A gênese das psicoses Aula 6


Breve história da paranoia



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Breve história da paranoia

Façamos inicialmente um rápido histórico da paranoia a fim de melhor contextualizar nosso problema. Sabemos que a paranoia é certamente uma das categorias clínicas mais antigas que temos notícia. Sua raiz grega não nos deixa dúvidas. Paranoia vem do grego para e nous, ou seja, algo como “ao lado do espírito”, fora do que deve ser o espírito. No entanto, é só em meados do século XIX que ela ganha sistematização, principalmente através do Tratado de psiquiatria (1879), do psiquiatra alemão Richard Krafft Ebing, além dos esforços posteriores de classificação desenvolvidos por Emil Kraepelin. Desde o início de sua sistematização, a paranoia conservou-se como modalidade de doença mental cuja característica essencial era aquilo que podemos ainda encontrar no DSM IV, a saber: “presença de delírios ou alucinações auditivas proeminentes no contexto de uma relativa preservação do funcionamento cognitivo e do afeto”3. Krapelin ainda apresenta uma distinção entre paranoia e parafrenia, sendo a primeira marcada por delírios crônicos, enquanto a segunda podia admitir alucinações e: “devido a um desenvolvimento mais ligeiro das perturbações da emoção e da volição, a harmonia interna da vida psíquica fica consideravelmente menos afetada ou, pelo menos, limitada a certas faculdades intelectuais”4.

Tal especificação da paranoia respondia a uma tendência maior da psiquiatria ocidental até então, a saber, distinguir um modo de loucura onde as funções de julgamento e os usos da linguagem eram, em larga medida, conservados em sua estrutura formal de outro onde tais funções superiores eram eliminadas no interior de um processo de regressão que classicamente foi chamado de “demência”. Esta dicotomia, tão bem caracterizada na distinção alemã entre Wahnsinn e Verrückheit, continuou na psicanálise com sua distinção entre esquizofrenia e paranoia. No entanto, ela tende a ser diminuída na psiquiatria contemporânea, que unificou todo o espectro das psicoses sob a categoria geral de “esquizofrenia”.

A partir do seu estabelecimento, foi no campo da psicanálise que a paranoia apareceu como a forma privilegiada da psicose. Freud e Lacan, por exemplo, são dois psicanalistas que trabalham exclusivamente com a categoria de paranoia. Tal prevalência se desenvolve pela paranoia aparecer em uma posição decisiva no quadro clínica psicanalítico. Lembremos, por exemplo, como a reflexão freudiana sobre a paranoia desenvolve-se como setor de uma reflexão a respeito das neuroses. Daí uma afirmação como: “a investigação psicanalítica não seria possível se os doentes não tivessem a peculiaridade de revelar, ainda que de forma distorcida, justamente o que os demais neuróticos escondem como um segredo”5. Neste sentido, a paranoia teria como característica deixar à céu aberto os conflitos que são encobertos na neurose.

Mas esta função central da paranoia será ainda mais aprofundada. Pois podemos ver nesta conservação relativa da estrutura cognitiva e afetiva na paranoia um traço importante. Alguns psicanalistas viram nela a indicação de um regime de participação em valores sociais e modos normatizados de raciocínio que dão forma à própria noção de personalidade. É pensando nisto que alguém como Jacques Lacan dirá, em uma tese de doutorado dedicada à paranoia: “A economia do patológico parece assim calcada sobre a estrutura normal”6. O que é, no fundo, uma derivaçào consequente da ideia freudiana segundo a qual : “mesmo formações mentais tão extraordinárias, tão afastadas do pensamento humano habitual, tiveram origem nos mais universais e compreensíveis impulsos da vida psíquica”7. Isto porque ela absorve os modos formais de raciocínio e comportamento próprios à estrutura normal. Freud costumava dizer que a conduta patológica expõe, de maneira ampliada (Freud fala de Vergrösserung e Vergröberung), o que está realmente em jogo no processo de formação das condutas sociais gerais. É desta forma que devemos interpretar uma metáfora maior de Freud : "Se atiramos ao chão um cristal, ele se parte, mas não arbitrariamente. Ele se parte, segundo suas linhas de clivagem, em pedaços cujos limites, embora fossem invisíveis, estavam determinados pela estrutura do cristal"8. O patológico é este cristal partido que, graças à sua quebra, fornece a inteligibilidade do comportamento definido como normal. Neste sentido, Lacan radicalizará uma intuição de Freud que consiste em se perguntar se a paranoia não expõe, como em uma lente de aumento, a natureza do modo de formação da personalidade que determina a figura da subjetividade moderna.

Notemos que, se a esquizofrenia era definida a partir da dissociação da personalidade, estabelecendo com isto a personalidade e toda sua estrutura de valores como horizonte de regulação da noção de normalidade psíquica, a paranoia em sua versão psicanalítica acaba por operar como uma desconstituição da personalidade enquanto categoria reguladora da intervenção clínica por aproximar-lhe em demasia da própria paranoia. Não por outra razão, psicanalistas como Jacques Lacan discutirão as relações entre psicose paranoica e personalidade a fim de defender a hipótese de existência de uma espécie de fundo paranoico em todo processo de constituição da personalidade. No fundo, trata-se de levar a sério a ideia de Jacques Lacan, enunciada ao comentar a razão pela qual ele se relutou a republicar sua tese de doutorado sobre as relações entre psicose paranoica e personalidade: “Se resisti por tanto tempo à republicação de minha tese, é simplesmente pelo seguinte, é que a psicose paranoica e a personalidade como tal não têm relações, simplesmente por isso, porque são a mesma coisa”9.

Neste sentido, não é desprovido de interesse perceber como encontramos tal intuição da maneira com que a paranoia exporia a estrutura escondida do comportamento normal em um trabalho profícuo de psicologia social como Massa e Poder, de Elias Canetti10. Esta absorção de modos formais de raciocínio e comportamento próprios a estrutura normal pode ser identificado, por exemplo, na presença, no interior da paranoia, de algo como um “vício da causalidade” e um “vício da fundamentação”. Uma espécie de princípio de razão suficiente elevado à defesa patológica : nada acontece que não tenha uma causa. Assim, na “ontologia paranoica”, não haverá lugar para noções como contingência e acaso. Por trás da máscara do novo, há sempre o mesmo. Tudo o que é desconhecido deve ser remetido a algo conhecido e referido ao doente. Isto leva o paranoico à necessidade compulsiva do desmacaramento. Ele quer que haja algo por trás dos fenômenos ordinários e só se acalma quando uma relação causal é encontrada.

Neste sentido, é possível dizer que um dos traços fundamentais da paranoia, traço que fornece a base de sua certeza delirante e da incorrigibilidade de seus julgamentos, está vinculado à naturalização das estruturas e dos quadros narrativos de organização da experiência. Não é possível ao sujeito tomar distância de suas próprias construções, retificando criticamente suas pretensões a partir dos acasos e contingências da experiência, desconfiando de sua sistematicidade e de sua exigência absoluta de sentido e ligação, pois tais construções foram naturalizadas. Neste sentido, não seria incorreto ver, nesta forma imanente de adesão a suas próprias crenças, um efeito maior daquilo que em teoria social chamaríamos simplesmente de reificação. O que talvez nos permitiria dizer que a paranoia é uma sombra da razão, pois é o risco aberto quando ocorre uma reificação da própria estrutura do conhecimento. Exemplo ilustrativo deste processo de reificação é dado por Freud a caracterizar a linguagem psicótica como: “uma linguagem que trata as palavras como coisas”11. Consideração ilustrada pelo exemplo da analisanda de Victor Tausk, conduzida à clínica após uma disputa com seu amante e portando a seguinte reivindicação: “Meus olhos (Augen) não estão como devem estar, eles estão revirados (verdreht)”. Resultado da coisificação da metáfora: “meu amado é um hipócrita, um Augenverdreher”. Pois, se Freud afirma que, na esquizofrenia, há a predominância da relação de palavra sobre a relação de coisa, é porque as palavras foram coisificadas.

Por outro lado, notemos como há um conjunto de valores políticos que parecem nortear o sofrimento paranoico. Falamos de unidade, identidade, controle e risco de invasão. Como se fosse questão de assegurar a posse e a unificação de um território a todo momento ameaçado. Não é difícil perceber, já neste momento, como os motivos paranoicos parecem derivados de uma certa compreensão a respeito daquilo que uma ordem deve ser capaz de produzir.




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