A organizaçÃo das cátedras na faculdade católica de filosofia de sergipe (1951-1968)


A composição da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe: seções, cursos, cátedras



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A composição da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe: seções, cursos, cátedras e disciplinas6

Foto 01: Prédio do Colégio Nossa Senhora de Lourdes. Década de 1950.

Fonte: Exposição “40 anos da FAFI” – 1991 – Acervo Fotográfico do Museu do Homem Sergipano

Autoria Desconhecida


No ano de 1951 a faculdade dispunha de dois pavimentos do Colégio Nossa Senhora de Lourdes7, situado no centro da cidade de Aracaju-SE, num total de 15 salas, para o funcionamento dos cursos de Filosofia, Matemática e o curso de Geografia e História, além de contar com a autorização para o funcionamento dos cursos de Pedagogia e Letras Anglo-Germânicas. O curso de Letras Neo-Latinas foi autorizado posteriormente, e no ano de 1954, o curso de Didática. Todos os cursos deveriam adotar os programas da FNFi da Universidade do Brasil8.

Esses estavam inseridos em quatro seções fundamentais9: Seção de Filosofia, Seção de Ciências, Seção de Letras, Seção de Pedagogia, com a existência de uma Seção Especial de Didática. A faculdade ministrava “cursos ordinários” com os conhecimentos necessários para obtenção do diploma e “cursos extraordinários”, que seriam para o aperfeiçoamento de determinada cadeira já existente no “curso ordinário”, ou mesmo para ensinar alguma cátedra que não estivesse vinculada àquelas essenciais para a obtenção do título.

Na Seção de Filosofia funcionava o curso de mesmo nome; a Seção de Ciências era composta pelos cursos de: Matemática, Física, Química, História Natural, Ciências Sociais e Geografia e História. De todos os cursos da Seção de Ciências, só funcionaram na FCFS: Matemática e Geografia e História. Na Seção de Letras, o único que não estava em atividade era o curso de Letras Clássicas; na Seção de Pedagogia, tinha-se o curso de mesmo nome que começou a funcionar somente em 1968; como também a Seção Especial de Didática, que abrigava o curso de Didática, cujas atividades iniciaram em 1954. Conforme o Regimento da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe, em seu artigo 23:
As disciplinas lecionadas nos cursos ordinários da Faculdade constituirão matérias das seguintes cadeiras: I. Filosofia; II. História da Filosofia; III. Psicologia; IV Sociologia; V. Política; VI. Estatística Geral e Aplicada; VII. Complementos de Matemática; VIII. Análise Matemática e Análise Superior; IX. Geometria; X. Mecânica racional, mecânica celeste e física matemática; XI. Física Geral e Experimental; XII. Física Teórica e Física Superior; XIII. Química Geral e Inorgânica e química analítica; XIV. Físico-química e química superior; XV. Química orgânica e química biológica; XVI. Biologia Geral; XVII. Zoologia; XVIII. Botânica; XIX. Geologia e paleontologia; XX. Mineralogia e petrografia; XXI. Geografia física; XXII. Geografia humana; XXIII. Geografia do Brasil; XXIV. História da antiguidade e da idade média; XXV. História moderna e contemporânea; XXVI. História da América; XXVII. História do Brasil; XXVIII. Antropologia e etnografia. XXIX. Economia política e história das doutrinas econômicas; XXX. Língua e literatura latina; XXXI. Língua e literatura grega; XXXII. Língua portuguesa; XXXIII. Literatura portuguesa; XXXIV. Literatura brasileira; XXXV. Filologia românica; XXXVI. Língua e literatura francesa; XXXVII. Língua e literatura italiana; XXXVIII. Língua e literatura espanhola; XXXIX. Literatura hispano-americana; XL. Língua e literatura inglesa; XLI. Literatura norte-americana; XLII. Língua e literatura alemã; XLIII. Psicologia educacional; XLIV. Estatística educacional; XLV. Administração escolar e educação comparada; XLVI. História e filosofia da educação; XLVII. Didática geral e especial (FCFS, Regimento Interno, art. 23, s/d).
Diante da nomenclatura “disciplina” no regimento da instituição, aliada às falas dos alunos que fazem referência à “disciplina” e não à “cadeira” e uma série de fontes que assim denominam o que era ensinado na Faculdade, a opção foi feita por trabalhar ao longo do texto com o termo “disciplina”, fazendo referência às subdivisões da cátedra. Pensamos que dessa forma aproximamos um pouco mais a história aqui escrita daquilo que foi vivido pelos sujeitos dessa instituição.

Teoricamente, as cadeiras ficariam a cargo de um professor catedrático, que poderia dispor de um ou mais assistentes, dependendo da necessidade de ensino. Na FCFS, não visualizamos nenhum concurso para catedrático; os seus docentes eram citados como catedráticos interinos ou como professores contratados. Conforme o regimento da instituição em seu artigo 103, o corpo docente seria constituído: “por catedráticos, docentes livres, assistentes, auxiliares de ensino e, eventualmente, por professores contratados” (FCFS, Regimento Interno, art. 103, s/d). A exceção virou regra e quase todos os docentes da FCFS eram contratados por períodos determinados, com renovações constantes.

Sobre o sistema de ingresso dos docentes na instituição, Manuel Cabral Machado diz: “No tempo da Faculdade de Filosofia, nós mandávamos nossos curriculum vitae para o MEC e, com a sua aprovação, nós – professores e suplentes – passávamos a ser integrados” (MACHADO, 1998, p. 20). Esta fala, aliada a outras fontes, como ofícios da FCFS através dos quais eram encaminhados currículos dos professores ao Ministério da Educação, induz-nos a pensar na contratação de docentes que já lecionavam em outras instituições educacionais sergipanas, como o Atheneu Sergipense10 ou em outras faculdades existentes no estado. Com o passar dos anos, eram contratados os próprios ex-alunos da faculdade, pelo seu desempenho nas atividades requeridas ou mesmo pelo jogo de amizades e conhecimento que cada um nutria dentro e/ou fora da instituição.

Em debate na XIV Reunião da Congregação da FCFS em 5 de março de 1960, faz-se a opção por deliberar uma resolução que reza:


a- poderá ser indicado pela Congregação, mediante proposta do CTA e nomeado pelo Diretor como catedrático interino, o professor contratado ocupante de cadeira vaga, desde que tenha, pelo menos 3 anos de exercício na referida cadeira; b- Os professores catedráticos cujos cursos estejam eventualmente sem funcionar, terão prioridade toda vez que tratar de preenchimento de vagas em outros cursos vagos, para os quais eles estejam devidamente habilitados (FCFS, Ata da XIV Reunião da Congregação da FCFS, 05/03/1960 − FCFS, Relatório Semestral, 1960/1).
A fala de Beatriz Góis Dantas nos ajuda a entender melhor como tal resolução se processava na prática:
Na própria constituição da Faculdade de Filosofia são pessoas da comunidade que geralmente eram o quê? Pessoas formadas em Direito, em Medicina, enfim pessoas formadas nas outras áreas e que tinham alguma aproximação com as disciplinas da faculdade e que muitas vezes iam estudar para aprender, para passar pra gente. Isso não significa que nós não tivéssemos grandes professores, eu acho que tive bons professores que, com muito esforço e uma boa formação, eles queriam passar um cabedal cultural bastante significativo (DANTAS, 2010).
Foram esses “bons professores” citados pela entrevistada que, com suas distintas formações em Direito, Medicina, Engenharia e tantas outras áreas, lecionaram os conteúdos dos programas de ensino da FCFS. Conforme o Regimento Interno da citada faculdade (s/d), em seu artigo 30: “para cada disciplina haverá um programa que será elaborado pelo professor catedrático dela encarregado e que, depois de revisto pelo Conselho Técnico Administrativo, será submetido a aprovação da Congregação”. Pelas investigações empreendidas tanto nas atas das reuniões da Congregação quanto nas do CTA, não se visualiza nenhuma alteração efetuada pelos conselhos nos programas apresentados pelos professores.

Notam-se as dificuldades para conseguir docentes das disciplinas. Imagina-se ainda quem teria condições de criticar as propostas ou substituí-las. Além disso, existia ainda uma rede de sociabilidade11 próxima entre os professores da instituição. Muitos frequentavam os mesmos colégios, as mesmas instituições de ensino superior e até mesmo os outros espaços da cidade de Aracaju, como bibliotecas, igrejas ou o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e a Academia Sergipana de Letras.

Assim, a saída de um professor era algo complexo, pois o mesmo docente, além de lecionar em diferentes disciplinas, também ensinava nos diferentes cursos. Um exemplo deste fato é o caso do professor Gonçalo Rollemberg Leite, que ficou responsável pelas disciplinas: História da Civilização Antiga e Medieval, História da Civilização Moderna, História da Civilização Contemporânea, Didática Especial da História para o curso de Geografia e História e ainda Literatura Portuguesa e Brasileira para os cursos da área de Letras. O professor Petru Stefan assumiu as disciplinas do curso de Matemática: Análise Matemática, Mecânica Racional, Mecânica Celeste, Análise Superior, e também ensinou Geografia Física no curso de Geografia e História.

Quando da saída de um professor da instituição, vislumbravam-se espécies de “operações de cooptação”12, na classificação de Bourdieu (2001), não sem disputas e tensões. Exemplo disso ocorreu quando Maria Thétis Nunes saiu da FCFS em 1956 para frequentar o ISEB. Na época, essa professora ficava responsável pela disciplina de História do Brasil para a segunda e terceira séries do curso de Geografia e História. As cadernetas passaram meses sem assinatura de nenhum professor, depois se localizam os nomes de José Bonifácio Fortes Neto, José Silvério Leite Fontes, Fernando Barreto Nunes e uma ex-aluna da Faculdade, Maria Auxiliadora Diniz, até o retorno de Thétis Nunes em meados da década de 1960.

Esse pode ser considerado um exemplo de como o corpo docente da faculdade se desdobrava para não deixar faltar aula para os alunos, enveredando caminhos que muitas vezes não conheciam com profundidade. Contudo, existia dedicação em nome de uma boa formação dos seus discentes e do seu próprio reconhecimento como intelectuais que atuavam em vários campos13 da sociedade sergipana, inclusive na educação superior.

Cabe salientar que a estrutura, assim como o sistema de ensino em si, têm propósitos que estão para além dos aspectos formais aqui expostos. Neste sentido, Chervel (1990) fala do sistema escolar como detentor de um poder até pouco tempo atrás não valorizado, pois ele exerce uma dupla função: além de formar os indivíduos, compõe também uma cultura que vem penetrar, moldar e modificar a cultura da sociedade de maneira mais ampla. Com este pensamento, voltamos o olhar para a organização da FCFS berço da formação de professores em nível superior no estado Sergipe, percebendo como essa de certa forma penetrou e modificou a vida dos estudantes e futuros professores que por ali passaram. A FCFS, apesar de ter um currículo similar ao de outras instituições do país e seguindo o modelo imposto pela Universidade do Brasil desde 1939, no qual constava o termo “cátedra” ou “cadeira”, por se tratar de uma instituição de caráter privado, mesmo com uma pequena mensalidade paga por seus alunos, a faculdade sergipana delineou suas peculiaridades por meio dos sujeitos que configuraram as disciplinas e o ensino ali transmitido.



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