A produtividade do construtivismo como discurso para seleção de docentes



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A PRODUTIVIDADE DO CONSTRUTIVISMO COMO DISCURSO PARA SELEÇÃO DE DOCENTES
Rosa Maria Hessel Silveira – UFRGS/ULBRA


SITUANDO O ESTUDO
Talvez seja desnecessário relembrar a centralidade que o nome construtivismo e o adjetivo correspondente construtivista atingiu nos últimos 20 ou 25 anos, no cenário pedagógico brasileiro, como uma dorsal “narrativa mestra em educação” (Silva, 1998). Integrando praticamente todas as instâncias e âmbitos do campo educacional, o rótulo impregnou textos curriculares legais, lastreou numerosa bibliografia destinada a professores e professoras ansiosos/as por se “modernizarem”, constituiu-se em ícone publicitário atraente de escolas privadas (em especial as de educação infantil e ensino fundamental) ou em atributo de prestígio para docentes que se desejavam atualizados, e parece ainda estar – nesses cinco primeiros anos do novo milênio – na ordem do dia. Em obra organizada por Silva e publicada em 1998, sete diferentes autores – dos quais apenas dois eram brasileiros – já haviam destrinchado, sob uma inspiração marcadamente foucaultiana, o discurso construtivista, sobretudo o de caráter piagetiano, apontando a produtividade de sua inserção em formas de controle e regulação dos indivíduos implicados na área educacional. Se Vieira (1998, p. 77), através de perspicaz análise do “processo de produção do discurso construtivista veiculado pela revista Nova Escola”, examinou as edições da principal revista brasileira para professores, de 1986 a 1995, outros autores da mesma coletânea nos trouxeram visões da abrangência e importância dos discursos psi, nos quais se encaixa o construtivismo, em países da Europa, nos Estados Unidos e outros.

Enfim: “ser construtivista” parece ter se tornado, nos países ocidentais e, em tempos de globalização, em outros que sofreram o influxo de tais discursos, o símbolo do “avanço”, do “progresso”, da “atualização”, da recusa ao tradicional, ao atrasado, num evidente alinhamento ao discurso moderno; no caso brasileiro, instaurou-se quase como uma camisa de força inescapável. Corazza (1995, p. 211) referia, na década de 90, o “elevado prestígio” do construtivismo pedagógico no panorama nacional e afirmava que, então, ele ameaçava tornar-se “a nova ortodoxia em questões educacionais”, embora a autora o visse como um “signo indefinido”, de contornos imprecisos. Pois bem: dez anos após essa análise, cabe-nos perguntar que poderes – ainda ou cada vez mais – exerceria tal discurso? Que força reguladora estaria exercendo nesse primeiro lustro do novo século, na arena pedagógica, o discurso construtivista?

Primordialmente, essa é a questão mestra que move a análise incorporada ao presente estudo e é preciso uma pausa mais demorada para explicitarmos o material escolhido para ser palmilhado no mesmo. Trata-se de um tipo peculiar de texto: questões objetivas de concursos públicos para professores e outros funcionários do sistema educacional brasileiro, tanto no âmbito estadual, quanto no municipal. Relembre-se que, em se tratando de questões fechadas, os formuladores das mesmas são compelidos a delinear o certo VERSUS o errado de maneira inequívoca – ao menos na superfície discursiva – e estabelecem o conhecimento de tais verdades como exigência de seleção do “bom professor”. Pontue-se que as “formulações erradas” das alternativas inadequadas podem tanto estar “erradas” apenas por detalhe quanto ser globalmente conflitantes com as verdades estabelecidas; nesse sentido, a extensão do erro só pode ser identificada/atribuída em uma leitura interpretativa nossa, o que, evidentemente, pode não coincidir com a intenção do elaborador. É necessário, de certa maneira, atentar para essas restrições do gênero discursivo, sem deixar, porém, de assinalar os regimes de verdade embutidos em tais textos, os quais – é preciso assinalar – são escassamente contestados nas arenas públicas em que se confrontam discursos.

Especificamente para a presente análise, tomamos 36 questões de concursos públicos, do âmbito estadual e municipal, realizados nos anos de 2003 a 2005, pertencentes a 17 diferentes estados brasileiros, de todas as regiões. Foram elas selecionadas por conterem explicitamente o substantivo construtivismo ou o adjetivo correspondente construtivista ou, ainda, em três casos, por fazerem referência enfática à construção do conhecimento. Foram deixadas de lado as mais numerosas questões em que ocorria o verbo “construir”, seguido por um complemento relacionado a conhecimento, formulação que, conforme sabemos, também é tributária das concepções construtivistas; entretanto, a grande freqüência de tais expressões nas provas tornaria demasiado extenso o presente corpus de análise.

Por outro lado, observamos que não é nosso intuito examinar a adequação das questões escolhidas a uma pretensa definição consistente e “correta” de construtivismo; inversamente, um de nossos propósitos é justamente o de rastrear as regularidades encontradas em tais questões ao lado da dispersão e também da incongruência de seus enunciados.

Por questões metodológicas e de sigilo, as questões estão identificadas por números compostos de dois ou três dígitos, dos quais o primeiro corresponde a uma determinada região brasileira, o segundo a um determinado concurso e o terceiro – se existir – corresponde à ordem das questões dentro de uma mesma prova. A formulação das questões foi mantida, sem correções, como na versão original.



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