A presença do "outro" em "A imitação da rosa"



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A PRESENÇA DO "OUTRO" EM "A IMITAÇÃO DA ROSA"


Edna Anita Lopes Soares - UEL/CAPES



"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa palavra morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, podia-se com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é ler 'distraidamente'."

Clarice Lispector


Clarice é o grande nome da literatura existencialista, ou como define Costa Lima, autora de "romance introspectivo". Esta sua tendência, de observar ou examinar a vida interior pelo próprio indivíduo, leva-a a interessar-se pela psicologia de cada personagem.

A autora colocou no centro da criação o problema da busca de uma linguagem nova e especial, analítica, para traduzir a vida interior. Sabe-se que em Clarice nada é casual, gratuito, suas palavras, expressões são ,como ela mesma admite, jogadas como iscas. Formam uma verdadeira teia , em que cada fio é imprescindível para o trabalho final. Walter Benjamin diz que:
"a narrativa (...) é ela própria ,num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação (...). Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso"

(BENJAMIN,1987:205).


A característica da escritora está na utilização de recursos técnicos como: a análise psicológica; o monólogo interior; a introspecção na análise das paixões e movimentos da alma; o mergulho no psiquismo, relegando para segundo plano as circunstâncias exteriores e o enredo de seus textos criando uma atmosfera densa, hermética. Affonso Romano de Sant'Anna cita a respeito de Clarice que:

"sua literatura não é realista, mas simbólica, na medida em que o texto é o instaurador de seus próprios referentes e não se interessa em refletir o mundo exterior de um trabalho mimético"

(SANT'ANNA, 1973: 184).
Quando se analisa um texto de Lispector o importante não é ir à busca de informações extra textuais, mas sim realizar uma leitura profunda, em que, para a busca da compreensão, torna-se necessário um mergulho para capturar as suas "iscas" e interpretar as entrelinhas. Uma leitura introspectiva com a finalidade de atingir o interior do ser humano e revelar suas dúvidas e inquietações.

Em Clarice, a percepção do mundo apresenta-se em constante perplexidade e espanto, como no momento de uma revelação súbita em que a "verdade" é desvelada para trazer os objetos à consciência. Esse momento é conhecido no meio acadêmico como epifania. Um movimento dialético se estabelece entre a personagem e o outro (Eu X Outro), e a iluminação se faz.

Quando acontece essa revelação e há a explosão de um outro eu, que estava reprimido, está ocorrendo o que é definido pela psicanálise como alteridade. João A. F. Pereira cita o antropólogo Carlos R. Brandão que define a alteridade como sendo" o diferente é o outro, e o reconhecimento da diferença é a consciência da alteridade." (FRAYSE-PEREIRA, 1994: 11)

Neste estudo procuro observar como a autora ,através da narração bem elaborada, chega à alteridade como resultado da epifania. Para isso, farei a leitura do conto "A imitação da rosa", do livro "Laços de família", considerando os aspectos que são elementos básicos para a compreensão de um texto, o qual é visto pela crítica, como sendo pertencente ao grupo dos romances psicológicos: a narrativa; o monólogo interior; e o tempo cronológico. Neste conto, assim como nos demais do mesmo livro, "animais e plantas se antropomorfizam num relacionamento onde os elementos perdem suas características minerais e vegetais e se convertem num outro Eu e num outro 'Tu'" (SANT'ANNA, 1973:196) revelados através de uma visão epifânica.

Segundo Fábio Lucas, o livro "Laços de família":
"está impregnado de intenção crítica, na medida em que a contista arma seu jogo narrativo no interior da célula familiar burguesa, cuja insatisfatória rede de relações subjuga o ser humano, condiciona-o e limita sua liberdade, em troca de valores ilusórios. Sobrenada a tensa visão do mundo a flor amarela da náusea. A busca da felicidade no quadro familiar resulta em fracasso.

Como o valor mais alto da família burguesa é a estabilidade, este se mostra precário, inteiramente circunstancial, os laços que ela estabelece constituem uma prisão dourada, dentro do qual os mecanismos do cotidiano condenam a pessoa ao tédio e ao nojo. A marca existencialista nos contos de Clarice é nítida. Ela explora a fragilidade do ser diante do compromisso inevitável com a vida."

(LUCAS,1983: 140-141)
Os contos trazem personagens que de diferentes formas, são prisioneiros de seus modos de vida e de seus papéis sociais. Cada um deles, em um determinado momento, sentirá que, de algum modo, a sua máscara será arrancada e terá o seu momento de "revelação". Cada um deles procurando manter-se liberto, apesar dos "laços" e dos afetos que, como observou o ensaísta Roberto Corrêa dos Santos, "aproximam e apertam: unem e ao mesmo tempo aprisionam". Em seu prefácio do livro de Clarice, Roberto acrescenta:
"Laços e coleira, vistos com humor e compreensão. Passamos todos a fazer parte disso: a mãe, o cônjuge, os filhos, os parentes, e os estranhos, e a estranheza - a inquietante família que recolhe, na casa ou no mundo, os homens."

(SANTOS, 1991: 9)


Como foi citado, o enredo tem importância secundária. Esse fato aproxima a autora, segundo definição de Fábio Lucas do "conto de atmosfera", pois neste há:
o esfacelamento do enredo e a desconvencionalização dos caracteres, peculiaridades que acompanham a ficção moderna, caminhou-se para a formação do conto de atmosfera, para uma atenção maior ao processo da escrita, para um referencial menos externo e mais voltado para o próprio processo narrativo, enfim, para uma literariedade mais abundante.

(LUCAS,1983:107)


Pode-se acrescentar, ainda, a este respeito, Júlio Cortázar que diz que:
"um conto é significativo quando quebra seus próprios limites com uma explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai muito além da pequena e às vezes miserável história que conta".

(CORTÁZAR,1993:153)


Assim são os contos de Clarice, as ações quando ocorrem destinam-se a ilustrar características psicológicas das personagens.

São comuns, na autora, histórias sem começo, meio ou fim. Ela se dizia, mais que uma escritora, uma "sentidora", porque registrava em palavras aquilo que sentia. Mais que histórias seus livros apresentam impressões. Predomina em suas obras o tempo psicológico, visto que o narrador segue o fluxo do pensamento das personagens. Logo, o enredo pode fragmentar-se. O espaço, também, tem importância secundária, uma vez que a narrativa concentra-se no espaço mental das personagens. Herman Lima manifesta-se a esse respeito:


"...o enredo, o assunto, o incidente, foram deixando de ser significativos, para a ênfase do transitório, dos reflexos psicológicos, da ambivalência do passado e do presente, tumultuando a vida e o ambiente em que se movem os personagens.”

(LIMA,1986: 61)


Em "A imitação da rosa", Laura uma dona de casa e esposa exemplar, manchara, recentemente, a perfeição de sua carreira doméstica com um período de temporária perda de razão: "Como um barco tranqüilo se empluma nas águas, ela se tornara super-humana". Deixando para trás seu lar, seu marido, sua posição de "senhora distinta", ela se entregara, provisoriamente, à loucura.

Mas agora, após um período de internação, em que, sucessivas vezes, fora lançada pelas enfermeiras "como uma galinha indefesa no abismo da insulina", ela regressara, enfim, para a "paz noturna da Tijuca", para sua "verdadeira vida". De braços dados com Armando, seu marido, ela caminharia novamente com suas "coxas baixas e grossas" devidamente empacotadas pela cinta que fazia dela uma "esposa honrada". E Laura ficaria orgulhosa quando Armando argumentasse, em resposta a seu comentário de que suas pernas curtas eram resultado de insuficiência ovariana: "E de que me adiantava casar com uma bailarina?". Pois, agora, ela estava de volta "chatinha, boa e diligente", a esposa de Armando. E tudo parecia correr muito bem, até que, numa tarde tranqüila, Laura percebe, fascinada, a beleza de um ramo de rosas silvestres que, num gesto de extravagância, comprara na feira .

Laura ainda tenta livrar-se das rosas, mandando-as de presente a uma amiga. Mas, ao fazê-lo, percebe que as rosas "haviam deixado um lugar claro dentro dela. (...) um lugar sem poeira e sem sono". E é para preencher tão funda ausência que Laura, novamente, parte. "Desabrochada e serena", ela está sentada no sofá, entregue a uma "solidão já quase perfeita", quando Armando volta do trabalho:
"Ela estava sentada com o seu vestidinho de casa. Ele sabia que ela fizera o possível pra não se tornar luminosa e inalcançável . (...) Da porta aberta via sua mulher que estava sentada no sofá sem apoiar as costas, de novo alerta e tranqüila como num trem. Que já partira."
Antes de começar a análise, propriamente dita, faz-se necessário ter um breve, porém esclarecido, conhecimento sobre o conceito de alteridade.

O ser humano, em muitos momentos de sua vida, foge e/ou vê os outros fugirem dos padrões tidos como "normais" para agir de maneira avessa ao seu costume. Esta circunstância tende a se agravar se o sujeito, ao perceber e confrontar sua própria estranheza, deixar, seus desejos e atitudes inesperadas, vir à tona e ao invés de integrá-lo ao mundo, projetá-lo para fora dele. Portanto, alteridade, é quando ocorre a identificação da diferença que o outro suscita. É a manifestação do "outro", do "estrangeiro" que há dentro de cada um em situações que a psicologia não prevê , mas tenta explicar.

O que causa estranheza, o estranho, é algo já conhecido que retorna sob um aspecto assustador. Aquilo o que não se sabe como lidar. Aquilo que deveria permanecer oculto, mas que por algum motivo, vem à luz. Freud cita que a repetição involuntária, por exemplo, pode ser vista de forma inocente ou, simplesmente, coincidente, no entanto, pode estar cercada por uma atmosfera de estranheza se o indivíduo atribuir um significado secreto a essa ocorrência obstinada. Assim, a repetição, passa a ser percebida como algo estranho.

Outra teoria sustentada, pela psicanálise, é a idéia de que todo afeto, quando reprimido, em uma determinada fase da vida, pode retornar, futuramente, e transformar-se em uma forma de ansiedade, o que caracterizaria o estranho.

Há, ainda, outros elementos que podem desencadear a criação de sensações estranhas, porém para a análise desse conto esses exemplos, aqui citados, são os que se fazem necessários.

Segundo Fábio Lucas:


"a ficção de Clarice Lispector é primordialmente um modo de narrar. O enredo se espalha numa proliferação de motivos livres, de comentários existenciais, de filosofemas, que dão a cada composição uma dramática espessura filosófica. É no interstício das palavras que a contista investiga o espaço do infalível, a percepção sutilíssima de imperceptíveis movimentos psicológicos"

(LUCAS, 1983: 140 )


O narrador de "A imitação da rosa", ardilosamente, trabalha os fatos de maneira gradativa, permitindo ao leitor atento perceber que o conto está dividido em duas partes em que o marco divisor é o momento de epifania.

Num primeiro momento, mais ou menos a metade do texto, a situação mais geral refere-se ao fato de o texto deter-se sobre a personagem Laura e seus valores dentro do espaço fechado de sua casa. Embora poucos sejam os elementos que marcam os limites desse espaço pode-se fixar o percurso da personagem em três seções da casa: o quarto, a cozinha e a sala.

A personagem pensa e move-se muito pouco. Pensa em arrumar-se para estar pronta quando o marido chegar, pensa nas compras e demais afazeres domésticos, pensa na doença que venceu com a ajuda dos médicos e enfermeiras, nas visitas do marido à clinica e nos choques de insulina.

Quando sai da clínica, Laura, está "bem" e, por isso, mesmo pode ser esquecida e retornar a sua condição de esposa que é ser submissa ao marido, à condição social e até mesmo " à bondade autoritária e prática de Carlota". Ela que fora domesticada pelo pai que a conduziu ao padre que, por sua vez, a entregou ao marido.

Sem vaidade, ela não se importa em engordar com o tratamento pois, "o principal nunca fora a beleza" para uma esposa e, afinal, ela " nunca ambicionara senão ser a mulher de um homem". É impessoal como a sua casa "arrumada e fria".

Laura, acreditando estar curada, estar "bem", aceita as imposições que uma sociedade cobra de uma perfeita dona de casa. Mas, ela não era perfeita: não tivera filhos.

A segunda parte começa quando Laura vê um vaso de miúdas rosas silvestres, também ela era miúda. Dá-se o processo da epifania. A beleza e perfeição daquelas flores desencadeiam, na personagem, um conflito interno que a deixa "um pouco constrangida, um pouco perturbada". Diz surpresa que as flores "parecem até artificiais!". A perfeição era tamanha que até parecia irreal, na verdade é ela, Laura, que está saindo do mundo real, para entrar num mundo artificial - ou será o contrário?-, saindo de um mundo de submissões para entrar num mundo de "terrível independência".

Inicia-se o processo de perda de identidade e, em seguida, o reconhecimento, a busca do eu violado. Laura começa a sair de sua mesmice e tem "uma idéia de certo modo muito original" mandaria a sua empregada, Maria, levar as rosas à sua amiga Carlota, pois teria que se ver livre delas. As rosas eram hipnóticas, "perigosamente lindas". Olhar as rosas é olhar a perfeição, a luz da beleza que "não ia durar muito". Surge, então, sem que a personagem se dê conta, o seu outro lado, o seu "Outro".

Acesa, iluminada, sem cansaço, Laura, agora, imita as rosas, desistindo da alegria humilde que cabia a uma esposa. Altiva, a mulher-rosa desabrocha, inalcansável diante do marido subitamente envelhecido, agora, novamente, respeitoso e atento. A moça da Tijuca que estudara no Sacre-Coeur e lera a "Imitação de Cristo" sem nada entender, agora, ao imitar a rosa, imita, também, a Cristo. No Evangelho de João (8:12) está escrito que Jesus disse: "Aquele que me segue não andará nas trevas". Assim imitá-lo significa ter luz, ser independente e, conseqüentemente, perdida, doente, culpada ou criminosa. Estar perdida, sim, mas na luz.

É característico, da autora, a utilização do discurso indireto livre, na voz do narrador, representando com mais intensidade a onisciência, a fim de promover monólogos interiores com o objetivo de provocar ,na personagem, o fluxo de consciência. Esse é o recurso máximo do romance psicológico, pois rompe os limites do Eu permitindo que o Outro surja do inconsciente. Dessa forma, neste conto analisado, a narrativa se realiza através de uma falsa terceira pessoa, simulacro da primeira, o que permite a construção dos fatos quase que inteiramente produzidos na consciência de Laura.

Essa tensão entre um aparente narrador de fora - como se os fatos fossem apresentados a partir de um ângulo de visão exterior - e, o efetivo narrador de dentro - como se os fatos jamais pudessem desprender-se da linguagem e da percepção da personagem - estabelece um duplo olhar, uma espécie de visão que não é de dentro nem de fora, mas "com", e que se articula à própria divisão da personagem entre duas atitudes: a mulher "impessoal", obediente aos padrões estabelecidos de esposa, e a de mulher "pessoal", a que rompe com os contratos e os códigos de expectativas sociais.

O estado de conflito criado por essas duas forças, pelas quais o processo de narração se estrutura efetiva o monólogo interior fazendo com que uma "terceira pessoa", o Outro, rompa as barreiras do inconsciente e desabroche sereno. Uma "terceira pessoa" "(...) ela chamava a si mesma de 'Laura', como a uma terceira pessoa. Uma terceira pessoa cheia daquela fé suave e crepitante e grata e tranqüila...",que diferentemente tem idéias originais e coragem de expô-las para o marido e os amigos e assim "Carlota surpreendida com aquela Laura que não era inteligente nem boa mas que tinha também seus sentimentos secretos" reconheceria na amiga e companheira de escola características que julgava não tê-las.

De acordo com Freud, quando há a vazão dos nossos desejos e medos, seguros dentro do nosso inconsciente, surge o nosso "impróprio" do nosso "próprio". Nesse momento, tem-se , então, a manifestação do nosso outro. Assim Laura, ao identificar-se com a beleza e perfeição das rosas, está, na verdade, oportunizando, a si mesma, todo um momento de reflexão sobre a sua condição social de modesta esposa, dependente, frágil, sem filhos e traz de volta (pois ela já estivera nesta mesma situação antes quando fora internada) a "terrível independência", torna-se novamente distante e "super-humana", como "um barco tranqüilo emplumando-se nas águas", auto-censurando-se naquele "ponto vazio e acordado", "horrivelmente maravilhoso".

O marrom e o sombrio se transfiguram em "luz que inunda violenta a sala". Ela agora sorri. O marido é olhado quase como um inimigo. O embaraço, por não ter podido resistir, é "vaidoso" e o olhar da falta brilha com "a serenidade do vaga-lume".

Outro recurso utilizado pelo narrador, que se classifica como sendo narrador de romance psicológico, e que proporciona um ir e vir do consciente para o inconsciente e vice-versa, é a questão do tempo. O futuro se fecha sobre o passado, num movimento circular que à semelhança de numerosas obras modernas, suspende o tempo.

O personagem, fechado no seu tempo subjetivo, já não vive no mundo histórico. Laura, já alienada, não percebia o tempo passar:


"Mas ainda era cedo (...)

Ainda era tarde. Uma tarde muito bonita.

Alias já não era mais de tarde.

Era de noite. Da rua subiam os primeiros ruídos da escuridão e as primeiras luzes."


O passado irrompe, constantemente, o presente e com isso o inconsciente, o consciente, de tal forma que passam a representar um universo em que a cronologia e o Eu empíricos perdem seu sentido. No conto analisado, já no primeiro parágrafo:
"Antes que Armando voltasse do trabalho a casa deveria estar arrumada e ela própria já no vestido marrom para que pudesse atender o marido enquanto ele se vestia, e então sairiam com calma, de braço dado como antigamente. Há quanto tempo não faziam isso?"
É possível perceber a presença de três tempos a partir dos quais se organizam os acontecimentos: o presente, que se constitui na expectativa de preparar-se dentro de uma determinada praxe social para a chegada do marido; o passado, que tanto se refere a um momento em que as coisas já ocorreram dessa mesma forma "como antigamente", como a um outro em que essas coisas já deixaram de ocorrer "Há quanto tempo não faziam isso?"; e o futuro do pretérito que consiste efetivamente em um futuro do passado, pela relação de especularidade que mantém, gramaticalmente, com o tempo passado e, no caso, por só se tornar pensável com base na semelhança estabelecida com o passado que representa o tempo de obediência ao ritual doméstico.

Falar de um possível futuro "e então sairiam", e antevê-lo, justifica-se pelo entendimento do que seria feito em função de sua consonância com o já feito; enfim, o conhecimento do futuro (do pretérito) baseia-se no conhecimento de um passado construído com base na repetição de atos habituais. Entretanto, entre a previsão presente e aquilo que a possibilita, apresenta-se um espaço interrompido, um lugar branco, vazio e interditado, que se deixa ver, por menções fragmentárias, apenas de modo enigmático. Contra esse proibido vão por que passara e a que teme voltar, Laura se debate, apoiando-se num consenso coletivo que tende a ter ruptura como doença e continuidade como saúde. A "doença" a impedia de viver a "saúde" social.

A dinâmica do texto não é feita pelo prosseguimento do que se conta e, sim, pelo discurso que vai e volta, que se repete e que produz aproximações semânticas. Por isso mesmo, quando a personagem se recorda do espaço em que esteve sob tratamento, não se interrompe a narrativa presente, pois o que se traz à superfície são unidades discursivas em que através da memória, alguns traços gerais caracterizam e inventam o ambiente: a luz, as frutas, a insulina, as enfermeiras, a expressão abatida do marido. As frases não criam tal espaço enquanto um outro lugar, tudo se passa na sala da casa de Laura, em sua recordação, ou mais exatamente, em sua linguagem por fragmentos de imagem.

O ritual de "recuperação" de Laura se passa enquanto recuperação da força da domesticidade. Mostra-se metódica com o trabalho caseiro, pois isso a ocuparia e não permitiria que tivesse tempo para pensar.

Mas, ao ficar relaxada, para tomar seu copo de leite, seguindo de "olhos fechados" as instruções médicas, mesmo que não concordasse com elas, Laura de súbito os abre e, o seu momento presente vê as flores no jarro. As flores que vão fazer com que ela desencadeie um fluxo de pensamentos, fazendo com que saia de sua rotina metódica e se perca entrando num processo de alienação e perturbação para que, enfim, permita que o seu Eu reprimido desde a infância aflore e ocupe o seu lugar.
"(...) O sujeito só pode ultrapassar o dualismo da interioridade e da exterioridade quando percebe a unidade de toda a sua vida ... na corrente vital do seu passado, resumida na reminiscência..." ( BENJAMIN, 1987: 212).
De todas as personagens do livro "Laços de família", Laura é a única que, ao final do conto, não retorna. Laura é a que se abandona a um estado potente e luminoso de "loucura". Loucura que, em Clarice Lispector, pode ser lida como transcendência de um mundo "real" e estéril. Loucura que pode ser compreendida como um estado de espírito "dominado" por um outro ser que habita o próprio ser, ou seja a explosão de um Outro que está reprimido no inconsciente e que por algum motivo vem à tona.

O filósofo, José Américo Mota Pessanha, escreve a respeito de loucura, o que pode ser aplicado à Laura e sua comunhão com as rosas:


"Loucura - este êxtase também, este 'fora de si', esta alienação irmã do encontro radical com a realidade que o metafísico persegue. Loucura - este modo enganado de se voltar à plenitude original, à inocência infante. Loucura: esse engano - por um triz!- mas que põe tudo a perder, todo o ser, deixando o sósia em seu lugar - o nada." ( PESSANHA,1965:69)
Em Clarice Lispector a inquietante estranheza traduz-se por um estado emotivo especial, proveniente de forças recalcadas, as quais provocam um certo desconforto, como fator de angústia. A sua narrativa leva o leitor a um mergulho introspectivo e o descobrimento da verdade existencial.

No caso do conto "A imitação da rosa", e tendo como base a definição de alteridade que foi citada, percebe-se que a constante repetição de expressões, do narrador e da própria Laura, incomodava-a "...bem, eu já disse isso mil vezes, pensou encabulada. Bastaria dizer uma só vez..." e, ao mesmo tempo a reprimia, pois aqueles que estavam a sua volta não toleravam a sua repetição, ou simplesmente a ignoravam: "Ela bem se lembrava das colegas do Sacre-Coeur lhe dizendo: 'Você já contou isso mil vezes!', ela se lembrava com um sorriso constrangido."; "...e ela também tomava cuidado para não cacetear a empregada que às vezes continha a impaciência e ficava um pouco malcriada, a culpa era mesmo sua..."

Ela, que reprimida na infância, fora domesticada para ser uma boa dona de casa, pela família e pela igreja, sem ter o seu livre arbítrio respeitado, consegue através de uma visão epifânica, transitar entre consciente e inconsciente para, agora sim, "consciente de que acabara de pensar exatamente isso e passando rápida por cima do embaraço em se reconhecer um pouco cacete, pensou numa etapa mais nova de surpresa...", deixar desabrochar o seu outro.

Com uma linguagem muito próxima da poesia, a prosa de Clarice apresenta o mundo como "visão" e não como "reconhecimento". O fluxo ininterrupto de consciência é resultado de um discurso marcado pela não-organicidade, oriundo do pensamento em profusão. O externo serve como trampolim para o mergulho livre na construção de uma complexa subjetividade.

O eu e sua expressão representam objetos de uma busca maior, a interação entre as realidades interior e exterior. A primeira representada pelos choques e entrechoques do eu que busca no (auto)conhecimento a sua afirmação pessoal; e a segunda marcada pelo desejo de alcançar uma possível integração social. É a busca da perfeição, da luz que cada um tem dentro de si. E, assim como cita Júlio Cortázar:
"Só com imagens se pode transmitir essa alquimia secreta que explica a profunda ressonância que um grande conto tem em nós , e que explica também porque há tão poucos contos verdadeiramente grandes."

(CORTÁZAR,1993:151)


Referências Bibliográficas

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas vol. 1. 3ª ed. Trad. Sergio Paulo Rounet. São Paulo: Brasiliense, 1997, p.197-221.

CORTÁZAR, Julio. Valise do cronópio. Trad. Davi Arriguci Jr. & João Alexandre Barbosa. São Paulo. Perspectiva, 1993, p. 147-163.

FRAYZE-PEREIRA, J. A.. Psicologia. USP. SP. U.S. n 1/2 p. 11-17, 1994.

FREUD, Sigmund. O estranho. In: Pequena coleção de obras de Freud. Rio de janeiro, 1976, p. 85-124.

LIMA , Herman. Evolução do conto. In: Coutinho, Afrânio (dir.) & Coutinho, Eduardo (co-dir.). A literatura no Brasil. Vol 6 3ª ed. Ver. E aum. Rio de Janeiro: José Olympio; Niterói: ed. As UFF, 1986, p. 45-63.

LISPECTOR, Clarice. A imitação da rosa. In: Laços de família. Rio de janeiro: Rocco, 1998.

LUCAS, Fábio. O conto no Brasil moderno. In PROENÇA FILHO, Domício (org.). O livro do Seminário: Ensaios - Bienal Nestlé da Literatura Brasileira. São Paulo: L. R., 1983 - p. 105- 161.

MANZO, Lícia. Era uma vez: Eu - a não ficção na obra de Clarice Lispector. Curitiba: Secretaria do Estado da Cultura: 1997.

PESSANHA, José Américo Motta. Itinerário da paixão. In: Cadernos brasileiros. Rio de Janeiro: maio/junho 1965.

SANT'ANNA, Affonso Romano de. Laços de família e Legião Estrangeira. In: Análise estrutural de romances brasileiros. Petrópolis, Vozes, 1973, p. 180-211.



SANTOS, Roberto Corrêa dos. Artes de fiandeira (prefácio). In: Laços de família. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991, p. 5-14.


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