A medicalização da vida animal: afeto, cuidado e consumo na relação entre humanos e seus animais de estimação


A sociologia e a relação humanos e não-humanos: possíveis frentes teóricas



Baixar 39,66 Kb.
Página3/6
Encontro04.03.2018
Tamanho39,66 Kb.
1   2   3   4   5   6
A sociologia e a relação humanos e não-humanos: possíveis frentes teóricas
Em trabalho anterior (Gaedtke, 2014), compilei um conjunto de justificativas que enfatizam a importância de que a sociologia dê mais atenção à relação entre humanos e não-humanos. Ainda que tenhamos avançado neste aspecto, ainda há certa resistência desta ciência em incorporar outras espécies em suas discussões. No entanto, há uma série de frentes teóricas já consagradas que se permitem abertura a este objeto. Neste trabalho, fizemos a escolha de aproximar as noções de ecologia de Tim Ingold e a de interdependência de Norbert Elias a fim de embasar teoricamente as discussões advindas da pesquisa empírica, ainda em andamento. Ambos os autores rechaçam os limites disciplinares que aprisionam os objetos de pesquisa, por isso a tranquilidade em buscar articular a proposta de um antropólogo que dialoga com a biologia, a arqueologia e a primatologia com a de um sociólogo que vincula seus trabalhos à história e à psicanálise. Ao lidar com algo tão vasto como a relação de indivíduos humanos com seus animais de estimação, qualquer tentativa de um recorte disciplinar se mostraria esterilizante.

Tim Ingold tem inovado a antropologia em específico e as ciências humanas como um todo, ao defender que a pesquisa social precisa levar em consideração todas as espécies envolvidas no fenômeno – e não só a humana. Ingold trabalha a partir da ideia de organismo-ambiente, como algo inseparável e constitutivo um do outro, rompendo com a dicotomia entre cultura e natureza.

Nas últimas décadas, os trabalhos de Tim Ingold trouxeram um aprofundamento nas discussões sobre domesticação no interior das ciências sociais, a partir de um diálogo interdisciplinar. Segundo Sautchuk e Stoeckli (2012, p. 231), a noção de domesticação aparece em Ingold como ferramenta de comunicação com a ecologia, e expõe a defesa de que o animal seja compreendido não como mero objeto ou insumo natural a ser apropriado pelo homem, mas sim como um ser dotado de volição, de intenção e subjetividade, em constante movimento e engajamento com o meio e com os humanos. Ingold propõe que tratemos os animais como sujeitos nas relações sociais tanto quanto os humanos, ainda que seja preciso lembrar que, desta relação que é uma via de mão dupla, temos apenas o registro das perspectivas dos humanos (Ingold, 2000). Para Sautchuk e Stoeckli,
o autor de maneira primordial ataca certa visão que retrata os seres humanos como seres capazes de impor concepções simbolicamente construídas a um mundo exterior (world out there), tratado como material bruto a ser moldado pela cultura e pelo intento consciente da humanidade. Rever a noção de domesticação torna-se, assim, uma forma de crítica da modernidade, justamente porque a distinção humano/animal caracteriza-se como um aspecto gerado por este pensamento. (Sautchuk e Stoeckli, 2012, p. 241)
Ingold busca deliberadamente romper com duas premissas ligadas à noção de domesticação: a distinção entre humanos e animais, e posteriormente em suas obras, com a ideia de que a vida está no organismo em si – numa perspectiva cada vez mais ecológica, o antropólogo atenta para o caráter difuso da vida, enquanto relação organismo-ambiente. Neste caso, a vida é a relação, e não um organismo isolado de seu ambiente.

Para Ingold (2000), há na ideia de domesticação uma separação implícita entre natureza e sociedade que não é encontrável em sociedades não industriais. O advento das instituições e da ordem social que narram uma transição do selvagem ao civilizado coloca a humanidade um degrau acima do estado natural, legitimando a domesticação enquanto imposição humana aos outros animais e ao meio.

Em outro texto (Ingold, 2012), temos uma defesa do autor de que observemos coisas, ao invés de objetos. Em sua crítica à teoria do ator-rede, Ingold irá enfatizar que habitar o mundo é se juntar ao processo de formação. Sob a influência de Heidegger, Deleuze e Guattari, há a defesa de que a coisa existe em sua coisificação:
O pássaro é o seu voar; o peixe, o seu nadar. O pássaro pode voar graças às correntes e vórtices que ele introduz no ar, e o peixe pode nadar velozmente devido aos turbilhonamentos que ele causa com o movimento de suas nadadeiras e cauda. Cortados dessas correntes, eles estariam mortos. (Ingold, 2012, p. 33)
Para se pensar o que representam hoje os animais de estimação nas sociedades humanas, a essa concepção ecológica da relação entre humanos e não-humanos de Ingold vinculo a noção de interdependência de Norbert Elias. Ainda que não trate especificamente desta relação, Elias apresenta um conjunto de teorias bastante permeável por novas discussões sociológicas, afinal, como nos lembra Landini (2006), “Elias não nos convida a repetir seus achados, mas a pesquisar outras figurações e processos”, nos convida a pensar com e a partir dele.

A contribuição de Elias para pensar a relação entre humanos e animais de estimação parece estar principalmente na atenção dada ao autor aos costumes, ao afeto e a profunda interdependência que permeia as relações sociais. Para ele, as pessoas, “através das suas disposições e inclinações básicas, são orientadas umas para as outras e unidas umas às outras das mais diversas maneiras. Estas pessoas constituem teias de interdependência ou configurações de muitos tipos” (Elias, 2005, p.15).

Nossa proposta é que é possível prolongar a análise dessas teias de interdependência para além da espécie humana, afinal, como o próprio autor coloca, uma das formas pela qual se dá a interdependência é através das ligações afetivas, que ocorrem pois somos indivíduos abertos, com valências emocionais orientadas para os outros (Elias, 2005, p. 148). Já que os animais de estimação têm sido considerados, em muitos contextos, parte integrante da sociedade como indivíduos de direitos e partícipes de uma complexa rede de afetos, consumos e cuidados, parece razoável que sejam levados em consideração na pesquisa sociológica.

Sendo o estreitamento nas relações de afeto com animais de estimação um fenômeno que percorre toda a sociedade contemporânea ocidental, e não uma característica de um único indivíduo, voltamos a encontrar elementos na teoria eliasiana – afinal, para este autor, as emoções de um indivíduo não podem ser encaradas como algo totalmente individual:


Torna-se [...] impossível tratar adequadamente os problemas das ligações sociais das pessoas, especialmente as suas ligações emocionais, se apenas considerarmos interdependências relativamente interpessoais. Podemos obter uma visão mais completa da teoria sociológica se incluirmos as interdependências pessoais e sobretudo as ligações emocionais entre as pessoas, considerando-as como agente unificadores de toda a sociedade (Elias, 2005, p. 150).
Além disso, há outros motivos pra ver em Elias uma base teórica pertinente ao estudo deste objeto: dentre as várias dicotomias questionadas pelo autor, está a que trata de naturalismo/antinaturalismo. Para este autor, os seres humanos e suas sociedades fazem parte da natureza, e a pesquisa sociológica precisa considerar este aspecto. O resgate da animalidade humana, da interdependência das sociedades humanas com o ambiente em que estão inseridas surge ao longo de sua obra (com destaque para Elias, 1994). Na introdução à edição de 1968 de O Processo Civilizador, Elias enfatiza que a visão geocêntrica do mundo já não é mais dominante, mas ainda está presente na experiência humana, na forma como as pessoas se colocam no centro dos assuntos:
A visão geocêntrica do mundo é a expressão desse egocentrismo espontâneo e irrefletido do homem e ainda é inequivocamente encontrada nas ideias de pessoas situadas fora do reino da natureza, como, por exemplo, os modos sociológicos de pensamento centrados na nação ou no indivíduo isolado (Elias, 1994, p. 243).
Aliado a isso, Elias nos propõe um olhar inventivo aos microfenômenos, realinhando as perspectivas micro e macrossociológicas, e o uso de modelos de abordagens que levem em consideração fenômenos de longa duração.

: acta -> 2015 -> GT-14
2015 -> Migrantes Libaneses Drusos: entre rupturas e continuidades
2015 -> MigraçÃO, trabalho e seletividade no estado do ceará1
2015 -> MigraçÃO, trabalho e seletividade no estado do ceará
2015 -> Universidad Latinoamericana: interpelaciones y desafíos
2015 -> Bullying enquanto elemento socializador juvenil1 Jamile Guimarães
2015 -> Regulando feminilidades: a construçÃo da identidade de gênero no processo de socializaçÃo juvenil jamile Guimarães
2015 -> António Pedro Barbosa Cardoso brasil doutorando capes/pecpg da pucrs
2015 -> Cristianismo de Liberación en tiempos de la dictadura militar en Brasil: una experiencia del progresismo católico en Pernambuco rural y su relación con los movimientos de América Latina
GT-14 -> Investigando açÕes que estimulem o desenvolvimento da resiliência comunitária em áreas de risco sócio ambiental rubenilda Mª Rosinha Barbosa1/Brasil Universidade Federal de Pernambuco Resumo
GT-14 -> A influência da estrutura das redes sociais na governança ambiental


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6


©psicod.org 2017
enviar mensagem

    Página principal