A perda da transcendencia e a depressãO: da morte do deus judaico cristãO À sua ressurreiçÃo no discurso acadêmico enquanto sentido de vida1



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A PERDA DA TRANSCENDENCIA E A DEPRESSÃO: DA MORTE DO DEUS JUDAICO CRISTÃO À SUA RESSURREIÇÃO NO DISCURSO ACADÊMICO ENQUANTO SENTIDO DE VIDA1
AUTOR@S2
Resumo: o presente artigo tem como objetivo propor a ressurreição do discurso do monoteísmo do Deus judaico-cristão nos círculos acadêmicos como possibilidade de sentido de vida. A Metodologia utilizada foi a revisão de literatura. Busca-se, no primeiro momento, apresentar a depressão enquanto mal do século, demonstrando que uma visão materialista patologiza a sociedade. Evidencia-se, mediante a pesquisa, que tanto o discurso teísta quanto ateísta são ideológicos e não científicos e que a transcendência poderá atenuar os problemas de depressão. Propõe-se que haja um reposicionamento do discurso acadêmico quanto à questão do monoteísmo judaico-cristão em prol da sociedade, uma vez que Deus e o homem fazem parte da história.
Palavras-Chaves: Deus judaico-cristão; Depressão; Transcendência; Discurso acadêmico.

INTRODUÇÃO

O Século XXI é um mundo de contradições. Controlam-se grandes tecnologias, mas o homem se perdeu de si mesmo. O mesmo ser humano que foi capaz de pisar na lua, construir bombas atômicas, inventar o automóvel cada vez mais moderno e sofisticado, é o mesmo que tem cometido as maiores atrocidades contra o próprio corpo e contra o seu semelhante.

Deveríamos ser os melhores seres humanos do mundo. A qualidade de vida, diante de tanta facilidade, tanta tecnologia, deveria ser a mais extraordinária de todos os séculos. No entanto, arrisco-me a afirmar que, talvez, sejamos a geração mais doentia de todos os tempos. Não conhecemos outras gerações, mas, vivendo aqui, partilhando de todos os problemas como qualquer mortal, ouvindo as dores e o desespero do humano, devemos refletir sobre o mundo que estamos habitando.

Um mundo de patologias. É TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo); TOD (Transtorno Opositor Desafiador); TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade); TP (Transtorno de Personalidade), além de outros transtornos e a Depressão. Sim, a depressão. Uma doença silenciosa que provoca a apatia para com a vida, a perda de sentido e, em alguns casos, o suicídio.

Nesse contexto devemos indagar: O que é a depressão e quais as suas causas? Existe alguma relação entre a perda da transcendência e uma sociedade depressiva? Se há, é possível fazer uma critica ao niilismo e a sua filosofia da morte de Deus, resgatando assim o conceito de transcendência como fator de intervenção para a depressão?

Supõe-se que a causa da depressão não é apenas biológica, mas também psicossocial. Sendo assim, acredita-se que, uma sociedade sem valores e sem crenças, afunda-se no vazio existencial, perdendo o sentido da vida. Por isso a critica ao niilismo contemporâneo que contribuiu para um mundo sem Deus e sem crenças.

Usando como Metodologia a Revisão de Literatura pretende-se no primeiro momento conceituar depressão e suas possíveis causas. Em seguida pensar a sociedade contemporânea que, influenciada pela Filosofia Existencialista niescheteana, poderá mergulhar num mundo sombrio da depressão, perdendo as suas crenças e valores. E, por último, fazer uma crítica ao niilismo, na tentativa de resgatar os valores transcendentais para uma sociedade que emerge no caos. Nesse labirinto da depressão, passemos a estudá-la, na tentativa de trazer esperança, para um mundo em desespero.


A DEPRESSÃO E SUAS CAUSAS
Segundo a Psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva (2016) há uma diferença entre tristeza e depressão. É previsível que, diante de uma perda significativa, tenhamos uma tristeza acompanhada de alguns sintomas parecidos com a depressão “como insônia, dificuldade de nos concentrar nas ações cotidianas, inapetência, sentimentos de culpa pelo que deixamos de fazer pela pessoa, perda de apetite, falta de vontade de participar de atividades sociais, etc” (SILVA, 2016, p. 15). É o que ocorre com o luto normal. Seja diante de uma perda por morte de um ente querido, seja por perdas de saúde, emprego, ou bens materiais. Essa tristeza é temporária e não se perde a capacidade de tocar a própria vida. O foco dessa tristeza é o sentimento diante da perda. A depressão clínica é diferente. Além de esses sentimentos perdurarem por mais tempo, o individuo perde a capacidade de gerenciar a própria vida.

Um aspecto simples de avaliar na distinção entre a tristeza normal e a depressão clinica de fato é a autoestima da pessoa. Quando a pessoas estão vivenciando uma tristeza normal ou ‘fisiológica’, apresentam pensamentos negativos sobre a sua perda, mas não se veem incapazes de tocar a vida no presente nem no futuro [...]. De forma diversa, as pessoas com depressão de fato são dominadas completamente por pensamentos negativos que englobam sua autoimagem, todos os aspectos do presente e suas possibilidades para o futuro. (SILVA, 2016, p. 17)


Considerando que houve um aumento de 18% da depressão entre os anos 2005 e 2015, a Organização Mundial da Saúde (BRASIL, 2017) lançou a campanha “Vamos Conversar”, com o objetivo de ajudar pessoas acometidas dessa enfermidade. Afirma-se que “a depressão é um transtorno mental comum, caracterizado por tristeza persistente e uma perda de interesse por atividades que as pessoas normalmente gostam, acompanhadas por uma incapacidade de realizar atividades diárias por 14 dias ou mais” (BRASIL, 2017). Os principais sintomas são: “perda de energia; alterações no apetite; dormir mais ou menos do que se está acostumado; ansiedade; concentração reduzida; indecisão; inquietação; sentimentos de inutilidade, culpa ou desesperança; e pensamentos de autolesão ou suicídio (BRASIL, 2017).

A Jornalista Da France Presse (Folha de São Paulo, 2017), baseada em informações da Organização Mundial da Saúde, adverte-nos quanto à seriedade e relevância do assunto. Diz que, dentre as quase 800.000 pessoas que se suicidam por ano, equivalendo a um suicídio a cada quatro segundos, a relação com a depressão é clara. Segundo Shekhar Saxena, diretor do departamento de saúde mental e abuso de substâncias, estudos apontam “que entre 70% e 80% das pessoas que acabam com a própria vida nos países ricos e cerca de metade das que se suicidam nos países pobres sofrem com transtornos mentais, principalmente depressão” (apud PRESSE, 2017).

É uma doença que não escolhe gênero, idade e classe social. E não é um problema apenas do Brasil. A partir de dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a Repórter da Agência Brasil Paula Laboissière, comprova essas afirmações:

‘No pior dos casos, a depressão pode levar ao suicídio, segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos’, destacou a OMS [...]. O levantamento mostra que, além do Brasil e dos Estados Unidos, países como a Ucrânia, Austrália e Estônia também registram altos índices de depressão em sua população – 6,3%, 5,9% e 5,9%, respectivamente. Entre as nações com os menores índices do transtorno estão as Ilhas Salomão (2,9%) e a Guatemala (3,7%). A prevalência na população mundial, segundo a OMS, é 4,4%. (EBC, AGÊNCIA BRASIL, 2017).


É importante ressaltar que apesar das controvérsias existentes sobre os critérios para o diagnóstico da depressão infantil, há consenso entre os cientistas sobre o impacto dos sintomas infantis. Laura Poll Gomes (2013) afirma que a depressão em crianças e adolescentes tem os seguintes sintomas: “déficit de atenção e hiperatividade, baixa autoestima, medos, distúrbios do sono, enurese, tristeza, dores abdominais, culpa, fadiga, desinteresse por atividades de modo geral, passividade, agressividade, ideação suicida e problemas de aprendizagem”.

Para a Psiquiatra Márcia Britto de Macedo Soares (2017) a depressão é uma questão de saúde pública, pois a mesma está associada a prejuízos que retira do individuo o seu funcionamento global, provoca elevados custos socioeconômicos, produz queda da qualidade de vida, o desenvolvimento de doenças de alta mortalidade (diabetes, doenças cardiovasculares, câncer), piores índices de saúde geral e elevada risco de suicídio.

As causas que levam a depressão podem ser biológicas, genéticas, psicológicas e ou ambientais (SILVA, 2016, p. 64-87). As causas biológicas estão relacionadas a mudanças ocorridas no funcionamento do cérebro, aos neurotransmissores e aos hormônios. A partir dos neurônios e dos neurotransmissores, o cérebro comanda, de forma harmoniosa, “todos os nossos movimentos, pensamentos, emoções, comportamentos e de nossas funções vitais (circulação, respiração, digestão, etc)” (SILVA, 2016, p. 71). Na interconexão dos neurônios, através de sinapsesi, os neurotransmissores, denominados de noradrenalina, serotonina e dopamina, agem diretamente no funcionamento cerebral da depressão. Esses neurotransmissores, agindo de forma interconectada, são responsáveis pela reação ao estresse (noradrenalina), pelo sono (serotonina) e pelo prazer (dopamina). Nesse caso, a intervenção recomendada, são os antidepressivos, agindo diretamente, nos neurotransmissores.

Certas pessoas deprimidas apresentam melhoras significativas com dois tipos de antidepressivos que aumentam níveis da noradrenalina no cérebro. São eles: os tricíclicos e os inibidores da monoaminoxidase (IMAOs). Os dois elevam a noradrenalina – os primeiros impedindo sua receptação, e os IMAOs impedindo a decomposição do neurotransmissor –, e ambos atuam nos espaços das sinapses. Outras pessoas podem apresentar quadro de euforia se usarem os mesmos antidepressivos. (SILVA, 2016, p. 75)


O fator genético também está relacionado à questão da depressão. Nesse caso, “a tendência à depressão é transmitida por meio de genes de nossos parentes próximos e até mesmo distante” (SILVA, 2016, p. 83). O outro fator é o psicológico e ou ambiental, correspondendo, segundo Silva, a 30% dos casos. Ainda assim, é a personalidade do individuo que determinará a sua resposta diante dos fatores estressantes da vida. Assim sendo, pelo menos três tipos de pessoas é mais susceptível a depressão: aquelas que se cobram demais; as pessimistas e as que necessitam de controlar todas as coisas, buscando satisfazer as expectativas alheias. “Pessoas com um ou mais desses aspectos em sua personalidade costumam ser pouco flexíveis e muito estressadas. Por isso tendem a reagir mal perante as adversidades e frustrações inerentes ao ato de viver” (SILVA, 2016, p. 85).

Concomitante ao pensamento de Silva (2016), Vancini, Assis e Oliveira (2008, p. 2334) afirmam que: “Etiologicamente, a depressão é fruto de fatores genéticos, bioquímicos, psicológicos e sócio-familiares, sendo estudada sob diferentes abordagens”. Os resultados de uma pesquisa com 1923 alunos entre 11 e 19 anos, das 7º e 8º séries do Ensino Fundamental e 1º e 2º ano do Ensino Médio, nas redes públicas e privadas de São Gonçalo, município do Rio de Janeiro, apontam problemas da depressão na adolescência relacionados à estrutura familiar, destacando-se: uma estrutura familiar menos preservada; relacionamento precário com pais e irmãos; fraco apoio emocional; problemas relacionados a finanças, saúde, divórcio, uso de álcool e drogas. Na mesma pesquisa, no bloco individual, a depressão está relacionada “a baixa auto-estima, a incerteza ou ausência de atitude que reflete autodeterminação, a falta de confiança em si mesmo e a não-expressão da capacidade de resiliência. Também a insatisfação com a vida...” (AVANCINI, ASSIS, OLIVEIRA, 2008, p. 2339).

No que diz respeito à depressão ligada a fatores psicossociais é importante atentar para duas questões apontadas na pesquisa acima: a não expressão da capacidade de resiliência e a insatisfação com a vida. Acrescenta-se a estas “a falta de um sentido maior na vida” (SILVA, 2016, p. 85). Alinhando as questões, pode-se inferir que os valores adotados numa sociedade interferem diretamente no modo de ver a vida e, consequentemente, na sua resposta aos problemas cotidianos. Por isso é salutar o questionamento: em que sociedade está vivendo e de que forma ela tem afetado as pessoas? A Doutora em Psicologia Social, Jurema Barros Dantas (2011) afirma que vivemos na sociedade do espetáculo. “O espetáculo é uma forma de sociedade em que a vida real é pobre e fragmentária, e os indivíduos são obrigados a contemplar e a consumir passivamente as imagens de tudo o que lhes falta na vida real” (DANTAS, 2011, p. 34, 35). Nessa sociedade, a existência é movida pelas aparências e pelo consumo:

Ao falarmos da alegoria do espetáculo, temos o consumo como seu ponto fundamental. A intensa propaganda e a celebração permanente e reiterada do consumo apresentam-se como via de afirmação e realização pessoal. Para além da simples satisfação das necessidades objetivas, esses processos produzem o que conhecemos como cultura do consumo [...]. O consumo e a atuação no cotidiano são os únicos horizontes oferecidos pelo sistema. Nesse contexto surge um individualismo no qual vivemos sem projetos, sem ideias, a não ser cultuar uma autoimagem e buscar a satisfação aqui e agora. (DANTAS, 2011, p. 38, 39).


O pensamento de Dantas é retirar o caráter patológico da angústia e coloca-la como um clamor a singularidade. O nosso interesse, a partir de suas reflexões, é pontuar a não resiliência, a insatisfação e uma existência materialista como constituinte de uma sociedade patológica. Sobre isso Dantas (2011, p. 42) comenta:

... o mundo de fato melhorou tecnologicamente, mas em vários aspectos tornou-se extremamente inóspito para as necessidades humanas. Somos intimados a participar de um mundo em movimento acelerado, imediatista, efêmero, que promove o narcisismo exacerbado e um modo de relação objetivo e especifico entre os homens [...]. Todos esses pontos constituem uma configuração de mundo vulnerável e fugaz no que se refere aos modos de estar no mundo e nos tipos de relação que se estabelece com ele.


Silva (2016, p. 251-255) faz uma relação entre a felicidade compulsória dos tempos modernos e o suicídio. Embora não seja o único fator, o suicídio tem uma estreita ligação com a ditadura da felicidade dessa nova cultura. O individuo, aprisionado pelos pensamentos de que se deve viver feliz o tempo todo, desconsidera o movimento existencial e os seus percalços. Sendo a felicidade uma condição do ser, diante dos infortúnios, nada mais resta do que retirar a própria vida. Essa é a lógica do suicida, mediada pelas influências socioculturais. “Se felicidade, em nossos tempos, é ‘condição do ser’, sem ela não há sentido em viver. Essa forma de pensar estabelece a ‘ditadura’ da felicidade a que a maioria de nós se mantém subjulgada” (SILVA, 2016, p. 252).

Diante desse contexto, é perceptível a raiz biológica, genética e psicológica e ou ambientais para a depressão. Os autores apontaram que o narcisismo e uma existência pautada num materialismo exacerbado patologiza a sociedade. Percebe-se a gravidade do assunto com os seus desdobramentos para a sociedade em geral. No que diz respeito às influencias socioculturais, de forma proposital, ficou em aberto a relação da depressão com a perda de sentido para a vida, levantada por Silva (2016). Mas qual é o sentido da vida? É possível uma sociedade sem Deus, pautada em questões apenas materialista? Existe alguma relação entre a perda da transcendência na sociedade contemporânea e a depressão? É o que se propõe discutir no próximo capítulo.


A PERDA DA TRANSCENDENCIA E A DEPRESSÃO
O propósito desse capítulo é abordar a relação da depressão com a ausência de sentido com a vida. Pensando dessa forma, busca-se apresentar esse sentido a partir da transcendência, desvinculando o pensamento de uma sociedade meramente racional e materialista. Tendo o ser humano um sentido último da existência (transcendência), as crenças poderão minimizar os efeitos da depressão na sociedade contemporânea.

A primeira questão que vem a mente ao pensar nesse assunto é imaginar uma sociedade sem Deus. É possível? Existem várias maneiras de pensar a transcendência no contexto contemporâneo. A partir da Filosofia, Cláudia Raquel Macedo (2010) apresenta o problema da transcendência em Husserl e Heidegger. O mais importante nessa discussão é o caráter excludente da visão dualista da metafísica. “Em ‘Ser e Tempo’, Heidegger apresenta um projeto filosófico ousado e impactante para fugir do olhar dualista da metafísica...” (MACEDO, 2010, p. 3). A ontologia fundamental heideggeriana situa o ser no tempo e na história. Não existe nada além da existência.

Mas há outra forma de pensar a transcendência, ligada aos atributos incomunicáveis de Deus. Nesse modo de pensar, Deus é independente e auto-existente. Percebe-se uma clara distinção entre Criador e criatura. Assim sendo,

A transcendência de Deus, afirmada no primeiro capítulo de Gênesis, é que o torna infinitamente maior que qualquer outro objeto na criação. Sempre haverá uma diferença qualitativa infinita entre Deus e os homens. Este abismo que existe entre Deus e nós ‘não é apenas uma disparidade moral e espiritual que se originou com a queda. É metafisica, tendo raízes em nossa criação [...]. Ele não precisava da criação e muito menos a criou porque estava se sentindo solitário. Ele não precisava da criação no seu próprio Ser Trino. Deus é auto-existente e não deriva seu ser de algo anterior. Ele não é condicionado pela criação, mas a criação é completamente sujeita à sua vontade. (FERREIRA, 2017, p. 214, 216)


O mundo é dividido numa visão material ou numa perspectiva espiritual. Esse modo de ver o mundo dividiu opiniões dos grandes intelectuais ao longo da história. O Psiquiatra Armand M. Nicholi (2005, p. 10-18) analisa a obra de Sigmund Freud e C.S. Lewis, a partir desses dois pressupostos. Freud adotou a Filosofia de vida ateísta. Enquanto que Lewis passou do ateísmo para a fé cristã.

Todos nós possuímos uma visão de mundo – não importa se estamos conscientes disso ou não. Alguns anos depois do nosso nascimento, todos começamos a gradualmente formular nossa filosofia de vida. A maioria de nós parte de um dos dois pressupostos básicos: vemos o universo como o resultado de eventos aleatórios e a vida neste planeta como um produto do acaso; ou pressupomos uma Inteligência além do universo que lhe confere ordem e sentido vital. (NICHOLI, 2005, p. 15)


Segundo o mesmo autor, “a fé e a descrença refletem duas visões de mundo totalmente distintas; assim, elas oferecem respostas muito diferentes sobre como enfrentar a vida e a morte, o amor e a perda, ou até mesmo a sexualidade” (NICHOLI, 2005, p. 109). Ao refletir a visão de mundo espiritual, na perspectiva da conversão de C.S. Lewis, estabelece-se uma diferenciação entre religião enquanto neurose obsessiva para a religião como promotora de mudança. No caso de Lewis, diz Nicholi (2005, p. 87-106), a conversão à fé cristã, ou a Deus, não foi uma patologia estagnante, que é o caso da neurose, mas uma experiência que melhorou o funcionamento de Lewis com ele mesmo e com os outros.

Silva (2016, p. 221-238) faz uma relação interessante entre a depressão e a espiritualidade. No seu entender cada ser humano possui três dimensões vitais: corpo (corpo propriamente dito), mente (ou psíquica) e espirito (ou virtual). Ao relacionar a depressão à ausência de sentido e propósito de vida, a espiritualidade, que na sua abordagem, faz uma analogia como uma espécie de luz poderosa, intensa e totalmente sincronizada, tem “o objetivo de promover a melhoria humana por meio da transcendência material, ou seja, a espiritualidade seria uma espécie de laser transformador de nossa vida” (SILVA, 2016, p. 227). Por esse prisma, há uma estreita ligação entre saúde e espiritualidade, conclamando a Comunidade Médica para um olhar mais atento para a dimensão espiritual dos seus pacientes. Segundo o Doutor Roque Marcos Savioli (apud SILVA, 2016, p. 237), a partir de suas análises clínicas, é menor a incidência de depressão nos pacientes praticantes da fé cristã, após cirurgias cardíacas. Ainda aponta para “a ausência de religiosidade como um dos fatores capazes de predispor à ocorrência da depressão no pós-operatório de pacientes que realizam cirurgias cardíacas” (p. 237).

Esses argumentos reiteram o posicionamento de que a vida é mais do que matéria e possuir uma visão espiritual, no caso dessa pesquisa, transcendental, crendo no Poder Último, poderá atenuar as crises, elevar a autoestima e contribuir para o bem estar pessoal e coletivo. O Psiquiatra Viktor E. Franklin (2008) traz, a partir de suas experiências no campo de concentração nazista, a importância e o valor do sentido último da existência, a fé em Deus, como elemento de sustentação dos soldados submetidos às crueldades do campo de batalha.

Concomitante a essa visão, o Doutorando em Teologia, Darlei de Paula (2012) apresenta a relação da espiritualidade com a saúde, reiterando o valor do ritual e da liturgia, pautados numa fé em Deus, e não na confessionalidade religiosa, enquanto elemento contribuinte para a promoção da saúde. A alegria, o estudo e a oração são apresentados como Sistema Preventivo para a saúdeii. O objetivo primário desse Sistema é adotar medidas socioeducativas para a saúde integral do individuo. Assim sendo,

A religiosidade cristã é responsável por muitos estilos de vida e comportamentos adotados em nossa sociedade. Nós iremos trabalhar com aqueles que, de alguma forma, contribuem para a promoção humana através de suas práticas. Deixando de lado as diferenças confessionais, trataremos de considerar quatro elementos saudáveis para serem observados nos costumes de pessoas que buscam cultivar sua espiritualidade. São eles: alimentação, limpeza, sexualidade e descanso. (DE PAULA, 2012, p. 19).
Foi comentado no capítulo anterior que a sociedade contemporânea é geradora de estresse. Ficou evidente que uma das causas para a depressão são os fatores psicossociais. O Teólogo De Paula considera que a prática da religião cristã é benéfica no controle dos geradores estressantes dessa sociedade contribuindo para a promoção da saúde integral do individuo. Afirma que “participar de um grupo religioso gera consequências salutares para a vida do indivíduo. De maneira geral, podemos dizer que é um meio de apoio no âmbito social” (p. 20). O seu esboço de análise é “a coesão social, a ideia de pertença, a continuidade das relações, bem como, o desenvolvimento da participação na comunhão e o companheirismo” (p. 20), que os grupos religiosos praticam elevando o sentimento “de pertença a este determinado segmento de religiosidade, o que fortalece a autovalorização do indivíduo no meio social, bem como sua autoestima, por ser reconhecido e aceito em determinado grupo” (DE PAULA, 2012, p. 20). Por esse viés o apoio social, a partir do vinculo com grupos religiosos, é salutar no enfrentamento da depressão em casos de luto.

Pelo exposto, a partir de Franklin (2008) e De Paula (2012) é possível considerar duas questões: o valor das crenças transcendentais e das instituições religiosas cristãs no enfrentamento dos males que afetam a sociedade contemporânea, dentre estes, a depressão. Mas que relação existe entre as crenças transcendentais, os grupos religiosos e a prevenção da depressão? A relação está no sistema de crenças.

Um sistema de crenças pode ser definido a partir do reconhecimento de rituais religiosos públicos ou privados. Percebemos que, de alguma forma, contribuem para a saúde mental do ser humano por levá-lo a tomar uma atitude que possa ser a simples decisão de parar para orar. (DE PAULA, 2012, p. 21).
Crer faz bem à saúde mental. Diante dos problemas contemporâneos, o que inclui o alto índice de doenças psíquicas, não cabe mais um discurso discriminatório, sectário e materialista. É necessário e urgente sim rever os posicionamentos das instituições religiosas no cenário brasileiro, mas discriminá-las, jamais. A oração, os rituais, os grupos religiosos, as confissões e a liturgia produzem efeitos benéficos na psique humana. No caso da oração, “são partes do dia a dia das pessoas e são formas de interação terapêutica” (DE PAULA, 2012, p. 21). Por isso a necessidade de (re) considerar alguns posicionamentos críticos quanto ao papel e a função das instituições religiosas na sociedade contemporânea, assunto que nos deteremos mais adiante.

O mesmo pode-se dizer quanto à importância de Deus na vida e na história humana. Será benéfico nutrir um pensamento ateísta numa sociedade mergulhada na depressão? Em nome do discurso inter-religioso, do pensamento teológico-liberal, devem-se excluir os elementos fundantes da religião cristã? Para que as pessoas sejam felizes no Século XXI devemos “matar” Deus? Viktor Franklin (2008) nos responde com um retumbante não. Em sua análise, há um sentido último da existência. Foi a sua prática enquanto Psiquiatra no campo de concentração nazista que O levou a essa conclusão. Diante da realidade sub-humana dos soldados, a mercê de todo tipo de crueldade que Franklin inaugurou a Logoterapia, uma psicoterapia centrada no sentido. E, por esse viés, não se descarta o sentido último da existência, denominado de suprassentido. Nesse ponto são considerados os elementos religiosos como fonte terapêutica, o que inclui a transcendência. “No entanto, quando o paciente está sobre o chão firme da fé religiosa, não se pode objetar ao uso do efeito terapêutico das suas convicções espirituais” (FRANKLIN, 2008, p. 142).

Em outra obra, a partir do conceito de consciência transcendental, Franklin (2007) desloca a Psicologia do campo reducionista da Psicanálise. Segundo ele, essa Psicologia reduziu “os fenômenos humanos à facticidade psicofísica, descuidou-se da pessoa ‘propriamente dita’ em sua totalidade, que é o objeto da logoterapia” (FRANKLIN, 2007, p. 6). Nessa perspectiva inaugura-se uma Psicologia espiritual. Exclui-se, nessa abordagem, qualquer comprometimento com a confissão religiosa. Todavia, não se descarta os efeitos profiláticos ou psicoterapêuticos da transcendência. “Entretanto, poderão resultar efeitos profiláticos ou psicoterapêuticos quando a pessoa experimenta alivio psicológico ao considerar sua transcendência, ao encontrar o sentido último da vida em Deus ou ao sentir-se ancorada no absoluto”. (FRANKLN, 2007, p. 7)

O Psicólogo e Teólogo Mauro M. Amatuzzi relaciona a religião ao sentido da vida e a estrutura enquanto orientação e devoção. Apropriando-se do pensamento de Erick Fromm apresenta a raiz psicológica da religião que está ligada à insatisfação do ser humano, necessitando assim, de um encontro harmonioso com a própria existência.

O ser humano, por sua condição existencial, é um insatisfeito. ‘Mesmo que a fome, a sede e os desejos sexuais do homem estejam completamente satisfeitos, ele não está satisfeito [...]. É nesse desequilíbrio que se radica a necessidade do reencontro de uma harmonia, vivida como perdida, e expressada como tal nos mitos do paraíso ou das origens em várias culturas. (AMATUZZI, 2015, p. 21)

Nessa perspectiva são apresentados elementos que diferencia a natureza humana do animal. Dentre os elementos estão às formas de responder à necessidade de sentido. O homem tem, por natureza, a necessidade de harmonia e sentido para a vida. Por isso os mais variados sistemas filosóficos e religiosos apresentam respostas de sentido para o ser humano, incluindo, os sistemas religiosos monoteístas. É importante ressaltar que o sentido da vida não está, necessariamente, atrelado ao conceito de um Deus transcendente, mas que, tal conceito, faz parte da busca do sentido do homem ao longo da história. Não há como descartar tal realidade. Nos sistemas religiosos monoteístas, “nosso mundo não é caótico e absurdo, mas corresponde aos designío de um Deus que nos ama e protege, e em quem podemos confiar” (AMATUZZI, 2015, p. 23). Sem desconsiderar outros sistemas religiosos, há uma conexão entre religião monoteísta e sentido de vida que deve ser apreciada no contexto contemporâneo.

Constata-se pelas observações aqui expostas que o pensamento sobre a não existência de Deus é mais ideológica do que cientifica. Se a crença em Deus tem como fundamento a fé, a crença na não existência também é uma questão de fé e não de razão. O problema é que o discurso da não transcendência, embora benéfico para alguns, poderá trazer mais malefícios do que benefícios, uma vez que a religião é parte inerente do ser humano. Exemplo disso é a depressão onde as crenças positivas, de cunho transcendental, podem atenuar os efeitos nocivos da mesma. Mas ainda surge uma questão: Com respeito ao academicismo, diante do que se vive no Século XXI, com tanta violência, doenças psíquicas e aumento das drogas, devemos permanecer com o discurso da morte de Deus? É o que se propõe pensar no próximo capítulo.
DA MORTE DO DEUS JUDAICO CRISTÃO À SUA RESSURREIÇÃO NO DISCURSO ACADÊMICO
Num primeiro momento desse ensaio constatou-se a decadência social pela qual estamos mergulhados. Em seguida foi demonstrado que o discurso sobre a existência ou não existência de Deus é mais ideológico do que cientifico e que há uma relação da transcendência com a possibilidade de enfrentamento da depressão. Nesse contexto surge uma questão: se não podemos provar a existência de Deus, podemos provar a sua não existência? A resposta óbvia é não! Assim sendo, pergunto: devemos manter um discurso acadêmico e, até mesmo, uma filosofia de vida ateísta diante do caos enfrentado pela sociedade moderna? É claro que essa pergunta não é individual e muito menos confessional. Nesse sentido cada uma faz as suas escolhas. A reflexão gira em torno das questões sociais, uma vez que são os pensadores que formam opiniões e “determinam” as tendências comportamentais da sociedade. Basta pensarmos em Freud, Nietsche, Karl Marx e tantos outros e como eles influenciaram e influenciam o pensamento moderno. Por isso, nesse capítulo, pretende-se repensar o discurso acadêmico que faz uma critica veemente ao Deus judaico cristão.

Em nome de um diálogo inter-religioso propõem-se o rompimento com crenças que, até então, vem sustentando o mundo Ocidental. Particularmente, não há problema com o diálogo inter-religioso. Agora, veja bem, diálogo, e não tendência ideológica na tentativa de romper com uma forma confessional e implantar outra. É o que se percebe nos discursos acadêmicos. A maior critica se faz ao Deus monoteísta-cristão. Esse é o argumento do Teólogo Alexandre Marques Cabral (2015, p. 11-28). Na sua obra é perceptível a tendência ao discurso inter-religioso que, por sinal, é bem fundamentado. Todavia, por trás dessa tendência, fica claro o seu objetivo de “decretar” a morte do Deus judaico cristão. Diz ele:

O objetivo deste livro é de caracterizar a possibilidade de ressignificação dos Deuses em meio à crise das bases metafisicas do monoteísmo. Em outras palavras, o objetivo é caracterizar a possibilidade da ressurreição dos Deuses no tempo da crise da metafísica e do monoteísmo que por ela é estruturado. Uma vez que foi o monoteísmo o responsável pelo mais intenso processo teofágico conhecido na história, a mono-significatividade da divindade por ele produzida possibilitou que ele seja caracterizado por meio de uma poderosa expressão nietzschiana: monótono-teísmo. A monotonia do monoteísmo não é outra senão aquela que se faz presente na anulação da significatividade de outros Deuses e na homogeneização dos modos de ser da vida humana. Para caracterizar a ressignificação dos Deuses, é necessário uma lida critico-descontrutiva com o monótono-teísmo metafisico. Isto exige uma descrição da estratégia de anulação dos Deuses por meio do cristianismo e sua crise no acontecimento da morte de Deus. (MARQUES CABRAL, 2015, p. 25).
Percebe-se, nesse discurso, que o Deus judaico cristão foi o responsável pela morte dos Deuses no Ocidente, denominada pelo autor de monótono-teísmo, uma prevalência do monoteísmo sobre os outros Deuses. Seguindo essa linha de raciocínio descortinando a possibilidade do politeísmo e do ateísmo afirma: “Deus não existe; Deus não é; a divindade polissêmica acontece” (MARQUES CABRAL, 2015, p. 25). Tudo bem que o seu argumento é a favor da multiforme expressão da divindade ou, em suas palavras, da divindade polissêmica. Mas questiono: para tanto é preciso “matar” o Deus judaico cristão? É verdade que o monótono-teísmo foi o responsável pela morte dos Deuses no Ocidente ou foi a que trouxe maior sentido existencial? Não é esse o objetivo deste artigo, mas vale uma reflexão. Por ora, bastar afirmar, que esse discurso está impregnado na mente e no coração dos formadores de opinião da sociedade contemporânea. Vamos “matar” o Deus judaico cristão. Vamos, enquanto formadores de opinião, ressuscitar os Deuses, mas rechaçar todo e qualquer discurso a favor do Deus monoteísta-cristão. É coerente tal atitude?

Coerente ou não parece ser essa a tendência filosófica de Luiz Felipe Pondé (2016). Nessa obra não é a proposta da ressurreição dos Deuses que, pelo menos, na obra de Marques Cabral (2015), parece existir, mas um discurso eminentemente materialista. Nesse discurso, o Filósofo Pondé (2016, p. 73-78) põe em xeque a credibilidade dos lideres espirituais, definindo-os como “picaretas do espírito”. No seu entender, esses líderes exploram as três grandes áreas de choque da vida (saúde e doença, dinheiro e trabalho, amor e família) para explorar as pessoas.

Noutro momento afirma que a Metafísica (2016, p. 76-82) é uma construção filosófica que nasceu com Platão, tomando forma em Aristóteles e sendo apropriada pelos judeus, cristãos e mulçumanos que viram nessa ideia a “cabeça de Deus” ou, a sua casa. A tendência filosófica é o extermínio com a ideia da Metafisica e, consequentemente, com as suas crenças, colocando-a como um pânico diante do nada.

A filosofia moderna e contemporânea criticou muito a metafisica, chegando mesmo a destruí-la, de certa forma, dizendo que é uma espécie de viagem de platônicos de todos os tipos. Com o nascimento da ciência, a ideia de um mundo imaterial se tornou meio fora de moda, porque o pensamento moderno é muito preocupado com a eficácia e os resultados, e a metafísica não serve para nada, a não ser para nos ajudar a crer em alguma forma de um mundo melhor do que esta em que vivemos, o que pode significar que a metafisica não passa de pânico diante do nada – como pensava um dos maiores antiplatònicos da história da filosofia, Nietzsche. (PONDÉ, 2016, p. 81).


O último argumento de Pondé (2016, p. 87-92) que nos interessa é o seu pensamento sobre a existência de Deus, que não é fruto de lógica, mas de aposta. No seu ponto de vista “crer em Deus é mais fruto de causas extrarracionais como educação, traumas infantis, ambiente cultural familiar, ter um ‘cérebro de crente’ do que pensar que crer em Deus é fruto de uma cadeia lógica de provas a seu favor. A mesma coisa vale para a descrença” (2016, p. 90). Ele não diz que Deus não existe, mas deixa claro que isso é coisa de irracionais.

Os argumentos de Luiz Felipe Pondé (2016), um dos mais célebres pensadores do Século XXI são científicos? Arrisco afirmar que não. São ideológicos. Científicos não. Tanto Marques Cabral (2015) quanto Pondé (2016) se utilizam, em grande escala, do referencial teórico de Nietsche. De forma mais especifica o Pondé (2016, p. 63,73,81) deixa claro que os seus argumentos parte de uma visão materialista de Marx, Freud e Nietsche. A própria sugestão do livro é um convite a pensar com a própria cabeça. Mas com a cabeça de quem? Se levarmos a sério essa expressão, seria deixar o pensamento livre. Deixar as pessoas crerem naquilo que fazem sentido para ela. Mas por que atacar a metafisica, o Deus judaico cristão, a eternidade? Como afirmado no capitulo dois as questões de fé perpassa mais pela experiência de vida de quem escreve do que por argumentos científicos. Se os traumas infantis valem para corroborar o teísmo, os mesmos traumas servem para afirmar o ateísmo. Não há neutralidade cientifica.

Ponderando esses argumentos propõe-se um repensar para o mundo acadêmico quanto ao discurso da “morte” do Deus judaico cristão. É claro que esse repensar não exclui a critica ao abuso do discurso monoteísta cristão, muitas vezes eivado de uma visão exclusivista e mercadológica. Muito menos tornar autoridade última em questões de fé e religião. A questão aqui é social. Uma vez que a religião é produto cultural, como afirma Peter Berguer (1985), e o monoteísmo-cristão faz parte da cultura no Ocidente, de que forma os acadêmicos em Filosofia, História, Medicina, Sociologia, Psicologia e outros, poderão unir os discursos em matéria de fé e religião para o bem comum? Diante de tanto caos social, doenças psíquicas, devemos manter um discurso existencialista e materialista, excluindo a “consciência transcendental” (FRANKLIN, 2007)?

Nesse ponto, os argumentos do Historiador Leandro Karnal (2017) serão de grande valia. Numa postura, até certo ponto neutra, para quem se confessa um ateu, descortina princípios de vida na perspectiva da religião judaico-cristã. Conceitos como justiça e misericórdia, pecado do orgulho, a necessidade do amor, o perigo da inveja, a urgência do perdão são interpretados à luz das histórias bíblicas (KARNAL, 2017, p. 9-42). O autor não assume nenhum posicionamento com a confissão religiosa cristã. A sua posição é que o pecado, além de humanizar os homens, despertou a história. “Sei que é difícil para alguém que tem fé, mas deveríamos reconhecer que somos filhos de Deus e do Diabo” (KARNAL, 2017, p. 27). É perceptível nessa obra um afastamento das instituições religiosas, mas não do cristianismo em sua essência. Sobre isso Karnal (2017, p. 29) comenta:

Grande parte da fala de Jesus nos Evangelhos é a proclamação da vitória do amor e da compaixão sobre a frieza da Lei. Jesus convida a um gesto que vá além da regra, mesmo que ela seja clara. Sua briga com os fariseus sempre insiste no mesmo ponto: eles compreenderam tudo que estava escrito na Torá, mas não captaram nada do que seria essencial. Os fariseus tinham se apegado à forma e condenavam todos os outros. Achavam que levar a palavra de Deus consigo era amarrar um trecho da Torá junto ao corpo. Jesus proclamava um conteúdo e condenava a esterilidade da letra. O amor deveria ir além da lei. Se olharmos a história do Cristianismo, não seria errado indicar que o movimento que busca Jesus de Nazaré como fundador foi vitorioso, em parte, porque se afastou de Jesus de Nazaré. A vitória das instituições religiosas foi a vitória dos fariseus: a regra, as penitências, a aparência.
Tal postura parece ser muito ética da parte de quem milita com a academia. Negar a existência de Deus não precisa, necessariamente, tirar-lhe o sentido existencial dos seus conceitos. “Sob determinados aspectos, podemos dizer que o carisma da pregação de Jesus é o domínio da compaixão e do amor sobre o texto” (KARNAL, 2017, p. 51). O que se pretende destacar nessa obra? Pode-se não crê em Deus, mas jamais negar os seus princípios para uma vida humanizada, pressuposto teórico e ético das religiões. Deus e o homem fazem parte da história, quer queiramos ou não!

Fica evidente que há uma tendência ideológica no discurso ateísta. Percebe-se que o maior problema do pensamento acadêmico não está na questão da existência e não existência de Deus, ambas as questões não podendo ser comprovada cientificamente, mas na questão das instituições religiosas. Todavia, mesmo diante dessas ambiguidades, é possível reiterar o discurso monoteísta cristão como coadjuvante na solução dos problemas sociais, a partir das virtudes como o amor, o perdão e a tolerância. Por isso a necessidade da ressurreição do Deus judaico-cristão nos círculos acadêmicos em prol de uma sociedade em decadência.


CONSIDERAÇÕES FINAIS
Constata-se, nesse artigo, a decadência social pela qual estamos mergulhados. Uma sociedade altamente depressiva. Tomando por base a raiz biológica, genética, psicológica e ambiental da depressão, afirmou-se que o narcisismo e uma existência pautada num materialismo patologiza a sociedade. Nesse contexto questionou-se a possibilidade de uma vida pautada apenas pela via materialista, desconsiderando os elementos transcendentais.

Considerando que há uma relação entre a depressão e a perda da transcendência, buscou-se afirmar que a crença na existência e ou na não existência de Deus é mais ideológica do que cientifica. Afirmou-se que o problema do discurso da não transcendência, embora benéfico para alguns, poderá trazer mais malefícios do que benefícios, uma vez que a religião é parte inerente do ser humano. Exemplo disso é a depressão, onde as crenças positivas, de cunho transcendental, podem atenuar os efeitos nocivos da mesma.

Admite-se a necessidade de um reposicionamento acadêmico no discurso sobre o monoteísmo-cristão, uma vez que não se pode provar ou negar a existência de Deus em termos científicos. Todavia, afastando-se dos elementos institucionais, de onde provém as maiores críticas do pensadores contemporâneos, é possível pensar as virtudes cristãs, de base monoteísta, para a sociedade em geral. Por isso a proposta da ressurreição do discurso do Deus judaico-cristão nos círculos acadêmicos em prol de uma sociedade em decadência.
THE LOSS OF TRANSCENDENCE AND DEPRESSION: FROM THE DEATH OF THE CHRISTIAN JUDAIC GOD TO HIS RESURRECTION IN THE ACADEMIC SPEECH AS WELL OF LIFE
Abstract: this article aims to propose the resurrection of the discourse of the monotheism of the Judeo-Christian God in academic circles as a possibility of life. The Methodology used was the literature review. In the first moment, it is sought to present depression as an evil of the century, demonstrating that a materialist view pathologizes society. It is evidenced through research that both theistic and the atheistic discourse are ideological and not scientific, and that transcendence may mitigate the problems of depression. It is proposed that there be a repositioning of academic discourse on the issue of Judeo-Christian monotheism in favor of society, since God and man are part of history.
Key-Words: Judeo-Christian God; Depression; Transcendence; Academic speech.

Notas


 De acordo com Silva (2016, p. 71), sinapse é um espaço existente entre o axônio (cabos), que terminam em milhares de estrutura denominadas de dentritos. A sinapse não permite o contato do axônio. A sua função é liberar os neurotransmissores, “que acionam quimicamente um estímulo elétrico conduzido dos dentritos até o espaço sináptico do próximo neurônio”.
2 Segundo o Teólogo De Paula (2012, p. 18), o Sistema Preventivo, embora sendo um conceito novo, veiculado pelos meios de comunicação, “pode ser encontrado historicamente registrado, no âmbito da educação, nas instituições educativas religiosas que se espalhavam pela Europa, em especial na Itália do século XIX”.

Referências

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1 Recebido em: 16.11.2017. Aceito em: ............

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