[A vida como ela é] Aquela simpática senhora!



Baixar 2,07 Mb.
Página281/354
Encontro29.11.2019
Tamanho2,07 Mb.
1   ...   277   278   279   280   281   282   283   284   ...   354
O doce veneno da paixão!

E aquele simpático senhor, poeta e cronista menor, cabelos grisalhos, conservador, respeitador, honesto, pai, marido e avô, vivia intensamente suas “insanas” paixões desde a sua mais tenra idade como uma criança a se lambuzar com o mel quando o degusta pela primeira vez. É bem verdade que o amor custou a lhe sorrir durante seus anos verdes e depois que ele amadureceu foi que o amor resolveu lhe dar o sorriso tão esperado. Ele sempre foi um menino “rejeitado” por suas coleguinhas de classe que não tinham a mesma “classe” dele e que hoje o desejam sem que ele as perceba. A vida é mesmo uma roda que gira e se hoje estamos no topo, amanhã certamente não estaremos e assim é a trajetória vital.

O simpático senhor de quem eu ouvi tanto falar e que cheguei a conhecê-lo é bem mais que um simples “cinquentão apaixonado”. Ele é um “sedutor incorrigível” que sempre se vê mergulhado no mar das ilusões que ele próprio cria para tornar-se náufrago. Antes, até ele se denominava “marujo de copo de bar” quando fazia uso de bebidas alcoólicas para afogar suas mágoas e frustrações com estas ingratas meninas mulheres flores fascinantes, brilhantes e inteligentes que sempre o torturou de maneira impiedosa.

Hoje ele vive bem próximo de mim e eu diria até que temos algo semelhante, pois eu me vejo em sua pele e comungo dos seus sentimentos como se meus fossem. Mas falemos dele e não de mim. Ele vive acorrentado em suas paixões diuturnas e não consegue se libertar delas nem por um segundo qualquer. Sempre estou a encontrá-lo caminhando cabisbaixo pelas ruas da minha cidade com seu olhar triste bem próprio dos amantes inconsequentes que vivem de amores fugazes.

Esta manhã eu fui à missa e costumo observar no lugar onde ele tem o hábito de se sentar para poder me certificar da sua presença na igreja. Hoje eu não o vi. A presença dele me faz um bem enorme, mas hoje ele não estava presente na celebração eucarística e isso me deixou profundamente chateado. Ele é fascinante, brilhante e inteligente como as meninas mulheres que ele sempre admira. É um homem educado, muito bem afeiçoado, veste-se de social chique, extremamente sisudo, de vez em quando faz leituras nas missas com uma voz maviosa e inconfundível, é amado e odiado entre os seus porque desperta inveja e ciúmes entre as suas meninas mulheres, enfim, eu passaria horas a narrar suas virtudes e bem menos tempo para narrar os seus defeitos. Eu não consigo ver defeitos nele porque eu sou seu admirador convicto.

Entretanto, findou-se a missa e eu procurei saber do simpático senhor que hoje não veio rezar. Eu fui informado de que ele faleceu na noite de ontem em razão de um infarto súbito e não mais me foi dito nada. Eu quase me enfartei (vejam que não errei a grafia porque o "simpático senhor" me ensinou a diferenciá-las e fazer o uso correto de ambas) ao saber desta triste notícia e saí da igreja sem saber o que faria sem a minha inspiração diuturna. Ele era o meu "poeta medíocre e apaixonado" que me fazia delirar com seus mal traçados versos e com a sua simpatia singular. Antes de voltar para casa eu soube que o seu corpo estava sendo velado no velório municipal de onde sairia o seu sepultamento às 09h00 desta manhã. Desci rapidamente em minha casa, peguei o carro e fui dar o adeus ao meu admirado cronista menor. Olhei e toquei no seu gélido corpo dentro do caixão e ele parecia me dizer num sotaque afrancesado: “IL FAUT CULTIVER TON JARDIN”. E eu chorei! O seu caixão foi fechado e o cortejo seguiu até a cova aberta conforme o seu pedido. Nada de carneiro (eu escrevi carneiro) e nem túmulo de tijolos, mármore ou granito. Ele quis ser abraçado pela Terra-Mãe! E assim foi feito! O cronista que muito amou suas meninas mulheres lindas, fascinantes, brilhantes e inteligentes, agora está morto. E está dito!




Compartilhe com seus amigos:
1   ...   277   278   279   280   281   282   283   284   ...   354


©psicod.org 2019
enviar mensagem

    Página principal