A gênese das psicoses Aula 6



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Paranoia e psicanálise
Na estrutura clínica psicanalítica, a paranoia é ainda concebida como um dos três quadros nosográficos próprios à estrutura psicótica, juntamente com a esquizofrenia e a melancolia (ou psicose maníaco-depressiva). Sua caracterização atual não é muito distinta daquela que encontramos em Freud. Desde 1895, Freud compreendia a paranoia como um “modo patológico de defesa” que se servia de mecanismos como o delírio12 e uma forte tendência à projeção de representações inconciliáveis com a coerência ideal do Eu. Freud fala de: “um abuso do mecanismo de projeção para fins defensivos”13 na paranoia. Esta noção da formação patológica como mecanismo de defesa é enunciada de forma clara em um texto de 1924:
A etiologia comum para o início de uma psiconeurose ou psicose permanece sendo o impedimento, a não realização de algum daqueles eternamente indomáveis desejos de infância, enraizados profundamente em nossa organização filogeneticamente determinada14.
À ocasião de seu texto paradigmático relativo ao caso Schreber, tais mecanismos de defesa encontrarão seu fundamento em uma desesperada reação contra um certo impulso homossexual impossível, por razões estruturais, de ser vivenciado como tal pelo sujeito. Isto demonstrava como Freud estava muito mais interessado em uma determinação causal específica do que em uma pretensa descrição diferencial dos sintomas paranoicos.

Por trás desta temática aparentemente muito redutora ligada à defesa contra a homossexualidade (que, no limite, nos obrigaria a tese incorreta do ponto de vista da fenomenologia clínica referente à impossibilidade de alguém ser, ao mesmo tempo, paranóico e homossexual explícito) há, no entanto, o que poderíamos chamar de uma intuição psicanalítica fundamental a respeito das psicoses. Ela se refere à impossibilidade de alguma forma de mediação simbólica das identificações e da alteridade devido à fixação em um estado de desenvolvimento e de maturação que Freud chamava de “narcísico”. Freud compreende que a libido passa por estágios de maturação, como o autoerotismo, o narcisismo e a escolha objetal. Partilhando a concepção de doença mental como regressão, que vimos em Kraepelin, Freud associará a paranoia a uma fixação na fase narcísica. Assim, ele dirá:


Na paranoia a libido liberada se volta para o Eu, é utilizada para o engrandecimento do Eu. Com isso atinge-se novamente o estágio do narcisismo, conhecido no desenvolvimento da libido, no qual o próprio Eu era o único objeto sexual. Por causa desse testemunho clínico supomos que os paranoicos trazem uma fixação no narcisismo, e dizemos que o recuo da homossexualidade sublimada ao narcisismo indica o montante da regressão característica da paranoia15.
Há duas ideias fundamentais aqui. Primeiro, no narcisismo o próprio Eu é o objeto de investimento libidinal. Posteriormente, Freud distinguirá narcisismo primário e secundário para descrever um estágio no qual o Eu retoma e internaliza investimentos anteriores de objeto, o que provoca uma modificação na própria estrutura do Eu, já que ele absorve no seu interior, sob a forma de identificações, antigos investimentos de objeto. Segue-se daí uma perda de investimento libidinal na realidade responsável pela produção de uma “perturbação nas relações entre Eu e mundo exterior”16. Freud chega a falar que o Eu cria autonomamente para si um novo mundo exterior e interior. Ele fornece um exemplo didático, presente em um texto a respeito da diferença entre neurose e psicose no que se refere à perda da realidade:
Quero voltar, por exemplo, a um caso analisado há muitos anos, no qual a moça, apaixonada por seu cunhado, fica abalada com a seguinte ideia no leito de morte da irmã: ‘agora ele está livre e pode se casar com você’. Essa cena é imediatamente esquecida e, com isso, é acionado o processo de regressão que leva aos sofrimentos histéricos. Mas, nesse caso, é justamente instrutivo observar por qual caminho a neurose procura resolver o conflito. A neurose desvaloriza a alteração real, na medida em que recalca a exigência pulsional em questão, isto é, o amor pelo cunhado. A reação psicótica teria sido recusar a realidade do fato da morte da irmã17.
Segundo ponto importante, haveria algo de narcisismo sublimado na homossexualidade, o que permitiria um retorno no qual o homossexualismo se associa a uma confusão narcísica entre eu e outro.

Assim, devido a tal fixação, todo reconhecimento de si em um outro aparece como anulação catastrófica dos regimes de identidade que, até então, sustentavam uma certa estabilidade pré-psicótica. O problema da defesa contra o homossexualismo é, no fundo, modo freudiano de dizer que, na psicose paranoica, todo reconhecimento de si em um outro é vivenciado de maneira ameaçadora e muito invasiva, o que coloca uma personalidade formada a partir da internalização de identificações em rota contínua de colapso. A este respeito, podemos lembrar como, no caso Schreber, a produção delirante transformou-se em modo de estabilização para tal conflito psíquico. Haja vista um delírio como:


“Quando falo de cultivo da volúpia, que se tornou como que um dever para mim, não quero dizer jamais um desejo sexual por outras pessoas (mulheres) ou um contato sexual com elas, mas sim que represento a mim mesmo como homem e mulher numa só pessoa, consumando o coito comigo mesmo, realizando comigo mesmo certas ações que visam a excitação sexual, ações que de outra forma seriam consideradas indecorosas, e das quais se deve excluir qualquer ideia de onanismo ou coisas do gênero”18
Notemos ainda como tal situação indica um certo modo de ligação defensiva à identidade, de negação da “interioridade da diferença”, que demonstram a fragilidade, no caso da psicose, dos modos de síntese psíquica fundadas na noção funcional de Eu. Esta ideia da psicose como fragilidade estrutural do processo de produção de identidades subjetivas aparecerá de maneira mais sistemática nos trabalhos de Jacques Lacan.

Lembremos também como Jung definirá a esquizofrenia como uma introversão da libido, em um esquema utilizado por Freud para falar da paranoia. Segundo a ideia de Jung, a libido retirada do mundo se volta para o Eu, produzindo assim os fenômenos de autismo e avolição descritos por Bleuler como fundamento do quadro esquizofrênico. Trata-se assim de um estado secundário construído sobre a base de um narcisismo primário (investimento libidinal originário do Eu). Posteriormente, tal investimento originário será cedido aos objetos. É só com o investimento de objeto que seria possível distinguir energia sexual e energia das pulsões do Eu, libido do Eu e libido de objeto.

Gostaria então de, inicialmente, expor a teoria freudiana da paranoia para depois passarmos a teoria lacaniana da paranoia. Como sabemos, a teoria freudiana é construída principalmente a partir da interpretação de um relato escrito por Daniel Paul Schreber em seu Memória de um doente dos nervos. Notemos já um dado significativo, Freud trabalha um relato literário, nós não estamos diante de um caso derivado de sua clínica, como temos no caso Dora, no caso do Homem dos Lobos e do Homem dos Ratos.

Esta natureza “literária” da fonte freudiana não deveria nos deixar indiferentes. O desejo de escrita indica forma de participação social, forma de constituição de uma “narrativa”, de uma história pessoal que será maneira de constituir um Eu lá onde Eu nenhum é mais possível. Por outro lado, não haverá em Freud a descrição de um processo de cura, de uma intervenção clínica bem sucedida. A psicanálise, mesmo tendo uma teoria das psicoses, será basicamente uma clínica das neuroses. Mesmo Lacan, quando escrever em 1932 uma tese sobre a paranoia servindo-se de um caso que ele acompanhará (o “caso Aimée”) não poderá apresentar uma clínica das psicoses. Seus desenvolvimentos posteriores serão teoricamente decisivos para uma teoria psicanalítica das psicoses, mas não para uma clínica estruturada das psicoses.



Esta clínica será, a sua maneira, tentada apenas a partir dos anos cinquenta, por psicanalistas que irão procurar sistematizar práticas ligadas à análise institucional, como, por exemplo, Jean Oury e Felix Guattari. Mas neste momento, a prevalência do quadro paranoico será abandonada em prol de uma recuperação da esquizofrenia, agora sob novas bases.


1 Ver, CRAIGHEAD, Edward, CRAIGHEAD, Linda e MIKLOWITZ, David; Psychopathology: history, diagnosis and empirical foundations, New Jersey: Wiley, 2008, pp. 402-434

2 DSM V, p. 645

3 DSM IV, p. 317.

4 KRAEPELIN, Emil; Demência precoce, parafrenia, p. 113

5 FREUD, Observações psicanalíticas sobre uma caso de paranoia, p. 14

6 LACAN, Jacques ; De la psychose paranoiaque dans ses rapports à la personalité, Paris: Seuil, 1975, p. 56.

7 FREUD, Sigmund; Observações psicanalíticas sobre um caso de paranóia, In: O caso Schreber e outros textos, São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 24

8 FREUD, Sigmund; ibidem, p. 64

9 LACAN, Jacques; Séminaire XXIII: Le sinthome, Paris: Seuil, 2005, p. 53

10 CANETTI, Elias; Massa e poder, São Paulo : Companhia das Letras, 2005, pp. 448-463

11 FREUD, GW vol. X, p. 298

12 Sendo que, em Freud, o delírio paranoico é: “uma tradução em representações de palavras do reprimido que retornou maciçamente na forma de signos perceptuais” (SIMANKE, Richard; A formação da teoria freudiana das psicoses, Belo Horizonte: Loyola, 2008, p. 100)

13 FREUD; Manuscrito H, In: Neurose, psicose, perversão, p. 18

14 FREUD; Neurose e psicose, In: Neurose, psicose, perversão, p. 274

15 FREUD, idem, p. 96

16 FREUD; Neurose e psicose, p. 272

17 FREUD; A perda de realidade na neurose e na psicose, p. 279

18 SCHREBER, Daniel Paul; Memória de um doente dos nervos, São Paulo : Paz e Terra, 1986, p. 218




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