A natureza das coisas e as coisas da Natureza



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Irene Borges-Duarte

A NATUREZA DAS COISAS

E

AS COISAS DA NATUREZA



Um estudo da Crítica da Razão Pura

ÍNDICE DE MATÉRIAS

NOTA PRÉVIA


O estudo que agora vê a luz foi concebido e elaborado em 1986. A publicação de um trabalho científico que tem vinte anos de “gaveta” supôs uma decisão difícil de tomar. Ela não teria tido, talvez, ocasião de ser tomada, se o texto não tivesse sido cordialmente solicitado para integrar a colecção de estudos kantianos, que edita o Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Mas também não teria sido tomada se o conteúdo textual tivesse deixado de fazer sentido, para quem o redigiu.

Visto a tão longa distância, adquire hoje um carácter antes invisível, para quem o produziu, em tão diferente contexto. Fora preparado sob a pressão do tempo, como costuma acontecer a tantos trabalhos que, em época de reformas legislativas, têm origem em urgências académicas, qualquer que seja o nível a que estão chamados a responder. Entalado entre outros menos prementes, não foi tratado, de forma imediata, como projecto de publicação, pelo que aguardou tempos melhores, sempre fugidios, que possibilitassem uma revisão final, incorporando outros desenvolvimentos, sobretudo no sentido de estender a análise para além das fronteiras da Crítica da Razão Pura. Ficou, por isso, na memória da autora, marcado por uma dupla herança, certamente assumida em liberdade: a do peso da própria filosofia transcendental kantiana, numa formação histórico-filosófica clássica, e a do encontro com a metodologia fenomenológica, que sem conflito com aquela, conduziu, contudo, noutra direcção. O escrito tem, pois, o cunho de um acto de síntese, pelo qual se toma consciência e posse do que constituiram os alicerces de uma forma de pensar e trabalhar em filosofia, e, por isso mesmo, representa igualmente o momento de viragem, não como desvio de uma forma de fazer, mas como orientação consciente para outros horizontes e como balanço para a experiência de outra linguagem.

É um texto que, com independência de efemérides, constitui uma homenagem a Kant, à sua grandeza como pensador, que se recusa a deixar fora da catedral, cuja arquitectura desenhou com esforço e preciosismo, o que, contudo, não consegue aprisionar lá dentro e, por isso, acomoda no adro, antes de, finalmente, traçar o esboço paisagístico do envolvente. As coisas da Natureza, que se escapam, sem fugir completamente, daquilo que é a natureza das coisas, espelho ela mesma da natureza da nossa razão, que, sempre no seu encalço, termina, na medida do possível, por se aquietar, ao apercebê-las na ordenada beleza de um jardim barroco. Este percurso fica, contudo, inacabado no presente ensaio, confinado ao intra-muros da Crítica da Razão Pura, muito embora assinalando os pontos de escape, quer para a Crítica da Faculdade de Julgar, nas suas duas metades, quer para os Fundamentos metafísicos da Ciência Natural.

É um texto que, por outro lado, muito deve, tanto pela metodologia de análise como pelos apoios bibliográficos de base, à passagem formativa pela Faculdade de Letras de Lisboa, numa época que atravessa várias gerações e que ficou marcada, não só para a autora, pelo magistério de Oswaldo Market. A sua interpretação genética do pensamento kantiano e idealista está, sem dúvida, no ponto de partida deste trajecto, que beneficiou, por outro lado, da continuidade da sua presença na Universidade Complutense de Madrid e, concomitantemente, do contacto regular, em Mainz, com a escola de Gerhard Funke. Mas sem aquele primeiro solo não haveria o presente edifício, nem outros, que com diferente arquitectónica se têm ido erguendo, adjacentes uns, outros independentes, mas com a coerência de se saberem todos derivações de um tronco comum, bem nascido.

É, contudo, um texto inactual, porque os vinte anos de pousio guardaram uma leitura que, hoje, seria necessariamente diferente. Não só mais rica, mais sábia, talvez mais ágil no estilo, mas realmente diferente, fazendo intervir outras vozes e deixando ouvir algumas, que já aí falam, de outra maneira. A decisão de o dar a publicar implica, pois, a consciência das suas limitações e, às vezes, a impaciência ante elas. Mas também, junto com essa modéstia, a convicção da limpeza e dignidade do caminho, leal com o autor e fiel ao seus textos, nessa mesma forma em que foi originalmente concebido e redigido. Modificá-lo, alterá-lo para além dos pequenos ajustes e actualizações a que se procedeu, implicaria, sem dúvida, escrevê-lo de novo de outra maneira, sem que, no entanto, essa alternativa invalidasse a presente.

Por isso e porque creio que pode servir de introdução orientada à obra de um pensador como Kant, demasiado estrangeiro para a actual geração de alunos, que me tem passado pelas mãos na Universidade de Évora, aceitei e agradeço o desafio que o amistoso convite de Leonel Ribeiro dos Santos me lançou. Assim como agradeço à Ana Falcato, para quem Kant não foi tão remoto, o ter aceite traduzir o texto original do castelhano, contribuindo, sem dúvida, desse modo para o arranque de um trabalho que, senão, talvez não tivesse tido alento para chegar a bom termo. À direcção do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, e em especial ao seu Director, Manuel José do Carmo Ferreira, agradeço, enfim, o incentivo incansável dado aos estudos da tradição filosófica europeia, de que este é exemplo. Mas é aos meus alunos da Universidade de Évora que devo, em primeira instância, o sentir que é preciso levar adiante esta tarefa e não é ocioso dar a conhecer um trabalho da velha escola, como este que, agora, aí fica exposto.

Évora, 5 de Maio de 2006.

Irene Borges Duarte

ADVERTÊNCIA

Os títulos das obras de Kant são habitualmente citados de forma abreviada, quer no texto, quer nas notas, por meio de siglas, de palavras do título ou de sequência de palavras do mesmo. Estas são, em geral, as que mais frequentemente se utiliza para tal, na bibliografia especializada (ex.: KrV, para Kritik der reinen Vernunft; Fortschritte para Welches sind die wirkliche Fortschritte, die die Metaphysik seit Leibnizschens und Wolffs Zeiten in Deutschland gemacht hat?). A indicação da abreviatura utilizada aparece, em qualquer caso, na primeira nota em que seja referida e, entre parênteses rectos e em letra negrita, no correspondente apartado da bibliografia final. Do mesmo modo, as siglas Ak. e/ou W. correspondem, respectivamente, às edições da Academia de Berlim e de Wilhelm Weischedel das obras de Kant, assinaladas por extenso na bibliografia. Os algarismos romanos e árabes, que as seguem, referem-se ao tomo e página das mesmas. A Crítica da Razão Pura é, contudo, mencionada normalmente, tanto no texto como nas notas, meramente pelas siglas KrV, seguidas da paginação das edições A e/ou B. As traduções são, quase sempre, da minha lavra, mas foram muitas vezes tidas em consideração versões em português, castelhano, francês e, para os textos latinos, em alemão, todas elas devidamente assinaladas, cujas abreviaturas figuram, igualmente, no correspondente apartado bibliográfico. As obras de literatura secundária, quando repetidamente referidas, também obedecerão ao mesmo critério, só sendo citadas por extenso na sua primeira aparição, em nota. Quando, numa qualquer citação, o sublinhado de um termo ou sequência não proceda do texto original, mas seja da minha autoria, aparecerá, no final, a indicação: (s.m.).






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