por isso eles se viam no dever de me ajudar, e então me prometeram que iam falar com um amigo, Angelón, para ver se ele podia me emprestar o quarto que tinha vago no seu apartamento. Eu não ia ter que pagar nada ao Angelón. Disse a eles: “Não, obrigada”, embora a oferta fosse tentadora. Já era de noite. Pararam a patrulha na esquina mais escura que encontraram. O motorista abriu a porta e, quando eu estava descendo, levantou meu vestido bruscamente e me… me acariciou o volume entre as pernas. Soltei-lhe um murro de que ele esquivou, rindo como um depravado. “Suas bichas!”, gritei. “Vocês não passam de um par de bichas. Vou denunciar vocês por estarem me bolinando!” E o outro disse: “Isso, vá à unidade para ver se acreditam em você. Este é o sargento Yasmani, vulgo Micha,* e eu sou o tenente Alexander, mais conhecido como Chacal. Gravou?”. Me afastei o mais depressa que pude, quem dera pudesse ter corrido com os malditos saltos altos. E ainda, quando passaram a meu lado, o sargento diminuiu a velocidade, pôs a cabeça para fora da janela e soltou: “Não se sinta mal pelo que eu te disse, mami. Você tem uma voz linda. Devia ser cantora”.

O apartamento ficava no bairro chinês. Um cachorro começou a latir quando tocamos a campainha. “Cala a boca, Ministro!”, gritou uma voz, e em seguida assomou na porta um gordo imenso, sem camisa, que parecia um Buda.

― Sim, a mãe veio à procura dela outro dia… ― disse Angelón quando lhe explicamos o motivo da visita. ― Vou te dizer a mesma coisa que disse a ela. Para mim, seu filho… ou sua filha se mandou para Miami atrás do tal marido que tinha. Falava disso o tempo todo.

O apartamento era pequeno, mas luxuoso. Numa tela plana do tamanho de um cinema se via um especial da Telesur sobre Hugo Chávez. Ministro, um robusto pastor-alemão, tentava me farejar do canto onde estava acorrentado.

― Por que ela veio morar aqui? ― perguntei.

― Por que não? O quarto é cômodo, e eu alugo barato.

― Fiz uma contagem de cabeças ocas e cabeças cortadas ― disse o Autista. ― Sem dúvida há mais cabeças cortadas. Embora na eternidade elas se confundam.

Contive o impulso de interrompê-lo. Por isso lhe pedi que viesse, ponderei. Por essas coisas que ele diz. A seu lado eu me sinto racional e efetivo. A seu lado sou um cara em pleno contato com a realidade.

― Ela se prostituía?

― Não posso lhe dizer com certeza… ― respondeu Angelón olhando para o caderno que eu havia tirado do bolso para aparentar que tomava notas. ― Quase sempre saía de noite e voltava ao amanhecer, bêbada, e inclusive às vezes um pouco doida, sei lá, como se estivesse drogada…

― Alguma vez veio com droga? O senhor a viu consumir drogas aqui?

― Eu não a revistava, meu irmão, nem andava atrás dela vigiando-a… Olhe, não tenho preconceito contra os travestis. Alguns são pessoas decentes, trabalham nos seus shows, essas coisas. Mas este dava para ver a léguas que era problemático. Cheio de tatuagens, com uma tremenda pinta de delinquente… Não sei se em prostituição, mas com certeza andava metido em alguma coisa ruim. Se o aceitei como inquilino é porque sou um anjo, gosto de ajudar as pessoas.

― Ou seja, não vinha ninguém aqui ficar com ela ― precisei eu. ― Estrangeiros, por exemplo.

― Não, claro que não. ― O rosto de Angelón começava a se endurecer. ― Nesta casa tudo é legal. Eu pago meus impostos.

― O senhor tem amigos na polícia?

Olhou para mim por uns instantes, hesitando, antes de relaxar as feições.

― Está falando por causa do cachorro, não é?

Olhei para o Ministro, que estava latindo outra vez, furioso.

― Claro ― falei ―, que mais poderia ser.

― Você tem bons olhos. Sim, é um cachorro policial. Trabalhava na brigada canina do município. Agora está aposentado. Eu o adotei, mas já estou me arrependendo, porque é um cachorro muito mal-acostumado, imagine, a única coisa que come é carne… Já vou, Ministro, para de encher o saco!

Entre latidos que ricocheteavam na parede, vi Angelón tirar um bife fibroso de uma geladeira que imaginei repleta da melhor carne. Descongelou-o no micro-ondas e depois o passou várias vezes de um lado e de outro numa frigideira.

― Tenho que lhe dar de comer a todo instante, está sempre faminto ― queixou-se. ― Creio que é pela ansiedade, a mudança de estilo de vida. Desse jeito vai terminar mais estufado que eu.

Num segundo, o filé voou da cozinha para os caninos do pastor-alemão.

O Autista me devolveu o caderno. Ele o pegara sem que eu me desse conta. Escreveu: destrua suas frases livres.

― Escute, a croniquinha que você está fazendo… ― disse Angelón, quando já estávamos indo embora ―, acha que posso lê-la?

Duas noites depois tornaram a me interceptar, me disse Amy Winehouse. Como havia gente nos arredores, Yasmani fingiu que pedia meus documentos antes de me enfiar na patrulha. Quando arrancamos, perguntei quanto tempo iam me perseguir, porque eu gostava de pegar homens, mas não que os homens me pegassem… “E que os homens te agarrem? Disso sim você gosta, hein?”, me disse Alexander se fazendo de engraçadinho. “Babaca”, repliquei. “Você não me conhece.” Então ele disse que era verdade, que não me conhecia, mas que mesmo assim estava me ajudando. Porque eles já tinham falado com Angelón e este havia aceitado me hospedar na sua casa, grátis, todo o tempo que eu quisesse. “E o que acontece se eu não quiser?”, perguntei a eles, e Alexander me disse: “Menina, você quer voltar deportada para Guantánamo? Não é que a parte oriental seja ruim, viu, eu sou de Holguín, e o sargento é de Bayamo, mas vê-se que você gosta pacas de Havana, não é verdade?”. Fiquei pensando. Estávamos perto do terminal de trens. Yasmani entrou num beco solitário e parou a patrulha, desligando o motor. Perguntei se era a sério o tal quarto grátis. Alexander aproximou a cara de mim e disse que os orientais estavam aí para se ajudarem. Yasmani já tinha posto o pau para fora… Mantinha-o de pé… Era enorme… Ai, não sei se devo te contar isso…

Me contou tudo. Porque, embora não confiasse muito nas terapias, disse, sabia que o principal, o mais importante, o mais difícil, era se abrir.

Apartou as nádegas e sentou-se em cima da ereção de Alexander, que tinha passado para o banco de trás. Começou a se mexer em cima do tenente enquanto Yasmani a puxava pelo pescoço até enfiar-lhe a pica na boca. Depois foi o sargento que a pôs de barriga para baixo e a comeu, enquanto dava bundadas e lhe dizia “Que gostoso, puta, isso, assim…”. Os dois no chão da patrulha. Terminou toda amarrotada e com o cabelo que era um desastre.

Me senti uma merda, disse Amy. Sempre me sinto assim, uma merda da cabeça aos pés. Mas não posso te negar que havia tido minhas fantasias a respeito… Negrões, caras fardados… Enfim, agora não quero nem me lembrar disso. Me deixaram estirada na rua com o endereço do tal do Angelón escrito num pedaço de papel. E antes de irem embora, me enfiaram na bolsa um pacote para levar pra ele. Um saquinho com erva.

Maconha?, perguntei.

Fala baixo, menino, que estamos num hospital.

A patrulha surgiu do nada, de entre as gretas e o torpor do asfalto. Os dois agentes desceram do veículo e nos fizeram sinais. Eram eles.

― Você é que foi à unidade perguntar por nós? ― perguntou Micha.

― Tenho uns tênis que foram fabricados com plástico duro demais ― disse o Autista. ― Quando ando na minha velocidade máxima, é doloroso.

Essas coisas surgiam da sua cabeça como um ricochete, um eco, como letras de canções lascadas, como restos de alguma ameaça intraduzível…

― Como me encontraram? ― perguntei.

― Não se preocupe, somos policiais ― disse o Chacal. Os dois sorriram, mas sem tirar a máscara de rigidez. ― De que se trata?

Repeti o que eles já esperavam.

Micha perguntou a seu colega:

― Não era aquele travesti das tatuagens e do penteado extravagante?

― Sim, agora me lembro ― disse o Chacal. ― Tremenda cabeleira. Parecia que tinha uma colmeia de vespas em cima da cabeça.

― E parecia uma mulher de verdade, confundia qualquer um ― acrescentou Micha. ― Uma mulatona de olhos verdes, alta, bonita, embora um pouco malvestida.

― Nós nos vimos na obrigação de detê-lo algumas vezes e lavrar um auto de advertência ― disse o Chacal, ficando sério. ― A prostituição é punida pela lei.

― Além do mais, agia com deliberada e injustificável violência ― recitou Micha. ― Principalmente sob a influência do álcool e outras substâncias nocivas.

― Eu diria que era um rapaz submetido a más influências, muitas influências estrangeiras. Um jovem que errou de caminho, apesar de todas as possibilidades que o socialismo lhe propiciou ― resumiu o Chacal. ― Faz tempo que não o vemos nestes bairros. Tomara que tenha mudado seu estilo de vida.

― Te deixamos em algum lugar? ― me perguntou Micha na porta do carro, nos convidando a entrar.

Olhei para o Autista: estava com os olhos fechados e dizia que não, que não, que não, meneando a cabeça de um lado para o outro sem parar.

Este é o único jazz que deve estar soando agora nos seus ouvidos, pensei.

Depois que me mudei tudo começou a ficar mais fácil, me disse Amy Winehouse. Angelón estava na jogada, claro. Na primeira noite que me viu vestida para sair, me disse: “Não vá para a rua agora, meu amor, que vêm uns amigos”. Vieram dois italianos. Tomamos uns tragos, fumamos erva, depois fui para a cama com os dois. Na manhã seguinte Angelón me entregou duzentos euros, me perguntando se estava bom. Pulei na sua barriga e enchi sua carinha de beijos. Aquilo foi só o começo. Combinamos que eu estabelecia um certo número de noites por mês e ele se ocupava de me trazer clientes para a casa. Decorei o quarto a meu gosto e por ele passaram espanhóis, canadenses, franceses, alemães, suecos, russos… Meus favoritos eram os britânicos, com aquele sotaque tão lindo do inglês, mas eu mimava a todos, fazia com que todos se sentissem como reis. Quem não gosta de dinheiro? Angelón estava mais do que feliz. Tornou o apartamento como que novo. Comprou uma televisão de tela plana, imensa. Me disse que a geladeira sempre estaria cheia de carne para mim, porque eu tinha de me alimentar bem. Também tratava de manter a casa abastecida com o melhor álcool, para mim e para os clientes… Eu? O que posso te dizer. Já me sentia em outro nível. Principalmente depois de pôr silicone nos peitos, uma operação caríssima no mercado negro, um sonho transformado em realidade. Só me lembrava dos meus dias na rua quando ia me reportar a Yasmani e Alexander.

“Reportar-se” significava servir de avião. Ir aos encontros noturnos com os dois policiais, que a esperavam em locais previamente combinados para lhe entregar os pacotes. Supunha-se que ela era a pessoa indicada para não levantar suspeitas. Os sacos de erva logo se misturaram com os sacos de cocaína.

A princípio tinha curiosidade, disse. Eu pensava que empoar o nariz, como se diz, ia ser uma coisa difícil e incômoda. Mas não, quando você tem uma boa nota enrolada, de preferência uma nota de cem dólares, pode tragar todas aquelas linhas brancas como se não fosse nada, como se em vez de pó você estivesse aspirando ar puro.

Ao lembrar disso, estremeceu.

― Mais cedo ou mais tarde tudo vai mudar ― ia dizendo o Autista. ― E só espero que a burguesia tenha tempo para se lembrar dos meus carbúnculos…

Na falta de boas ideias, pensamos em nos postar numa esquina da rua para vigiar a entrada do edifício.

Vimos chegar uma mulher cinquentona puxando a correia de um pastor-alemão de focinheira. Subiu as escadas e desceu poucos minutos depois, sem o cachorro, para se dirigir à vendinha imunda do outro lado da rua.

Fomos ao seu encontro.

― Desculpe, aquele pastor-alemão que a senhora levava é seu?

― Quisera eu. ― A mulher sorriu com descaramento, devia ser tagarela. ― Mas não, é o cachorro do meu vizinho, um cachorro policial que lhe deram faz pouco. Chama-se Ministro.

― Primeiro-ministro, devia se chamar ― falei. ― É um animal bonito.

― Não é? Gosto muito dele. Por isso peço ao meu vizinho que me deixe levá-lo para passear de vez em quando, gosto de caminhar ao lado dele. Este bairro está cheio de vira-latas que não param de latir e são tremendamente encrenqueiros, e de cães de briga raivosos, desses que os homens criam para rinhas… Mas se você visse, quando o Ministro passa todos põem o rabo entre as pernas, baixam o focinho e se escondem. Parece que se dão conta de que é um desses líderes de manada… como se diz?

― Machos alfa.

― Isso mesmo, um macho alfa. Grande, forte, que impõe respeito e é feroz quando necessário. Meu vizinho diz que nem se preocupa mais em trancar a porta à chave. Porque sabe que o Ministro salta no pescoço do primeiro que entrar… Você faz o quê? Compra cachorros de raça para reprodução, ou algo assim? Vai ter que falar com o dono, Ángel Chang, naquele edifício no primeiro andar, eu moro no apartamento em frente…

― Não. O que estou procurando é um aluguel, algum quartinho barato. Mas me disseram que por aqui tem muito negócio clandestino de putas de estrangeiro e proxenetas.

Foi como se o semblante da mulher houvesse recebido uma descarga elétrica. Manteve o sorriso, mas seus lábios estavam definitivamente selados.

― Ah, disso eu não sei nada ― falou.

Eu era uma estrela, me disse Amy Winehouse. Eu era o mais exclusivo de Havana. Você não imagina quantos ricaços pervertidos iam várias vezes à casa, à minha cama, para repetir a dose. Sem falar nos que apareciam de vez em quando com o rosto coberto por uma máscara. Não sei, vai ver eram celebridades, diplomatas, empresários importantes…

Iam comê-la, ou ela é que os comia. Iam querendo fazer transas sadomasoquistas, bater nela e amarrá-la, ou que ela batesse neles, que os amarrasse e lhes cruzasse as costas com chicotadas. Alguns tiravam fotos dela, que depois punham na internet: Amy vestindo látex e conjuntos fetichistas; Amy em todo tipo de poses, com vibradores, se masturbando, de quatro, uma explosão selvagem de silicone e juba caribenha e tatuagens, em branco e preto e em cores. Também foi a protagonista de vídeos amadores, filmes que Angelón avaliava no pequeno cine pornô que tinha montado na sala, aquela tela grande onde ela brilhava olhando para o espectador com uma expressão aureolada por tanto sêmen jorrante… Uma expressão que revelava plenitude mas ao mesmo tempo escuridão, porque dessas sessões maratônicas de sexo profissional, filmadas ou não, ela só lembrava de momentos avulsos, detalhes dispersos, todas as noites começaram a se confundir dentro da sua cabeça numa só e longa noite de cortes e lacunas de inconsciência. A única coisa de que se lembrava com clareza eram as intermináveis carreiras de cocaína e uma sede que a impulsionava a beber o tempo todo. Bebia e se drogava quando estava com os clientes, bebia e se drogava sozinha, e chegou a um ponto em que até o dinheiro que ganhava na cama, seu combustível original, começou a desaparecer na névoa que sujava seus óculos verdes.

Menti a você no início, disse. Estava mentindo a mim mesma mais uma vez. Agora você já sabe a razão pela qual estou aqui. Não sou dessas mulheres boas. Tenho uma parte autodestrutiva que sempre mantive sob controle. Mas o controle, igual ao amor, é um jogo que se perde. Quem dera eu nunca tivesse jogado esse jogo.

Estávamos nos afastando do bairro chinês quando os patrulheiros apareceram outra vez. A porta de trás tornou a se abrir, como um convite.

― Não ― eu disse a eles. ― Não, obrigado.

― Sim ― me disseram. ― Hoje sim você vai entrar.

Resisti, tentei escapar. Reflexos inúteis. Terminei metido de cabeça na patrulha e com as mãos algemadas nas costas.

Um grupo de pessoas me observava sem o menor assomo de escândalo. Vi o Autista se afastar correndo. Compreendi na hora que era a última vez que o veria.

Agora sim, pensei. Já não há como voltar. Esse é o buraco negro da realidade cubana. Essa é a intempérie onde estamos sós e perdidos.

― Por que você faz isso, escritor? ― protestou Micha. ― Se a única coisa que queremos é te ajudar, te levar para casa…

A patrulha saiu em disparada pelo Malecón.

O Chacal disse:

― Pegamos Amy aqui uma vez, lembra? Parecia um trapo. De pé em cima da mureta, cambaleando, bêbada…

― Claro que me lembro ― confirmou Micha. ― Ela estava urinando ali, de pé. Tinha posto o pau para fora e mirava o mar com seu jorro… Com certeza estava pensando no seu marido, lá no Norte. Quem sabe se também queria bater uma punheta.

― Era uma louca, uma doente… Tinha a cabeça cheia de merda.

Pela janela vi passar esquinas cheias de lixo, mendigos, anúncios de novas lojas colados em paredes rachadas pelo salitre, em sacadas a ponto de cair. O desfile de ruínas começava a parecer interminável.

― Agora você está muito calado ― me disse o Chacal ―, e no entanto sabemos que você gosta de sair por aí fazendo perguntas, falando com as pessoas…

― E até te vimos falando sozinho ― acrescentou Micha. ― Viu? Te seguimos e você nem se deu conta…

― O que é, precisa de companhia? Porque podemos te dar um cachorro. Um pastor-alemão treinado. Vem cá, que nome você daria a ele?

Os dois caíram na risada.

Deixamos para trás Centro Havana. Paramos.

― Tome cuidado ― me avisou o Chacal quando abria minhas algemas. ― As ruas estão muito ruins, há muita delinquência. Qualquer um pode te dar uma porrada muito mais forte do que essa que você tem na cara.

Em seguida Micha me deu um soco.

Cuspi sangue no meio-fio e olhei para a patrulha que se afastava.

Tomei uma decisão, me disse Amy Winehouse. Acordei agora há pouco e decidi que já bastava. Como sempre, não tinha a menor ideia do que havia acontecido no dia anterior. Vi no espelho como estava ficando magra, vi a crosta de sangue debaixo do meu nariz, senti na garganta o sabor já familiar do vômito e disse a mim mesma: você está se matando, Amy, você tem que parar, tem que buscar ajuda… E então, sem dizer nada a Angelón, fui à policlínica. Ali me mandaram para este hospital, onde dizem que estão os melhores especialistas. Liguei para minha mãe, chorando, e disse a ela que pensava em ir a uma consulta semanal no psiquiatra por um problema de depressão e transtornos alimentares. O que eu podia lhe dizer? Que seu filhinho lindo era uma puta viciada e alcoólatra? Se bem que, para ser sincera com você, não creio que nenhum tratamento vá funcionar comigo. A intoxicação que tenho é mais forte que eu, eu sei, mas creio que também é mais forte que todas essas terapias, mais forte que o Ministério da Saúde Pública inteiro. Na semana passada me sentei num grupo onde todos deviam compartilhar suas experiências. Não disse nada. Você pode imaginar? Se eu abrisse a boca, vai ver me internavam, me davam comprimidos para eu me calar… Não, ainda não estou louca. Aí me dei conta de uma coisa: quando você vem de onde venho, quando você vem com a história equivocada, um lugar como esse não tem nada a te ensinar.

E por que veio falar comigo?, perguntei.

Amy Winehouse acendeu outro cigarro.

Não estou certa. Te vi olhando à sua volta e achei que você era diferente de todos os que estão nesta sala. Como se você tivesse visto coisas que os outros não podiam ou não queriam ver. Por isso. Você acha que estou louca ou acha que o que te contei é verdade?

Achar ou não achar não é importante agora, eu disse por dizer.

Ela assentiu. Ficamos em silêncio alguns minutos.

Mas ainda não te contei tudo, falou.

O tenente-coronel Santiesteban se lembrava bem de mim. Me levou a seu escritório e escutou atentamente minha narração dos fatos: brutalidade policial, sequestro, agressão etc. Anotou a placa da patrulha, levantou-se para dar uns telefonemas e depois disse:

― É curioso. Os que se apresentam aqui com esse tipo de queixa são sempre os dissidentes. Eles acham que todos nós, funcionários do Ministério do Interior, somos uns esbirros. Não entendem que estamos a serviço do povo. Manipulam tudo. Exageram, inventam…

― Desculpe, o senhor ouviu alguma palavra do que lhe disse?

― Claro. Mas vou lhe pedir que ponha essas palavras por escrito. É estranho que ainda não tenha feito isso, para ser sincero. Vocês, jornalistas independentes…

― Já disse que não sou jornalista ― interrompi-o. ― Isso não tem nada a ver com jornalismo.

― Bom, tem a ver com escrever coisas contrarrevolucionárias. Não é mesmo?

Os olhos do tenente-coronel Santiesteban brilhavam. Ele estava sorrindo. Eu também. Pensava nas vozes, nos ecos que o Autista transcreveu no meu falso caderno de notas. Onde estaria o Autista agora?

Levantei-me e fui embora.

Foi há duas noites, me disse Amy Winehouse. Eu tinha que me encontrar com Yasmani e Alexander, mas disse a Angelón que não, que não ia, que não contassem mais comigo para trazer essa merda, que já tinha me inscrito num programa de reabilitação e não queria nem tocar na droga. Também disse que para mim dava no mesmo ir presa ou voltar para Guantánamo, porque quem sabe era justamente disso que eu precisava, uma mudança, e que se eles não gostassem, problema deles, por mim podiam ir os três pro caralho… Ele ficou mudo. Eu me tranquei no quarto batendo a porta, me vesti, e depois saí para caminhar. Desci até o Malecón. Precisava relaxar, respirar um pouco de brisa marinha. Sem me dar conta terminei passeando pela rua onde vivi com meu marido. E ali, de repente, quando mais distraída eu estava, uma sombra avançou para mim vinda do escuro. A única coisa que consegui ver foi uma mão que segurava uma pistola. Senti um golpe fortíssimo na cabeça e depois tudo ficou preto. Caí numa espécie de limbo intermitente. Lembro de uma dor como de aguilhoadas, a sensação de estar amordaçada sem poder gritar… Lembro de risos e uma voz que dizia “Vamos ver se gosta mesmo de tatuagens”, ou algo assim. Não me lembro de mais nada. Era como se estivesse adormecida e aquilo tudo não fosse mais que um pesadelo confuso. Quando abri os olhos, no dia seguinte, estava de volta à minha cama. Tinha o corpo dolorido e cheio de hematomas. Me meti debaixo do chuveiro e depois, ao me olhar no espelho, descobri o que tinham me feito, o que haviam tatuado: “pnr”. Ali estavam essas três letras em maiúsculas, fresquinhas e sangrando… pnr em cada nádega, em cada coxa… pnr nos meus peitos, em torno dos mamilos… Uma longa linha pnr-pnr-pnr que descia pelo meu púbis e chegava até a ponta do meu… do meu pênis…

Com mãos trêmulas, com tremores que não eram causados por nenhuma abstinência, Amy Winehouse enxugou umas lágrimas em que havia um desespero mais eloquente e mais comprido que as siglas da Polícia Nacional Revolucionária gravadas na sua pele.

Esperei na esquina até que vi Angelón sair. Sozinho.

Subi ao apartamento.

Levava comigo o relato que havia escrito: minha fracassada tentativa de escarafunchar na voz grave, profunda e entrecortada de Amy. Demasiados lugares-comuns gravitando ao redor de uma presa demasiado fácil.

Enfiei as folhas por debaixo da porta. Duas cópias grampeadas e com a mesma dedicatória: uma para ele e outra para a polícia.

Ouvi os latidos estrondosos.

Por que não?, pensei e levei a mão à maçaneta.

Abri a porta devagar. O pastor-alemão rugia diante de mim. Soltou as folhas que tinha meio mastigadas na boca para me mostrar melhor seus caninos.

Olhei-o fixamente enquanto me agachava diante dele. Fitei-o como ninguém nunca havia feito. Fitei-o de uma maneira não tão ameaçadora quanto enlouquecida ou até desumana. O Autista me ensinara esse olhar. Tinha seus momentos.

Em vez de me atacar, o Ministro baixou a cabeça com um suave gemido.

― Bom rapaz ― sussurrei. ― Agora vou revistar um pouco sua casa… Mas com certeza você está com fome.

Fui até a geladeira e a encontrei praticamente vazia. Restava apenas um pedaço de carne, que descongelei no micro-ondas sob a ansiosa supervisão do Ministro. Depois transpassei-a com uma faca e vi tudo de golpe:

No naco de carne, grosso e mal cortado, havia um pedaço da pele do animal.

E nessa pele havia uns traços de tinta, parte do desenho de uma bonequinha pin-up.

Peitos grandes, bunda desafiadora, pernas compridas e sinuosas. O look fatal que ela homenageava, e a que talvez aspirasse.

Senti um enjoo, um cansaço imenso. Deixei-me cair no chão.

― Aposto que você pode comê-la crua ― disse ao cachorro.

Ele comeu, claro, com tatuagem e tudo. Depois limpou o focinho com a língua e veio se pôr a meu lado, corpulento e saciado. Me pareceu que no fundo tinha medo de mim. Acariciei seu lombo e seu ventre, e surpreso apalpei duas fileiras de tetas.

Em parte alguma havia genitais que contradissessem aquele achado.

O pastor-alemão começou a ficar, não adormecido, mas adormecida. O Ministro era fêmea.

― Todo mundo está cego? ― perguntei a ela, fechando eu também os olhos.

Lá embaixo, na rua, soava uma sirene policial. Não sei por quê, soube de imediato que não se tratava da pnr. Aquela era uma patrulha da Segurança do Estado.

Mas não fui verificar. Não tinha forças para me levantar.

Mas hoje mesmo me ligaram, me disse Amy Winehouse, mais serena, avaliando os restos da sua maquiagem num espelhinho. Hoje mesmo falei com Alexander e ele me pediu desculpa. Soava bastante sincero. Estava quase me suplicando por telefone. Me disse que tudo havia começado como uma piada e depois perderam a mão, se deixaram levar… Enfim, que estavam muito arrependidos do que fizeram comigo e queriam me dar uma coisa em compensação pelo dano e em sinal de amizade, por tudo o que havíamos lutado juntos. “Uma boa quantidade de verdinhas”, me adiantou Alexander. “Para que você possa ir para a gringa ou aonde quer que queira.” E ficamos de nos ver esta mesma noite.

Então você acredita nele, falei. Vá vê-los de novo.

Por que não? Eles não são uns monstros, uns animais… Olhe, aqui ouvi falar desse método famoso que chamam de Doze Passos. Acho que são passos demais. Nem sei se me restam forças para ficar em pé nuns saltos altos. Além do mais, por onde estaria caminhando? Por onde eles querem que eu caminhe? Pode ser que o que eu tenha que dar é só um passo, um passo para fora. O passo definitivo. Fugir, desaparecer…

Num salão do fundo, um grupo de pessoas começava a arrumar algumas cadeiras.

Não vou entrar, me disse Amy Winehouse. Já tive minha última sessão falando com você. Obrigada por sua paciência. Obrigada por me ouvir.

Nos despedimos. Ela me jogou um beijo, antes de se perder pelo corredor. O mesmo corredor pelo qual voltava a enfermeira empurrando seu carrinho, em companhia do Autista.

Aqui estão seus comprimidos, me disse, e ficou parada à minha frente para comprovar que eu os tomava. A água tinha o sabor do copinho de plástico descartável.

Quando a enfermeira se foi, o Autista me fitou com sua cara desprovida de expressão e disse uma coisa que não entendi, como sempre. Depois, em questão de minutos, parei de vê-lo: tinha se esfumado por completo no ar.

Não importa, pensei, volto a encontrá-lo.

Tentar lembrar*

alejandro zambra
Yasna atirou no peito de seu pai e depois o asfixiou com o travesseiro. Ele era professor de educação física, ela não era nada, não era ninguém. Mas agora sim: agora é alguém que matou outra pessoa, alguém que está na cadeia. Alguém que espera sua ração de comida e se lembra do sangue de seu pai, tão escuro, tão espesso. Mas não escreve sobre isso. Só escreve cartas de amor.

“Só cartas de amor”, como se fosse pouco.

Mas não é verdade que tenha matado o pai. Esse crime não aconteceu. E tampouco escreve cartas de amor, nunca o fez, talvez porque não saiba nada sobre o amor, e não goste do que sabe, pois o que sabe é monstruoso. Quem escreve é outra pessoa, alguém que se lembra dela com urgência, mas não por ter saudades dela ou por querer vê-la, não é bem isso, a questão é que, há alguns meses, pediram-lhe um conto policial, de preferência ambientado no Chile, e no mesmo instante pensou nela, em Yasna, e naquele crime que não aconteceu, e embora tivesse dezenas de histórias para escolher, várias delas mais fáceis, mais simples de serem transformadas em contos policiais, ele pensou que a história de Yasna merecia ser contada, ou que conseguiria contá-la, que não seria difícil contá-la.

Fez algumas anotações, mas depois precisou se concentrar em outras encomendas, e as semanas passaram voando: resta-lhe apenas um dia para escrever.

A parte inocente da história, a que menos tem serventia, a que não contaria, ou pelo menos não dessa maneira, a parte que ele nem sequer lembra por inteiro — porque seu trabalho consiste, também, em esquecer, ou em fingir que se lembra do que esqueceu — começa num verão, no fim dos anos 80, quando os dois tinham catorze anos e ele mal se interessava por literatura, a verdade é que na época a única coisa que realmente o interessava era perseguir algumas mulheres, com pudor mas também com persistência. É um exagero, entretanto, chamá-las de mulheres, porque ainda não o eram, do mesmo modo que ele não era um homem, embora em comparação Yasna fosse muito mais mulher do que ele era homem.

Yasna passava o tempo num jardim malcuidado, cheio de rosas, arbustos de arruda e cortadeiras, sentada num banquinho, com um caderno de desenho apoiado nas pernas — o que você está desenhando?, perguntou a ela uma tarde, do outro lado da grade, todo machão, e ela sorriu, mas não porque queria sorrir, foi mais um reflexo. Como resposta ela mostrou o bloco, e à distância ele pensou que no papel havia o esboço de um rosto, não soube se de um homem ou de uma mulher, mas julgou ter visto um rosto ali.

Não ficaram muito amigos, mas continuaram se falando a cada tanto. Dois meses depois, ela o convidou para seu aniversário e ele, feliz da vida, na tentativa de uma jogada de mestre, comprou-lhe um globo terrestre na papelaria da praça. Na noite da festa saiu pontualmente de casa, mas encontrou Danilo, que fumava um baseado com outro amigo na esquina, estavam com muita erva, tinham começado a plantar fazia um tempo, mas ainda não haviam resolvido vendê-la. Deu quatro ou cinco tapinhas profundos e sentiu de imediato o começo do efeito, que conhecia bem, embora não fumasse com frequência. O que você está levando aí?, perguntou Danilo, e ele esperava essa pergunta, estava escondendo a sacola justamente para que o indagassem: o mundo, respondeu, alegre. Desataram com cuidado a embalagem de celofane e passaram um tempo procurando países. Danilo queria encontrar a Suécia, mas não conseguiu. Que gigante este país, disse, apontando para a União Soviética, e terminaram o baseado antes de se separar.

Yasna parecia ser a única que estava levando a festa a sério, com seu vestido azul até os joelhos, os olhos delineados, os cílios crespos e escurecidos, e as pálpebras sombreadas com um azul-celeste tímido. Ouvia-se os dois lados de uma fita cassete que não estava mais na moda, ou que ainda estava somente para os mais ou menos quinze convidados que enchiam a sala. Dava para perceber que eram muito amigos entre eles, porque mudavam de par no meio das músicas que cantavam em coro, com entusiasmo, mesmo não sabendo nada de inglês.

Ele estava se sentindo um peixe fora d’água, mas Yasna olhava para ele a cada dois minutos, a cada cinco minutos, e o ritmo desses olhares competia com a letargia da erva. Depois de virar dois copos altos de Kem Piña, sentou-se em frente à mesa de jantar, enquanto começava a tocar Duran Duran, também a fita inteira: “No-no-notorious”. Dançavam de um jeito estranho, como se fosse uma polca ou uma dança daqueles antigos salões de baile. Para ele tudo parecia muito ridículo, mas não teria se negado a participar, dançaria bem, pensou de repente, com um leve e inexplicável ressentimento, e depois se concentrou nas batatas fritas, no salgadinho, no queijo cortado em cubos desiguais, nas nozes, nas dezenas de bolinhas crocantes e multicoloridas que lhe pareceram, sabe-se lá por quê, interessantes.

Não lembra bem os detalhes, a não ser a repentina chegada da fome, o vazio da fome: a larica. Teve de se esforçar para comer numa velocidade normal, mas quando Yasna chegou com os nachos e um pote enorme de guacamole, perdeu o controle. Nachos com guacamole eram novidade no Chile, ele nunca tinha provado, nem sabia que se chamavam assim, mas depois de prová-los não conseguia parar, mesmo sabendo que olhavam para ele, era como se as pessoas se revezassem para olhá-lo. Em seus dedos havia restos de abacate e de tomate e a gordura dos nachos, sua boca doía, sentia pedaços de comida nos molares e tentava com afinco recuperá-los com a língua. Comeu quase sozinho o pote inteiro, foi um escândalo. E queria continuar comendo.

Nisso abriram a porta da cozinha e ele foi ofuscado por uma luz branca. Surgiu um homem gordo, porém forte e robusto, com uma linha bem demarcada na cabeça que dividia o cabelo penteado com gel em duas metades idênticas. Era o pai de Yasna, e havia a seu lado alguém mais jovem, boa-pinta, diriam, a não ser por uma marca de lábio leporino, embora talvez essa imperfeição o deixasse mais atraente. Aqui termina, quem sabe, a parte inocente da história: quando o pegam pelo braço, apertando forte, e ele tenta continuar comendo, desesperado, e a seguir, depois de uma longa e confusa série de olhares ríspidos e frases entrecortadas, de esbarrões e empurrões, quando sente um chute na coxa direita seguido por dezenas de chutes na bunda, nos tornozelos, nas costas: está no chão, tentando aguentar a dor, e ao fundo ouve o choro de Yasna e gritos ininteligíveis: quer se defender, mas só consegue proteger a virilha. Quem bate nele é o outro homem, a quem depois Yasna chamará de o ajudante. O pai da menina também presencia a cena e ri, como as pessoas más riem nos filmes ruins e às vezes também na vida real.

Embora nada disso, em essência, interesse para seu conto, ele tenta se lembrar se naquela noite fazia frio (não), se havia lua (minguante), se era sexta ou sábado (era sábado), se alguém tentou, no meio da confusão, defendê-lo (não). São sete e meia, o inverno já está em sua plenitude, de modo que veste a roupa por cima do pijama, e, ao dirigir até o posto de gasolina para comprar querosene, pensa com segurança, com otimismo, que tem a manhã inteira para trabalhar em suas notas e que à tarde escreverá ininterruptamente por quatro ou cinco horas, e sobrará tempo inclusive para ir conhecer, de noite, com algum amigo, o restaurante peruano que inaugurou no bairro. Acaba de encher os galões, agora está na loja de conveniência tomando café, mastigando um sanduíche de presunto e queijo e folheando o jornal que vinha junto na promoção do café com sanduíche. O que querem é apenas uma sangrenta história latino-americana, pensa, e anota nas bordas das notícias uma série de decisões que surgem de forma harmoniosa, natural, como a promessa de uma jornada de trabalho tranquila: o pai vai se chamar Feliciano e ela, Joana, o ajudante e Danilo não servem para ele, a maconha também não, talvez uma droga pesada, e embora não lhe pareça uma boa, por ser um lugar-comum, transformar Feliciano num traficante de drogas, pensa que é necessário, sim, baixar os protagonistas de classe, porque a classe média — pensa isso sem ironia — é um problema quando se quer escrever literatura latino-americana. Precisa de um lugar em Santiago onde não seja raro ver adolescentes fumando crack ou cheirando cola nas praças.

Tampouco lhe serve o fato de Feliciano ser professor de educação física. Prefere imaginá-lo desempregado, humilhado, dispensado, no começo dos anos 80, ou depois, sobrevivendo nos programas da ditadura, varrendo invariavelmente um mesmo trecho de calçada, ou até se tornando um dedo-duro que denuncia os movimentos suspeitos na vizinhança, ou talvez esfaqueando alguém no chão. Ou como um soldado de guarda que chega tarde em casa, gritando para pedir comida à mulher, não hesitando em ameaçar a filha com o mesmo cassetete com que reprimiu manifestantes de dia.

Fica com algumas dúvidas a essa altura, mas nada grave, nada é tão grave, pensa: trata-se de um conto de dez páginas, quinze no máximo, não tem tempo para se demorar em enfadonhas composições de cenário, e duas ou três frases sonoras, alguns adjetivos bem colocados resolvem qualquer coisa. Estaciona, tira os galões da mala e em seguida, enquanto enche o tanque do aquecedor, imagina Joana cobrindo a casa inteira com querosene, seu pai lá dentro — pensa que seria espetaculoso demais, prefere uma pistola, talvez porque lembra que havia uma arma na casa de Yasna, que quando ela disse que mataria o pai mencionou que em sua casa havia uma arma.

Havia uma arma, é claro, mas era um rifle de chumbinho, que jazia há muitos anos no armário, como testemunho de um tempo em que o homem ia ao campo com seus amigos caçar perdizes e coelhos. Yasna viu o pai dispará-lo apenas uma vez, quando tinha sete anos, num domingo de primavera, ao voltar da igreja. Estava no pátio, tomando uma cerveja e apontando, com o pulso firme, para umas pipas no céu. Atirou quatro vezes na branca: as pipas começavam a oscilar e caíam lentamente no chão, sem que os donos entendessem o que estava acontecendo. Yasna pensou nos pais e filhos das outras vilas, desconcertados, mas não disse nada. Depois lhe perguntou se dava para matar alguém com aquele rifle, e ele respondeu que não, que só servia para caçar, “mas se você apontar bem perto da cabeça”, seu pai logo retificou, “dá para fazer um estrago e deixar a pessoa meio tantã”.

Depois da festa, o escritor — que naquela época sequer sonhava em ser escritor, sonhava com muitas coisas, quase todas melhores que se tornar escritor — ficou muito assustado e não fez nenhum esforço para ver Yasna de novo, inclusive evitava o caminho que levava à casa dela, todas as ruas que conduzissem àquela casa, e também não foi à igreja, pois sabia que ela ia à igreja, o que em todo caso não demandava esforço algum, porque então já havia deixado de acreditar em Deus. Passaram-se seis anos até voltarem a se encontrar, por acaso; no centro da cidade. Yasna estava com o cabelo mais liso e comprido, trajava o uniforme de duas peças de seu trabalho, enquanto ele, como se quisesse exemplificar a moda da época, ou a parte da moda que correspondia a um estudante de letras, estava com uma camisa xadrez, o cabelo bagunçado, e calçava botas. Já era um escritor, para sermos justos: já havia escrito alguns contos, e um escritor é alguém que escreve, bem ou mal mas escreve, pouco ou muito mas escreve, assim como um assassino é alguém que mata, uma ou várias pessoas, um desconhecido ou o próprio pai, mas mata. E não é justo dizer que ela não era nada, que não era ninguém, porque era caixa de um banco, não gostava do trabalho mas também não pensava — nem pensa hoje — que pudesse existir algum trabalho do qual gostasse.

Enquanto tomavam Nescafé numa lanchonete, falaram sobre a surra e ela tentou explicar o que tinha acontecido, mas dizia que também não se lembrava muito bem. Depois falou um pouco mais sobre a infância, em especial sobre a morte da mãe, num acidente de carro, quase não a conhecera, e mencionou também o ajudante, foi dessa maneira que o pai o apresentou a ela, os dois envernizando umas cadeiras de vime no pátio, embora dias ou talvez semanas mais tarde tenha lhe esclarecido, como se não fosse algo importante, que na verdade o ajudante era filho de um amigo que havia morrido, que não tinha para onde ir, e por isso moraria com eles por um tempo. Na época o ajudante tinha vinte e quatro anos, dormia quase a manhã toda, não trabalhava nem estudava, mas às vezes ficava com a menina, sobretudo às terças, quando o pai de Yasna chegava à meia-noite depois de treinar com o time de basquete, e aos sábados, quando o homem tinha partidas e depois ia com os jogadores tomar uma cerveja. O escritor não entendia por que ela estava contando tudo isso, como se não soubesse — e talvez não soubesse mesmo, embora naquele tempo já quisesse ser escritor, e um escritor deveria sabê-lo — que é desse jeito que as pessoas se conhecem, contando coisas que não se contam, despejando palavras alegremente, irresponsavelmente, até chegar a territórios perigosos, a lugares em que as palavras precisam do verniz do silêncio.

Embora a conversa não tivesse terminado, ele pediu o telefone dela, e se poderiam voltar a se ver, porque tinha que ir para uma festa. Yasna encolheu os ombros, talvez esperando que ele a convidasse para a festa, mesmo sabendo que de qualquer modo não poderia ir, mas ele não a convidou, e ela não quis mais dar seu telefone, proibiu-o de aparecer em sua casa, ainda que o ajudante não morasse mais lá. Então como vamos voltar a nos ver?, ele disse de novo, e ela, de novo, encolheu os ombros.

Mas havia mencionado o nome do banco em que trabalhava, e que tinha apenas três agências, de modo que ele conseguiu encontrá-la uma semana depois, e começaram a estabelecer uma rotina de almoços, quase sempre num estabelecimento de frangos empanados na Calle Bandera, ou num boteco na Teatinos, ou também, quando um dos dois estava com mais grana, no El Naturista. Ele continuava querendo algo a mais, mas ela se esquivava, falando de um namorado tão generoso e compreensivo que qualquer um teria achado que era inventado. Às vezes, por longos minutos, ele ficava olhando a garota falar, mas não a escutava, olhava sobretudo para a boca dela, os dentes perfeitos exceto pelas manchas que o cigarro deixava em seus incisivos. Olhava-a falando, sem nada escutar, até que ela subia ou baixava o tom, ou soltava uma informação inesperada, como aconteceu quando disse uma frase que, mesmo que ele não tivesse a menor ideia do que ela estava dizendo, respondeu de imediato, embora ela não a tivesse dito em tom de confissão: pelo contrário, disse a frase sem nenhum drama, como se fosse uma piada, como se fosse possível que uma frase como aquela fosse uma piada. “Eu não fui feliz na infância”, foi a frase que disse, e ele não entendeu o que deveria ter entendido, o que qualquer um hoje em dia entenderia, mas ouvi-la dizer aquilo mexeu com ele, ou ao menos o despertou.

Teria ela realmente usado essa palavra tão formal, tão literária — “infância”? Talvez tenha dito “quando pequena”, “quando criança”. Seja como for, anos atrás, dez ou quinze, trinta anos atrás certamente, precisaria ter contado a história inteira, cultivando certo sentido de mistério, esmerando-se nos efeitos dramáticos, buscando uma emoção gradual, arrebatadora. Os bons escritores e também os escritores ruins sabiam fazer isso, e não achavam que fosse algo imoral, inclusive desfrutavam disso, na medida em que dar forma a uma história sempre proporciona algum tipo de prazer. Para que serviria agora aquele mistério, que tipo de prazer se poderia obter quando a frase que dizia tudo já tinha escapado?, porque há frases que conquistaram sua liberdade: aprendemos a ouvir, a ler, a escrever. Quinze, trinta anos atrás, os bons escritores, e também os ruins, confiavam numa frase desse tipo para impulsionar um mistério que só revelariam perto do final, a cena do pai dormindo e o ajudante no quarto tocando os mamilos de uma menina de dez anos, que fica surpresa, mas, como se fosse um exercício de simetria ou um jogo de imitação, mete a mão por debaixo da camiseta do ajudante e, completamente inocente, toca nos dele de volta.

E a outra cena, dois dias mais tarde, quando o pai estava no basquete e o ajudante a chama, fecha a porta, tira-lhe a roupa, e a menina não resiste, fica trancada ali, procura entre as roupas dele que ainda estavam nas malas, como se o ajudante, que morava ali havia meses, tivesse acabado de chegar, ou como se estivesse prestes a ir embora — a menina experimenta um casaco esportivo e uns jeans enormes, e morre de vontade de se olhar no espelho, mas no quarto do ajudante não há espelho, de modo que liga uma pequena televisão em preto e branco que há na cômoda, está passando novela, que não é a que ela assiste, e o botão de sintonizar está virado, mas mesmo assim fica envolvida, e está nisso quando ouve vozes na sala — o ajudante entra com dois sujeitos e tira a roupa dela, ameaça-a com a garrafa de cerveja Escudo que segura na mão esquerda, ela chora e os três riem, bêbados, jogados no chão. Um deles diz “mas ela ainda não tem peito nem pentelhos, seu idiota”, e o outro responde “mas tem dois buracos”.

Contudo, o ajudante não deixou que eles a tocassem. “É só minha”, disse, e os mandou embora. Depois colocou uma música grotesca, algo de Pachuco ou semelhante, e mandou que ela dançasse. A menina chorava, sentada no chão, como se estivesse fazendo birra. “Me perdoa”, ele a consolou mais tarde, enquanto percorria as costas nuas da menina, sua bunda ainda sem forma, suas pernas que eram dois palitos brancos. Metia os dedos nela e parava, acariciava-a e a insultava com palavras que ela nunca tinha ouvido. Depois começou, com uma eficácia brutal e pedagógica, a explicar a maneira correta de chupá-lo, e ao sentir um movimento perigoso e involuntário advertiu-a de que, caso o mordesse, ele a mataria. “Da próxima vez você vai ter que engolir”, disse depois, com uma voz aguda que alguns homens chilenos têm, tentando parecer misericordioso.

Nunca ejaculou dentro dela, preferia gozar em seu rosto, e depois, quando o corpo de Yasna começou a tomar forma, fazia isso em seus peitos, em sua bunda. Não ficava claro se ele apreciava aquelas mudanças, e em todo caso, durante os cinco anos em que a violou, várias vezes perdeu o interesse ou a vontade. Yasna agradecia pelas tréguas, mas seus sentimentos eram ambíguos, desordenados, talvez por, de algum modo, pensar que pertencia ao ajudante, o qual nem se dava mais ao trabalho de fazê-la prometer que não contaria nada a ninguém. O pai chegava do trabalho, preparava um chá, dava um oi para a filha e para o ajudante, depois perguntava se precisavam de alguma coisa, dava mil pesos para ele e quinhentos para ela, e se trancava por horas vendo novelas, noticiários, o horário nobre, de novo o noticiário, e a série Cheers, no fim da programação, que ele adorava, e às vezes escutava ruídos, e quando os ruídos ficaram altos demais arrumou uns fones de ouvido e os conectou à tv.

Foi justamente o ajudante que incentivou Yasna a fazer sua festa de quinze anos (“você merece, você é uma menina legal e normal”, disse). Na época andava desinteressado fazia alguns meses, tocava-a apenas de vez em quando. Aquela noite, no entanto, depois da surra no escritor, quando estava quase amanhecendo, bêbado e mordido de ciúmes, disse, num inequívoco tom de ordem, que dali em diante os dois dormiriam no mesmo quarto, que agora agiriam como marido e mulher, e só então o pai, que também estava completamente bêbado, disse-lhe que aquilo não era possível, que ele não podia continuar enrabando a irmã — o ajudante se defendeu dizendo que eram apenas meios-irmãos, e foi assim que ela soube do parentesco. Totalmente descontrolado, com ódio nos olhos, o ajudante começou a bater no pai de Yasna, que, como sempre soubera, era também seu próprio pai, e deu ainda um soco no lado esquerdo da cabeça de Yasna antes de ir embora.

Disse que estava indo embora para sempre, e no fim das contas cumpriu sua palavra, mas durante os meses seguintes ela continuava temendo que ele voltasse, e às vezes também queria que ele voltasse. Uma noite sentiu medo e dormiu vestida, ao lado do pai. Duas noites. Na terceira dormiram abraçados, e também na quarta, e na quinta noite. Na noite de número seis, de madrugada, ainda adormecida, sentiu o polegar do pai tateando sua bunda. Talvez tenha vertido uma lágrima quando recebeu a investida do pênis gordo do pai, mas não desatou a chorar, porque não chorava mais, do mesmo modo que não mais sorria quando queria sorrir: o que seria um sorriso, o que fazia quando sentia vontade de sorrir, era outra coisa, executada de outro jeito, com outra parte do corpo, ou apenas mentalmente, em sua imaginação. O sexo voltou a ser o que para ela sempre havia sido: algo mecânico e árduo, grosseiro, mas sobretudo mecânico.

O escritor almoça apenas um creme de aspargos e meia taça de vinho. Joga-se no sofá próximo ao aquecedor, cobrindo-se com uma manta. Dorme só por dez minutos, que entretanto são suficientes para um sonho cheio de acontecimentos, com mil possibilidades e impossibilidades, e que esquece imediatamente ao acordar, embora retenha a seguinte cena: está dirigindo pela estrada de sempre, em direção a San Antonio, num carro que tem o volante à direita, e tudo parece sob controle, mas, ao se aproximar do pedágio, é invadido por uma angústia urgente de explicar sua situação à cobradora. Teme que a mulher morra de susto ao se deparar com o assento vazio onde devia estar o motorista. O volume desse pensamento aumenta até ficar estridente: ao ver aquele carro sem motorista, a cobradora — uma delas em especial, da qual sempre se lembra, pela forma como amarra o cabelo, e pelo nariz estranho, comprido e torto, embora não seja necessariamente feia — morreria de susto. “Vou sair do carro rapidinho”, pensa no sonho, “vou explicar para ela.”

Decide parar o carro alguns metros antes e descer dele levantando os braços, fazendo o gesto de quem quer mostrar que não está armado, mas a cena não chega a se consumar de fato porque, embora a guarita esteja perto, o carro demora infinitamente para chegar até ela.

Anota o sonho, mas o distorce, arredonda-o, sempre faz isso: não consegue evitar embelezar seus sonhos ao transcrevê-los, não consegue deixar de adorná-los com cenas falsas, mais verossímeis ou totalmente fantasiosas que insinuam saídas, conclusões, reviravoltas inesperadas. Em seu relato a cobradora é Yasna e é até verdade que de um modo indireto, obscuro, elas se parecem. Logo entende o próprio feito, o deslocamento: em vez de trabalhar num banco, Joana será cobradora de um pedágio, que é um dos piores trabalhos que pode haver. Imagina-a esticando o braço, tentando pegar todas as moedas, amando e odiando os motoristas, ou completamente indiferente. Imagina o cheiro das moedas em suas mãos. Imagina-a sem sapatos e com as pernas abertas, que são as únicas licenças a que se pode dar naquela cápsula, e depois a bordo de um ônibus intermunicipal, de volta para casa, cochilando encostada na janela, e a seguir planejando o assassinato, na verdade convencida então de que, além do mais, como dizem na missa, aquilo é justo e necessário. Depois de cometer o crime parte para o Sul, dorme num albergue em Puerto Montt, e chega a Dalcahue ou a Quemchi, onde espera encontrar um trabalho e se esquecer de tudo, mas comete alguns erros absurdos, desesperada.

Na última vez que viu Yasna estiveram a ponto de dormir juntos. Até então se encontravam apenas nos almoços no centro; quando ele a convidava para um cinema ou para dançar, ela se desfazia em desculpas vagas acerca daquele noivo ou namorado perfeito que inventara. Mas num dia qualquer ela ligou para ele, foi até a casa do escritor, viram um filme e depois pensaram em ir até a praça, mas no meio do caminho ela mudou de ideia, e acabaram indo para o apartamento de Danilo, fumar maconha e beber vinho. Estavam os três na sala, chapadíssimos, jogados no chão, inescrupulosos e felizes, quando Danilo tentou beijá-la e ela carinhosamente negou. Meia hora, talvez uma hora depois, disse aos dois que em outro mundo, num mundo perfeito, ela dormiria com os dois, e com qualquer um, mas que neste mundo de merda ela não podia dormir com nenhum deles. Em suas palavras havia um peso e uma eloquência que deveria tê-los fascinado, e talvez de fato estivessem fascinados, mas também estavam ausentes, perdidos.

Depois de um tempo, Danilo deu uma risada ou um espirro. Se você quiser um mundo perfeito, fuma outro, disse, e foi para seu quarto ver tv. Eles continuaram na sala e embora não houvesse música Yasna começou a dançar; sem muitos preâmbulos, tirou o vestido e o sutiã. Ele a beijou e tocou seus peitos, acariciou sua virilha, tirou sua calcinha e lambeu lentamente seus pelos pubianos, que não eram pretos como seu cabelo, e sim castanhos. Mas de repente ela se vestiu de novo e se desculpou, disse a ele que não conseguia, que a perdoasse, mas que não era possível. “Por quê?”, perguntou ele, e em sua pergunta havia desconcerto e também amor — ele não se lembra, seria incapaz de se lembrar, mas havia amor. Porque somos amigos, disse ela. Não somos tão amigos assim, respondeu ele, com muita seriedade, e repetiu isso muitas vezes. Yasna soltou uma bela risada de quem está chapada, uma gargalhada verdadeira e deliciosa que foi se apagando aos poucos, que durou dez minutos, quinze minutos, até que conseguiu encontrar, com dificuldade, o caminho para um tom sério e ressoante que correspondia ao que diria a seguir, que aquilo era uma despedida, que não podiam mais se ver.

Ele sabia que não faria sentido perguntar nada. Ficaram abraçados num canto. Ele pegou a mão direita de Yasna e foi roendo as unhas dela com calma. Ele não lembra, mas enquanto a olhava e lhe mordia as unhas pensava que não a conhecia, que nunca a conheceria.

Antes de irem embora se sentaram um pouco em frente à tv com Danilo, para ver uma partida de tênis. Ela tomou quatro xícaras de chá, numa velocidade impressionante, e comeu dois pães franceses. Onde está sua mãe?, perguntou de repente para Danilo. Na casa de uma tia, respondeu. E onde está seu pai? Não tenho pai, respondeu. E então ela disse: sorte a sua. Eu tenho, mas vou matá-lo. Na minha casa tem um rifle e eu vou matar meu pai, disse. E vou para a cadeia e vou ser feliz.

Já são três da tarde, ele não tem mais muito tempo. Liga o computador com urgência, irrita-se com os segundos que o sistema e o processador de texto demoram para inicializar. Escreve rápido, em coisa de minutos, as cinco primeiras páginas, desde o momento em que o detetive chega ao lugar dos acontecimentos e descobre que já esteve ali, que é a casa de Joana, até o momento em que vai ao sótão e encontra caixas antigas com roupas do tempo em que foram namorados, porque na ficção eles namoraram de fato, mas não durante muito tempo, e às escondidas. Também encontra o globo terrestre que deu a ela de presente, mas sem o suporte que o sustentava, além de uma mochila que pensa reconhecer no meio da bagunça de varas e carretéis de pesca, baldes e pás de praia, sacos de dormir, halteres enferrujados. Continua procurando e procurando de novo, como costuma acontecer nos livros, nos filmes e às vezes também na vida real, encontra uma evidência que não é conclusiva para os demais, mas sim para ele: uma caixa cheia de desenhos, centenas de desenhos, que eram todos retratos do pai, organizados por data ou por sequência, cada um mais fidedigno que o anterior, no começo feitos a lápis, e depois, a maioria, com a tinta verde de uma caneta bic de ponta fina. Ao ver os contornos tão marcados, desenhados por cima tantas vezes que com frequência perfuravam o papel, e ao reparar em como ela exagerou os traços do pai, que contudo não chegavam a ser caricatos, que nunca perdiam a aura do realismo, ao olhar novamente os desenhos o detetive descobriu o que deveria ter sabido muito antes, o que não soube ler, o que não soube dizer, o que não soube fazer.

Trabalha em velocidade constante nas cenas intermediárias e se esmera nas duas últimas páginas, quando o detetive encontra Joana num albergue de Dalcahue e promete que irá protegê-la. Ela relata, com detalhes abundantes, o crime, que postergara tantas vezes na vida, e quando chora parece mais tranquila. Talvez fiquem juntos, por fim, depois de tudo, mas não se sabe com certeza. O final é justo, delicado, elegantemente ambíguo, embora não seja claro o que o escritor entende por ambiguidade, delicadeza, elegância.

Não é um grande conto, mas o envia sem mais delongas, e consegue até tomar um pisco sour e comer uns aipins à huancaína antes de seus amigos chegarem ao restaurante.

Não é um grande conto, não. Mas Yasna gostaria.

Yasna gostaria do conto, embora não leia, não goste de ler. Se fosse um filme, assistiria até o final. E se o alugasse de novo e não se lembrasse de tudo, ou inclusive se lembrasse bem, voltaria a vê-lo. Mas não costuma ver filmes, e também não costuma se lembrar do escritor, nem sequer sabe que ele é escritor. Lembrou dele, isso sim, há alguns meses, caminhando pelo bairro em que ele morava.

Quando desenganaram seu pai, recomendaram que ela lhe desse maconha para amenizar as dores, e pensou nas plantas de Danilo, por isso a caminhada, que parecia errática mas não era: ela adorava se dar ao luxo de dar voltas sem sentido, em torno de algo, ou inclusive chegar ao fim da rua e dar meia-volta, como se procurasse um endereço, mas lembrava perfeitamente onde Danilo morava, só queria se dar a esse luxo, que era um luxo moderado, aquela tarde, pois tinha tempo: seu pai estava dormindo, mais calmo, com menos dores que na semana anterior, ela podia sair e dar uma volta, podia se demorar.

Espero que você não tenha matado seu pai, disse Danilo, quando finalmente a reconheceu, e como ela não lembrava o que havia dito aquela noite, quase vinte anos antes, olhou para ele apreensiva e desconcertada. Depois se lembrou do plano, do rifle de chumbinho, e daquela tarde maluca. Sentiu uma alegria incômoda ao lembrar desses detalhes perdidos, enquanto Danilo falava e fazia piada. Gostou daquela casa, do ambiente, da camaradagem. Ficou para lanchar com Danilo, sua mulher e seu filho, um menino moreno e cabeludo que falava como um adulto. A mulher, depois de observar Yasna com muita atenção, perguntou como ela fazia para se manter tão magra. Sempre fui magra, respondeu. Eu também, disse o menino. Yasna comprou bastante maconha e Danilo também lhe deu de presente algumas sementes.

Ainda falta um tempo para a planta florescer, e agora ela a rega e a observa enquanto escuta as notícias no rádio. Seu pai não a viola mais, nem poderia. Ela não o perdoou, chegou a um ponto em que não acredita no perdão, nem no amor, nem na felicidade, mas talvez acredite na morte, ou ao menos a espera. Enquanto muda os móveis de lugar na sala, pensa no que será de sua vida quando ele morrer: é um sentimento abstrato de liberdade, talvez abstrato demais, e por isso mesmo cansativo. Pensa numa dor ambígua, num desastre tranquilo, silencioso.

Ouve da cozinha as lamúrias do pai, sua voz degradada, corrompida pela doença. Às vezes grita com ela, dá bronca, mas ela não liga. Outras vezes, em especial quando está chapado, solta risadas afogadas, diz frases desconexas. Yasna pensa na vontade de viver, em seu pai se agarrando com unhas e dentes à vida, quem saberá para quê. Leva outro biscoito de maconha para ele, liga a tv, põe os fones de ouvido nele. Fica por um tempo a seu lado, folheando uma revista. “Eu não acreditava em Deus, mas só com a ajuda dele consegui superar a dor”, diz um ator famoso sobre a morte de sua esposa. “É simples: muita água”, diz uma modelo, em outra página. “Não deixe que as zombarias te afetem.” “É a segunda novela que faz, só neste ano.” “Existem muitos jeitos de viver a vida.” “Não sabia no que estava me metendo.” “Talvez você precise fazer um grande esforço para realizar seus afazeres pendentes.”

Escuta o caminhão do lixo, os gritos dos garis, os latidos do cachorro, o rumor de risadas gravadas que vem dos fones, ouve a respiração do pai e sua própria respiração, e nenhum desses ruídos consegue modificar a sensação que tem de silêncio — não de paz: de silêncio. Depois vai até a sala, enrola um baseado e fuma na escuridão.

O sol dos cegos

joca reiners terron
1
Stefan Czarniecki nunca se acostumaria ao sol dos trópicos. A luminosidade era branca, ampla, direta, funda, densa, quase sólida e latejava bem detrás de seu globo ocular esquerdo, no nervo ótico, enquanto acompanhava policiais militares em meio aos barracos. O que ele, um corretor de seguros polonês, fazia em uma favela de São Paulo? Mesmo que fechasse os olhos, as pálpebras eram transparentes demais, cílios de ratazana de laboratório. Aquele ataque aos sentidos não passava do modo grosseiro que o sol arranjou para lhe desejar boa tarde. Saíram da viela cercada de tapumes úmidos em direção à luz, deixando o rastro de comida queimada para trás, zanzando entre as cabeças escuras que se insinuavam pelas fendas das janelas. Podia ver suas sandálias recém-compradas no lobby do hotel e a poeira avermelhada que erguiam a cada passo se acumulando nos cantos das unhas dos pés. Logo adiante, o calcanhar do coturno militar chafurdava nas poças. Entraram em um campinho de futebol. Tufos de mato ressequido, pelotas de lama da chuva da noite anterior endurecidas pelo calor. Gotas de suor escorreram-lhe da testa, nublando sua visão. No céu, silhuetas dos urubus em voo espiral indicavam que haviam chegado ao local. O pau que sustentava o travessão caíra, a meta nunca lhe parecera tão desguarnecida. Porém, não havia nenhuma chance de gol por ali, nem de vitória. Na mancha branca da paisagem quase apagada pela luz solar se destacava um núcleo ainda mais branco do que tudo ao redor. E então, no epicentro da pintura, um borrão vermelho. Fedor de sangue coagulado. Debaixo das solas, uma consistência de areia empapada. Como se o pintor da cena tivesse resolvido enfiar um cubo sanguinolento naquela alvura toda em grossas pinceladas de tinta contra o monopólio do branco. Stefan espremeu os olhos para enxergar melhor. O policial disse: “Que barbaridade, nunca vi nada parecido com isso”.

A cruz vermelha no vidro traseiro indicava que o cubo se tratava de uma ambulância. Uma maçaroca de carne crua ocupava todo o interior da parte de trás. Devia haver uns quinze cadáveres no espaço destinado às macas. Talvez vinte, como saber. Ninguém conferiu se o número estava certo. Stefan olhou sem querer olhar.

— E os rrodas do embulência?

— Pfff! — disse o policial. Limpava os dentes com o mesmo palito que usara para coçar a orelha.

— Pfff? — disse Stefan. — No comprreende.

— Pfff — disse o policial, batendo asas com as mãos. — Saíram voando.

No assoalho do passageiro da frente, Stefan encontrou um lenço caído. Lembrou-se de outro lenço como aquele, um lenço que tinha pertencido a seu falecido avô. Mas este era de criança. Era rosa, e havia um nome cerzido nele: Carolayne.

Com um lenço nas mãos e outro na lembrança, Stefan fechou os olhos e viu um bando de manchas negras. A visão durou um segundo ou talvez menos; quando abriu os olhos, não sabia quantos urubus tinha visto. Era um número definido ou indefinido? O problema envolvia a questão da existência de Deus. Se Deus existia, o número era definido, porque Deus sabia quantos urubus ele tinha visto. Se Deus não existia, o número era indefinido, porque ninguém podia fazer a conta. Nesse caso, Stefan estava certo de que vira menos de dez urubus pousados sobre a ambulância e mais de um, mas não viu nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois urubus. Viu um número entre dez e um, que não era nove, oito, sete, seis, cinco etc. Esse número inteiro era inconcebível. Ergo, Deus não existia.

— Não pudemos enfiar os defuntos nos sacos plásticos — disse o policial, afugentando um urubu da ambulância com seu cassetete. — Pois não dá pra saber onde termina um corpo e começa outro.

Stefan pediu licença com um breve aceno, tropeçou para trás no facho branco de luz estendido na viela e vomitou seu almoço.



2
Stefan Czarniecki, Stefan Czarniecki. Não houve saída para ele, a não ser acatar ordens de seu chefe (ou seja, minhas ordens) no escritório da wtf em Munique e voar até São Paulo a fim de negociar a renovação da apólice que cobria a frota de ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência da prefeitura. A sorte nunca esteve ao seu lado, sei disso, mas mandei-o mesmo assim. Para ser honesto, era difícil saber quais qualidades Stefan tinha, na verdade, observando-o arrastar com esforço seus cento e trinta quilos ornamentados por bermuda e camisa floridas para fora do automóvel alugado em frente à subprefeitura da Lapa na manhã seguinte à visita ao campo de futebol. Ele tinha apenas uma qualidade especial, sem dúvida, mas estava bastante oculta. Um flanelinha encostou e pediu dinheiro para vigiar o carro. Stefan não o entendeu, mal podia enxergar o moleque por causa do sol. O flanelinha disse dólar, dólar, esfregando polegar e indicador diante da cara avermelhada de Stefan, que afinal compreendeu, não sem antes ficar completamente rubro. O flanelinha era negro retinto e muito magro; Stefan era ruivo, gordo demais. Não fosse a rudeza do flanelinha, pareceriam boas-vindas dadas por um terráqueo a um marciano.

Stefan era polonês. No fundo tinha alguma perspicácia, pois sempre considerou irônico um polonês trabalhar para uma companhia de seguros alemã. Alemães nunca foram conhecidos por passar aos poloneses qualquer sensação de segurança, ele costumava pensar. Nas duas semanas em que se preparou para viajar ao Brasil, estudou português via Skype com uma professora angolana que vivia em Berlim. Ele cogitou que talvez fosse boa ideia jogar todas as suas fichas e não voltar mais, afinal a Europa não estava indo nada bem. Também descobriu que a maconha sul-americana era razoável, e que o presidente brasileiro, um socialista bigodudo de chapéu-panamá e bonachão que vivia numa fazenda, estava liberando o uso da droga. Era um atrativo e tanto para ficar por ali. Além disso, havia o sol. Ele gostaria de se bronzear em uma praia, embora duvidasse que isso fosse possível. Suas sardas ardiam com facilidade.

Quando pisou no aeroporto de Cumbica e viu cães farejadores de droga estendendo os focinhos em direção a sua camisa havaiana que recendia haxixe (não a lavava fazia seis meses), achou que tinha errado de conexão. Havia algo de errado, mas não era isso, conforme depois descobriria na internet: o país que pretendia liberar a maconha se chamava Uruguai e o presidente do Brasil usava barba, não chapéu-panamá. Nunca tinha ouvido falar do Uruguai, e ao procurá-lo no mapa entendeu o motivo.

Despertou com o telefone no meio da madrugada. Era seu chefe. Acontecera um sinistro com uma das ambulâncias da prefeitura. Não sabia maiores detalhes, apenas que Stefan teria de fazer a vistoria, e aproveitar para mostrar serviço. A mão do acaso sempre dirige um veículo segurado por nós, costumava dizer o chefe, e repetiu isso mais uma vez enquanto Stefan imaginava a mão do acaso que vacilava, causando um desastre aéreo sobre uma plantação de maconha. Era esse o principal defeito de Stefan: sua concentração rapidamente virava fumaça.

Dois dias mais tarde, depois de se desvencilhar do flanelinha, Stefan entrou na sala de espera da prefeitura onde tinha hora marcada na Secretaria de Saúde. Na parede do guichê envidraçado no qual trabalhavam assistentes sociais havia uma foto do secretário em traje militar. Desde sua chegada, Stefan vira soldados em todos os lugares, agora encontrava outro, em um cargo executivo. Aquele não era um país democrático? Ou seria o Uruguai o país democrático? A fila era enorme, o secretário parecia ter muitos problemas a resolver. Pessoas com nuvens negras em lugar de rostos que Stefan tentou contar: eram mais de cinquenta, menos de cem. O policial militar que o acompanhara ao local do sinistro no dia anterior o reconheceu, depositando-o no final da fila. Nas portas ao longo do corredor, diversas placas afirmavam: o desacato a funcionário público no exercício de seu trabalho é crime — pena de seis meses a dois anos de retenção ou multa.



Na longa sequência de cadeiras enfileiradas, apenas uma mulher chorava. Tinha o corpo dobrado sobre si, a cabeça pousada sobre as próprias pernas e uma criança pequena segurava sua mão. Seu pranto era breve e baixo, como um soluço sem intervalos. Stefan aderiu ao silêncio do restante da fila, enquanto acariciava o lenço rosa dentro do bolso florido de sua camisa. Era a melhor forma de atrair a atenção espiritual de Zofia. Pensou: um veículo usado para salvar vidas entupido de gente assassinada. Mas como o lenço foi parar na ambulância?

3
Uma semana antes da chacina, Brayan suava frio dentro do ônibus a caminho do trabalho. Fazia um sol danado naquele dia, mesmo assim sua mão parecia gelada como a de um sapo. Há tempos que não encontrava emprego fixo, desde que o demitiram do cargo de assistente geral de um condomínio da Zona Oeste. Prestava serviços de eletricista, marcenaria e construção, porém não fazia nada disso direito. Na esquina, ao voltar do culto certo dia, reencontrou o velho Caçamba, mestre de obras cuja especialidade era construir templos evangélicos. Tinha serviço a oferecer, em uma mansão do Morumbi, e o ofereceu. Pagavam mixaria, mas a filha de Brayan estava muito adoentada e ele aceitou. Desceu no ponto de ônibus mais próximo e caminhou cerca de dois quilômetros até a mansão. Na porta o esperavam outros desempregados de seu bairro. Um tio, três primos e dois sobrinhos. Falaram que aquela era a casa do pastor. A casa parecia coberta por vegetação desde os muros de pedras que a protegiam da rua, estendendo-se ao telhado e às paredes que davam no pátio interno onde se encontrava o terreno da obra a ser construída. Vidros escuros nas janelas não permitiam ver o interior da casa. Um imenso negro careca ostentando terno preto e gravata recebeu a todos. As únicas palavras que disse foi que deviam trabalhar em silêncio. Da maneira como foi dita, a frase não soava nem um pouco ambígua: deviam trabalhar quietos, assim como era obrigatório ficarem em silêncio a respeito da natureza da obra. O velho Caçamba mostrou aos pedreiros de que se tratava: na planta não assinada, o projeto exibia o desenho de uma enorme piscina em forma de bunda feminina. O ângulo era inusitado: de frente (ou de trás, para ser mais preciso), revestida com pastilhas e azulejos em diversos tons de carne que forneciam ao revestimento do fundo da piscina o relevo glúteo a ser preenchido com água azul-anil. No centro da bunda, no local correspondente ao ânus, seria instalada uma fonte luminosa. Em situação não muito diferente da enfrentada por Brayan, os outros pedreiros — todos fiéis da mesma igreja evangélica e igualmente desempregados — nada argumentaram sobre o despudor da construção. Começaram a escavação tão silenciosamente a ponto de parecer que faziam um sepulcro, não uma piscina.

4
Enquanto aguardava ser atendido, Stefan fazia contas. O sol era tão forte que irrompia pelas janelas basculantes ao longo do corredor, iluminando as pessoas na fila de espera. Um raio de sol caiu sobre a mãe prostrada e sua criança, deixando-as transparentes e irreais. Para poder enxergá-las, Stefan apertava os olhos ao máximo, fazendo com que lágrimas caíssem em profusão. As lágrimas deixavam a imagem ainda mais turva. Em sua pasta, Stefan carregava uma planilha com todos os custos e números da apólice milionária da wtf, além de descontos e vantagens necessárias para convencer o secretário a renovar o seguro das ambulâncias. Aquela cidade tinha cento e setenta e um veículos, sendo que cento e quarenta estavam em operação e os quarenta restantes pertenciam à reserva técnica. Não era uma estimativa ruim. De acordo com seus cálculos havia uma ambulância para cada oitenta e dois mil habitantes, índice adequado ao fornecido pela Organização Mundial de Saúde de uma ambulância a cada cento e cinquenta mil habitantes. Antes de entrar na fila para ser atendido pelo secretário, Stefan inspecionara as ambulâncias estacionadas no pátio em frente ao pronto-socorro da Barra Funda. Estavam em boas condições, eram veículos novos. Tudo parecia em perfeita ordem. Havia, porém, uma inconsistência nos números das planilhas de Stefan. Embora o número de ambulâncias fosse mais do que suficiente para atender a população, a quantidade de prontos-socorros não era. Existiam somente doze prontos-socorros em funcionamento na cidade. Daí as filas aparentemente infinitas diante dos hospitais e de todas as seções de serviço público. Sem pronto atendimento em hospitais, aquelas pessoas se amontoavam em frente ao guichê da assistência social — e do Centro de Controle de Zoonoses, dos Postos de Vacinação, do Departamento de Trânsito e de qualquer escritório do serviço público destinado a resolver outros tipos de demandas — com a esperança de serem atendidas por um médico. Só que não havia nenhum médico ali, nem nos outros lugares. Através do vidro embaçado da janela, a luz solar atingiu os olhos entreabertos de Stefan, arrancando-lhe lágrimas. Sem pensar direito, atordoado pela luminosidade, tirou o lenço rosa do bolso e enxugou o rosto. Ao fazer isso, percebeu que do outro lado do corredor a mãe por um momento saiu de sua prostração e ergueu o olhar para ele. Na verdade fitava o lenço em suas mãos. Reconhecera alguma coisa.

5
Na madrugada em que voltou para casa depois de sua primeira jornada de trabalho na mansão, Brayan encontrou sua mulher sentada na soleira da porta. A menina mais nova fazia tranças no longo cabelo da mãe. Brayan não disse nada, apenas saltou vagarosamente por cima de ambas e entrou direto na cozinha, dirigindo-se ao quarto único que o casal dividia com as duas filhas. Carolayne estava deitada, olhando o zinco furado do teto com olhos brancos. Antes, em tempos melhores, ela costumava dizer que os furos lembravam estrelas. Ao lado da cama, uma bacia de plástico estava quase cheia de vômito com laivos de sangue. A mulher apareceu no quarto.

— Conseguiu vaga pra menina na enfermaria? — disse Brayan.

— Não — ela disse. — Faltei no… — a voz dela implodiu, não chegando a pingar o ponto final na frase.

Brayan botou sua mão de sapo suarento na testa da menina. Ardia em febre.

— Piorou muito.

Depois, sentou-se em silêncio na soleira, acendeu um cigarro e admirou as estrelas de verdade, não as do teto de zinco todo furado. Gostaria de pensar em uma saída imediata para ajudar a filha, porém só conseguia fazer contas de resultados insondáveis, pois não sabia calcular direito. A obra deveria terminar em duas semanas, então com absoluta certeza receberia o pagamento no máximo em vinte dias. O valor seria suficiente para pagar dois aluguéis atrasados e a conta no mercado, ou ao menos parte dela, mas não chegaria a tempo de levar Carolayne a uma clínica particular. Tuberculose. Um vizinho lhe disse que não acreditava que ainda morresse gente daquilo. E o que estava acontecendo com sua filha, não estava prestes a morrer daquilo? Os números embaralharam na cabeça de Brayan e ele parou com as contas sem ter chegado a nenhuma solução.

E se pedisse parte do pagamento adiantado ao Caçamba? No entanto, o mestre de obras se comportara de um jeito irreconhecível ao longo daquele primeiro dia de trabalho. Nem parecia o devotado irmão que Brayan conhecia dos cultos evangélicos. Permaneceu apartado dos pedreiros enquanto trabalhavam, em silêncio ao lado do negro de terno. Dava para ver o relevo do coldre da pistola debaixo do paletó daquele cara, e ele ficava o tempo todo com fones de ouvido sem soltar um pio. Quando foi beber água, Brayan se aproximou um pouco dele. Percebeu que o negro ouvia somente estática nos fones — em volume tão alto que podia ser escutada por quem se aproximasse do bebedouro, ao lado de onde ele permaneceu o dia inteiro, duro feito uma estátua. Que tipo de gente ouve barulho de estática tão alto nos fones de ouvido o dia inteiro? A maioria das pessoas ouve música, por pior que seja seu gosto. Aquilo não era normal.

Caçamba parecia com medo.

Da profundeza dos corredores daquela mansão saía um vento encanado muito frio que arrepiou a espinha dos pedreiros.

6
Em sua segunda noite no Brasil, de volta ao quarto de hotel depois de inspecionar a ambulância sanguinolenta, Stefan acariciou mais uma vez o lenço de criança e recordou do lenço que pertenceu a seu avô assassinado no massacre da floresta de Katyn, na Polônia, em 1940. Uma relíquia de família. Quando a tragédia aconteceu ele ainda não tinha nascido, mas a conhecia por meio da história tantas vezes contada por sua avó.

Stefan depositou o lenço rosa sobre o criado-mudo e tragou com força o baseado. Era bem razoável, o garoto que lhe vendera no posto de gasolina em frente ao hotel não mentiu. A maconha brasileira era mesmo muito boa, pena que o presidente brasileiro não fosse o presidente uruguaio e o Brasil não fosse o Uruguai. A América do Sul poderia ser bem aprazível, mas não chegava a tanto. Parecia apenas um lugar confuso.

O telefone tocou uma, duas vezes. Stefan atendeu, considerando que talvez fosse seu chefe. Não era.

— Oi, vó. Como vai?

Era sua avó, que morrera fazia alguns anos. De início Stefan se assustava com aqueles telefonemas. Depois se acostumou e até começou a gostar deles. O mais misterioso de tudo aquilo era que sua avó sempre tinha uma história para contar a respeito de um objeto similar ao que Stefan carregava no bolso na ocasião. Se ele carregasse um lenço que tivesse encontrado num cenário de crime, por exemplo, ela contaria algo sobre algum outro lenço. Se fosse um isqueiro, contaria sobre um isqueiro. Desta vez ela queria contar de novo a história da morte do marido. Sempre acontecia quando Stefan fumava um baseado. Em certas circunstâncias, acontecia mesmo sem que ele fumasse. Esta era a grande qualidade de Stefan: ele falava com sua avó.

Ela então começou sua história. A avó de Stefan viajara a Smolensk ao encontro dos pais um dia antes do marido dela ser preso em Kozelsk, muitos anos atrás. Hitler tinha acabado de invadir a Polônia. O avô de Stefan era oficial do exército polonês. O exército soviético executou vinte e dois mil soldados poloneses nas florestas ao redor de Katyn.





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