A ludicidade desenvolvendo habilidades nas crianças



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A ludicidade desenvolvendo habilidades nas crianças

Eva Cristina Gonçalves Torres

Bolsista do PROLICEN do Projeto Brinquedoteca: Brincar para aprender

Professora Coordenadora: Santuza Mônica de França P. da Fonseca

CE/DHP
Analisando a infância e as crianças numa perspectiva histórica, Soares (2001) afirma que o desenvolvimento com as especificidades do ser criança não ocorreu de forma contínua e linear, porque houve progressos, retrocessos e a mescla destes ao longo do tempo. Cada período histórico possui uma concepção diferenciada, os fatores sociais, familiares, econômicos, culturais é que irão determinar essas mudanças.

Soares cita vários autores, como Airés que diz que a Idade Média era o período em que historicamente a criança era encarada como “qualquer coisa” sem importância e que, caso conseguisse sobreviver aos primeiros anos de vida, passava a ser vista como um homúnculo, ou seja, um adulto em miniatura.

Com o passar dos tempos a sociedade modifica-se e os sentimentos começam a aflorar. Airés (apud SOARES, 2001) defende a existência de dois períodos: o do mimo e o moralista. O período do mimo no séc. XVI, caracteriza-se pelo carinho, zelo, cuidado e sentimentos de ternura entre adultos e crianças. Já o período moralista nos séculos XVII e XVIII, representa uma reação negativa ao período do mimo, uma vez que as crianças precisavam ser moldadas, treinadas e disciplinadas para se tornarem adultas.

O séc. XIX caracteriza-se por uma trilogia:da pedagogia, da moral e do amor, e no séc. XX começam alguns questionamentos. Outro autor, Pollock (apud SOARES, 2001) faz críticas a Airés pelo fato do mesmo não se referir aos cuidados com as crianças e pela visão dourada da Idade Média e defende que mimo e moralização ficam imbricados.

Já DeMause (apud SOARES, 2001), atribui essas mudanças históricas devido às ansiedades e problemas psicológicos nas interações com os filhos, onde menciona causas como infanticídio, abandono, ambivalência do séc. XIV até o séc. XVII, socialização no séc. XIX e meados do séc. XX. Estabelece cinco procedimentos que serão sistematizados em três possíveis atitudes do adulto para com a criança: atitude de projeção, reversão e regressão, o que pode vir a ter um caráter tanto positivo como negativo.

Sendo assim, é possível verificar que as concepções tanto das crianças como da infância apresentada pelos autores são diferenciadas,que vão e voltam além de se misturarem ao longo do tempo por conta dos fatores sociais, culturais e principalmente econômico, assim não podendo assumir um caráter linear. E ainda podemos afirmar que todas essas concepções estão presentes nos dias atuais.

O grande foco da expansão da Educação Infantil no Brasil foi com o surgimento da indústria e a urbanização que levaram a participação da mulher no mercado de trabalho, além de sabermos que a sociedade estava mais consciente da importância das crianças.

O reconhecimento da Educação Infantil se deu primeiramente com a Constituição Federal de 1988 em seu artigo 208; em seguida o Estatuto da Criança e do Adolescente em 1990; a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96, as quais estabelecem direito às crianças, inclusive a educação.

De acordo com a LDBEN 9394/96,em seu título IV art. 11 enfatiza que:
É considerado que é dever dos municípios oferecer a educação infantil em creches e pré-escolas e, com prioridade, o ensino fundamental permitido a atuação em outros níveis de ensino somente quando estiverem atendidas plenamente as necessidades de sua área de competência e com recursos acima dos percentuais mínimos vinculados pela Constituição Federal à manutenção e o desenvolvimento do ensino (BRASIL, 2010, p.15).
Com isso a União apenas estabelece um regime de colaboração com os estados, distrito federal e municípios.

A criança é um sujeito social e histórico e faz parte de uma organização familiar que está inserida em uma sociedade com uma determinada cultura e momento histórico. A família é o ponto de referência da criança que se constrói e se reconstrói com o meio social, devemos ainda, salientar que nos dias atuais as configurações de uma família são diferenciadas das do passado, não é apenas aquela constelação tradicional.

No processo de construção do conhecimento as crianças utilizam as mais diferentes linguagens e constroem seus conhecimentos a partir de interações que estabelecem com as outras pessoas e com o meio em que vivem. Esse conhecimento construído pelas crianças é fruto de um intenso trabalho de criação, significação e ressignificação.

O profissional da educação deve apropriar-se de diversos documentos para que possam utilizar como norte no processo de ensino aprendizagem das crianças, entre eles o Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil RCNEI (1998) é um documento constituído num conjunto de orientações pedagógicas com o objetivo de contribuir com a implementação e implantação de práticas educativas para o pleno exercício de cidadania das crianças.

Considerando as especificidades afetivas, emocionais, sociais e cognitivas das crianças de zero a seis anos para o exercício da cidadania é embasado alguns princípios para a sua formação que se enquadra no respeito à dignidade e aos direitos da criança considerando suas diferenças individuais, sociais, econômicas, culturais, étnicas, religiosas; o direito das crianças de brincar; o acesso das crianças aos bens socioculturais disponíveis ampliando sua capacidade de comunicação, expressão, pensamento, interação; a socialização da criança nas mais diversas práticas sociais sem discriminação, viver apenas experiências prazerosas nas instituições, atendimento aos cuidados especiais associados a sobrevivência e ao desenvolvimento de sua identidade.

Segundo o documento RCNEI (1998) o grande desafio dos profissionais dessa etapa de educação é compreender, conhecer e reconhecer o jeito particular das crianças de serem e estarem no mundo. Sua intervenção é necessária para que as crianças possam, em situações sociais ou sozinhas, ampliar suas capacidades de apropriação dos conceitos, dos códigos sociais e das diferentes linguagens, por meio da expressão e comunicação de sentimentos e ideias, da experimentação, da reflexão da elaboração de perguntas entre outras.

Para que ocorram as aprendizagens infantis é preciso que o professor considere a interação com crianças da mesma idade e com diversas, os conhecimentos prévios das mesmas, a individualidade e a diversidade, o grau de desafio das atividades e os fatos que devem ser significativos, a resolução de problemas como forma de aprendizagem.

Neste sentido, a ludicidade possibilita às crianças o desenvolvimento da percepção, da criatividade e principalmente das emoções, que para Wallon (apud SANTOS, 2003, p. 30-32), tem papel preponderante no desenvolvimento do indivíduo. Sua teoria pedagógica está baseada em quatro elementos que estão imbricados: a afetividade, o movimento, a inteligência e a formação do eu como pessoa. A proposta de Wallon está inserida em uma cultura mais humanizada, pois considera o indivíduo como um todo, ressaltando a importância do educar, cuidar e brincar de forma indissociável.

A teoria das Inteligências Múltiplas de Gardner (1997) forma um conjunto das habilidades humanas. Ele fala que possuímos os mais variados potenciais e que temos capacidade de desenvolver todas as inteligências, considerando a carga genética e o meio no qual estamos inseridos. Em entrevista concedida à Revista Nova Escola em 1997, Gardner defende que o ser humano é dotado de sete diferentes capacidades e estuda mais duas.

As sete inteligências defendidas pelo psicólogo podem ser estimuladas a partir dos brinquedos, dos jogos, das brincadeiras, como por exemplo, num jogo de tabuleiro, pois este consegue imbricar todas as inteligências: a lógico-matemática que está diretamente ligada à capacidade de realizar operações matemáticas; a linguística, que possui capacidade de se expressar pelo código da linguagem verbal, a qual se utiliza da palavra escrita ou falada; a espacial, que utilizamos para nos orientar, direcionar; a corporal-cenestésica, que é a capacidade de expressar-se através dos movimentos corporais e da agilidade de manipular objetos; a interpessoal, que é a capacidade de relacionar-se bem com as outras pessoas; a intrapessoal, ou seja, a capacidade de administrar seus próprios sentimentos; e, por fim, a musical, que é a capacidade de expressar-se por meio dos sons.

Na teoria de Ausubel observamos que o fator isolado mais importante que vem influenciar a aprendizagem é aquilo que o aluno já sabe.

Se eu tivesse que reduzir toda a psicologia educacional a um único princípio, diria isto: o fato isolado mais importante que informação na aprendizagem é aquilo que o aprendiz já conhece. Descubra o que ele sabe e baseie isso os seus ensinamentos. (AUSUBEL, 1968, p.31).
Para Ausubel o conceito mais importante é o de aprendizagem significativa. Aprendizagem significativa é um processo pelo qual a nova informação interage com uma estrutura de conhecimento específica na estrutura cognitiva do indivíduo.

Dessa forma, podemos verificar que todo ser humano é diferente, que cada um tem seu próprio tempo, cada um aprende de uma maneira particular e que tudo vai depender do modo que se aprende, do ambiente em que se vive e das pessoas com as quais se relaciona.

Não podemos tratar todos da mesma forma, não podemos generalizar, devemos observar as crianças para ver onde elas mais se destacam e onde elas mais sentem dificuldades. Devemos, ainda, estar a par de como é a vida dessas crianças em suas respectivas residências e como é o relacionamento das famílias com elas, para que assim possamos compreender e ajudar da melhor forma possível. Essas observações são bastante propícias nos momentos das brincadeiras, dos jogos. Não podemos fazer comparações, devemos ser cautelosos e precisamos ser pacientes e amorosos.

As histórias e os brinquedos fazem parte do mundo infantil, porém o desenvolvimento contemporâneo tem causado um impacto muito grande na vida das crianças, devido à industrialização dos brinquedos e ao poderio econômico alimentado pelo consumismo. Sendo assim, onde vão parar as bonecas de pano, as bolas de meias, os carros feitos com latas, com garrafas de plástico, com carretéis de linha, os animais feitos com frutas e palitos, pular corda, empinar pipa, bola de gude, adedonha, esconde-esconde, boca de forno, academia, cantigas de roda, peteca, corridas de saco, dança das cadeiras, pião, resta um, dama, xadrez, tabuleiro, baralho, dominó, entre outras brincadeiras? Estão perdendo espaço para os brinquedos feitos em massa e para os jogos eletrônicos com cada vez mais tecnologia.

Com embasamento nas teorias de Ausubel (1968), Gardner (1997), Wallon (apud SANTOS, 2003) e de outros tantos teóricos, com reflexões acerca de nossa realidade contemporânea, é que estamos desenvolvendo um trabalho de grande importância na Brinquedoteca do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba, através do projeto Brinquedoteca: brincar para aprender, com as crianças filhos/as dos/as alunos/as do turno noturno, de maneira que estimulamos as várias habilidades das crianças que representam um público misto na brinquedoteca, pois a faixa etária é variada entre dois e onze anos, como também respeitamos suas especificidades, através dos jogos, das brincadeiras e da música. Vale salientar que jogo no sentido de divertimento, de brincadeira, visando aprendizagens e não de competição, conforme escreveu Antunes (2003, p.13):

Importante não é apenas conhecer jogos e aplicá-los, mas essencialmente refletir sobre suas regras e, ao explicitá-las, delas fazer ferramenta de afeto, instrumento de ternura, processo de realização do eu pela efetiva descoberta do outro. Um verdadeiro educador não entende as regras de um jogo apenas como elementos que o tornam possível, mas como verdadeira lição de ética e moral que, se bem trabalhadas, ensinarão a viver, transformarão e, portanto, efetivamente educarão.


Para que esse desenvolvimento seja significativo, os educadores devem se esforçar para trabalhar o educar, o cuidar e o brincar de forma indissociável no cotidiano das crianças, considerando e respeitando as especificidades afetivas, emocionais, sociais e cognitivas de cada uma delas.



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