A formação histórica da igreja católica em três flashes: os anos 150, 325 e 420



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A formação histórica da igreja católica em três flashes: os anos 150, 325 e 420.
1. O ano 150: palavras que não entendemos mais.
Há como descobrir traços da atual igreja católica, como instituição, na história dos três primeiros séculos do movimento de Jesus? Os que tentaram descobrir esses traços têm de reconhecer: os documentos disponíveis não respondem às nossas perguntas. As palavras não colam. Isso se deve ao fato que fazemos perguntas a partir de uma igreja enorme, de mais de um bilhão de adeptos, e os documentos não respondem. Por volta do ano 150, quando emerge uma literatura cristã com certa envergadura, autores como Justino, Atenágoras, Barnabé e o autor anônimo da carta a Diogneto não respondem aos questionamentos de hoje. Eles não falam em ‘religião’, por exemplo. Na carta de Tiago se lê: ‘o culto puro e sem mácula consiste em assistir a órfãos e viúvas em suas dificuldades e guardar-se livre da corrupção do mundo’ (1, 26). Ele não usa o termo ‘religião’, mas fala em culto, o que significa dedicação, empenho. O Novo Testamento não tem um vocábulo equivalente ao termo latino ‘religio’, que provém do universo imperial romano. Em vez de falar em religião, os primeiros autores recorrem a termos como ‘caminho’, ‘modo de vida’, ‘escola’, ‘seguimento’, vida ‘fora da cidade’ ou ‘fora das portas’ (na Carta aos Hebreus).  Para os observadores de fora, os cristãos são ‘ateus’, ou seja, não participam de cultos programados pela administração do império. Outro exemplo: os termos ‘paróquia’ e ‘papa’ não têm, em 150, o sentido que lhes é atribuído hoje.  
Enfim, não encontramos a igreja católica de hoje nos escritos dos três primeiros séculos. A imagem de uma árvore genealógica’ do cristianismo, com um tronco original do qual derivariam as diversas confissões cristãs de hoje, não corresponde ao que os documentos dos três primeiros séculos nos informam. O que existe é a multiplicidades de comunidades que formulam projetos locais provisórios, passageiros e incompletos, inspirados no evangelho de Jesus. Não se enxerga, nos documentos dos primeiros séculos, uma linha de continuidade entre o projeto de Jesus e a igreja bizantina (ortodoxa) e, depois, católica, ou ainda protestante, etc. Pelo simples fato que Jesus não fundou uma instituição religiosa, mas lutou para renovar a fundo a instituição herdada de Moisés.
Além disso e mais fundamentalmente, desde o início ficou claro que não é fácil compreender o projeto de Jesus (Veja: Moingt, J., Deus que vem ao homem, I: do luto à revelação de Deus, Loyola, São Paulo 2010, 348-363). O Evangelho de Marcos mostra em diversos episódios que os apóstolos dificilmente compreendem Jesus. Marcião, o melhor teólogo do século II, confirma o que já está em Marcos: muitos seguidores de Jesus não entendem seu projeto.


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