A teoria do



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A teoria do frame goffmaniana influiu significativamente na metodologia de pesquisa sobre os movimentos sociais, a partir dos anos 1980. O quadro (frame) é um artifício que seleciona, segundo as intenções e perspectivas de um sujeito individual ou coletivo, aquilo que percebemos. Em Frame Analysis (1974), Goffman, influenciado por William James (1950), Schutz (1945), mas também pela análise que Gregory Bateson realizou da metacomunicação (1972), considera o frame como um guia que constrange a interpretação, constituindo também uma condição necessária para sua existência. O primeiro objetivo aqui é reconstruir o emprego da análise do frame por pesquisadores de ação coletiva em movimentos sociais. Snow e Benford (1986) criticaram a “visão estática da participação” nas teorias sobre os movimentos sociais, em grande parte dominadas pela sociologia das organizações e os modelos de tomada de decisões, encontrando na análise do frame elementos para identificar os fatores que contribuem para o sucesso dos movimentos. O modo em que um movimento social enquadra um problema é um dos indicadores da sua tendência para formar a opinião pública. Os quadros servem como “andaimes conceituais” para a construção de novas ideologias ou para modificar as atualmente existentes. Os quadros não estão em padrões de conversação culturalmente assimilados; ao contrário, os indivíduos é que controlam o processo de enquadramento. Assim, o estudo dos obstáculos que limitam o potencial desenvolvimento de quadros num dado contexto social transforma-se em estratégia político-ideológica (NUNES, 2004).

William A. Gamson (1992), embora crítico à “visão estática” dos movimentos sociais, enfatiza, diferentemente de outros teóricos, a importância do estudo do discurso midiático. Os processos de enquadramento são vistos como uma montagem intencional de “pacotes do quadro”, tanto para consumo midiático quanto para uma etapa da mobilização consensual. Gamson também se distinguiu por propor um método de identificação e codificação de quadros, sinalizando para a possibilidade de uma análise quantitativa do frame, empregando softwares estatísticos para “análise do conteúdo” de textos. A teoria de Gamson constitui a base para uma metodologia da análise do quadro proposta por Hank Johnston (1995).

Gamson considera a mídia não só como agência central na produção do significado cultural, mas também como um dos pontos de convergência dos movimentos sociais para mudar a política pública ou as percepções. Seus trabalhos empíricos contribuem para estudo da opinião pública e consistem em análises de transcrições de discussões realizadas em pequenos grupos. Os processos de enquadramento são vistos como uma montagem intencional de “pacotes do quadro”, tanto para consumo midiático quanto para a mobilização consensual. Por outro lado, Gamson se distinguiu por propor um método de identificação e codificação de quadros, sinalizando para a possibilidade de uma análise quantitativa do quadro, empregando softwares estatísticos para “análise do conteúdo” de textos.

A teoria de Gamson constitui a base para uma metodologia da análise do quadro proposta por Johnston (1995). Sua estratégia consiste em submeter uma base empírica de textos falados e escritos de movimentos sociais a uma microanálise de frames, vistos como resultado de um planejamento estratégico, mas também de correntes culturais de âmbito internacional. A abordagem de Johnston é um tipo de dualismo metodológico; há espaço para hipóteses causais, mas também para uma sociologia da compreensão ou interpretação. O ponto positivo da proposta de Johnston está na viabilização de recursos técnicos para realizar uma pesquisa sociolingüística que incorpora elementos da psicologia cognitiva, além de uma abordagem semântica e pragmática do discurso.

A leitura “engajada” feita por autores como Snow e Benford, Gamson e Johnston da análise do frame recebeu críticas, principalmente em razão da dificuldade em distinguir os conceitos de quadro e de estruturas ideológicas. Há também o que poderíamos aproximar de um problema da base empírica na teoria do frame, com reflexos na análise dos movimentos sociais. Qualquer transformação no quadro da experiência e percepção, como as modulações (keyings) e fabricações (fabrications), analisadas por Goffman, tem por base estruturas primárias de percepção de atividades (primary frameworks), como o quadro que torna inteligível uma conversa entre duas pessoas. Seria possível, contudo, considerar tal quadro como primário sendo que podemos empregar na conversação comum termos ou expressões empregados em comunicações intermediadas por computadores, por exemplo? A perspectiva do frame na análise e orientação dos movimentos sociais, com o desenvolvimento dos construtos de “alinhamento do frame” proposto com o quadro dos possíveis participantes e a reconstrução do conteúdo simbólico dos frames de movimentos sociais levando em conta master frames (SNOW, BENFORD, 1992) culturais da ação coletiva (como o quadro dos direitos humanos hoje, p. ex.), ilustra possíveis reconstruções e aprimoramentos na teoria do frame. No entanto, pretende-se na segunda parte da comunicação analisar também a controvérsia metodológica em torno da idéia de intencionalidade coletiva, que, em nível metateórico, seria compartilhada por autores que advogam a perspectiva do frame na ação coletiva, mas também outros teóricos também adeptos de um pluralismo metodológico na análise de novos movimentos sociais, como Melucci (1998, 2001) e Charles Taylor (1985). O problema da intencionalidade coletiva tem sido analisado, na tradição da filosofia analítica das ciências sociais, por autores como John Searle (1995), Margareth Gilbert (2006) e Raimo Tuomela (2002).

A terceira parte da comunicação compreenderá a análse, em nível técnico, de alguns indicadores empíricos de variáveis usuais na perspectiva do frame de movimentos sociais, como participação, motivação, compromisso, além de variáveis específicas que afetam a ressonância de um frame (credibilidade e autoridade dos promotores, orientação ideológica e atitudinal do público-alvo; consistência, relevância e compatibilidade cultural do frame). Referenda-se aqui obras recentes da perspectiva de análise do frame da ação coletiva dedicadas a aspectos práticos das estratégias de framing, bem como da análise de casos empíricos. Privilegia-se aqui, principalmente como exemplos de aplicação analítica do instrumental trabalhado na reconstrução, trabalhos recentes na produção sociológica brasileira influenciados pela perspectiva do frame (CARBONE, 2009; CHEREM, 2006; GOHN, 2002).

Referências

BATESON, Gregory. A theory of play and phantasy. In: Steps to an echology of mind. New York: Ballantine Books, 1972 [1954]


CARBONE, Beatriz J. L. Segurança alimentar e governança para transgênicos: um estudo sobre o ativismo transnacional. 2009. Dissertação – Mestrado em Ciência Política. Campinas, Unicamp.

CHEREM, Youssef A. Islã, legitimidade e cultura política: o movimento estudantil no Irã durante o período Khatami (1997-2005). 2006. Dissertação – Mestrado em Antropologia. Campinas, Unicamp.

GAMSON, William A. Talking Politics. Boston: Cambridge University, 1992.

GILBERT, Margareth. Rationality in Collective Action. Philosophy of the Social Sciences. V. 36, n. 1, p. 3-17, March, 2006.


GOFFMAN, E. Frame analysis. New York: Harper, 1974.

GOHN, Maria da G. Teoria dos movimentos sociais. Paradigmas clássicos e contemporâneos. São Paulo: Loyola, 2002.


JAMES, William. Principles of Psychology, v. 2 New York: Dover Publications, 1950, cap. 21, p. 283-324.

JOHNSTON, Hank. A methodology for frame analysis: from discourse to cognitive schemata. Social movements protest and contention. V. 4, 1995, p. 217-246.

MELUCCI, Alberto. A invenção do presente: movimentos sociais nas sociedades complexas. Petrópolis: Vozes, 2001.

MELUCCI, Alberto. Busca de qualidade, ação social e cultura. Por uma sociologia reflexiva. In: _____. Por uma sociologia reflexiva. Pesquisa qualitativa e cultura. Petrópolis: Vozes,1998. p. 25-42.

NUNES, Jordão Horta. O interacionismo simbólico e a dramaturgia: a sociologia de Goffman. São Paulo: Humanitas/Goiânia: Editora da UFG, 2004.

SNOW, David A. e BENFORD, Robert D. Ideology, frame resonance, and participant mobilization. In: KLANDERMANS, B., KRIESI, H. e TARROW, S. (eds.) International Social Movement Research: V. 1. London: JAI Press, 1988.

______. Master Frames and Cycles of Protest. In : MORRIS, A. D. ; MUELLER, C. M. (eds.), Frontiers in Social Movement Theory. New Haven: Yale University, 1992. p. 133–155.

SCHUTZ, Alfred. On multiple realities. In: Philosophy and Phenomenological Research, V (1945): 533-576.

SEARLE, John R. The construction of social reality. London: Penguin, 1995.

TAYLOR, Charles. Social theory as practice. In: Philosophy and the human sciences. Cambridge: Cambridge University Press 1985.



TUOMELA, R. The philosophy of social practices: A collective acceptance view. Cambridge: Cambridge University, 2002.


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