A formação social da mente


A pré-história da linguagem escrita



Baixar 0,56 Mb.
Página30/38
Encontro04.03.2018
Tamanho0,56 Mb.
1   ...   26   27   28   29   30   31   32   33   ...   38
8. A pré-história da linguagem escrita

Até agora, a escrita ocupou um lugar muito estreito na prática escolar, em relação ao papel fundamental que ela desempenha no desenvolvimento cultural da criança. Ensina-se as crianças a desenhar letras e construir plavras com elas, mas não se ensina a linguagem escrita. Enfatiza-se de tal forma a mecánica de ler o que está escrito que acaba-se obscurecendo a linguagem escrita como tal.

Algo similar tem acontecido com o ensino de linguagem falada para surdos-mudos. A atenção tem se concentrado inteiramente na produção de letras em particular, e na sua articulação distinta. Nesse caso, os professores de surdos-mudos não distinguem, por trás dessas técnicas de pronúncia, a linguagem falada, e o resultado é a produção de uma fala morta.

Explica-se essa situação, primariamente, por fatores históricos especificamente pelo fato de que a pedagogia prática, apesar da existência de muitos métodos de ensinar a ler e escrever, tem ainda de desenvolver um procedimento científico efetivo para o ensino de linguagem escrita às. crianças. Diferentemente do ensino da linguagem falada, no qual a criança pode se desenvolver por si mesma, o ensino da linguagem escrita depende de um treinamento artificial. Tal treinamento requer atenção e esforços enormes, por parte do professor e do aluno, podendo-se, dessa forma, tornar fechado em si mesmo, relegando a linguagem escrita viva a segundo plano. Ao invés de se fundamentar nas necessidades naturalmente desenvolvidas das crianças, e na -sua própria atividade, a escrita lhes é imposta de fora, vindo das mãos dos professores. Essa situação lembra muito o processo de desenvolvimento de uma habilidade técnica, como, por exemplo, o tocar piano: o aluno desenvolve a destreza de seus dedos e aprende quais teclas deve tocar ao mesmo tempo que lê a partitura; no entanto, ele não está, de forma nenhuma, envolvido na essência da própria música.

Esse entusiasmo unilateral pela mecânica da escrita causou impacto não só no ensino, como na própria abordagem teórica do problema. Até agora a psicologia tem considerado a escrita simplesmente como uma complicada habilidade motora.

Notavelmente, ela tem dado muito pouca atenção à linguagem escrita como tal, isto é, um sistema particular de símbolos e signos cuja dominação prenuncia um ponto crítico em todo o desenvolvimento cultural da criança.

Um aspecto desse sistema é que ele constitui um simbolismo de segunda ordem que, gradualmente, torna-se um simbolismo direto. Isso significa que a linguagem escrita é constituída por um sistema de signos que designam os sons e as palavras da linguagem falada, os quais, por sua vez, são signos das relações e entidades reais. Gradualmente,esse elo intermediário ( a linguagem falada) desaparece e a linguagem escrita converte-se num sistema de signos que simboliza diretamente as entidades reais e as relações entre elas. Parece claro que o domínio de um tal sistema complexa de signos não pode ser alcançado de maneira puramente mecânica e externa; ao invés disso, esse domínio é o culminar, na criança, de um longo processo de desenvolvimento de funções comportamentais complexas. A única forma de nos aproximar de uma solução correta para a psicologia da escrita é através da compreensão de toda a história do desenvolvimento dos signos na criança.

Entretanto, a história do desenvolvimento da linguagem escrita impõe dificuldades enormes à pesquisa. Até onde podemos julgar com o material disponível, ela não segue uma linha única direta na qual se mantenha algo como uma continuidade clara de formas. Ao invés disso, ela nos oferece as metamorfoses mais inesperadas, isto é, transformações de algumas formas particulares de linguagem escrita em outras. Para citar a adequada expressão de Baldwin referente ao desenvolvimento das coisas, ela é constituída tanto de involuções como de evoluções(1). Isso significa que, juntamente com processos de desenvolvimento - movimento progressivo - e o aparecimento de formas novas, podemos distinguir, a cada passo, processos de redução, desaparecimento e desenvolvimento reverso de velhas formas. A história do desenvolvimento da linguagem escrita nas crianças é plena dessas descontinuidades. Às vezes, a sua linha de desenvolvimento parece desaparecer completamente, quando, subitamente, como que do nada, surge uma nova linha; e a princípio parece não haver continuidade alguma entre a velha e a nova.

Mas somente a visão ingênua de que o desenvolvimento é um processo puramente evolutivo, envolvendo nada mais do que acúmulos graduais de pequenas mudanças e uma conversão gradual de uma forma em outra, pode esconder-nos a verdadeira natureza desses processos.

Esse tipo revolucionário de desenvolvimento, no entanto, de maneira nenhuma é novo para a ciência em geral; é novo somente para a psicologia da criança. Portanto, apesar de algumas tentativas ousadas, a psicologia infantil não possui uma visão convincente do desenvolvimento da linguagem escrita como um processo histórico, como um processo unificado de desenvolvimento.

A primeira tarefa de uma investigação científica é revelar essa pré-história da linguagem escrita; mostrar o que leva as crianças a escrever; mostrar os pontos importantes pelos quais passa esse desenvolvimento pré-histórico e qual a sua relação com o aprendizado escolar. Atualmente, apesar dos vários estudos existentes, ainda não estamos em condições de escrever uma história coerente ou completa da linguagem escrita nas crianças.

Conseguimos somente distinguir os pontos importantes nesse desenvolvimento e discutir as suas grandes mudanças. Essa história começa com o aparecimento do gesto como um signo visual para a criança.




: pluginfile.php
pluginfile.php -> Mesa-Redonda Institucional Competências do Psicólogo Organizacional e do Trabalho: Desafios para a Formação Profissional
pluginfile.php -> Neylane paz ribeiro bezerra rosangela do socorro sousa costa rosely da silva barbosa silva
pluginfile.php -> Img src= data: image/jpeg
pluginfile.php -> Relatório de estágio de observaçÃo e de regência do ensino fundamental
pluginfile.php -> Pesquisa interventiva em instituiçÃO: etnografia, cartografia
pluginfile.php -> Universidade federal do pará instituto de ciências sociais aplicadas faculdade de administraçÃo curso de bacharelado em administraçÃo pública alessandra Lousada e Lousada Letícia Rodrigues de Oliveira Santos Rogério de Aguiar Morais
pluginfile.php -> Universidade federal do pará instituto de ciências sociais aplicadas faculdade de administraçÃo curso de bacharelado em administraçÃo pública alessandra Lousada e Lousada Letícia Rodrigues de Oliveira Santos
pluginfile.php -> Objeto: Sistema Psicológico
pluginfile.php -> Universidade federal do pará instituto de ciências sociais aplicadas faculdade de administraçÃo curso de bacharelado em administraçÃo pública alzira Oliveira Rocha José Vitor Vieira Ferreira Rafaela Santos Meninéa


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   26   27   28   29   30   31   32   33   ...   38


©psicod.org 2017
enviar mensagem

    Página principal