A solidãO, a solicitude e a solidez da alma



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A SOLIDÃO, A SOLICITUDE E A SOLIDEZ DA ALMA

demerval florêncio da rocha
Todos morreram. Mas antes de morrer, com os olhos bem arregalados, fitavam minha solidão. Eles sabiam que, apesar de meu corpo, nunca estive ali para eles. Nem para ninguém. Embora solícito. Sempre. Todos os dias. Até na ausência. Solicitude não é presença. Presença é a presença de espírito. A solidão às vezes sabe muito bem se encarnar, coexistir. Mas o espírito do solitário só a duras penas se solidariza com o presente. Com os momentos dos outros. Mesmo o melhor terapeuta o que faz é, sobretudo, a terapia de si mesmo. A solidão não admite momentos. Nem encontros. A não ser o encontro consigo própria. Encontro sem tempo, todavia. Nem presente, nem passado, nem futuro. A solidão vive em alheamento ao tempo. É atemporal. Também nunca ninguém sabe onde se encontra a solidão. Talvez porque ela não precisa de lugares. Ela não tem qualquer espécie de conexão espaço-temporal.

Foi com esses pensamentos que parti. Sim, a solidão tem pensamentos. É só o que ela tem. É só o que ela é. Sim, parti depois que todos morreram. E todos já nasceram mortos. Há quem pense que na solidão não há vida. Só egoísmo. Discordo. Há vida em abundância na solidão. Só não pode ser compreendida. O solitário, como vou aqui defini-lo, entende muito bem a vida. A sua própria e a de outros entes. Ele, sim, não é compreendido. O solitário enxerga vida até onde ela parece não existir. Ele atribui vida muito além de si. Por isso ele se esvazia com tanta freqüência. Corre atrás de seu vazio. Aos olhos dos outros ele parece vazio. Mas são os olhos dos outros que não têm longitude, nem nitidez. Ninguém pode preencher o vazio do solitário. Nem nada. Nem o amor, nem o carinho, nem a justiça, nem a compaixão, nem a solidariedade dos outros. A solidão não é preenchível. É um vazio sem polaridade, ou seja, sem contradição, sem antônimos. É pura autonomia e autenticidade. Não se trata de egotrofia excessiva nem de medo de conjunções. A solidão não é disjuntiva, como querem os maus pensadores. É apenas uma abstração inexplicável.

O verdadeiro solitário é o eremita. O solitário que transubstancia sua solidão em doação, abnegação pelos outros, esse ou viu-se forçado a um falsa solidão ou a anula. Compassividade, alinhamento com o outro, acoplamento, despojamento de si para o outro, considero tudo isso uma falsidade bem intencionada, um belo e pragmático engodo. Todos vivemos falsamente. Inclusive eu, enquanto faço os preparativos para viver minha autêntica solidão. Que dirão de tudo isso os assistentes sociais? Não há ser autêntico fora da solidão. Considero equivocado o axioma de que o homem é um ser social. Defendo que o ser, em essência, não precisa da sociedade. Ele aterrizou nela apenas por conta de um casuísmo biológico, ou seja, a espécie não se continua sem a proximidade de dois espécimes disgêneres da mesma espécie. Agora nem mesmo isso será assim, depois que inventaram a clonagem reprodutiva. Mas, não acho boa essa invenção. Esses clones terão muita dificuldade de conhecer o sentido verdadeiro da solidão, porque esse sentido só o introjetamos, por mais estranho que pareça, a partir da conjunção genésica de sexos opostos. O resto, que o homem só vive em grupos, é mero academicismo para justificar a existência pretensiosa da sociologia. Não compactuo com Hegel nem com Marx, quando dizem que o homem só toma consciência de si através da intersubjetividade, ou seja, quando percebe a existência do outro. Dizer que precisamos do ser do outro para nos percebermos a nós mesmos como ser, acho isso um disparate. Acho isso muito válido para apreender a noção de alteridade, mas não a idéia de ser. Será que precisamos do conceito de alteridade para aceitar a existência do eu? Esses dois atributos – alteridade e intersubjetividade – só têm utilidade para explicar as escolhas que fazemos, mas não para se entender a solidão, pois esta não é escolhida por ninguém, ela simplesmente é por ser, ou seja, a solidão é um fenômeno ôntico e não sócio-antropológico. Também não acho correto pensar que fazemos escolhas com a maior autonomia que se possa imaginar. Não é bem assim. Há tanta heteronomia em nosso livre-arbítrio, que é mais adequado deixar esse “livre” entre aspas. Mas sobre isso pretendo filosofar em outra ocasião, à medida que eu for aprofundando meus pensamentos sobre a solidão.

Talvez seja complicado para Você descermos a essa profundidade de reflexão ontológica. Mas eu não tinha como fugir dela; do contrário, não conseguiria transmitir como quero a minha concepção de solidão, pelo menos da forma como eu a vivo em mim mesmo.

A sociologia renega a solidão como atributo essencial do ser humano. (Seria ridículo, o cúmulo do paradoxo, admitir como disciplina uma sociologia da solidão.) Acho que é porque a solidão ameaça a sociologia de extinção. Ameaça até a psicologia, que pouco enxerga aquém do transpessoal. Nem mesmo a psicoterapia existencial consegue entender o indivíduo sem a noção do outro. Para mim nada existe de tão útil à plenitude do ser, além do abandono de si próprio. Isso não tem nada a ver com estar disponível ao outro. Essa disponibilidade não é abandono de si próprio – é salvaguarda velada de alguma ambição ou a porta de saída de algum conflito interno, doméstico no mais das vezes. Ambição de não se sentir abandonado nem durante nem muito depois da ação altruística. Quando falo de abandono de si próprio, refiro-me a desconsiderar interações socioculturalmente padronizadas com o outro.

Foi com esses pensamentos que até agora não cheguei a lugar nenhum. Porque sempre tive medo deles. Sinto que preciso assumi-los inteiramente, ainda mais sendo meus. Porque tudo que não temi até agora apenas me levou para onde eu não gostaria de ter ido. Ou melhor, ficado. Às vezes me queixo que ninguém olha para minha solidão. Ou, se olha, não vê. Incoerência minha. Elementar. Ingenuidade. Pois a solidão não admite alguém. Nem o olhar de ninguém. Não considera ninguém. Já disse isso quando falei que não concordava com Hegel e com Marx. Então, é claro que a solidão não pode ser vista nem percebida por outro. Só pode ser analisada de dentro de si própria. Estou repetindo isso para que Você comece a acompanhar meu raciocínio e se interesse um pouco por esta digressão. Para a solidão não pode haver seres percepientes, a não ser o próprio solitário. Nem outro solitário. Essa coisa de encontro de solitários, só mesmo como anedota, pois solitários não se encontram, eu já disse. Nem em lares da “melhor idade”. Nem em “clube de paus mandados”. A solidão não é cognoscível. Não é um fenômeno que possa ser apreendido por contemplação alheia.

Vivemos sob a hegemonia cultural do ajuntamento, dos conglomerados humanos. Essa cultura só serve para uma coisa – para gerar cultura e encher o prato dos antropólogos. Mas os grandes êxtases, os grandes arrebatamentos, só os alcançamos quando estamos absolutamente sós. Nem o alheamento do espírito durante os orgasmos do coito é comparável ao êxtase do gozo solitário advindo da comunhão indescritível com o cosmos nas horas de máxima tomada de auto-consciência. Nem há nada mais doce que a lágrima dos sublimes pensamentos incompartilhados. O encontro consigo próprio pode ser até mais prazeroso que o intercurso com o semelhante. A grande valia do outro pode consistir em nele se pensar enquanto está ausente. A mente fica mais efervescente e criativa no agendamento do encontro que propriamente na discussão da pauta. O concreto desfaz rapidamente a mágica das imagens.

Pessoas têm percepções elaboradas sobre mim, sobre Você. Isso lhes dá a impressão de que me possuem de alguma forma. Passam então a exigir que eu passe a integrar seus mundos, sua vida. Acham que sentem (percebem) muito a meu respeito. Mas não percebem minha solidão. Não sabem que não me é peculiar integrar o mundo de ninguém. O sentimento de pertencimento não está integrado naturalmente à estrutura que integra minha solidão. Assim, minha tendência é me afastar cada vez mais da pessoa que julga me conhecer cada vez mais. E não se trata de esquizotimia paranóide. Não adianta o outro jurar que não me julga. O máximo que ele pode fazer é se esforçar para não demonstrar seus juízos. Ao menos com palavras. Todo juízo é interno e inalienável a qualquer conviva social. Por isso nunca posso jurar a ninguém sobre a durabilidade de qualquer amizade minha. As amizades do solitário são assim meio natimortas. Só não se sabe por quanto tempo. Podem desaparecer sem motivos de tempo nem de espaço. História e geografia não contam nas relações do solitário. Não confunda isso com arrogância, altivez, egoísmo, fatuidade. Já te expliquei: é pura misantropia, sociofobia vazada de meus genes. É a máxima fenotipização da complexa engenharia de meu gene “loniliness”. Em meus intrincados circuitos psico-espirituais esse gene adquiriu penetração e expressão máximas. Ele massacrou o inconsciente coletívo. Não há ambiente que consiga mascará-lo de mim mesmo. O melhor significante de solidão para mim é “solifilia”, um neologismo que acabo de cunhar, enquanto que para a maioria das pessoas e até de psicólogos é “solifobia”.

Todas as verdadeiras dimensões de um ser humano – espiritualidade, corporeidade, liberdade e transcendência – podem ser resumidas pela idéia de solidão. Nisso está toda autenticidade de uma pessoa. Aliás, fora disso nenhum ser pode ser chamado de pessoa. Essas vertentes as ponho aqui como ajuntamento de pedaços espalhados de filosofias. Nem os existencialistas, tão famosos, as juntaram assim. Se esses não tivessem negligenciado aspecto tão singular da natureza humana, eu não estaria fazendo Você perder o tempo de conhecê-lo agora. Os filósofos refletiram sobre muitas coisas, mas acho que nunca alcançaram a própria solidão. Penso que todos fugiram dela, assim como muitos fugiram das pessoas. Achavam que bastava fugir ou afugentar os outros para escrever seus pensamentos em paz. Na verdade não tinham paz. A paz é muito mais do que estar sozinho. Tinham apenas ausência de estorvo exterior. Os poucos que ousaram olhar para sua própria solidão morreram cedo – ou se suicidaram ou tiveram doenças graves da carne e do espírito. Nietzsche é o protótipo. Confundiu solidão com niilismo. Não foi capaz de assimilar a sublimidade da solidão. Descambou-a para o sofrimento pessoal. Fugir das pessoas não é o bastante para liberar a solidão. Não me refiro a se livrar da solidão. Digo deixar a solidão sem amarras – permitir que ela fique desobstruída – para ser vivida em plenitude.

Também os psicólogos não trouxeram grandes contribuições ao tema da solidão. Seus estudos estão impregnados de influências socioculturais. No mais das vezes vêem a solidão como frustração e carência, como inépcia da adaptação social. Atribuem à solidão um conceito pejorativo, vilipendiado pela noção de narcisismo, que a ela agregam fortuitamente. Algo a ser tratado, psicanalisado, psicodramatizado, gestaltizado, eliminado por catarse ou por medidas de socialização compulsória. Quando muito, os psicólogos recomendam o retiro, o isolamento social – e chamam isso de solidão – como estratégia para uma melhora pontual da auto-percepção. Quase sempre a consideram uma extravagância doentia de esotéricos inveterados. Até mesmo a psicologia existencialista tem para a solidão alcunhas semelhantes ao ascetismo, como se solidão fosse causa ou conseqüência de amargura auto-inflingida. A psicologia do maravilhamento continua à margem dos grandes debates nas ciências da mente. Tem se prestado apenas aos programas de conscientização das pessoas para os problemas ecológicos da atualidade, não percebendo que pode ser o alicerce para se aprimorar o entendimento da solidão-fenômeno.

Falando em ecologia, diversamente das pessoas, os animais e as plantas não circunscrevem o ser humano ao âmbito zoobotânico, ou sejam, não tentam enquadrar o homem fora do mundo do homem. Eles não têm percepção elaborada com elementos do universo cultural; não têm valores socialmente determinados. Nem sequer sustentam valor algum. Os animais acumulam, isto sim, moldes de comportamento instintual filogeneticamente construídos. É diferente. Por isso a natureza não tenta possuir Você. Por isso as pessoas se sentem livres na natureza inumana. Nunca pessoa alguma consegue ser ela mesma estando na presença de outra pessoa, seja presença corpórea ou virtual. Nem eu agora, escrevendo essas coisas pra Você. Aqui já estou tendo uma série de influências de Você. Penso se Você vai me entender. Penso em onde e como estarás na hora de ler o que te escrevo. Se coisas mais prementes não vão te distrair a atenção nessa hora. Penso sobre o que pensarás de mim. Penso que Você é importante para mim, e por isso te trato com “Ve” maiúsculo. São várias idiotices que desvirtuam minha mensagem e roubam alguma autenticidade de mim próprio neste momento. Por isso acho que, em termos de produção literária, a virtude só é pura quando o solitário escreve para si próprio. Sei que estás querendo saber por que eu digo que Você é importante para mim, quando antes disse que a solidão não precisa de ninguém. Mais à frente vamos falar sobre isso. Ou vamos falar agora mesmo. Você é importante para mim porque me inspirou a escrever e ampliar isso aqui. Eu queria mesmo escrever, mas não que tenha necessidade. Desejo não é necessidade. Só por isso? Sim, por enquanto é só. Mas não vá se insuflar pensando que Você é melhor inspiração do que meu próprio vácuo. Rudeza? Grosseria? São significados que só existem do outro lado das interações humanas. Não estou preocupado com isso, com essa coisa de ser taxado de frio e calculista. Cultivo a pureza de dizer-me a mim mesmo o que é o ser, sem interatividade. Você não tem motivo algum para me levar a mal. Simplesmente me compreenda; não me interprete.

As fontes que utilizamos para transmitir algo, a retórica, os recursos metafóricos, o tom das palavras, a pontuação, toda a parafernália semiótica... é tudo artificialidade. Perturbam mais do que viabilizam a manifestação do ser verdadeiro. Transformam o emissor em um mito que nem sempre é traduzível. Por isso sei que nunca me conhecerás. Não há como. Não que eu esteja te mentindo ou te omitindo. Mas há coisas que não conseguem se significar para o outro. São partes inerentes ao fenômeno da solidão. É arduamente complexo decodificar o solitário, qualquer que seja o código que ele tenha utilizado.

Também assim, diversamente do homem, são as montanhas, os penhascos, os rios, as grandes lonjuras, os caminhos ermos e extensos. Nada disso tem percepção de mim. Por isso acho que são instrumentos preciosos para a fluência da idiossincrasia da pessoa. Essas realidades não precisam emitir pareceres apreendidos, porque simplesmente não os têm. É certo que esses elementos às vezes se ressentem da ação do homem. Mas não é porque sintam a presença do homem. Sentem apenas as conseqüências nefastas da presença intrusa do homem. Por não perceberem o ser das pessoas, são, desse modo, os melhores comparsas da solidão. Deixam a solidão em paz. Ou deixam-na com a paz que lhe é própria. A solidão busca o nada, ou seja, ela não busca nada diferente do nada. O ser é o nada. Nisso Sartre trouxe uma colaboração muito pequena, pois ele disse apenas que o ser tem uma relação próxima com o nada. Poderia ter ido mais longe. É possível que tenha se apavorado com a própria solidão. E recuou. Ele caiu na besteira de estudar muita psicologia antes de escrever O ser e o nada. Do contrário, talvez não tivesse tantas insuficiências com o ser e tantos preconceitos com o nada.

Foi com esses pensamentos, minha querida amiga, que nunca mais regressarei. Sim, é assim mesmo: pensamentos no passado e regresso no futuro. Pois, já te disse que solidão não tem presente. Não regressarei nem para rever os mortos. Também nem podem ser revistos. Solidão não vê, sente. Seria muita penúria para a solidão se ela pudesse rever os mortos. Já é de monta o mal que a lembrança dos mortos causa à virtude da solidão. Essa lembrança ameaça a estabilidade da solidão. Mas não são só os mortos, coitados. A própria vida, por ter uma tragetória circular, acarreta danos incontáveis ao aprimoramento da mais perfeita das virtudes. Digo isso porque a solidão é um ponto que segue em linha reta, é auto-suficiente. Não pode e nem precisa colher forças gregárias fora de seu trajeto. Segue um feixe de luz, não uma fonte inteira. Não irradia formas e circunstâncias ao seu redor. A solidão não é radiante fora de si própria. Ela apenas irradia de si tudo aquilo que não pertence a ela, que tenta desestruturá-la. Sua constante combustão nutre apenas seu próprio epicentro. Tudo que a ela pertence, para ela converge. Não se compraz com a historicidade que se constrói nas circunjacências. É o sentimento de si para si. Como rainha das virtudes, ela gera outras virtudes e as deixa atrás de si, para que delas se sirvam aqueles que não compõem virtudes suficientes para viver a solidão.

A maioria das pessoas vê a solidão como carência, quase uma vacuidade. Desamor por si próprio e pelo outro. Prenúncio ou companheira da depressão. Muito pelo contrário, vejo que não é a carência que a caracteriza, mas o excesso que a incomoda. Excesso de acompanhamentos, de demandas, de afinidades presumidas, de cobrança. Para se viver a solidão como êxtase permanente ou bastante repetido, como proponho aqui, todos os excessos são perniciosos. As sobrecargas em torno do solifílico acaba transformando a solidão-virtude em solidão-doença. A solidão vira problema apenas quando ela não consegue se expressar livremente como virtude. O autêntico solitário, aquele que se compraz com sua virtude, não sofre por falta de solicitude alheia nem lhe falta solidez na alma. Quem aposta nessa carência são os que se nutrem de visões fragmentadas de psicólogos, filósofos e antropólogos. Solidão, no sentido que procuro vivê-la, não tem relação pontual ou cronológica com morte e sofrimento. Todo sofrimento reside em não poder vivenciá-la. O terrível mal é a solidão obstruída, suprimida, cerceada, desapontada pelos outros.

Considero que os verdadeiros solitários foram as pessoas mais solícitas e solidárias da história da humanidade. É depreciativo atrelar a solidão a fenômenos como miséria humana, soberba, fundo do poço, auto-exaltação, incapacidade de estabelecer comunicação, auto-comiseração, indiferença afetiva etc. Embora a solidão não seja abertamente condolente, ela também não serve para indolente, insólita nem insolente. Antes disso, ela é a inspiração das grandes idéias, que tornam menos penosa a vida de quem não a suporta. Idéias que, prestando um desserviço à própria solidão, se tornam instrumentos para que dela se esquivem os medíocres. Para mim é isso: fugir da solidão é mediocridade. São apenas medianas as pessoas que o fazem. Os espíritos elevados cultuam a solidão, mesmo estando a serviço dos semelhantes. Esse culto à solidão é que dispensa reconhecimentos, bajulações e desqualifica o glamour e os pedestais. Antes de eu entender a solidão como virtude sublime, intrigava-me ver como as pessoas comuns procuram se acercar dos grandes solitários. É neles que as pessoas encontram conforto e elevação para seus espíritos atribulados. Quem precisa de ajuda quase nunca a procura na multidão, mas em quem tem facilidade de lidar com a solidão. Na legendária presunção dos evangelhos vemos que nem mesmo o demônio deixou de contemplar a solidão de Cristo no deserto. Certamente ele foi lá muito mais para aprender a ser só, sem maquinações e sortilégios, do que para importunar o dito messias. Vejo o vagar no deserto como uma das figuras mais ilustrativas da vivência da solidão. Quem é capaz de dar a volta ao mundo num veleiro, que não os grandes solitários? Amir Klink que o diga. E os astronautas, por acaso vão aos bandos para o espaço? Enquanto as pessoas comuns têm que se contentar em aceitar que o mundo dá voltas, os grandes solitários dão voltas ao mundo. Voltas em linha reta. Pessoas apenas medianas vivem às voltas com conflitos estagnados. Já os grandes solitários vão e voltam a si mesmos quantas vezes quiserem. E são capazes de ajudar na libertação das almas acorrentadas. Falo de almas de gente viva, pois não me importo com nada que diga respeito ao além-túmulo. A existência terrena já encerra mistérios suficientes para reflexão.

Esses genuínos amantes da solidão sofrem muito pela falta de espaço e de tempo para cortejá-la. O mundo os sufoca. Ninguém melhor que um autêntico solitário para ajudar a nortear a vida de quem vê na solidão um suplício. Mas, qual o instrumento que os solitários bem resolvidos utilizam para se livrarem da turbulência das turbas? Acho que é o universo imaginário. Só ele pode nos entender e nos estender além das aparências. Só ele tem os elementos para nossa vida verdadeira e fecunda. É sobre isso que pretendo te falar da próxima vez, se for de teu agrado. Você sabe, porque eu já disse, que não tenho necessidade de dizer nada para ninguém sobre mim e sobre minha solidão. Quando o faço é porque penso que isso pode alumiar um pouco os caminhos de alguém ou lançá-lo numa sadia confusão. Embaralhar e desanuviar a visão de outrem. A necessidade que tenho é de descortinar e repovoar a cada dia meu universo imaginário. Basta isso para o solicultor, o cultivador da solidão. A solidão se basta a si própria. Infelizmente não há como evitar que o solitário se traia, por estar acoplado ao mundo, via corporeidade. Nem sempre a fisiologia do corpo é espelho da mentalidade. Chego a crer que o corpo tem vontade própria e projeta na mente essa vontade, para culpabilizá-la e isentar-se das conseqüências pelo que faz. Quantos casos já soubemos de doentes em coma profundo que, posteriormente, passaram a fazer com o corpo coisas que nunca tinham feito antes!? Acontece que, enquanto estiveram comatosos, seus corpos eram manipulados por cuidados de enfermagem, de fisioterapia passiva e outros zelos. Estiveram submetidos a aparelhos que lhes somavam partes à sua própria anatomia. É possível que essas modificações tenham sido apreendidas e representadas na mente, mesmo inconsciente. Depois de acordar do coma, a mente passaria a dar comandos conforme sua nova realidade neural remapeada durante o estado de inconsciência. Mas vamos deixar essa neurociência para outro dia. Todavia, ainda uma outra hipótese é preciso considerar: como o indivíduo se faz através de dois outros corpos (pai e mãe), acho que é por isso que alguns solitários, embora autênticos, são tentados a não se bastarem a si próprios. É um fenômeno de raízes bem biológicas. Nada mais que isso. Esse elo é bastante incômodo. É por causa dele que o solifílico deve algumas obrigações ao mundo. Mas é também dentro desse mesmo mundo que reside o mundo interno do solitário. Assim sendo, não há mesmo como se libertar totalmente do mundo. Mas o consolo está em que o mundo da solidão se expande muito além do mundo externo e mundano. A tendência, com a evolução do homem, é o mundo da solidão fazer implodir o mundo das excentricidades do real. Na próxima carta iremos ao encontro disso que acabo de dizer. Se Você suportar, é claro.

Só o solitário se conecta com isso que chamam de Deus. Sobre Deus também falarei algum dia. Minha concepção da deidade e de teísmo é, provavelmente, bem diferente da tua. Quem vê a solidão como sofrimento, também tende a fantasiar a idéia de divindade ou deificá-la de modo pueril. Com os legítimos solicultores isso é bem diferente.

Vamos aguardar uma outra ocasião. Agora já meus dedos não conservam vigor bastante para suportar a efervescência de meu espírito. A bem dizer, o corpo só é belo enquanto dá conta das emanações da alma. Do contrário, é estorvo e limitação, dizia Platão.

Antes de me despedir, só quero ventilar o tema da solidão da escolha. Embora o poder de escolher seja laureado pelos profissionais da auto-ajuda como um dos principais estandartes da liberdade e do sucesso pessoal, esse poder se constitui em momentos de mais profunda solidão. Você pode buscar consultorias, assessorias e fundações ideológicas e filosóficas diversas para escoimar tuas escolhas; mas, na hora de optar por a ou b, na hora de dar um destino a teus pensamentos, aí é só Você com Você mesmo. Esse momento nanométrico é o de maior crescimento em tua vida, porque é o que Você vivencia com maior volume de solidão. Nada melhor para nos fazer crescer do que a incerteza que leva à busca ou ao risco assumido. É por isso que a ciência progride tanto; porque vive de incertezas, de descobertas que a qualquer instante podem ser refutadas e substituídas por outras menos inconsistentes. Por isso também que tenho as religiões como águas estagnadas e perniciosas; porque se propõem viver de verdades perenes. Nesse sentido é que quero te lembrar que tudo que estou aqui te dizendo são minhas próprias confabulações. Talvez não sirvam pra Você. Não estou te falando dogmas nem hipóteses testadas sobre solidão. É um assunto que não cabe em método científico nem teológico; tem que ficar no âmbito da reflexão pessoal. É de natureza ultra-metafísica.



Ulteriormente vamos falar da solidão da abelha operária, meio ao enxame, colhendo pólen. A solidão do espécime dentro dos substantivos coletivos. A solidão do pingo de chuva que se forma e cai aos borbotões. A solidão como unidade do ser. A solidão de cada elétron no magnetismo das matérias. A solidão do grão de areia, levado pelo vento ou soterrado na praia. A solidão da folha na copa das árvores. A solidão do espermatozóide na corrida tresloucada e superconcorrida da fecundidade. Vou te dizer que não há nenhuma criação sem que a solidão seja vivida arrebatadamente. Prometo que vou pegar leve com Você, pois sei do tamanho de tua leitura sobre a vã filosofia. Mas já te previno que vou precisar de 3 ou 4 páginas para escrever sobre cada fragmento de solidão. Não creio que isso venha te interessar muito. O maior inimigo da solidão é o tempo, desde que a raça humana passou a contá-lo. Com a medida do tempo veio o conhecimento segmentado de nossa finitude. O que resultou disso é a dita angústia existencial. Não me custa nada prosear e versificar sobre isso. Tenho fome de saber que de fato nada sei. Então, vou ficando por aqui com minhas reticências, afinal, preciso me alimentar, preciso viver, me retirar e dizem que... preciso conviver.


Isso, querida amiga, é apenas uma pequena parte do que tenho sobre o assunto. Tenho uma outra longa reflexão sobre o poder de escolha, que denominei Uma neurofilosofia do ato de escolher e que já está sendo compilado junto com outros escritos para formar um ensaio que vou intitular A solidão da escolha e a escolha da solidão. Já escrevi muito mais sobre cada pedaço de solidão que citei neste último parágrafo. São coisas que agreguei a um romance existencialista (que está bem adiantado), pois estão contextualizadas na vivência de uma personagem. Pensei não levar tais escritos ao conhecimento de ninguém. Mas você me fez mudar de idéia. Mesmo o romance talvez nunca veja a luz de olhos alheios e nem sinta o resfolear nas mãos de quem quer que seja.

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