A implementaçÃo do programa bolsa familia no nível local: a experiência do município de divinópolis/MG


Pesquisar em saúde coletiva e saúde mental



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Pesquisar em saúde coletiva e saúde mental
Desde a implantação do SUS há mais de 25 anos, o campo da saúde pública no Brasil tem vivido inúmeras transformações. Orientado por princípios e diretrizes tais como a universalidade, equidade, integralidade, descentralização, participação popular e a organização da rede de serviços de modo regionalizado e hierarquizado, o SUS, ao longo desse percurso de consolidação, vem alcançando grandes conquistas e enfrentando inúmeros problemas no que diz respeito à mudança das práticas de saúde e dos modos de organização e gestão dos serviços, problemas que desafiam gestores, trabalhadores, acadêmicos e a população de uma forma geral. Com base em autores do campo, Lima (2009) aponta outros aspectos de difícil enfrentamento: os limites da formação para abarcar as diversidades que compõem o SUS e “a pouca potência para transformar os modelos hegemônicos, muito mais vinculados a interesses outros – como os das corporações profissionais, da indústria de equipamentos médicos e farmacêuticos – do que às necessidades dos usuários” (p. 790).

Nessa direção, tem-se buscado propor novas questões que confrontem as formulações já estabelecidas e as tendências alinhadas ao ideário neoliberal, revigorando a dimensão reflexiva, crítica e propositiva do projeto político e social da Reforma Sanitária. Conh (2009), preocupada com o enfraquecimento dessa dimensão nos últimos anos, alerta para o fato de estarmos sendo aplacados pela dimensão eminentemente técnica de gerência dos serviços e deixando de lado a dimensão política, social e civil de conquista da democracia, de fortalecimento coletivo e de pensar a saúde como questão social.

Outros questionamentos estão atualmente sendo agregados por parte de um coletivo que compreende que “O SUS, como aposta ético-política, é um instrumento de luta, no campo da saúde, em relação às formas de autoritarismo e às práticas de captura da vida no capitalismo contemporâneo” (Pasche, Passos & Barros, 2009, p. 491). Trata-se da Política Nacional de Humanização/PNH, que de forma transversalizada, visa ao desenvolvimento da corresponsabilidade e qualificação dos vínculos interprofissionais e destes com os usuários na produção de saúde. Um dos aspectos mais destacados na PNH é que para operar tais transformações nos modos de cuidar e gerir, o SUS demanda mutações subjetivas e outros modos de ser trabalhador. Além disso, pede uma formação contextualizada, um conhecimento interdisciplinar e a produção de práticas multiprofissionais voltadas às necessidades da população usuária. Requer ainda a necessidade de estarmos alertas aos especialismos, às naturalizações e dicotomias entre formação e atuação e um esforço permanente de ruptura com a lógica que persegue verdades inquestionáveis, modelos padronizados e estereotipados.

Dessa maneira, algumas formulações têm buscado recolocar os problemas no âmbito do SUS, qualificando-os em uma complexa teia de determinação que envolve elementos macro e micropolíticos, na perspectiva de pensar saúde como produção de subjetividade. Há um compromisso de afastar-se de uma racionalidade científica, de uma visão tecnocrática de integralidade predominante na saúde centrada na mera articulação entre os serviços e os diferentes níveis de atenção e voltar-se para uma dimensão mais ampliada que incorpora a complexidade subjetiva dos atores envolvidos. Além disso, de resistir aos modelos de atenção reducionistas, centrados na doença e em políticas públicas articuladas por programas que a priori excluem a complexidade da saúde, das relações sociais e a pluralidade dialógica do campo.

A proposta de reordenação dessa lógica de trabalho e de organização da assistência em saúde é a que também orienta os processos de transformação da assistência psiquiátrica em curso no País. O campo da saúde mental e o processo de reforma psiquiátrica têm sido focos de nossas investigações e militância nos últimos anos. Nossas pesquisas estão ancoradas na base teórico-metodológica já explicitada, buscando não só dar visibilidade a um conjunto de forças que buscam reduzir a experiência da loucura a uma patologia ou doença mental, analisando discursos, práticas e instituições que operam no sentido do seu controle, tutela, normatização e medicalização, mas também fomentando a invenção de novos saberes e dispositivos em direção à desinstitucionalização da cultura manicomial, que vai muito além do âmbito restrito de serviços e práticas profissionais e diz respeito aos modos de vida tecidos no cotidiano. Desse modo, as lutas que travamos como coletivo de trabalho ocorrem em diferentes planos, na concretude do presente, na materialidade dos discursos e práticas que forjam verdades amplamente divulgadas e consumidas e que atualmente estão cada vez mais interessados na chamada “normalidade”.

Portanto, produzir saúde mental e saúde coletiva exige mudanças nos processos de subjetivação, pois os princípios do SUS só se encarnam na experiência concreta de sujeitos concretos que se transformam em sintonia com a transformação das próprias práticas de saúde e dos seus modos de existir. Consequentemente, exige, do ponto de vista acadêmico, formas diferenciadas de pesquisar e produzir interferência no modo cotidiano de fazer saúde nos mais diferentes contextos. É sobre esse território específico de pesquisa e intervenção que trataremos a seguir.



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