A formação na escola



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Encontro07.01.2020
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A formação na escola

Ana Canedo


Nos últimos tempos da AMP circulava um slogan que afirmava que o discurso histérico era o melhor para o funcionamento de uma Escola e no trabalho para a formação de analistas, enquanto estimulava a produção do amo e questionava o saber estabelecido. O sujeito histérico que se divide para sustentar o significante amo era disfarçado como a divisão interna do sujeito, que é de estrutura.

As armadilhas do discurso histérico facilitaram os excessos do discurso do amo, a circulação dos conceitos repetidos até a saciedade e a hierarquização dos semblantes de saber permitieram chegar ao final a suposta tese de Escola elaborada por Lacan degradando a aposta sem dize-lo.

Segundo meu entender, o discurso histérico pode efetivamente animar ao amo mais disso não se deduz que o produto seja simplesmente um saber renovado.

Me interessa situar, segundo a clínica dos discursos, os efeitos do discurso histérico na Instituição analítica, seguindo alguns pontos de reflexão desde o ensino de Lacan.

Já em suas primeiras elaborações Lacan trata com o discurso quando coloca o inconsciente como um efeito de discurso retomando o enunciado de Freud: Ali onde Isso era eu devo advir, no sentido do inconsciente como um lugar, o lugar do reprimido e do sintoma é o mesmo.

A repressão atua no registro significante enquanto interfere sobre um saber da verdade, aquela que afeta intimamente ao sujeito, enquanto entranha para ele “a história de uma tirania”, podemos dizer a tirania do significante amo.

Na neurose é a historia que reprimida continua operando na linguagem cifrada, clandestina para a consciência. Enquanto a censura, formação de compromisso do sintoma, é um contrato que se exerce sobre um discurso que se imprime e se expressa.

“O sujeito que reprime uma verdade não governa mais, não está no centro de seu discurso as coisas funcionam sóis e o discurso se articula mas por fora do sujeito. Este outro lugar por fora é o que chamamos inconsciente “.

Sua tese do inconsciente está estruturada como uma linguagem emerge na clínica do discurso.

A Psicanálise opera a partir de elementos significantes e todo seu ensino se orientou a encontrar conceitos que puderam dar conta dos acontecimentos do real da clínica em uma proposta pragmática de manobrar nela.

Enquanto a repressão é um fenómeno de estrutura, opera nos analisandos e nos analistas, se estes não estão advertidos, em sua prática e na instituição analítica. A repressão é repressão de um saber e se inscreve nas distintas sequências da história da psicanálise.

Nos anos 50 Lacan já questionava os desvios pelos quais os post-freudianos tinham degradado a psicanálise ao nível “ da direção da consciência ” com a ego-psycology , fazendo alusão com fina ironia ao casal com o confessor na religião cristã.

No interior da IPA a dispersão em correntes analíticas divergentes entre se tinha reprimido o saber sobre a verdade do inconsciente que Freud tinham construído .

Os desvios em ato se sustentavam em uma instituição de estrutura ideal, pura e aparentemente ligeira . Uma instituição baseada em acordos mínimos sobre o que constituía a formação, a garantia, os didatas .

Este acordo teve consequências : a vida associativa se constituiu segundo uma rigorosa disciplina digna de um colégio episcopal, a elaboração da teoria se desagregou e fortaleceu aos amos afetando aos candidatos segundo se situavam numa povoação ou outra.

As consequências para a causa psicanalítica são conhecidas e atravessaram a vida de Lacan, porque ele consentiu nisso, para obter um produto: a qualidade de um ensino sustentado numa experiência. Ocupando-se de sua posição de analisante atravessado pelo discurso do analista, se protegeu das sereias cativantes do discurso da histeria, os encaixilhamentos da burocracia do discurso do amo e o encerramento das castas do discurso universitário.

O desejo do analista ligado ao seu ensino se sustentou da pergunta até o final.

Como manter aberta na prática analítica a iância que permite aceder ao real que escapa ao significante ?

Lacan encontra uma resposta quando situa a formação dos analistas como exigência primária quando diz que um analista é produto de uma análise e é a partir dali que se entende o enunciado “o analista só se autoriza dele mesmo” mas acrescenta, não só. Esta concepção da formação se acompanha de um requisito, um chamado aos analistas ao implicar-se nas questões que importa a análise, concernentes à formação na instituição a que pertencem, incluindo as questões institucionais e as gestões que possibilitem o analítico.

A relação de implicância com a política da psicanálise na instituição, modifica a posição subjetiva do analisante em sua própria análise e intervém na concepção da clínica dos analistas, na direção da cura. Assim o modo de vinculação dos sujeitos com a instituição analítica tem efeitos clínicos e afeta a teoria a qual se sustenta a clínica da análise.

Dalí a importância a instituição a que pertencem. A CLÍNICA DOS DISCURSOS.

Nos anos 70, so seminário O Avesso e em outros textos da época, Lacan realiza um novo giro para tratar o acesso do significante para bordear o real.

O gozo que dá conta da Coisa, limite interior do registro simbólico, é apreendido pelo conceito como objeto “a”, mais de gozar, nos quatro discurso que nomearei aqui: discurso do amo, discurso histérico, discurso universitário e o discurso do analista.

Como dizia no começo , me interessa desenvolver aqui o discurso histérico e sua incidência na instituição.

O discurso histérico é uma formulação de um modo de identificação assinalado por Freud na Psicologia das Massas e Análise do Eu. Lacan se ocupou de elucidar a identificação histérica desde o começo de seu ensino em seu estudo do estádio do espelho e o retoma até o final, no nó borromeo.

Como sabemos a identificação deriva da clínica da histeria porém não é exclusiva dela.

É a partir da escuta das histéricas que a outra cena do inconsciente se manifesta para Freud. Embaixadoras do saber inconsciente promoveram sem sabê-lo a causa do querer saber.

Desafio que interpelou a Freud quem logrou elaborar um dispositivo, o da psicanálise, que pusera ao trabalho a elaboração desse saber desde uma posição responsável. As elaborações teóricas permitiram arrancar do obscurantismo o desafio que representava o sintoma histérico para o discurso científico, nesse caso a medicina.

Quando Lacan elabora os quatro discursos, resgata a identificação histérica do campo da patologia para incluí-la como um modo de vínculo social.

A identificação da participação que permite a fluidez na relação entre os indivíduos. A utilização da imagem, tão presente na cultura atual, produz um efeito de coincidência que de um modo automático atua produzindo o fenômeno imaginário da união entre as pessoas. Esta facilitação esta sustentada do amor narcisista ao ideal em cada um. A identificação se apoia na cadeia significante da demanda ao outro em sua relação ao ideal, em correlação com o desejo sustentado no fantasma. O amor ao pai ideal se transfere ao líder. A identificação pelo objeto comum de amor idealizado operam nos grupos sociais, especialmente nos fenômenos das massas mas também nas instituições organizadas como a igreja e o exército.

Pondo em primeiro plano o amor pelo saber, no discurso histérico o sujeito manifesta sobre a barra sua divisão $ e promove a empatia dirigindo-se a obter um saber que preencha sua divisão, o S1 que possa nomear definitivamente o gozo mais além do falo, o gozo do objeto inominável.

Por abaixo da barra, no lugar que dá conta da verdade do discurso, se coloca como desconhecimento o mais de gozar, a marca renovada do menos da satisfação, assinalada desde o começo por Freud.

O sujeito emerge em sua insatisfação porque nesta posição o gozo não se encontra reabsorvido em algo do saber.

A prevalência imaginária do amor coloca o sujeito em sua posição de objeto que se subtrai ante a iminência de um suposto forçamento. Neste cálculo enganoso de domínio o sujeito se esquiva para tentar produzir um vazio no Outro pondo em primeiro plano a verdade da castração fazendo emergir a falta no saber, que é de estrutura. Dali que em ocasiões se tinha colocado a ênfase na função renovadora da histeria para fazer cambalear os ideais pré-estabelecidos e promover o discurso científico.

Ao nível do sujeito o saber produzido S2, se acrescenta a metonímia dos significantes sem envolver o sujeito nos significantes amo que o determinam, e pode dar consistência imaginária ao discurso do amo e sua derivação como discurso universitário.

Vejamos, no discurso histérico o sujeito dá a palavra ao outro, em seu ativismo se declara em greve para entregar seu saber e ilude o consentimento ao se fazer sujeito de sua palavra.

Lacan elaborou o matema do discurso do analista, enquanto a psicanálise dá lugar a um discurso novo que se diferencia do discurso histérico, introduzindo nele sua regulação a partir de por em primeiro lugar o objeto “a” rejeitado. Situando como objeto a causa do desejo opera com o ser do sujeito, que não se situa do lado do sentido senão da falta de sentido: a causa se encontra na iância entre os significantes: o lapso, o ato falho, o sintoma que se escapa à significação. A produção do saber é circunscrita, enquanto se obtém os significantes amo, sustentando a supremacia da enunciação, perda de gozo correlativa a separação da cadeia significante.

O discurso do analista opera fazendo produtivo o saber, que aqui tem outro registro enquanto surgido da estrutura do não – todo e se dirige ao sujeito que consente apelando à responsabilidade dos excessos de seus ditos, suas ações e suas demissões, fixações de gozo que comandam e o parasitam, na direção de ali onde isso era o sujeito deve advir.

Se bem o discurso do analista se sustenta do dispositivo analítico a estrutura quaternária do discurso se aplica ao tratamento do mal-estar nos grupos enquanto este discurso é o que permite a passagem de um discurso ao outro e bordeia os outros discursos revelando a fixação da verdade que os sustenta enquanto excluem a causa do desejo, ou seja ao sujeito.

Na instituição deixa aberta uma brecha para pensar em que consiste a formação do analista, se como falava anteriormente é solidária da clínica e afeta a existência mesma da psicanálise no porvir.

Os trilhos discursivos que provê a linguagem se entrecruzam também no discursos histérico e seus excessos e incidem na formação do analista na escola :

A transferência de trabalho que envolve a causa íntima do sujeito pode se confundir como moção ao trabalho

Os excessos do discurso do amo não se tratam a partir da depreciação sistemática dos lugares de gestão senão de cuidar que a gestão não advenha em burocracia ao serviço dos fins contrários à ética da psicanálise.

O rigor e o controle que requer a formação a oferecer pode se perder por trás dos véus do ideal da perfeição.

O chamado aos mais qualificados para pensar as questões da escola desvincula a elaboração no lugar onde se coze o saber, o trabalho na base em que se sustenta.

A histérica pode aparecer como revolucionária em sua proposta de mudança mas na realidade reforça aquilo que aparentemente quer superar. Podemos assim comprovar a falsa dialética entre o discurso histérico e o discurso do amo e seus derivados, enquanto se mantém no registro imaginário pululam os floreios metonímicos e as erudições de todo saber.

Lacan pois no centro da contra-experiência de sua escola ao desejo do analista que não se pode ensinar e ao mesmo tempo incide na formação dos analistas. No conceito da escola estão incluídos os suportes significantes que permitem o tratamento do gozo que se desprende dos discursos enquanto efeito do significante.

Um modelo de escola que toma como base a proposição de 64 e a Ata de Fundação de 67 cujo espírito recolhe até o final nos textos da dissolução no 80.

Que coloca em primeiro plano a responsabilidade e o compromisso de cada um com a causa da psicanálise enquanto envolve a causa íntima do sujeito e acolhe a analistas, não analistas, analisandos , não analisandos que desejam sentir-se concernidos nisso.

Ao desenvolver sua tese estabeleceu os sulcos significantes de uma estrutura circular onde afiançar a série como uma modalidade para o trabalho conjunto dos analistas.

Estes sulcos persistem e como podemos comprovar em nosso passado próximo, podem ser transformados e perder assim o alcance epistémico e ético de seus fundamentos elaborados a partir de uma clínica da instituição elaborada passo a passo por Lacan.



O que chamamos a crise de 98 foi proveitosa enquanto permitiu voltar a trabalhar os conceitos para propiciar o encontro renovado e fazer emergir esses sulcos, para quem assim o deseje com toda a força de uma interpelação.

Traduzido por Arturo Blanco
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