A medicalização da vida animal: afeto, cuidado e consumo na relação entre humanos e seus animais de estimação


Humanos e seus animais de estimação: um campo de afetos, cuidados e consumos



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Humanos e seus animais de estimação: um campo de afetos, cuidados e consumos
A pesquisa de campo vem sendo realizada em dois espaços: em um hospital veterinário na cidade de Curitiba em Paraná/Brasil e na maior feira latino-americana do setor de cuidados para pets, realizada anualmente em São Paulo/Brasil, a partir de observação e entrevistas semi-estruturadas com veterinários e empresários do setor. Além disso, há o acompanhamento sistemático dos lançamentos das indústrias farmacêuticas na área da saúde veterinária e os discursos profissionais a respeito.

A escolha de um recorte no campo que priorize os aspectos de consumo não se dá por acaso: o faturamento com produtos e serviços pet no Brasil foi, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), de R$ 16, 4 bilhões em 2014 – demonstrando o crescimento em relação aos anos anteriores (R$ 14,2 bilhões em 2012; R$ 15,4 bilhões em 2013), a despeito da crise econômica. Ainda segundo a associação, atualmente um cão de grande porte custa em média R$ 315 mensais ao dono, incluindo alimentação, banho, tosa e cuidados médicos. O país é o quarto em população de animal de estimação do mundo e o segundo colocado mundial no mercado pet, movimentando sozinho 7% do setor em todo o mundo. Ao que se pode perceber, este consumo vem acompanhado de algumas questões que se mostraram recorrentes tanto no hospital veterinário quanto na feira para empresários do setor de pet shops, e o que se segue é uma breve reflexão a partir disso:



  1. Há uma ampliação de ofertas e a complexificação de produtos e serviços destinados aos cuidados nos processos de adoecimento, envelhecimento e/ou morte de animais de estimação. Dentre as ofertas, pode-se destacar, por exemplo, florais de bach para cães e gatos – para tratamento de depressão, hiperatividade, latido excessivo, adaptação à chegada de um bebê na família, etc.; suplementos nutricionais de aminoácidos; roupas específicas para animais com deficiências físicas; urnas funerárias para animais de estimação de vários portes. Além disso, há a complexificação que a medicina veterinária vem apresentando nas últimas décadas, apresentando-se hoje como um prolongamento bastante qualificado das especialidades da medicina humana, tais como dermatologia, cardiologia e oncologia. Outras áreas também tem se ocupado da saúde animal, como acupuntura, fisioterapia, odontologia e psicologia, por exemplo. Importante destacar aqui que os relatos obtidos de veterinários enfatizam que não há necessariamente uma ligação direta entre ter dinheiro e cuidar bem do animal: muitas pessoas gastam o que não tem, e outras que têm muito dinheiro optam por não avançar em certos procedimentos sugeridos pelo médico;

  2. Uma preocupação e ritualização cada vez mais intensa quando da morte do animal de estimação. Empresas especializadas no processo funerário e crematório tem se tornado cada vez mais comuns, e oferecem uma variedade de serviços. O processo de luto acentua-se, inclusive com indivíduos humanos que não conseguem superar a tristeza e precisam de ajuda profissional. O corpo do animal morto adquire um significado cada vez maior, recebendo cuidados e carinhos dos responsáveis, que mostram preocupação também com o local onde o corpo ou as cinzas serão depositadas.

Por outro lado, obteve-se relatos de casos em que a presença de animais de estimação aliviou o sofrimento em processos de luto na perda de indivíduos humanos, ou seja, há aí uma via de mão dupla – de provocador a aliviador do luto;

  1. Ocorrência de um discurso que enfatiza a responsabilização dos proprietários em relação aos animais de estimação, ligada a conceitos de bem estar, qualidade de vida e cuidados com a saúde. Campanhas publicitárias enfatizam ideias tais como “proteger é seu primeiro ato de amor”, “quem é amigo cuida assim” e “qualidade que eles merecem”;

  2. Presença constante dos conceitos de moda, beleza, luxo, estilo, que fazem pensar que muitas vezes os produtos e serviços oferecidos no universo pet têm como principal foco o responsável humano, e não necessariamente o “bem-estar animal” – como a ênfase nas raças dos animais, as bolsas de grife para carregar cachorrinhos, joias, tinturas para pelos e “tatuagens”, ou o álbum de recordações do animal. Nesse sentido, parece pertinente propor uma reflexão sobre o fenômeno a partir do uso do conceito de distinção proposto por Pierre Bourdieu (2013, p. 13), para quem “o gosto classifica aquele que procede à classificação: os sujeitos sociais distinguem-se pelas distinções que eles operam entre o belo e o feio, o distinto e o vulgar; por seu intermédio, exprime-se ou traduz-se a posição desses sujeitos nas classificações objetivas”;

  3. Inconstâncias nesta relação entre humanos e animais de estimação: do amor à negligência e até mesmo violência; da busca por caros tratamentos à busca por eutanásia para poder sair de férias sem ter o cachorro para se preocupar; da organização em defesa dos direitos animais à acumulação insalubre, engaiolando gatos e cachorros; da relação de afeto que reanima o humano depressivo ao afeto que fragiliza as relações entre humanos de um mesmo núcleo familiar, tamanha é a obsessão pelo animal;

  4. Papel de agente socializador destes animais de estimação, algo como condutores de uma sociabilidade entre humanos que se dá a partir dos animais: quando moradores de um mesmo condomínio se reúnem para levar seus cães para passeios e brincadeiras nas áreas externas, ou os responsáveis pelos animais estendem sua permanência em pet shops e clínicas veterinárias para conversas (estes relatos foram bastante comuns nas entrevistas).



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