A sombra do vento carlos ruiz zafóN



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a sombra do vento




CARLOS RUIZ ZAFÓN

A sombra do vento



Tradução
Marcia Ribas


Copyright © 2001 by Carlos Ruiz Zafón


Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
Título original

La sombra del viento


Capa

Claudia Espínola de Carvalho


Foto de capa


Preparação

Sheila Louzada


Revisão

Damião Nascimento

Umberto Pinto de Figueiredo

Onézio Paiva



[2017]


Todos os direitos desta edição reservados à

editora schwarcz s.a.

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Telefone: (21) 3993-7510

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Para Joan Ramon Planas,

que merecia algo melhor

O Cemitério dos Livros Esquecidos


Ainda me lembro daquele amanhecer em que meu pai me levou pela primeira vez para visitar o Cemitério dos Livros Esquecidos. Despontavam os primeiros dias de verão de 1945 e andávamos nas ruas de uma Barcelona aprisionada sob um céu cinzento, com um sol de vapor que se derramava na Rambla de Santa Mônica como uma grinalda de cobre líquido.

— Daniel, o que você vai ver hoje, não pode contar a ninguém — advertiu meu pai. — Nem ao seu amigo Tomás. A ninguém.

— Nem à mamãe? — perguntei em voz baixa.

Meu pai deu um suspiro, amparado naquele sorriso triste que o perseguia como uma sombra pela vida.

— Claro que sim — respondeu, cabisbaixo. — Com ela não temos segredos. A ela você pode contar tudo.

Logo depois da guerra civil, um surto de cólera levou minha mãe. Nós a enterramos em Montjuic, no dia do meu quinto aniversário. Lembro apenas que choveu o dia todo e a noite toda e que, quando perguntei a meu pai se o céu chorava, faltou-lhe voz para responder. Seis anos depois, a lembrança dela era para mim como uma alucinação, um silêncio cheio de gritos que eu não tinha aprendido ainda a apaziguar com palavras. Meu pai e eu morávamos em um apartamento pequeno na rua Santa Ana, perto da praça da igreja. Ficava bem em cima da livraria herdada do meu avô, especializada em edições para colecionadores e livros antigos, uma loja encantada que meu pai confiava que algum dia passasse às minhas mãos. Cresci em meio a livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó e cujo cheiro ainda conservo nas mãos. Aprendi desde pequeno a conciliar o sono conversando com minha mãe na penumbra do quarto sobre os acontecimentos rotineiros, o que eu fizera no colégio, o que tinha aprendido naquele dia. Não podia ouvir sua voz nem sentir seu toque, mas sua luz e seu calor inflamavam cada canto daquela casa, e eu, com aquela fé dos que ainda podem contar a idade nos dedos das mãos, achava que se fechasse os olhos e falasse com minha mãe ela me escutaria onde quer que estivesse. Às vezes meu pai me ouvia da sala de jantar e chorava baixinho.

Lembro que, naquela madrugada de junho, acordei gritando. Meu coração batia como se minha alma quisesse abrir caminho no peito e se jogar pela escada. Meu pai apareceu no quarto, assustado, e me segurou em seus braços, tentando me acalmar.

— Não consigo me lembrar do rosto dela. Não consigo me lembrar do rosto da mamãe — murmurei, ofegante.

Meu pai me abraçou com força.

— Não se preocupe, Daniel. Eu lembrarei por nós dois.

Ficamos nos olhando no escuro, procurando palavras que não existiam. Aquela foi a primeira vez que percebi que meu pai estava envelhecendo e que seus olhos, olhos de névoa e de perda, estavam sempre focados em algum ponto atrás. Ele se levantou e abriu as cortinas, deixando entrar a luz morna da madrugada.

— Vamos, Daniel, vista-se. Quero lhe mostrar uma coisa.

— Agora? Às cinco da manhã?

— Algumas coisas só podem ser vistas nas trevas — disse meu pai, com um sorriso enigmático que provavelmente tomara emprestado de algum livro de Alexandre Dumas.

As ruas ainda se desmanchavam entre neblinas e orvalho quando saímos. Os lampiões das Ramblas projetavam, ao piscarem, uma avenida de vapor, enquanto a cidade se espreguiçava, libertando-se de sua fantasia de aquarela. Ao chegarmos à Rua do Arco do Teatro, nos aventuramos pela passagem do Raval, então Bairro Chinês, sob uma arcada que prometia uma abóbada de bruma azul. Acompanhei meu pai através daquele estreito caminho, mais cicatriz que rua, até que o brilho da Rambla se esvaiu às nossas costas. A claridade do amanhecer filtrava-se por varandas e tetos em sopros de luz oblíquos que não chegavam a roçar o chão. Finalmente, meu pai estacou diante de um portão de madeira lavrada, enegrecido pelo tempo e pela umidade. Diante de nós erguia-se o que me pareceu o cadáver de um palácio abandonado, como um museu de ecos e sombras.

— Daniel, o que você vai ver hoje, não pode contar a ninguém. Nem ao seu amigo Tomás. A ninguém.

Um homenzinho com traços de ave de rapina e uma cabeleira grisalha abriu a porta. Seu olhar aquilino pousou em mim, impenetrável.

— Bom dia, Isaac. Este é meu filho, Daniel — anunciou meu pai. — Ele logo fará onze anos e algum dia se encarregará da livraria. Já tem idade para conhecer este lugar.

O tal Isaac nos convidou a entrar com um leve assentir. Uma penumbra azulada cobria todo o interior, insinuando os traços de uma escadaria de mármore e uma galeria de afrescos repleta de figuras de anjos e criaturas fabulosas. Acompanhamos o vigia através daquele corredor palaciano e chegamos a uma grande sala circular, onde uma autêntica basílica de trevas jazia sob uma cúpula esfaqueada por focos de luz que jorravam do alto. Um labirinto de corredores e estantes repletas de livros se erguia da base até a cúspide, desenhando uma colmeia em cuja trama viam-se túneis, escadas, plataformas e pontes que deixavam adivinhar uma biblioteca gigantesca, de geometria impossível. Olhei para meu pai, boquiaberto. Ele sorriu para mim, dando uma piscadela.

— Daniel, bem-vindo ao Cemitério dos Livros Esquecidos.

Salpicando os corredores e as plataformas da biblioteca estava perfilada uma dezena de homens. Alguns se viraram para cumprimentar meu pai, de longe, e reconheci o rosto de vários colegas seus da associação de livreiros de sebo. À luz dos meus dez anos, aqueles indivíduos pareciam uma confraria secreta de alquimistas, conspirando escondidos do mundo. Meu pai se ajoelhou ao meu lado e, sustentando o olhar, me disse, com aquela voz delicada das promessas e confidências:

— Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que você vê, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram, que viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro troca de mãos, cada vez que alguém passa os olhos pelas suas páginas, seu espírito se expande e a pessoa se fortalece. Faz já muitos anos que meu pai me trouxe aqui pela primeira vez, e este lugar já era antigo. Quase tão antigo quanto a própria cidade. Ninguém sabe ao certo desde quando existe ou quem o criou. Estou contando a você o que me contou meu pai. Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as portas, quando um livro se perde no esquecimento, nós, guardiões, os que conhecemos este lugar, garantimos que ele venha para cá. Neste lugar, os livros dos quais já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, viverão para sempre, esperando chegar algum dia às mãos de um novo leitor, de uma nova alma. Na loja, nós os vendemos e compramos, mas na verdade os livros não têm dono. Cada livro que você vê aqui foi o melhor amigo de um homem. Agora só tem a nós, Daniel. Você acha que pode guardar este segredo?

Meu olhar se perdeu na imensidão daquele lugar, em sua luz encantada. Assenti, e meu pai sorriu.

— E sabe do melhor? — perguntou ele.

Neguei em silêncio.

— É hábito nosso, da primeira vez que alguém visita este lugar, que escolha um livro, aquele que preferir, e que o adote, garantindo assim que nunca desapareça, que se mantenha vivo para sempre. É uma promessa muito importante. Para toda a vida — explicou meu pai. — Hoje, é a sua vez.

Por quase meia hora, perambulei pelos esconderijos daquele labirinto com cheiro de papel velho, pó e magia. Deixei que minha mão roçasse as avenidas de volumes expostos, em uma tentativa de fazer minha escolha. Percebi, entre os títulos apagados pelo tempo, palavras em línguas conhecidas e dezenas de outras que não reconhecia. Percorri corredores e galerias em espiral, repletos de milhares de volumes que pareciam saber mais a meu respeito do que eu sabia deles. Aos poucos, assaltou-me a ideia de que atrás da capa de cada um daqueles livros se abria um infinito universo por explorar e que, fora daquelas paredes, o mundo deixava que a vida passasse em tardes de futebol e em novelas de rádio, satisfeito em ver apenas até onde ia o próprio umbigo e pouco mais. Talvez tenha sido esse pensamento, talvez o acaso ou seu parente elegante, o destino, mas o fato é que naquele mesmo instante percebi que já tinha escolhido o livro que ia adotar. Ou talvez devesse dizer: o livro que me adotaria. Ele se destacava timidamente no canto de uma estante, encadernado em uma capa cor de vinho e sussurrando seu título em letras douradas que brilhavam na luz projetada pela cúpula no alto. Aproximei-me dele e acariciei as palavras com a ponta dos dedos, lendo em silêncio:



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