A formação social da mente



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As primeiras operações com signos em crianças

Os experimentos seguintes, conduzidos por A.N. Leontiev em nossos laboratórios, demonstram com particular clareza o papel dos signos na atenção voluntária e na memória(3)

Pedia-se a crianças que participassem de um jogo, no qual elas tinham que responder a um conjunto de questões, sem usar determinadas palavras. Via de regra, cada criança recebia três ou quatro tarefas que diferiam quanto às restrições impostas a suas respostas e quanto aos tipos de estímulos auxiliares em potencial que poderiam usar. Cada tarefa consistia de dezoito questões, sete delas referentes a cores ( por exemplo, "Qual a cor...?" ) .

A criança deveria responder prontamente a cada questão, usando uma única palavra. A tarefa inicial foi conduzida exatamente dessa maneira. A partir da segunda tarefa, introduzimos regras adicionais que deviam ser obedecidas para que a criança acertasse a resposta. Por exemplo, a criança estava proibida de usar o nome de duas cores e nenhuma cor poderia ser usada duas vezes. A terceira tarefa tinha as mesmas regras que a segunda, e forneciam-se às crianças nove ¨cartões coloridos como auxiliares para o jogo ("estes cartôes podem ajudar você a ganhar o jogo").

A quarta tarefa era igual à terceira, e foi utilizada nos casos em que a criança não usou adequadamente os cartões coloridos ou começou a fazê-lo tardiamente na terceira situação. Antes e depois de cada tarefa fazíamos perguntas com o objetivo de determinar se as crianças lembravam das instruções e se as tinham entendido.

Um conjunto de questões de uma tarefa típica é o seguinte ( nesse caso as cores proibidas eram o verde e o amarelo ): ( 1 ) Você tem um amigo? ( 2 ) Qual é a cor da sua camisa? ( 3 ) Você já viajou de trem? ( 4 ) Qual é a cor dos vagões? ( 5 ) Você quer crescer? (6) Você já foi alguma vez ao teatro? (7) Você gosta de brincar no quarto? ( 8 ) Qual é a cor do châo? ( 9 ) E das paredes? ( 10 ) Você sabe escrever? ( 11 ) Você já viu uma flor chamada lilás? ( 12 ) Qual é a cor do lilás? ( 13 ) Você gosta de doces?

(14) Você já esteve num sítio? (15) Quais sâo as cores das folhas? ( 16 ) Você sabe nadar? ( 17 ) Qual é a sua cor preferida? ( 18 ) Para que a gente usa o lápis?

As cores dos cartões usados como auxiliares na terceira e quarta tarefas foram: preto, branco, vermelho, azul, amarelo, verde, lilás, marrom e cinza.

Os resultados obtidos com trinta indivíduos com idades variando entre cinco e vinte e sete anos estão resumidos na tabela 1, sob a forma do número médio de erros na segunda e terceira tarefas e a diferença entre eles. Observando primeiramente os dados da tarefa 2, vemos que o número de erros diminui ligeiramente dos cinco para os treze anos, e abruptamente quando se trata de adultos. Na tarefa 3, a queda mais abrupta no número médio de erros ocorre entre os grupos de idade de cinco para seis e oito para nove anos. A diferença entre o número de erros das tarefas 2 e 3 é pequena tanto para as crianças préescolares quanto para os adultos.

Os processos que deram origem a esses números são prontamente revelados quando se analisam os protocolos experimentais representativos de cada grupo de crianças. As crianças em idade pré-escolar ( cinco para seis anos ) não eram, em geral, capazes de descobrir como usar os cartões coloridos auxiliares e `tiveram grande dificuldade em ambas as tarefas.

Tabela 1 Erros na tarefa das cores proibidas

Idade (A) 5-6 (B) 8- 9 (C) 10-13 (D) 20-27

Número de Indivíduos (A) 7 (B) 7 (C) 8 (D) 8

Erros(média) Tarefa 2 (A) 3,9 (B) 3,3 (C) 3,1 (D) 1,4

Tarefa 3 (A) 3,6 (B) 1,5 (C) 0,3 (D) 0,6

Diferença (A) 0,3 (B) 1,8 (C) 2,8 (D) 0,8

Mesmo quando tentávamos explicar-lhes de que forma os cartões poderiam ajudá-las, as crianças nessa idade não eram capazes de usar esses estímulos externo para organizar o próprio comportamento.

Segue-se a transcrição do protocolo de um menino de cinco anos de idade:

Tarefa 4. Cores proibidas: azul e vermelho (com cartões).

2. Qual é a cor das casas? -- Vermelho (sem olhar para as cores proibidas) 3. O sol está forte hoje? -- Sim.

4. Qual é a cor do céu? -- Branco (sem olhar para o cartão; no entanto, procura o cartão branco). Olha ele aqui! (Pega-o e segura-o na mão.) 8. Qual é a cor de um tomate? -- Vermelho (Dá uma olhada para os cartões).

9. E qual é a cor de um caderno? -- Branco - como isso! (indicando o cartão branco) 12. Qual é a cor de uma bola? -- .Branco.(Olhando para o cartão).

13. Você vive aqui na cidade? -- Não.

Como é? Você acha que ganhou? -- Não sei - acho que sim.

O que é que você não poderia fazer para ganhar? -- Não deveria dizer vermelho ou azul.

E o que mais? -- Não deveria dizer a mesma palavra duas vezes.

Essa transcrição sugere que os "auxiliares" na verdade prejudicaram essa criança. O uso repetido do "branco" como resposta ocorria quando sua atenção estava fixa no cartão branco. Os cartões auxiliares constituíram para ela um aspecto meramente casual na situação. Ainda assim, não há dúvida de que, algumas vezes, as crianças em idade préescolar, mostram alguns precursores do uso de signos externos. Desse ponto de vista, alguns casos apresentam interesse especial. Por exemplo, após sugerirmos a uma criança que usasse os cartões ("tome estes cartões, eles vão ajudar você a ganhar"), ela procurou os cartões com as cores proibidas e os colocou fora de sua visão, como que tentando impedir a si mesma de dizer seus nomes.

Apesar de uma aparente variedade, os métodos de uso dos cartões pelas crianças podem ser reduzidos a dois tipos básicos. Primeiro a criança pode pôr as cores proibidas fora de sua visão, pôr os outros à vista e, à medida que vai respondendo às questões, colocar de lado os cartões com as cores já mencionadas. Esse método é o menos eficaz; no entanto, é o método mais cedo utilizado. Os cartões, nesse caso, servem somente para registrar as cores mencionadas. De início, as crianças, em geral, não se voltam para os cartões antes de responder à questão sobre cor, e somente após fazê-lo folheiam os cartões, virando, movendo ou pondo de lado o correspondente à cor mencionada.

Esse é, sem dúvida, o ato de memorização mais simples usando o auxílio de meios externos. É só um pouco mais tarde que as condições do experimento conferem aos cartões uma segunda e nova função. Antes de dizer uma cor, a criança faz uma seleção com o auxílio dos cartões. Tanto faz se a criança olha para os cartões até então não usados ou para os cartões cujas cores já foram mencionadas. Em qualquer dos casos, os cartões são interpastos no processo e são usados como meio para regular a atividade. A característica evidente do primeiro método, que é o de esconder preliminarmente as cores proibidas, não leva ainda a uma substituição completa da operação menos amadurecida por outra, mais complexa; representa meramente um passo nessa direção. A sua ocorrência é, em parte, explicada pela maior simplicidade dessa operação no controle da memória e, em parte, também pelas atitudes "mágicas", freqüentemente apresentadas pelas crianças, em relação a vários auxiliares em potencial num processo de solucionar um problema.

Os exemplos que se seguem, de uma estudante de treze anos, ilustram esse pontos:

Tarefa 2. Cores proibidas: verde e amarelo (sem cartões).

1. Você tem amigos? -- Sim.

2. Qual é a cor da sua blusa? -- Cinza.

3. Você já andou de trem? -- Sim.

4. Qual é a cor dos vagões? -- Cinza (Nota que repetiu a mesma cor duas vezes, e ri.) 5. Você quer crescer? -- Sim.

6. Você já foi ao teatro? -- Sim.

7. Você gosta de brincar no quarto? -- Sim.

8. Qual é a cor do chão? -- Cinza (Hesita.) De novo! - repeti.

9. E das paredes? -- Branco.

10. Você sabe escrever? -- Sim.

11. Você já viu uma flor chamada lilás? -- Sim.

12. Qual é a cor do lilás? -- Lilás.

13. Você gosta de doces? -- Sim.

14. Você já esteve num sítio? -- Sim.

15. E quais são as cores das folhas? -- Verde - oh não, não devia ter dito verde - marrom, às vezes vermelhas.

16. Você sabe nadar? -- Sim.

17. Qual é a sua cor preferida? -- Amarelo! Não podia! (Leva as mãos à cabeça.) 18. O que se pode fazer com um lápis? -- Escrever.

O que você acha, ganhou ou perdeu? -- Perdi.

O que você não poderia ter falado? -- Verde e amarelo.

E o que mais? -- Não devia ter repetido.

Tarefa 3. Cores proibidas: azul e vermelho (com cartões).

A menina colocou os cartões com as cores proibidas de um lado e enfileirou restantes à sua frente.

1. Você costuma passear na rua? -- Sim 2. Qual é a cor das casas? -- Cinza. (Após responder, olha para os cartões e vira o cinza.) 3. O sol está forte hoje? -- Forte.

4. Qual é a cor do céu? Branco. -- (Olha primeiro para o cartão e depois o vira.) 5. Você gosta de bala? -- Sim.

6. Você já viu uma rosa? -- Sim 7. Você gosta de verdura? -- Sim.

8 Qual é a cor do tomate? -- Verde. (Vira o cartão) 9. E de um caderno? -- Amarelo.(Vira o cartão) 10. Você tem brinquedos? -- Não.

11. Você joga bola? -- Sim.

12. E qual é a cor da bola? -- Cinza.(Sem olhar os cartões; depois de responder dá uma olhada e constata o erro).

13. Você vive na cidade? -- Sim 14. Você viu o desfile? -- Sim.

15. Qual era a cor das bandeiras? -- Pretas.(Olha primeiro para os cartões e então vira um.) 16. Você tern um livro? -- Sim.

17. Qual é a cor da capa? -- Lilás (virando o cartão.) 18. Quando é que fica escuro? -- À noite.

Nossos resultados, como mostram os protocolos e a tabela 1, indicam a existência do processo de lembrança mediada. No primeiro estágio ( idade pré-escolar ) , a criança não é capaz de controlar o seu comportamento pela organiza.ção de estímulos especiais. Os cartões coloridos, que poderiam ajudá-la em sua tarefa, Embora agindo como estímulo, eles não adquirem a função instrumental. O segundo estágio do desenvolvimento caracteriza-se pela nítida diferença nos índices obtidos nas duas tarefas principais.

A introdução dos cartões, como um sistema de estímulos externos auxiliares, aumentou consideravelmente a eficácia da atividade da criança. Nesse estágio predominam os signos externos.O estímulo auxiliar é um instrumento psicológico que age a partir do meio exterior.

No terceiro estágio ( adulto ) , diminui a diferença entre o desempenho nas duas tarefas e seus coeficientes tornam-se praticamente iguais, sendo que agora o desempenho se dá em bases novas e superiores. Isso não significa que o comportamento das adultos torna-se novamente direto e natural. Nesse estágio superior do desenvolvimento, o comportamento permanece mediado. Mas, agora, vemos que na terceira tarefa os estímulos auxiliares são emancipados de suas formas externas primárias. Ocorre o que chamamos de internalização; os signos externos, de que as crianças em idade escolar necessitam, transformam-se em signos internos, produzidos pelo adulto como um meio de memorizar. Essa série de tarefas aplicadas a pessoas de diferentes idades mostra como se desenvolvem as formas externas de comportamento mediado.




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