A formação social da mente



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A psicologia. das respostas de escolha complexas

Para ilustrar as abordagens contrastantes da análise psicológica, discutirei, com algum detalhe, duas aná,lises diferentes de uma mesma tarefa. Na tarefa que escolhi, o indivíduo encontra-se frente a um ou mais estímulos (via de regra, visuais ou auditivos). A resposta requerida difere de acordo com o número de estímulos e o interesse do pesquisador: algumas abordagens procuram decompor a reação numa série de processos elementares, cujas duraçôes podem ser somadas e subtraídas para estabelecer as leis de sua combinação;

outras procuram descrever a reação emocional do sujeito quando ele responde ao estímulo. Em ambos os casos, usam-se eomo dados básicos as análises introspectivas que os próprios sujeitos fazem de suas respostas. Nesses experimentos, a inadequação das formulações até então usadas ilustram, de forma útil, os nossos princípios analíticos básicos.

É também característico dessas análises que respostas simples e complexas sejam distinguidas, primariamente, de acordo com a complexidade quantitativa do estímulo: diz-se que ocorre uma reação simples quando se apresenta um único estímulo, a que a complexidade da resposta aumenta ao aumentar o número de estímulos. Um pressuposto inicial dessa linha de pensamento é que a complexidade da tarefa é idêntica à complexidade da resposta interna do sujeito.

Essa identidade está claramente expressa nas fórmulas algébricas comumente usadas na análise das respostas de tais tarefas. Se um único estímulo é apresentado, podemos escrever uma equação onde a reação complexa é igual a uma reação simples (reconhecimento sensorial ) : Rt = Rs, onde Rt é o tempo de resposta para a reação complexa total e Rs é o tempo de resposta da reação de reconhecimento de um estímulo. Se são apresentados dois ou mais estímulos, dos quais o sujeito deve selecionar um, essa equação se torna: Rt = Rs mais D, onde D é o tempo usado na discriminação entre o estímulo alvo e os outros. Usando essas duas equaçôes, podemos estabelecer o tempo requerido tanto para uma reaçâo simples como para uma reação discriminativa.

Se complicamos a tarefa, solicitando que o sujeito apresente uma resposta diferente para cada estímulo (por exemplo, pressionar a tecla da esquerda para o estímulo A e a da direita para o estímulo B), obtemos a fórmula clássica da reação de escolha: Rt = Rs mais D mais E, onde E é o tempo necessário para a escolha do movimento correto, como, por exemplo, pressionar a tecla correspondente ao estímulo apresentado.

Uma descrição verbal da teoria que fundamenta esse conjunto de fórmulas é a seguinte; a resposta de discriminação é uma reação simples mais a discriminação; a reação de escolha é urna reação simples mais a discriminação e mais a escolha. A resposta superior, mais complexa, é vista como a soma aritmética de seus componentes elementares.

Os proponentes dessa abordagem analítica aplicam-na de forma bem ampla. Cattell, por exemplo, acredita que, subtraindo-se o tempo necessário para compreender e verbalizar uma palavra do tempo necessário para compreender, traduzir uma palavra de uma língua para outra e verbalizá-la, obtém-se uma medida pura do processo de tradução". Eriz resumo, até mesmo os processos superiores como a compreensão e produção da fala podem ser analisados por esse método. É difícil imaginar uma concepção mais mecanicista das formas superiores, complexas, do comportamento.

Entretanto, essa abordagem analítica tem levado a várias dificuldades. A observação empírica mais básica que contradiz essa teoria vem de Titchener, que mostrou que o tempo para executar uma reação de escolha cuidadosamente preparada poderia ser igual ao tempo para a execução de uma resposta sensorial simples. Isso seria irnpossível, pela lógica da análise resumida nas equações acima.

Do nosso ponto de vista, a premissa básica que fundamenta toda essa linha de análise é incorreta. Não é verdade que uma reação complexa seja constituída de uma cadeia de processos separados os quais podem ser, arbitraríamente, somados e subtraídos. Qualquer reação desse tipo reflete processos que dependem do processo inteiro de aprendizado que se dá ao longo de todos os níveis da tarefa. Essa análise mecânica substitui as relações reais que estão na base do processo de escolher pelas relações existentes entre os estímulos. Esse tipo de substituição reflete uma atitude intelectual geral em psicologia que procura a compreensão dos processos psicológicos nas manipulações que constituem o próprio experimento; os procedimentos experimentais tornam-se substitutos dos processos psicológicos.

Vários estudiosos, ao mesmo tempo que demonstram a inadequação da análise psicológica baseada na decomposição mecânica das respostas em seus elementos componentes, defrontam-se se com o problema de que suas análises introspectivas de reações complexas tenham que se restringir à descrição: nesse caso, a descrição das respostas externas é substituída pela descrição dos sentimentos internos. Ambos os casos restringem-se à análise psicológica fenotípica.

A análise introspectiva, na qual observadores altamente treinados são instruídos a notar todos os aspectos da sua própria experiência consciente, não pode levar-nos muito longe. Um resultado curioso desse tipo de trabalho, como Ach assinalou ao discutir os estudos da reação de escolha, é a descoberta de que não há sentimentos conscientes de escolha na reação de escolha (10). Titchener enfatizou que se deve ter em mente o fato de que os nomes dados a uma reação complexa ou simples (por exemplo, "diferenciação" ou "escolha") referem-se às condições externas da tarefa. Nós não diferenciamos na reação de diferenciação e nós não escolhemos na reação de escolha.

Esse tipo de análise rompe a identidade entre os procedimentos experimentais e os processos psicológicos. Nomes de processos como "escolher" e "diferenciar" são tratados como resquícios de uma era anterior da psicologia, em que a experimentação ainda era desconhecida: observadores eram, entâo, treinados a fazer uma distinção clara entre os nomes de processos e sua experiência consciente, de modo a contornar esse problema.

Esses estudos introspectivos levaram à conclusão de que uma situação que parece requerer processos de escolha não fornece elementos para se falar de uma resposta psicológica de escolha;

a discussão de tais respostas foi substituída pela descrição dos sentimentos do sujeito durante o experimento. No entanto, ninguém pôde dar qualquer evidência de que esses sentimentos tivessem constituído parte integrante do processo particular de resposta.

Parece mais provável que eles sejam somente um de seus componentes, e que eles mesmos necessitem de explicação. Somos levados a concluir que a introspecçâo é, frequentemente, incapaz de prover uma descrição acurada, não se preocupando com uma explicação correta, mesmo em relação ao aspecto subjetivo da resposta. Pelas mesmas razões, seria de se esperar as frequentes discrepâncias entre as descrições introspectivas de vários observadores que, aliás, constituem um problema nessa área de pesquisa. Deve ficar claro que a análise introspectiva não fornece a explicação dinâmica ou causal real de um processo; para que isso ocorra, devemos deixar de basear-nos nas aparências fenotípicas e mover-nos para um ponto de vista de análise do desenvolvimento.

As pesquisas sobre as reações complexas também ilustram que a psicologia. só depende da análise de processos depois que eles se tenham tornado fossilizados.

Este ponto foi notado por Titchener, que observou terem os pesquisadores concentrado seu estudo no tempo de reaçâo das respostas, e não nos processos de aprendizado ou no conteúdo da própria reação. Isso pode ser claramente visto, também, na prática estabelecida de se desprezar os dados das primeiras sessões, quando as respostas estão sendo estabelecidas. O que se procura é a uniformidade, de tal forma que nunca é possível captar o processo em andamento; ao contrário, os pesquisadores, rotineiramente, desprezam os tempos críticos do aparecimento das reações, quando suas ligações funcionais são estabelecidas e ajustadas. Tais práticas levam-nos a caracteriza.r as respostas como "fossilizadas". Elas refletem o fato de que esses psicólogos não estão interessados nas reações complexas como um processo de desenvolvimento. Essa abordagem é, também, a causa maior das confusões relativas às reações simples e complexas superficialmente semelhantes. Poderse-ia dizer que as reaçôes complexas têm sido estudadas pvostmortem.

Uma outra perspectiva sobre esse mesmo assunto pode ser obtida através da comparação entre reações complexas e reflexos, que são psicologicamente diferentes em muitos aspectos. Para efeito de ilustração, será suficiente compararmos um ponto. Sabe-se que o período de latência de uma reação complexa é mais longo que o período de latência de um reflexo. No entanto, há muito tempo Wundt demonstrou que o período de latência de uma reação complexa decresce com a prática. Conseqüentemente, a latência da reação complexa e do reflexo simples tornam-se equivalentes. Comumente, as diferenças mais importantes entre uma reação complexa e um reflexo são mais evidentes quando a reação está em seus estágios iniciais; com a prática, as diferenças tornam-se cada vez mais obscurecidas. Portanto, as diferenças entre essas duas formas de comportamento devem ser procuradas na análise de seu desenvolvimento. No entanto, as pesquisas sobre as reações de escolha bem estabelecidas e os reflexos, ao invés de aumentarem as diferenças discerníveis entre os dois fenômenos, escondem-nas. Os ensaios preparatórios requeridos pelos métodos experimentais habituais, freqüentemente se estendem por várias sessões de longa duração. Se esses dados então são descartados ou ignorados, resta ao pesquisador uma reação automatizada que, em relaçâo a um reflexo, perdeu as diferenças expressadas no seu desenvolvimento, e adquiriu uma similaridade fenotípica superficial. Esses fatores levaram à nossa afirmativa de que pesquisadores anteriores estudaram as reações em experimentos psicológicos somente depois de elas terem se tornado fossilizadas.

Essa discussão da análise tradicional de reações complexas define, ainda que de forma negativa, as tarefas básicas com as quais nos defrontamos. Para obtermos o tipo de análise dinâmico causal que defendemos, teremos que deslocar o foco de nossa pesquisa.




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