A primeira vez em que ouvi com atenção falar sobre daime foi no



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Prólogo

A primeira vez em que ouvi com atenção falar sobre daime foi no réveillon de 1985: eu estava em uma república de estudantes em Ouro Preto, o cerne maçônico brasileiro, quando um jovem engenheiro especializado em barragens relatou ter trabalhado no Norte, na instalação da usina de Balbina, no Estado do Amazonas, e lá ter tomado uma "bebida estranha", sob o efeito da qual viu a si como um "parafuso com duas orientações simultâneas e pontas conducentes ao infinito, cada qual girando em uma direção".

Enquanto sua cabeça torcia em sentido horário, arrastando atrás de si o tronco, braços e mãos, da cintura para baixo tudo girava em sentido oposto, anti–horário, com as extremidades se perdendo no espaço sem fim.

Todos rimos, mas eu acariciei a associação vinda de pronto: ele me pareceu descrever o modelo espacial do DNA, que em nós vem da eternidade e a ela nos leva, gerando a dupla helicoidal com os sinais codificadores da existência, tal qual a conhecemos!

(Vários anos mais tarde, na casa de oração que eu viria a dirigir, tendo santo Antônio de Pádua por padroeiro destinado, um irmão narrou–me em conversa privada uma cena entrevista no serviço espiritual que acabáramos de fazer – ou "miração", como é chamada pelos daimistas – com ênfase em sua gestação e, ao fim, igualzinha, igualzinha, igualzinha à imagem do jovem engenheiro…)

Naquele tempo eu avançava em meus estudos sobre Ciências Arcanas, Esoterismo e Religiões Comparadas, sempre buscando relações entre tais áreas de conhecimento e os conceitos contemporâneos da Psicologia, que estudava desde os anos 70, e tal fato deixou–me cara e acentuada lembrança.

Sete anos mais tarde eu viria a tomar daime regularmente em rituais realizados em São Paulo, experimentando a tal "bebida esquisita" – após tê–la conhecido casualmente em Saq'sayhuamán, Cusco, no Peru.

Convidado por um psicólogo amigo a participar de um "ritual daimista de cura"1, eu integrei em finais de fevereiro de 1992 um pequeno grupo que tomou daime algumas vezes – até hoje não tolero seu sabor! –, concentrou–se em silêncio por quase uma hora e depois, por duas outras aparentemente intermináveis, cantou uma seqüência de hinos apoiado por fitas cassete.

Que experiência!

Sentir–me alterando e sendo mim mesmo e não, com flashes de conceitos, imagens, sensações e afetos se sucedendo, ao mesmo tempo em que lutava por manter–me ereto em minha cadeira, segurar um caderninho de hinos e entoar cânticos até então desconhecidos, foi experiência a qual nunca pude esquecer…

Era o começo de tudo: ao mesmo tempo em que a promessa de nova vida, uma volta ao ancestral de mim, que em mim induzia o retorno.

Mas o que é o daime, afinal?

Chamado no Norte brasileiro de daime, oasca, uasca, caapi, yagé, chá do vegetal ou simplesmente cipó, é uma bebida obtida com o cozimento, em água, de folhas do arbusto "rainha", psychotria viridis, da família do café, com ramos macerados ("amaciados") do cipó "jagube", banisteriopsis caapi, resultando em um chá de cor marrom e sabor amargo–azedo.

"Quando eu passei a ter conhecimento com o Mestre, com a doutrina, já tinha esse nome, essa bebida já era batizada como daime. O jagube também, né?, o nome foi criado pelo Mestre e a folha, que hoje a gente conhece mais como 'rainha', pelo Mestre é 'mescla', 'jagube' e 'mescla'. O Mestre se referia à folha como 'mescla'… Aí, depois, já veio o nome 'rainha', por força do CEFLURIS; eu acho uma acentuação tão bonita também, mas é 'mescla', tem essa denominação dada pelo Mestre"2.

Enquanto as folhas da "rainha" contêm dimetiltriptamina (DMT), uma substância com estrutura química análoga à do neurotransmissor serotonina, o "jagube" contém princípios químicos (alcalóides do grupo das betacarbolinas, como harmina, harmalina e tetrahidroharmina) que exercem dois importantes papéis:



  • inibem a degradação da DMT no aparelho digestivo, preservando–a até sua absorção pelo intestino delgado para circulação pela corrente sanguínea,

  • inibem a degradação da DMT no cérebro, após iniciada sua atuação nos neurônios do sistema nervoso central, mantendo prolongado seu efeito.

(Por isso a "rainha" é "luz" e o "jagube" é "força", no dizer daimista: os alcalóides da folha atuam no sentido de expandir a consciência e os do cipó garantem e prolongam o efeito da bebida.)

Para entender melhor como se dá o processo, é necessário saber que os neurotransmissores (como a serotonina) são substâncias naturais que, no cérebro, propiciam a comunicação entre os neurônios nas sinapses (pontos de ligação química entre os neurônios), permitindo a condução dos impulsos elétricos e, por conseqüência, de informação.



Assim, num período variável de tempo após sua ingestão, e em geral quando o daime já atingiu o intestino delgado, suas substâncias psicoativas são levadas pela corrente sanguínea até o sistema nervoso central, dando–se por efeito da DMT a hiperativação prolongada das funções cerebrais de percepção (perceptivas), de conhecimento (cognitivas) e de memória (mnemônicas), as quais representam a base do psiquismo humano, no que diz respeito aos aspectos operativos da consciência: conhecer, compreender e memorizar ou recordar.

Daí, tanto a percepção de si quanto a percepção do meio ambiente são magnificadas, ao mesmo tempo em que a organização consciente de informações se intensifica e as memórias pessoal e transpessoal3 são ativadas, entregando à consciência dados que residem nestas memórias mas costumam estar difusos ou menos disponíveis para acesso imediato (pois fora do campo de consciência do ego4).

É que a mente total contém informações desde nossa primeira encarnação (ou acessa fora de si os registros destes dados, dizem alguns, não se sabe…), razão pela qual o processo de integração pessoal, na depuração para a bem–aventurança, obriga à relembrança e avaliação de toda memória existente, da mais pessoal (após a encarnação) à mais impessoal, ou transpessoal, e até à criação primordial por Deus, feito intenção divina que um dia se manifestou tridimensional.

Convida santo Agostinho (354–431): "quero que reflita mais amplamente, e por mais tempo, quantas coisas são contidas na memória, e ali podem ser conservadas, e que, por isso mesmo, situam–se na memória. Que imensa profundidade e amplitude, que imensidade de coisas pode estar contida na alma?"5.

Já que, lembrando santo João da Cruz (1542–1591), três são as potências da alma: memória, entendimento e vontade: "a alma, nesta vida, não se une com Deus por meio do que entende, goza ou imagina, nem por coisa alguma que os sentidos ofereçam, mas unicamente pela fé quanto ao entendimento, pela esperança segundo a memória e pelo amor quanto à vontade"6.

Então, por intermédio destas expansões da consciência o ego apreende informações residentes "dentro" e "fora" da mente, podendo conhecer, compreender e estabelecer nexos, em um processo sem–fim de sucessivas percepções, conscientizações, elaborações, avaliações e tomadas de decisão – por orientação da vontade, em arbítrio –, independente do grau de preparo ou sofisticação intelectual da pessoa, porque desenvolvido à exata medida de sua destinação e necessidade, por obra da Graça.

Trata–se, assim, de processo análogo ao verificado em inúmeras culturas humanas, em todos os tempos e lugares, à busca de facilitar tais expansões e propiciar melhor autoconhecimento7 e maior integração, sem que se tenha de crer que a "folha rainha é depositária da 'energia feminina' e da 'luz da natureza', princípio também identificado com a Mãe, a Virgem Maria, [enquanto]8 o cipó jagube conteria a 'energia masculina' e a 'força' do universo, identificado com o Pai, o Deus Criador de tudo o que existe"9.

(Simbolismos como este, repetidos sucessivamente no correr das décadas mas apenas simbolismos, é que passaram a atribuir à doutrina daimista um suposto perfil panteísta10, como veremos adiante.)

No tocante ao meio ambiente, a percepção expandida pode identificar formas até então não conscientizadas de manifestação vital dos participantes, assim como a existência de seres espirituais no recinto em que se está (ou em outros locais, por intermédio de desdobramentos mentais topográficos), em função das expansões da consciência para "fora de si mesmo", razão pela qual um hino canta que o daime "mostra a todos nós aqui dentro da verdade"11.

Cabe recordar que a percepção dos seres que estejam à nossa volta depende da iniciativa destes seres em "se mostrar" a quem os percebe e não da intenção ou da quantidade e intensidade de esforço que se faça por percebê–los; o que o daime propicia é que, caso haja tal iniciativa, seja facilitada a percepção, até para quem não é dotado de mediunidade natural acentuada (razão porque, para aqueles que a têm, é prudente menos daime: "Acontece… Gente que nunca tinha nem tomado daime, acontece. São pessoas videntes, é aquela pessoa que tem a vidência bem pertinho. Se chegar a tomar daime, ôpa!, faz a viagem com mais facilidade"12).

Já que, como ensina Alan Kardec, "não basta que o espírito queira mostrar–se, é preciso também que encontre a necessária aptidão na pessoa a quem deseja fazer–se visível"13.

No que diz respeito à memória e durante as expansões da consciência para "dentro de si", no complexo trabalho de integrar os seus conteúdos o daimista passa a poder acessar dados de seu inconsciente pessoal e até do inconsciente familiar, ancestral e étnico, residente e influente, bem como de sua destinação, por vezes e se lhe for possível, independente de quanto isso possa ser assustador ou complicado, razão pela qual se canta em um hino:






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