A formação social da mente



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Gestos e signos visuais

O gesto é o signo visual inicial que contém a futura escrita da criança, assim como uma semente contém um futuro carvalho.

Como se tem corretamente dito, os gestos são a escrita no ar, e os signos escritos são, freqizentemente, simples gestos que foram fixados. Ao discutir a história da escrita humana, Wurth assinalou a ligação entre os gestos e a escrita pictórica ou pictográfica(2).

Ele mostrou que, freqüentemente, os gestos figurativos denotam simplesmente a reprodução de um signo gráfico; por outro lado, os signos freqüentemente são a fixação de gestos. Uma linha que designa "indicação" na escrita pictográfica denota o dedo indicador em posição. De acordo com Wurth, todas essas designações simbólicas na escrita pictórica só podem ser explicadas como derivadas da linguagem gestual, mesmo quando, subseqüentemente, tornam-se separadas dela, funcionando de maneira independente.

Existem dois outros domínios onde os gestos estão ligados à origem dos signos escritos. O primeiro é o dos rabiscos das crianças.

Em experimentos realizados para estudar o ato de desenhar, observamos que, freqüentemente, as crianças usam a dramatização, demonstrando por gestos o que elas deveriam mostrar nos desenhos; os traços constituem somente um suplemento a essa representação gestual.

Eu poderia citar muitos outros exemplos.

Uma criança que tem de desenhar o ato de correr começa por demonstrar o movimento com os dedos, encarando os traços e pontos resultantes no papel como uma representação do correr.

Quando ela tem de desenhar o ato de pular, sua mão começa por fazer os movimentos indicativos do pular; o que acaba aparecendo no papel, no entanto, é a mesma coisa: traços e pontos. Em geral, tendemos a ver os primeiros rabiscos e desenhos das crianças mais como gestos do que como desenhos no verdadeiro sentido da palavra. Também tendemos a imputar ao mesmo tipo de fenômeno o fato, experimentalmente demonstrado, de as crianças, ao desenharem objetos complexos, não o fazerem pelas suas partes componentes e sim pelas suas qualidades gerais, como, por exemplo, a impressão de redondo, etc. Quando uma criança desenha uma lata cilíndrica como uma curva fechada que lembra um círculo ela está, asim, desenhando sua propriedade de redonda.

Essa fase do desenvolvimento coincide com todo o aparato motor geral que caracteriza as crianças dessa idade e que governa toda a natureza e o estilo dos seus primeiros desenhos. Ao desenhar conceitos complexos ou abstratos, as crianças comportam-se da mesma maneira. Elas não desenham, elas indicam, e o lápis meramente fixa o gesto indicativo. Quando solicitada a desenhar um "bom tempo" a criança indicará o pé da página fazendo um movimento horizontal com a mão, explicando: "Esta é a Terra"; então depois de realizar vários movimentos verticais para cima e para baixo, confusos: "E este é o bom tempo". Tivemos ocasião de verificar mais precisamente, em experimentos, a íntima relação entre a representação por gestos e a representação pelo desenho, e obtivemos a representação simbólica e gráfica através de gestos em crianças com cinco anos de idade.



O desenvolvimento do simbolismo no brinquedo

A segunda esfera de atividades que une os gestos e a linguagem escrita é a dos jogos das crianças. Para elas, alguns objetos podem, de pronto, denotar outros, substituindo-os e tornando-se seus signos; não é importante o grau de similaridade entre a coisa com que se brinca e o objeto denotado. O mais importante é a utilização de alguns objetos como brinquedos e a possibilidade de executar, com eles, um gesto representativo. Essa é a chave para toda a função simbólica do brinquedo das crianças. Uma trouxa de roupas ou um pedaço de madeira torna-se, num jogo, um bebê, porque os mesmos gestos que representam o segurar uma criança ou o dar-lhe de mamar podem ser aplicados a eles. próprio movimento da criança, seus próprios gestos, é que atribuem a função de signo ao objeto e lhe dão significado. Toda atividade representativa simbólica é plena desses gestos indicativos: por exemplo, para a criança, um cabo de vassoura transforma-se num cavalo de pau porque ele pode ser colocado entre as pernas, podendo a criança empregar um gesto que comunica o fato de, neste exemplo, o cabo de vassoura designar um cavalo.

Desse ponto de vista, portanto, o brinquedo simbólico das crianças pode ser entendido como um sistema muito complexo de "fala" através de gestos que comunicam e indicam os significados dos objetos usados para brincar. É somente na base desses gestos indicativos que esses objetos adquirem, gradualmente, seu significado - assim como o desenho que, de início apoiado por gestos, transforma-se num signo independente.

Tentamos estabelecer, experimentalmente, esse estágio especial particular, nas crianças, de escrita com objetos. Conduzimos brinquedos-experimentos nos quais; brincando, representamos as coisas e as pessoas enolvidas por objetos familiares. Por exemplo, um livro em pé designava uma casa; chaves significavam crianças; um lápis, uma governanta; um relógio de bolso designava uma farmácia; uma faca, o médico; uma tampa de tinteiro, uma carruagem; e assim por diante. A seguir, através de gestos figurativos, usando-se esses objetos, representava-se uma história simples para as crianças. Elas podiam, com grande facilidade, ler a história. Por exemplo, o médico chega à casa numa carruagem, bate à porta, a governanta abre, ele examina as crianças, receita e sai; a governanta vai até a farmácia, volta e dá os remédios às crianças. A maioria das crianças com três anos de idade pode ler, com grande facilidade, essa notação simbólica. Crianças de quatro ou cinco anos podem ler notações mais complexas um homem andando pela floresta é atacado e mordido por um lobo; o homem se livra e corre, um médico o atende e ele vai à farmácia e depois para casa; um caçador põe-se a caminho da floresta para matar o lobo.

O que é evidente é que a similaridade perceptiva dos objetos não tem um papel considerável para a compreensão da notação simbólica. O que importa é que os objetos admitam o gesto apropriado e possam funcionar como um ponto de aplicação dele.

Dessa forma, os objetos que não permitem a realização dessa estrutura gestual são sumariamente rejeitados pelas crianças.

Nesse jogo, por exemplo, que é conduzido numa mesa, e que envolve objetos pequenos colocados sobre ela, se pegarmos os dedos das crianças e dissermos - "De brincadeira, suponha, agora, que seus dedos são as crianças" - elas taxativamente se recusarão a brincar. Elas objetarão cüzendo que não é possível existir esse jogo.

Os dedos estão de tal forma conectados aos seus corpos, que não padem ser considerados objetos em relação aos quais possa corresponder um gesto indicativo. Da mesma forma, uma peça de mobília nâo pode estar envolvida, como objeto, na brincadeira. Os objetos cumprem uma função de substituição: o lápis substitui a governanta ou o relógio, a farmácia; no entanto, somente os gestos adequados conferem a eles os significados. Sob a influência desses gestos, entretanto, as crianças mais velhas começam a fazer uma descoberta de importância excepcional os objetos não só podem indicar as coisas que eles estão representando como podem, também, substituí-las. Por exemplo, quando pegamos um livro com uma capa escura e dizemos que ele representará uma floresta, a criança, espontaneamente, acrescentará: "É verdade, é uma floresta porque é preto e escuro".

Assim ela isola um dos aspectos do objeto que, para ela, é uma indicação do fato de se usar o livro para significar uma floresta. Da mesma maneira, quando se usa a tampa metálica de um tinteiro para representar uma carruagem, a criança a apontará dizendo:

"Este é o assento." Quando o relógio de bolso é usado para representar a farmácia, uma criança poderá apontar os números do mostrador dizendo serem os remédios, outra apontará a alça e dirá ser a porta de entrada. Referindo-se a uma garrafa que faz o papel de um lobo, uma criança mostra o gargalo e diz: "E esta é a sua boca". Nesse caso, se o experimentador mostrar a rolha e perguntar: "E o que é isto?", a criança responderá: "Ele pegou uma rolha e a está segurando nos dentes".

O que vemos em todos esses exemplos é a mesma coisa, ou seja, que, sob o impacta do navo significado adquirido, modifica-se a estrutura corriqueira dos objetos. Em resposta ao fato de o relógio representar uma farmácia, um de seus aspectos, em particular, é isolado, assumindo a função de um novo signo ou indicação de como o relógio representa a farmácia (seja através dos medicamentos, seja através da porta de entrada). A estrutura corriqueira dos objetos Epor exemplo, a rolha numa garrafa) começa a refletir-se na nova estrutura (o lobo segura a rolha nos dentes) e essa modificação estrutural torna-se tão forte que, por vezes, em vários experimentos, chegamos a incutir gradualmente na criança, um determinado significado simbólico. Por exemplo, em quase todas as nossas sessões de brinquedo, o relógio de bolso significou uma farmácia, enquanto outros objetos tiveram seu significado mudado rápida e freqüentemente. Num outro jogo, pegamos o relógio e, de acordo com novos procedimentos, explicamos: "Agora isto é uma padaria". Uma criança imediatamente pegou uma caneta e, colocando-a atravessada sobre o relógio, dividindo-o em duas metades, disse: "Tudo bem, esta é a farmácia e esta é a padaria".

O velho significado tornou-se assim independente e funcionou como uma condição para o novo. Também pudemos observar essa aquisição de significado independente em situações fora do próprio jogo; se uma faca caísse, a criança poderia dizer: "O médico caiu".

Assim, um objeto adquire uma função de signo, com uma história própria ao longo do desenvolvimento, tornando-se, nessa fase, independente dos gestos das crianças. Isso representa um simbolismo de segunda ordem e, como ele se desenvolve no brinquedo, consideramos a brincadeira do faz-de-conta como um dos grandes contribuidores para o desenvolvimento da linguagem escrita - que é um sistema de simbolismo de segunda ordem.

Assim como no brinquedo, também no desenho o significado surge, inicialmente, como um simbolismo de primeira ordem. Como já dissemos, os primeiros desenhos surgem como resultado de gestos manuais ( gestos de mãos adequadamente equipadas com lápis); e o gesto, como vimos, constitui a primeira representação do significado. É somente mais tarde que, independentemente, a representação gráfica começa a designar algum objeto. A natureza dessa relação é que aos rabiscos já feitos no papel dá-se um nome apropriado.

H. Hetzer estudou experimentalmente como a representação simbólica dos objetos - tão importante no aprendizado da escrita - se desenvolve em crianças de três a seis anos de idade.

Seus experimentos constituíram-se de quatro séries básicas. Através da primeira, investigou a função dos símbolos no brinquedo das crianças. As crianças tinham de representar, na 'brincadeira, um pai ou uma mãe fazendo o que eles costumam fazer no dia a dia. Nesta brincadeira acrescentava-se uma interpretação de faz-de-conta de alguns objetos, de modo a tornar possível para, o pesquisador observar a função simbólica associada a objetos.

A segunda série utilizou blocos e materiais com que as crianças pudessem construir coisas, e a terceira envolveu desenhos com lápis de cor. Nessas duas últimas séries prestou-se particular atencão ao momento em que era nomeado o significado apropriado.

A quarta série de experimentos teve a função de investigar, na forma de uma brincadeira de correio, até que ponto as crianças conseguiam perceber combinações puramente arbitrárias de signos.

Esse jogo utilizava pedaços de papel de várias cores para significar diferentes tipos de mensagens: telegramas, jornais, ordens de pagamento, pacotes, cartas, cartões postais e assim por diante. Assim, os experimentos relacionavam, explicitamente, essas diferentes formas de atividade (cujo único aspecto comum compartilhado é a funçao simbólica) e tentavam liga-las com o desenvolvimento da linguagem escrita, aliás, como nós também fizemos em nossos experimentos.

Hetzer foi capaz de mostrar claramente quais significados simbólicos surgem no brinquedo através de gestos figurativos e quais surgem através das palavras. A linguagem egocêntrica das crianças manifestou-se amplamente nesses jogos. Enquanto algumas crianças representavam qualquer coisa através de movimentos e mímica, nâo usando de maneira nenhuma a fala como fonte de simbolismo, em outras, as ações foram acompanhadas pela fala: a criança tanto falava quanto agia. Já para um terceiro grupo de crianças começa a predominar a expressão puramente verbal não acompanhada por qualquer atividade. Finalmente, num quarto grupo as crianças não brincam, e a fala torna-se o único modo de representação, desaparecendo a mímica e as expressões gestuais. A porcentagem de ações gestuais na brincadeira diminui com a idade, ao mesmo tempo que a fala, gradualmente, passa a predominar. Como diz o autor, a conclusão mais importante tirada desse estudo do desenvolvimento é que, na atividade de brinquedo, a diferença entre uma criança de três e outra de seis anos de idade não está na percepção do símbolo mas, sim, no modo pelo qual são usadas as várias formas de representação.

Na nossa opinião, essa é uma conclusão extraordinariamente importante; ela indica que a representação simbólica no brinquedo é, essencialmente, uma forma particular de linguagem num estágio precoce, atividade essa que leva, diretamente, à linguagem escrita.

A medida que o desenvolvimento prossegue, o processo geral de nomeação se desloca cada vez mais para o início do processo, que, assim, passa a ser equivalente à escrita da palavra que acabou de ser dita. Uma criança de três anos de idade é capaz de compreender a função representativa de uma construção com brinquedos, enquanto que uma criança de quatro anos de idade dá nome às suas criações antes mesmo de começar a construí-las.

Da mesma forma, notamos no desenho que uma criança com três anos de idade ainda não é consciente do significado simbólico do seu desenho, o que só será dominado completamente, por todas as crianças, em torno dos sete anos de idade.


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