A inculturaçÃo do carisma salesiano p. Tarcísio Scaramussa Introdução: inculturaçÃO caminho de mão dupla



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A INCULTURAÇÃO DO CARISMA SALESIANO

P. Tarcísio Scaramussa



Introdução: INCULTURAÇÃO - caminho de mão dupla

"Com os judeus, comportei-me como judeu, a fim de ganhar os judeus... Com os fracos, tornei-me fraco, a fim de ganhar os fracos. Tornei-me tudo para todos, a fim de salvar alguns a qualquer custo. Tudo isso eu o faço por causa do Evangelho, para me tornar participante dele". (1 Cor 9, 20s)

Todo mundo está vendo a aproximação do "novo milênio" e dos "500 anos" como unia grande oportunidade, segundo seus próprios interesses. Ao lado da publicidade em vista do consumo, acontece também um rico debate de significados profundos desse momento histórico. Eles revelam mudanças culturais que estão gestando nova sociedade, e que repercutem no campo da educação e da evangelização.

Vejamos um exemplo: até há pouco tempo o 13 de maio era uma data histórica que lembrava a lei áurea da princesa Isabel, que decretava o fim da escravidão negra no Brasil. lima comemoração típica dos brancos que escravizavam e que querem continuar sendo heróis quando consciência social repudia a escravidão. Para os negros, porém, este dia passou a ser de protesto pelo racismo, A nova consciência negra escolheu o 20 de novembro, que lembra a morte de Zumbi, herói líder da resistência nos quilombos. A nova data revela o outro lado da medalha, e reconhece o direito do negro de ser sujeito e de escrever sua versão da história.

A carta de Pero Vaz de Caminha descreve a chegada dos portugueses ao Brasil e os primeiros contatos com os indígenas. Impressiona a acolhida alegre e festiva por parte dos nativos, e a arrogância dos estrangeiros. A língua diferente, e mais do que a língua, as linguagens culturais diversas, impediram comunicação mais profunda. Antes de conhecê-los em suas diferenças, os portugueses já haviam concluído a respeito de sua "ignorância" e "barbárie" a ser amansada. Não conseguiam vê-los como sujeitos, mas apenas como objeto e propriedade sua, da qual poderiam dispor de acordo com suas decisões. Afinal, já haviam determinado que esta terra e tudo o que nela havia era propriedade de sua majestade.

Não é de se estranhar neste contexto que a primeira evangelização, vinda na mesma expedição, se fizesse dentro de compreensão, métodos e expressões correspondentes. Necessariamente encarnada e histórica, a evangelização se veste com o tecido da época.

O que se deve estranhar é a persistência dessa compreensão em plena virada de milênio. Seus reflexos se manifestam no campo da educação e da evangelização com posturas e práticas de mão única. Monopólio do saber e do processo de conhecimento e das decisões, resistindo ao protagonismo do educando. Redução globalizadora das culturas, pela imposição do mimetismo consumista. No processo de evangelização da Igreja se repete na resistência à participação, especialmente dos leigos, na homogeneização da liturgia, nos métodos catequéticos de pura repetição, no desprezo pela religiosidade do outro, do diferente.

A mudança de tempo se manifesta em nova compreensão, nova evangelização, das quais um dos princípios é o da inculturação. E um termo novo para indicar "o processo de penetração do Evangelho no quotidiano de um povo, de tal forma que ele possa expressar sua experiência de fé em sua própria cultura" (CNBB, doc. 61, n. 88). Coerente com este princípio cumpre reconhecer os novos sujeitos da evangelização, e os novos protagonistas. O paradigma agora é a da estrada de mão dupla, e o monólogo dá lugar ao diálogo. E uma coisa bonita, uni novo nascimento. Mas exige desprendimento, despojamento, partilha do poder.

A missão e o espírito salesiano de Dom Bosco, seu carisma, fazem parte da evangelização da igreja. Por isso se fala hoje da inculturação do carisma salesiano. Presente em diferentes nações e culturas, o mesmo carisma vai tomando formas, vestes e cores variadas, moldando-se através do diálogo intercultural. Esse processo é favorecido pelo próprio espírito de simplicidade, acolhida e aproximação característico de Dom Bosco: "o professor visto apenas na cátedra é professor e nada mais, mas se está no recreio cone os jovens, torna-se irmão". Principio que faz os salesianos serem "intimamente solidários com o mundo e com sua história. Abertos às culturas dos países cm que trabalham, procuram compreendê-las e acolher seus valores para encarnar nelas a mensagem evangélica. As necessidades dos jovens e dos ambientes populares, a vontade de agir com a Igreja e em seu nome movem e orientam sua ação pastoral para o advento de um mundo mais justo e mais fraterno em Cristo" (Constituições 7).

Nova consciência, novas formas, novas expressões. Nascer e renascer. Não é um desafio que vale a pena? Já saturado desses "500 anos", porque não descobrir esta nova terra?

Ao aprofundarmos o estudo do tema inculturação, temos consciência de que vamos refletir sobre um processo que já está acontecendo. Está acontecendo no voltar-se para os jovens pobres, no protagonismo juvenil, na comunhão e partilha do carisma com os leigos, no projeto educativo-pastoral, na vivência da comunidade educativo-pastoral, na integração das dimensões pedagógico e pastoral, no diálogo inter-religioso, na acolhida e valorização da cultura afro-americana, na melhoria da comunicação...

Seguiremos os seguintes passos no estudo:

- Aprofundar os significados do termo e cio processo de inculturação

- Delimitar o campo específico da ação salesiana: juventude, educação-cultura, comunicação social

- Fundamentar a escolha de conteúdo e método no processo de inculturação

- Indicar alguns elementos da inculturação do carisma salesiano





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