A medicalização da vida animal: afeto, cuidado e consumo na relação entre humanos e seus animais de estimação



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Considerações finais

Através de uma observação que atenta para os cuidados humanos nos processos de adoecimento, envelhecimento e morte de animais de estimação, é possível identificar o fortalecimento de um modelo de afeto, cuidado e consumo que ocorre desde o início da modernidade e que vem se acentuando nas últimas décadas, especialmente em áreas urbanas.

A completa transformação na relação entre os humanos e aqueles que chamamos animais (não só os que estimamos) foi também identificada por Derrida (2011, p. 50): “esta alteração, de qualquer maneira que se a nomeie ou interprete, ninguém poderá negar que ela se acelera, que ela se intensifica, não sabendo mais para onde ela se dirige, há mais ou menos dois séculos, em uma profundidade e a um ritmo incalculáveis”. Todas estas transformações parecem estar ligadas também à questão geracional enfatizada por Ingold:
cada geração reconstrói sua concepção própria de animalidade como uma deficiência de tudo o que apenas nós, os humanos, supostamente temos, inclusive a linguagem, a razão, o intelecto e a consciência moral. E a cada geração somos lembrados, como se fosse uma grande descoberta, de que os seres humanos também são animais e que a comparação com os outros animais nos proporciona uma compreensão melhor de nós mesmos. (Ingold, 1995, s/p.)
Os dados da pesquisa empírica apontam até agora para uma expansão expressiva nos investimentos da indústria farmacêutica e alimentícia em pesquisas na área da saúde e bem-estar animal e também no consumo dos produtos e serviços destinados a estes animais. O intenso processo de urbanização e as novas configurações de família são fenômenos intrinsecamente ligados a isso, bem como o desenvolvimento de um aparato publicitário que impressiona pela sua capacidade de transformar, de maneira simplista, indivíduos humanos que cuidam de cãezinhos ou gatinhos em pessoas bondosas que fazem o mundo melhor.

De maneira geral, observa-se um estreitamento das relações de afeto entre humanos e seus animais de estimação, verificável não só no aumento do número de animais (especialmente cães e gatos) habitantes de casas e apartamentos no mundo todo, quanto no aprofundamento significativo dos cuidados despendidos a esses animais, cuidados estes que vão desde aspectos ligados à alimentação e beleza quanto à saúde e bem-estar. No caso específico dos cuidados ligados aos processos de adoecimento, envelhecimento e morte destes animais, parece haver um prolongamento dos cuidados destinados aos próprios humanos, já que compartilhamos, afinal, de uma fragilidade e finitude com as quais temos (nós, humanos) muita dificuldade em lidar. Quando passamos a amar incondicionalmente aqueles que, mesmo não sendo da mesma espécie, são tão mortais quanto nós, buscamos mantê-los entre nós tal como o fazemos com os nossos entes queridos humanos.

Encaro a morte aqui a partir da sensível leitura que Elias (2001) faz dela. Ao falar do “problema social da morte”, Elias afirma que não só a morte efetiva representa um problema, mas também a morte gradual, representada pelo envelhecimento e pela doença (Elias, 2001, p.8). Para ele, nas sociedades desenvolvidas esse passa a ser um problema cada vez maior – e mais velado –, pois as pessoas vivas não se identificam com a morte, e tentam afastar para longe essa evidência de nossa animalidade, esse aspecto animal de nossa existência (idem, p. 19). A repugnância em relação aos moribundos trata-se, para Elias, de um problema parcial, um aspecto de um problema geral do processo de civilização.

É possível então, a partir disso, relacionar esse rechaço a um aspecto animal de nossa existência e a ampliação dos cuidados no processo de morte dos animais queridos (que já não queremos mais pensar como animais, e sim humanos como nós) como resultantes dos mesmos fenômenos do processo civilizatório?



Para além dos cuidados na morte, a própria visão de saúde (e doença) animal que vem se estabelecendo nas sociedades contemporâneas parece ligada ao processo civilizatório, e já há indícios suficientes na literatura e nas pesquisas empíricas para nos fazer afirmar que a medicalização da vida, que ocorre em nossa espécie humana, prolonga-se também para as espécies dos animais estimados. Este processo foi identificado por Vlahos (2008):
A prática de prescrever, para animais, medicamentos desenvolvidos para humanos, tem crescido substancialmente ao longo dos últimos 15 anos. As empresas farmacêuticas têm iniciado experimentação com uma estratégia mais direta: vender drogas de modificação comportamental e de estilo de vida especificamente para animais de estimação. [...] À medida que as pessoas estão vendo drogas mais sofisticadas e complexas para si mesmas, elas querem a mesma qualidade para os seus animais de estimação. (Vlahos, 2008, p. 451-3)
Também Segata (2012) vem mostrando esse fenômeno em suas pesquisas:
latir, rosnar, urinar, mostrar as garras foram algumas das vantagens evolucionárias que permitiram que cães e gatos garantissem a sua alimentação ou protegessem o seu território e a sua prole. Mas isso não combina com a decoração da sala de estar de nenhum apartamento, o que faz com que os animais que se comportam dessa forma sejam diagnosticados como “doentes mentais” – agressivos, ansiosos ou depressivos – e medicados com psicotrópicos (...). Igualmente, as suas habilidades de captura de outros animais, devorados em banhos de sangue, foram substituídas pelas tigelas de ração industrializada, com o balanço certo de componentes que fazem produzir fezes sem odor e de consistência apropriada para não sujar o chão. E nem faz muito tempo que cães e gatos de estimação morriam de velhos. Hoje, eles são obesos, sofrem com o colesterol, o diabetes, a pressão alta, os problemas renais e, mais recentemente, com a ansiedade e a depressão. (SEGATA, 2012, p. 177)
De qualquer forma, estes aspectos nos fazem perceber que, contraditórios que somos, essa relação não é apenas de amor incondicional. Envolve também abandono, maus-tratos e a busca por soluções rápidas e práticas para se livrar de um animal quando este nos incomoda. Pode também revelar-se obsessiva e opressora. A ambiguidade que envolve a relação entre humanos e seus animais de estimação está posta, tal qual as ambiguidades que envolvem as relações entre nós próprios, seres humanos.


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