A vivência do aqui-e-agora na relaçÃo terapêutica na abordagem gestáltica



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A VIVÊNCIA DO AQUI-E-AGORA NA RELAÇÃO TERAPÊUTICA NA ABORDAGEM GESTÁLTICA
Maísa Roberta Pereira Ramos Lopes1

Virginia Elizabeth Suassuna Martins Costa**

Isadora Samaridi***
RESUMO

O artigo objetiva descrever a experiência de uma terapeuta-estagiária na perspectiva gestáltica no que se refere a aplicação do conceito teórico aqui-e-agora dessa abordagem, na relação com uma cliente que vivencia distúrbios em sua temporalidade, por meio da metodologia fenomenológica. Sendo necessário, vivenciar o presente como um movimento permanente entre passado e futuro sendo possível por meio do enfoque fenomenológico. Durante o processo observou-se que o contato com o aqui-e-agora emergiu da relação terapeuta-cliente e ambas foram aprendendo a entrar em contato com a vivência do agora. Vale ressaltar, que a presença genuína do psicoterapeuta e sua compreensão do aqui-e-agora na relação terapêutica foram primordiais para levarem o cliente a experienciar a temporalidade no presente de fato.


Palavras-chave: Aqui-e-agora. Abordagem gestáltica. Temporalidade.
O tempo dentro da psicologia, segundo Augras (2004), costuma receber um enfoque tradicional, sendo compreendido como algo exterior ao homem, que nele atua e tenta manipular em proveito próprio, mas sem sucesso, pois na verdade o homem está sujeito a ele. No enfoque fenomenológico-existencial, o tempo é visto como o horizonte para a compreensão e construção do ser, em que faz parte da orientação significativa do mesmo, sendo o tempo extensão e criação da realidade humana.

Na temporalidade linear e mecanicista, há o tempo kronos, palavra grega que indica noção de cronômetro. Por outro lado, o tempo kairós, está relacionado ao tempo do amadurecimento interno. Na perspectiva fenomenológico-existencial, temporalizar implica experienciar o tempo, sendo esta a vivência que mais se aproxima da existência humana. Na existência cotidiana imediata, o tempo é vivenciado como uma totalidade, que engloba tanto o já acontecido, como o que espera que venha acontecer. A vivência do tempo é única para cada pessoa, assim como a percepção da intensidade, da velocidade e dos sentimentos acompanhados dessa vivência (COSTA, 2004; FORGHIERI, 2011).

Entretanto, as alterações na percepção temporal acontecem apenas no tempo kairós e não no kronos que mantém sempre a sua duração. Deste modo, o temporalizar (vivência subjetiva do tempo) pode se estender tanto em relação ao passado como em direção ao futuro, com amplitude ou restrição, pode-se então dizer que tempo é um construto através do qual a realidade é para um sujeito que dá sentido a ela (COSTA, 2004; RIBEIRO, 2004).

Nessa perspectiva, a vivência de sintonia e o contentamento expandem o temporalizar enquanto a vivência de preocupação e contrariedade restringem o temporalizar. Assim, o adoecimento existencial consiste no estancamento da maturidade existencial do ser-no-mundo, na imobilização do káiros, que impedido de se consumar enquanto projeto livre do existir, se rende ao kronos, perdendo a noção de continuidade temporal. Deste modo, o indivíduo fica cristalizado num único modo de atuar (vivencia apenas o passado ou apenas o futuro) e se torna menos capaz de ir ao encontro de qualquer de suas necessidades de sobrevivência (COSTA, 2004; PERLS, 2011).

A Gestalt-terapia acredita que tudo acontece no campo - aqui-e-agora - que existe em dado momento, em dado espaço de tempo. Nesta perspectiva, pessoa e meio ambiente só podem ser considerados agora, num campo que apesar de constituído por outros microcampos, todos estão em íntima conexão e em sua finalidade se encaminham para produzir uma única realidade. Então, passado e futuro com significância são passado e futuro retidos no presente, pois a existência não é uma realidade sem referência a um futuro, mas também não o é sem retenção de um passado (RIBEIRO, 2009a; YONTEF, 1998).

Levando em conta que o ser humano não é só passado, mas também é historicidade, um ser que vive a dimensão temporal em sua totalidade, na qual passado, presente e futuro se fundem no aqui-e-agora, o enfoque está na experiência do cliente no aqui-e-agora, uma vez que somente fatos presentes podem produzir comportamento e experiência. Na abordagem gestáltica faz-se importante que o cliente tome consciência global da maneira como está funcionando e o que está fazendo no aqui-e-agora e de como pode se transformar e, ao mesmo tempo, aprender a aceitar-se e valorizar-se, tendo como objetivo favorecer a manifestação do vivido no momento presente (COSTA, 2008; GINGER, 2007; RIBEIRO, 2009a; YONTEF, 1998).

Ribeiro (1985) esclarece que presente e aqui-e-agora se equivalem. Quando se tem o presente, tem-se tudo que é preciso para compreender e experienciar a realidade como um todo. Estar no aqui-e-agora é um abrir-se a análise e a informação, viver no aqui-e-agora é um experienciar a realidade interna e externa, como ela acontece, tenham ou não antecedentes que a expliquem ou justifiquem.

O presente ou o aqui-e-agora convivem com o organismo e com o passado que são uma história, numa relação figura e fundo, de todo e parte. Ambos - passado e corpo - estão presentes, a visão é de um campo na qual as partes estão intimamente relacionadas com o todo, sendo este o lugar onde a realidade acontece, por isso, não há campo antes ou depois, ele é agora, porque o aqui-e-agora é a-histórico. O presente é responsável por ele mesmo, ele se auto explica, se auto revelando, deste modo é o no aqui, neste espaço, e no agora, neste tempo, que a história do sujeito se faz presente, então ao fincar os pés no presente, tanto o passado quanto o futuro, que anteriormente poderiam parecer assustadores, acabam por assumir uma dimensão diferente para o cliente (RIBEIRO, 1985; CARMO, 2004; RIBEIRO, 2009a; LATNER, 2004).

Carmo (2004), Costa (2004), Yontef (1998) e Perls, 2011) afirmam que, na experiência da Gestalt-terapia, o que quer que exista, é ‘aqui-e-agora’. Para Gestalt -terapia o objetivo é favorecer a manifestação da história de si no presente. Há uma busca incessante pela possibilidade de que o cliente, por si mesmo, traga a sua história e a reexperimente no espaço em que se insere, “o aqui” e no tempo presente, “o agora”. Não se trata de negar a importância do que se viveu no passado ou do que há de vir no futuro, mas de valorizar outros momentos da vida, que igualmente contribuem para o constitutivo humano, até porque a totalidade da temporalidade está inclusa no presente. É assim, pois o objetivo da psicoterapia é dar meios para que a pessoa possa resolver seus problemas atuais e qualquer outro problema que surja futuramente. Se a cada momento puder verdadeiramente perceber a si próprio e as suas ações no nível da fantasia, da fala ou físico, pode ver como está provocando suas dificuldades presentes e pode ajudar a si próprio a resolvê-las no presente, no aqui-agora. No decorrer do processo cada resolução torna mais fácil a próxima, porque cada uma delas aumenta a autossuficiência da pessoa.

Nesse sentido, o Gestalt-terapeuta busca trabalhar com o significado que o passado/futuro no presente tem para cada elemento do processo terapêutico. Por isso, pede-se ao cliente que durante a sessão volte toda a sua atenção para o que está fazendo no momento, ou seja, justamente no aqui-e-agora. Isto, pois, trata-se de uma abordagem fenomenológico-existencial que investiga a vivência do cliente assim como ela se dá. Nela o processo terapêutico ocorre a partir da abertura do terapeuta para a experiência do cliente no aqui-e-agora, mostrando-se totalmente presente, seguindo passo-a-passo os significados expressados pelo cliente, o levando a se abrir para o próprio reconhecimento (HYCNER, 1995; FELDMAN, 2004; PERLS, 2011).

Hycner (1995), Carmo (2004) e Perls (2011), por seu turno, alertam que é muito difícil contatar o presente na relação terapêutica, pois o terapeuta está sujeito de ao invés de estabelecer uma relação empática, de total interesse no cliente e suas reações, formar um vínculo de simpatia ou envolvimento total do campo. Quando acontece uma relação de simpatia, o terapeuta pode acabar dando ao cliente todo o apoio ambiental que ele quer, não percebendo suas manipulações. Deste modo, o terapeuta corre o risco de deixar de lado ou perder o aqui-e-agora e de sucumbir à tentação do fazer, ou seja, passar ‘receitas’ prontas ao cliente na expectativa de perceber resultados rápidos no processo psicoterapêutico. O fato é que o psicoterapeuta pode apenas ajudar o cliente em sua autodescoberta como se fosse um espelho de aumento, doando-lhe os ouvidos e olhar de forma atenta, confirmando a sua dor, descrevendo suas atitudes, pontuando suas incoerências, respondendo verbalmente como sinal de aceitação e percepção. As descobertas devem ser feitas pela própria pessoa, o psicoterapeuta é apenas um facilitador.

Ao trabalhar com o aqui-e-agora, o Gestalt-terapeuta amplia a consciência do cliente, trazendo-o para vivenciar a situação passada ou futura no agora, ou seja, promove a awareness que pode acontecer somente no presente. Um conceito primário dentro da Gestalt-terapia é o de awareness, que em uma tradução aproximada pode significar “presentificação”, “tornar-se presente”, “concentração”, “conscientização”. Pode ser definida como estar em contato com a própria existência, com “aquilo que é”, é o “dar-se conta”, o “estar presente”. A awareness total é o processo de estar em contato vigilante com os eventos mais importantes do campo indivíduo/ambiente, com total apoio emocional, sensório motor, cognitivo e energético. Awareness é, pois, uma tomada de consciência global, é estar incessantemente atento ao fluxo permanente das sensações físicas, sentimentos, idéias, à sucessão ininterrupta das “figuras” que aparecem no primeiro plano das preocupações da pessoa, no “fundo” constituído pelo conjunto da situação que se está vivendo e da pessoa que se é, e tudo isto ao mesmo tempo no plano corporal, emocional, imaginário racional e comportamental (YONTEF, 1998; CARDELLA, 2002; SPANGENBERG, 2004; GINGER, 2007).

Trabalhar com o aqui-e-agora é trabalhar com o fenômeno que se mostra, que aparece, para tanto é preciso que o terapeuta esteja atento e com os sentidos aguçados, enfatizando as observações feitas, por meio da descrição fenomenológica. Ao descrever, o terapeuta está “ensinando” o cliente a se auto-perceber, dando passos para o alcance da awareness. É apenas com a vivência do aqui-e-agora que o cliente será capaz de aprender a se distinguir e identificar suas reais necessidades. Por meio do ‘como’ e do ‘que’ ele vai percebendo e aprendendo como ficar totalmente envolvido no que está fazendo, como manter uma situação tempo suficiente para fechar a Gestalt e passar para outro assunto e assim aprender a contatar de forma sadia. Deste modo, percebe-se a importância do presente, mesmo que ele seja o meio mais trágico e doloroso, é a única porta para a realidade (RIBEIRO, 1985; HYCNER, 1995; PERLS, 2011; SPANGENBERG, 2004).

Muitas pessoas não conseguem contatar o agora, por viverem no presente com se estivessem no passado ou viverem no futuro como se fosse hoje, estas estão com distúrbios em sua awareness de tempo. Eles precisam aprender a vivenciar o presente como um movimento permanente entre passado e futuro e isso só será possível por meio do enfoque no que se está sentindo no momento que o fenômeno surge, ou seja, no aqui-e-agora (YONTEF, 1998).

Nesse sentido, o objetivo desse artigo é descrever a experiência de uma terapeuta estagiária, no que se refere especificamente a aplicação do conceito teórico ‘aqui-e-agora’ da abordagem gestáltica, na relação com um paciente que vivencia distúrbios em sua temporalidade a partir da metodologia fenomenológica. Justifica-se pelo interesse das autoras em favorecerem a vivência do aqui-e-agora na relação terapêutica na tentativa de compreender a vivência do futuro no aqui-e-agora.




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