A múltipla origem da psicologia


b. O surgimento das Ciências Humanas



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2.b. O surgimento das Ciências Humanas

Resta ainda uma questão na constituição da psicologia: como se dá a cientifização destas experiências demarcando uma ciência psicológica? Para isto foi necessário uma série de transformações na estrutura do conhecimento que levaram à possibilidade de uma peculiar ciência do homem no século XIX. Por que esta não teria sido possível antes? Por que não havia uma ciência humana na Antigüidade e Idade Média? Poderíamos dizer que ela só foi possível a partir do final do século XVI, graças à tentativa moderna de separação entre um domínio de seres naturais e outro de seres humanos, como especifica Bruno Latour (1994). Antes deste período não há nenhuma distinção entre seres humanos e seres naturais; no máximo a distinção aristotélica entre um mundo sub-lunar e outro supra-lunar, sendo este marcado pela constância e regularidade. A natureza (physis) é marcada pelo mesmo conjunto de princípios, independente da natureza dos seres.

Segundo Latour, o marco histórico desta clivagem pode ser encontrado na discussão sobre o vácuo que opôs Robert Boyle e Thomas Hobbes, na Inglaterra do século XVI, marcada por uma profunda guerra civil. Boyle sustentou a existência do vácuo apelando para uma nova forma de testemunho, mais poderoso que o de cidadãos dignos, os experimentos laboratoriais (estes em seu início guardavam em muito a forma jurídica de um inquérito). É neste sentido que a “Bomba da ar” de Boyle forneceria um testemunho mais rigoroso do que qualquer argumento bem encadeado. Hobbes, por outro lado, tentou negar a existência do vácuo apelando para uma teoria dedutiva geral que servisse para unificar toda a natureza e o reino inglês esfacelado em guerras civis. De mais a mais, para este filosofo, a existência de espaços fechados como os laboratórios punha em questão a necessidade de um poder central absoluto. Apesar da discussão de Hobbes sobre o vácuo, sua principal herança foi a sua filosofia política sobre o Estado, em que todos os cidadãos estariam representados pelo rei. Apesar de Boyle ter produzido escritos políticos, buscando a unidade do reino a partir das verdades geridas pelos testemunhos laboratoriais, perseverou entre nós apenas a sua contribuição científica e a invenção dos laboratórios como os nichos da verdade dos entes naturais.

Para Latour, a modernidade se constitui no século XVII na tentativa de clivagem e purificação de entes humanos e naturais. Os entes humanos tornaram-se a partir de então assunto da política, tendo a sua representação nos parlamentos, enquanto que os seres naturais passaram a ser tema das ciências, sendo representados nos laboratórios. Contudo, a modernidade produziria como efeito colateral desta tentativa de purificação a proliferação dos híbridos, seres com marcas ao mesmo tempo humanas e naturais. O caso mais clássico abordado pelo pesquisador francês é o da representação nos fóruns humanos (parlamentos e tribunais) de seres ameaçados de extinção, da biosfera e de substâncias (como o CFC) carentes de controle. Apesar de não ser abordada por Latour, a psicologia, como ciência humana, pode ser vista como um outro tipo de híbrido colateral, onde os seres humanos passariam a ser representados em laboratórios. Seria um saber híbrido uma vez que ciência e humana ao mesmo tempo, multiplicado em sua diversidade graças a este esforço de purificação moderna: são muitas formas de se fazer ciência acopladas a muitas imagens de homem . É desta forma que a psicologia é recusada pelos cientistas e epistemólogos por ser por demais plural em suas vertentes e escolas, ao mesmo tempo que desdenhada pelos humanistas por seu pretenso naturalismo, desagradando todos os puristas de nossa modernidade.

Para dar conta dessa história, de como os seres humanos são representados como os demais seres naturais, um bom guia é realizado por Foucault em As Palavras e as Coisas (1966). Este autor entende que a abordagem do Homem como Ser Empírico (objeto natural) só foi possível na Modernidade (a partir do século XIX), graças à superação de um modelo de conhecimento Clássico, o da Representação, que buscava ordenar os seres em ordens ideais. Neste modelo, vigente nos séculos XVII e XVIII, natureza e natureza humana, sujeito e objeto são claramente cindidos em dois domínios, cumprindo-se o que Latour chama de Constituição Moderna (esforço que se contrapunha às inúmeras misturas e analogias renascentistas). No período clássico, o homem é sempre sujeito, jamais objeto de conhecimento. Somente na Modernidade, quando os seres naturais não forem mais relacionados a uma ordem ideal, mas abordados em sua profundidade empírica e histórica é que o homem será descortinado como Ser Empírico (objeto natural) pelas Ciências do Homem (Biologia, Economia e Filologia). Contudo, este mesmo homem é duplicado de Ser Empírico em Ser Transcendental (sujeito fundamentante) por uma série de filosofias antropológicas como as Dialéticas, o Positivismo e a Fenomenologia. Para Foucault é do cruzamento destas ciências empíricas do homem com as filosofias antropológicas que nasceriam as ciências humanas como a psicologia. Estas ciências humanas terminariam por restituir o jogo de representações pré-modernas e clássicas, ao reduplicar a relação entre estes dois domínios, o transcendental e o empírico, estudando como a vida, o trabalho e a linguagem são representados em uma consciência.

Contudo, algumas questões sobre este esquema de Foucault em As Palavras e as Coisas (1966) se impõem. Em primeiro lugar, será que apenas Economia, Biologia e Filologia forneceriam modelos e conceitos para a psicologia e as Ciências Humanas? O que dizer da Fisiologia, presente em toda a Psicologia Clássica como modelo, a Física, exportadora de conceitos para o Gestaltismo e a Psicanálise e da Inteligência Artificial, base do Cognitivismo? E será que poderíamos afirmar com segurança que só se pensa em uma ciência positiva do Homem a partir do século XIX? Não é o que aponta Fenando Vidal (2000) em seu texto The Eighteenth Century as “Century of Psychology”. O que se demonstra claramente neste trabalho, ao contrário de toda historiografia atual, é que existe todo um conjunto de saberes psicológicos no século XVIIII que são reconhecidos de forma tão legítima como a física de então.

Neste aspecto, o que se dá na virada para o século XIX? Mudam os critérios de conhecimento, ou a própria epsitemè, como diz Foucault (1966), referindo-se a estrutura que rege o saber de uma época. Neste aspecto, processa-se uma transformação capital, operada por autores como Imannuel Kant (1781), em que se passa a distinguir a Ciência da Metafísica, esta entendida como um saber sem fundamento. É aí que são alojados os saberes psicológicos do século XVIII, relegados à mera Metafísica na impossibilidade de serem Ciências legítimas. Durante todo o século XIX, a Psicologia para se fundar e ser aceita no restrito clube das Ciências irá tentar cumprir o novo decálogo do saber, buscando objetividade, embasamento matemático e a determinação de um elemento básico de investigação (conforme as sugestões produzidas por Kant em Fundamentos Metafísicos das Ciências da Natureza, 1876). E esse apoio a Psicologia buscará nos conceitos e métodos das Ciências Naturais (de início na Fisiologia e depois na Biologia, na Química e mesmo na Inteligência Artificial). Contudo, como lembra Foucault (1966) estes conceitos naturais passarão a ter funções transcendentais, operando como fundamento para todo o saber. Nas palavras de Isabelle Stengers (1989), procede-se uma captura conceitual em que os conceitos das ciências naturais são apropriados e retirados do seu contexto operacional, sendo em seguida inflados à categoria de entes transcendentais, que serviriam para embasar o nosso conhecimento de si e as nossas práticas. Esta história específica nos mostra como a psicologia opera com os seus conceitos, como ela duplica conceitos empíricos (extraídos das ciências naturais) em uma função transcendental; metáforas científicas transmutadas agora em imagens fundamentais de homem.

Assim, poderíamos ver os conceitos de energia e equilíbrio, fundamentais na termodinâmica serem transformados na noção de boa-forma no gestaltismo e em princípio do prazer na psicanálise. O primeiro, conduz estes conceitos termodinâmicos a uma visão fundamentante do homem enquanto um ser ativo e passível de compreensão imediata dos fenômenos mundanos. O segundo, a uma concepção desejante do homem embasada nos circuitos energéticos do aparelho psíquico. Da mesma maneira, operaria a psicologia behaviorista, ao ampliar o conceito de adaptação (sobrevivência de uma espécie em meio natural) para o de ajustamento (uma melhor vivência de um indivíduo em seu meio social) coroado pelo de condicionamento, conduzindo a uma visão ambientalista do homem e do próprio pesquisador das condutas humanas. É desta forma ainda que o cognitivismo, ao ampliar o conceito de informação e de importar o conceito de computação, funda o homem em quadrante racionalista, de cunho cartesiano.



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