A territorializaçÃo na atençÃo básica: um relato de experiência na formaçÃo médica



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A TERRITORIALIZAÇÃO NA ATENÇÃO BÁSICA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA NA FORMAÇÃO MÉDICA

Lorena Sousa Soares1; Larissa Galas Justo2; Ana Kalliny de Sousa Severo3; Antônio Vladimir Félix da Silva4

Introdução: No Brasil, a estruturação da política de saúde vem sofrendo um processo de sucessivas mudanças, com a atuação de importantes segmentos sociais e políticos no sentido de reivindicar o avanço do movimento pela Reforma Sanitária, bem como a consolidação do Sistema Único de Saúde – SUS. No contexto brasileiro, busca-se a transformação da formação médica no sentido de confluir com os objetivos do SUS e fortalecer uma atenção em saúde focada nas necessidades de saúde da população, delineando projetos que tenham o ensino voltado para comunidade. Um dos fundamentos da ESF é a atenção básica territorializada, construída sobre uma base territorial espacialmente delimitada e seguindo o modelo instrumentalizado na adstrição da clientela. O território, para efeito do processo de produção de saúde da comunidade, deve ser considerado um espaço vivo capaz de produzir saúde, portanto, um espaço que deve passar por um diagnóstico epidemiológico para identificar os fatores e condições pertinentes aos processos de saúde e doença de determinada região. Ele deve ser entendido como espaço dinâmico em constante metamorfose nos mais variados aspectos - história, demografia, cultura e epidemiologia - e, consequentemente, sujeito a constante variabilidade de riscos e vulnerabilidades. Características que reverberam na administração, política tecnologia e sociedade dentro de suas fronteiras físicas e intangíveis. À medida que o planejamento da educação em saúde se afasta do modelo biomédico e se adequa à reorientação dos sistemas de saúde, o conhecimento sobre o processo de territorialização torna-se ferramenta necessária para que a transição entre tais modelos de aprendizado ocorra de modo fluido e funcional, especialmente no contexto da Atenção Básica. O curso de Medicina da Universidade Federal do Piauí (UFPI), campus Ministro Reis Velloso (CMRV), na cidade de Parnaíba, tem como eixo teórico-metodológico ensino-serviço-comunidade e como áreas de competência profissional: atenção, gestão e educação em saúde. Trata-se de um curso novo inaugurado de acordo com as Diretrizes Nacionais Curriculares para o Curso de Graduação em Medicina de 2001 e com as Normas estabelecidas pelo Grupo de Trabalho de Expansão da Educação Médica de 2010, além disso, o curso está organizado por módulos. Como a educação permanente em saúde se constitui dispositivo de articulação entre ensino-serviço-comunidade e as áreas de competência do profissional médico? Aqui, não temos a pretensão de responder a essa problematização. Não obstante, as discussões e resultados da experiência que será relatada apontam algumas pistas, “reconhecendo que reside na educação uma fonte de conhecimento que contribui para que os sujeitos tenham maior autonomia para o cuidado de si”, sabendo que “o cuidado de si não se produz por conhecimento, ele precisa encontrar um território existencial fértil, em que possa acontecer”. Nessa perspectiva, pensamos que o dispositivo educação em saúde pode contribuir com a produção de novos modos de existência a partir da territorialização. Dentre os oito módulos de APS no curso, o módulo de Atenção Primária em Saúde I (APS I), presente na matriz curricular no primeiro semestre do curso, é o responsável por introduzir o conceito e a prática da territorialização no aprendizado dos estudantes de medicina do curso. Para que estes compreendam a complexidade dos processos de saúde, os docentes introduzem o ensino expondo, em atividades práticas e tangíveis, a importância e as dificuldades do processo de reconhecimento e adstrição do território. Esse módulo, dentro do qual está previsto o desenvolvimento de competências relativas à Atenção à saúde, Gestão em Saúde e Educação em Saúde, figura em oito dos doze semestres da referida graduação. Período de realização: Durante o semestre letivo 2015.2. Objeto da intervenção: Nesse sentido, buscamos refletir acerca da importância da territorialização na atenção básica em saúde na formação médica a partir de uma experiência vivenciada com a inserção de graduandos em medicina na Estratégia Saúde da Família (ESF). Objetivo: Relatar a experiência de alunos recém-ingressados no curso e de professores participantes do módulo de APS I durante o segundo semestre de 2015. Resultados e Análise crítica: O Módulo APS I é composto de aulas teóricas e práticas, que objetivam o aprendizado sobre determinação social da saúde, a compreensão dos aspectos teóricos e históricos da emergência da prática médica, o reconhecimento dos sujeitos e das práticas de saúde e a complexidade da atenção e saúde comunitária. Os alunos foram divididos em grupos de oito a dez participantes e inseridos em cinco Unidades de Saúde da Família da zona urbana do município. Ao longo do semestre, foram realizadas em torno de sete visitas no território, com as seguintes finalidades: mapeamento da área de cobertura da Unidade de Saúde a partir de observações participantes acompanhadas por Agentes Comunitárias de Saúde (ACSs), rodas de conversas com ACSs, entrevistas com enfermeira e cirurgiã-dentista e visitas domiciliares. Essas visitas eram intercaladas com aulas teóricas, cuja construção do conhecimento se dava a partir do diálogo com as atividades práticas e o uso de práticas integrativas grupais. As atividades de visitas aos territórios eram registradas através da construção de diários e da caixa de afecções. A UBS visitada é referência para um dos bairros mais antigos da cidade e para uma comunidade ribeirinha. O bairro é considerado um dos pontos de origem da cidade de Parnaíba. Os serviços oferecidos por essa UBS incluem acolhimento, serviço de enfermagem, atendimento médico, consulta de pré-natal e puericultura, curativos, dispensação de medicamentos, dispensação de preservativos e contraceptivos, exame preventivo de câncer de colo de útero, grupo de educação em saúde, imunização, nebulização e planejamento familiar. No processo de territorialização, o grupo de alunos e professoras caminhou pelas ruas do bairro, acompanhado dos ACSs. Alguns instrumentos foram fornecidos para guiar as observações. Além de aspectos gerais do território e da identificação da equipe, a atividade foi previamente orientada através de um roteiro de perguntas para a comunidade, contendo os seguintes direcionamentos: Quem somos nós? De que vivemos? Como vivemos? Quais dificuldades você vivencia no lugar onde você mora? E em relação à saúde? Quais problemas em relação à saúde você mais encontra onde você vive? O que tem de bom onde você mora? Quando você tem um problema de saúde, a quem/o que você procura (colocar todas as opções)? Como você vê o posto de saúde e quais sugestões você dá para melhorar o trabalho do posto de saúde? Outras questões que surgirem. Além disso, foram realizadas rodas de conversa com dois profissionais de nível superior e com a superintendente da Atenção Básica, a odontóloga e a enfermeira, que também era a gestora da unidade. Foram realizadas perguntas a respeito da formação e nível desses profissionais, cargo ocupado, tempo de serviço na instituição, além de questionamentos acerca da visão desses profissionais quanto à comunidade, atividades realizadas, metodologias e estratégias de intervenção e, por fim, principais dificuldades e benefícios do serviço na qual estavam inseridos. Para fins de discussão analítica da experiência, selecionamos quatro eixos analíticos, a saber: A participação dos ACSs no ensino médico: a ampliação do olhar sobre o território; Aprendendo sobre equidade: a importância do vínculo equipe-comunidade; O protagonismo de estudantes, profissionais e comunidade: constituindo grupos sujeitos; A aprendizagem por meio da territorialização: o uso de porfólio, o fórum e a caixa de afecções. Recomendações: Os objetivos específicos do módulo de APS I incluem o aprendizado sobre determinação social da saúde, a compreensão dos aspectos teóricos e históricos da emergência da prática médica, o reconhecimento dos sujeitos e das práticas de saúde e a complexidade da atenção e saúde comunitária. Além desses, estão incluídos o estudo dos elementos de pesquisa em atenção básica e a situação de saúde no Brasil, incluindo o entendimento do modelo assistencial, da regionalização e da municipalização de saúde, em seus diversos níveis de assistência e sistemas de saúde. Essa ementa foi executada concomitantemente à atividade prática da territorialização realizada pelos próprios alunos na composição da carga horária do módulo. Orientados pelos professores e por membros da equipe de saúde das UBS dos bairros, especialmente os ACSs, os discentes foram capazes de fixar o conteúdo de aprendizagem de forma ativa, produzindo conhecimento além das paredes de uma sala de aula. Utilizando metodologias ativas e submetidos ao impacto da comunidade em seus determinantes sociais de saúde e suas características multifatoriais, alunos e professores notaram uma maior sensibilidade no processo de aprendizagem. Devido à efetividade desse modelo de ensino, o método será aprimorado e continuará a figurar no módulo de APS I, sendo responsável por introduzir os novos estudantes de Medicina à complexidade do serviço de saúde através das várias facetas daquilo que, em um primeiro momento, aparenta ser um recorte simples e pequeno de um mapa. Apesar das dificuldades enfrentadas, a experiência foi considerada, pelos alunos e professores que a conheceram a partir das atividades do módulo, uma unidade modelo na cidade de Parnaíba. Embora sua estrutura física esteja longe de figurar no topo do que há de mais moderno ou apropriado às diretrizes da ESF – afinal, existe em um ambiente que foi inicialmente construído como uma casa, e não como uma UBS – é um local bem cuidado pelos profissionais responsáveis e pela comunidade. A equipe é pontual e organizada, capaz de planejar suas ações de acordo com os calendários nacionais de saúde e adaptá-las às características da população com a qual trabalha, de acordo com demandas e necessidades observadas. Para além da produção imaginária de uma unidade modelo, ressaltamos aqui a superação dos grupos segmentados no ensino (docente e discentes), no serviço (agentes comunitários e demais profissionais) e na comunidade (participação social) e a aposta na perspectiva ético-estético-política no que devem comum desses múltiplos grupos, comunidade porvir e no devir grupo sujeito como dispositivos que nos fazem experimentar, problematizar e narrar a experiência da territorialização.


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