A formação em Psicologia Organizacional



Baixar 34,98 Kb.
Encontro04.03.2018
Tamanho34,98 Kb.



A formação em Psicologia Organizacional
Bastos e Galvão-Martins (1990), a partir de análise ocupacional com uma amostra de sete psicólogos – descrição das atividades exercidas – organizaram uma lista das funções e tarefas do psicólogo organizacional. As funções apresentadas pelo autores foram as seguintes...

  1. contribuir para a produção teórica sobre o comportamento humano no contexto organizacional;

  2. fazer em equipe multiprofissional diagnóstico e proposições sobre problemas organizacionais relativos a RH, ao nível sistemático;

  3. analisar as atividades intrínsecas ao trabalho desenvolvido na organização para subsidiar elaboração de instrumentos necessários à administração de RH e modernização administrativa;

  4. promover treinamento e desenvolvimento de pessoal;

  5. realizar avaliação de desempenho;

  6. implementar a política de estágio da organização;

  7. supervisionar as atividades do estagiário de Psicologia;

  8. desenvolver em equipe multiprofissional a política de saúde ocupacional da organização;

  9. desenvolver, em equipe multiprofissional, ações de assistência psicossocial que facilitem a integração do trabalhador na organização;

  10. estabelecer em equipe multiprofissional relações em órgãos de classe;

  11. efetuar movimentação interna de pessoal;

  12. preencher com pessoal externo as vagas existentes na organização;

  13. implantar ou atualizar planos de cargos e salários;

  14. coordenar, quando responsável pelo gerenciamento de RH, as ações de documentação e pagamento de pessoal. Essa relação menciona atividades para as quais o psicólogo não foi preparado em seus cursos de formação, evidenciando a defasagem existente entre formação e atuação profissional.

Zanelli (1994) procurou verificar a atuação do psicólogo brasileiro junto às organizações de trabalho. O objetivo de seu estudo concentrou-se em...


identificar e analisar as necessidades derivadas, das atividades de trabalho do psicólogo organizacional brasileiro e suas inter-relações com a formação profissional, suas condições e implicações (Zanelli,1994:13).
A estratégia utilizada pelo autor foi a exploração e descrição dos conteúdos verbais identificados como necessidades dos psicólogos organizacionais (Zanelli, 1994:14).
O procedimento dividiu-se em duas fases...

  1. coleta e estruturação dos conteúdos verbais e

  2. sistematização dos conteúdos verbais em conjuntos temáticos e estabelecimento das inter-relações entre os conteúdos (Zanelli, 1994:14).

A questão apresentada aos sujeitos foi a seguinte: Quais são as necessidades possíveis de serem identificadas nos psicólogos organizacionais quando se comparam as inter-relações entre a formação profissional e as atividades de trabalho?


A partir de relatos de um pequeno grupo de sete psicólogos organizacionais, o autor abordou o problema da atuação do psicólogo nas organizações e sua inter-relação com o processo de formação profissional. Os dados obtidos pela pesquisa de Zanelli indicam que os cursos de Psicologia preparam mal e predispõem os alunos de forma negativa para as atividades da área organizacional.

A formação privilegia a prática em consultório e mostra-se insatisfatória para as demais áreas de atuação (Zanelli, 1994:177).
Os valores apresentados nos cursos de Psicologia não coincidem com os valores presentes nas organizações produtivas. Nas instituições, o psicólogo continua a ser reconhecido como o profissional que utiliza testes psicológicos e reproduz o antigo modelo da Psicotécnica. Conclui Zanelli (1994;177) que é necessário reverter a expectativa generalizada nas organizações e a estereotipia que existe nos cursos em relação ao papel do psicólogo organizacional.
Zanelli (1994b), a partir de resultados de pesquisa com profissionais da área de Psicologia Organizacional e do Trabalho, apresenta diversos pontos que devem ser observados na formação do psicólogo que atua nessa área. Deve-se procurar romper o nível técnico de atuação e buscar uma visão ampliada da prática. Atividades mais complexas devem ser agregadas por aqueles que buscam um desempenho renovado. A permanência no nível técnico dificulta ao psicólogo perceber possibilidades de intersecção, de estar integrado no nível de planejamento estratégico e faz com que contribua para a manutenção da situação e não para sua mudança.
As limitações são devidas à falta de preparo para propor novas atividades e ao desinteresse pelas atividades de aplicação da Psicologia nas organizações. Devem ser implementadas as intervenções de psicólogos em aspectos da área que recebem muita atenção em outros países, como os acidentes no trabalho e as atividades vinculadas à Ergonomia, mas que, no Brasil, permanecem um campo fechado à atuação do psicólogo. A atuação do psicólogo deve levar em conta uma participação e transparência nas rotinas administrativas. A procura de um desempenho inovador conduz o psicólogo a posições de liderança, na coordenação de órgãos de Recursos Humanos, em atividades ligadas às estratégias de empresa, comumente visando o aumento da participação.
Os órgãos de Recursos Humanos têm se tornado órgãos de assessoria direta da presidência, com aumento de poder, participando mais amplamente no planejamento e na mudança organizacional. O psicólogo assume o papel de consultor. O departamento de Recursos Humanos e, por conseqüência, o psicólogo, deve se envolver nos programas de qualidade. As atividades ligadas à qualidade de vida constituem a base do movimento atual de saúde mental no trabalho, associado aos programas de qualidade total. A ênfase desloca-se da formação de gerentes ou líderes para o enfoque no grupo.
A ascensão dos órgãos de Recursos Humanos aos níveis de maior decisão e influência foi descrita como dependente da cultura da empresa. O psicólogo deve considerar a cultura da empresa ou conjunto de valores que estabelecem a ética e a prática. A falta de atenção para os processos de mudanças, internas e externas à organização, e de tentativas de reajustar e influenciar processos acabam colocando a atuação do psicólogo como a de um profissional que está perdendo espaço.
Para Zanelli (1994), a Psicologia passou a analisar problemas com maior independência da Administração. Abordagens que enfatizam o subjetivo, apesar de serem descritas como o rumo recente da Psicologia nas organizações, são recebidas com resistência em contextos culturais [em que] se têm instalados parâmetros de controle e quantificação mais rígidos. O autor verificou a falta de preparo de grande parte dos psicólogos organizacionais para assumir posições de autonomia e, mesmo para assumir o próprio negócio em atividades de consultoria externa. Como conseqüência, são necessários o treino na prática da consultoria busca de independência na formulação de propostas, sem que se perca de vista as trocas interprofissionais Em suma, na área organizacional, destacam-se a necessidade de capacitação para atuação multidisciplinar, atividade interprofissional, identificação e solução de problemas, relacionamento interpessoal,

além da necessidade de maturidade pessoal e habilidades cognitivas e interpessoais.


As distorções da formação dificultam o estudo de estratégias aplicáveis ao contexto da produção de serviços e prejudicam a imagem do psicólogo em suas atividades organizacionais. É difundida nos cursos uma imagem de área menos nobre, o que favorece sua pouca valorização também no contexto profissional (Zanelli, 1994a). O conhecimento transmitido aos alunos é fragmentário. O estudante de Psicologia não chega a conhecer o mundo das organizações. São ensinadas técnicas esparsas, sem considerar o contexto e priorizam-se aspectos segmentários da realidade.
As informações transmitidas não são relacionadas às possibilidades de aplicação. A teoria é desarticulada da prática e até mesmo, do contexto teórico. A formação é essencialmente técnica, descontextualizada e desatualizada (Zaneli, 1994a:178). Os profissionais devem desenvolver idéias criativas e úteis para a empresa. Mas, criatividade e inovação dependem de embasamento metodológico, senso crítico e interesse pelo trabalho, aspectos pouco desenvolvidos entre os psicólogos em organizações. A ação criativa depende de maturidade intelectual, de saber confrontar a realidade e as teorias, de saber pesquisar, etc. (Zanelli, 1994a:179).
A Psicologia Organizacional apresenta uma pequena produção de conhecimento no Brasil, sendo dependente da produção estrangeira, especialmente dos Estados Unidos. O conhecimento gerado nas universidades brasileiras também encontra dificuldades de penetração entre os profissionais que atuam nas organizações, sendo produzido isoladamente do contexto de aplicação (Zanelli, 1994a).
A descrição apresentada por Zanelli, com referência aos professores que atuam na área de Psicologia Organizacional, demonstra a precariedade do setor: os professores mostram-se alheios aos problemas pertinentes à Psicologia Organizacional. Apresentam-se despreparados e desmotivados e passam uma idéia estereotipada das atividades da Psicologia nas organizações. Professores com pouca prática e interesse encontram oportunidade de permanência no ensino de terceiro grau por ministrar as disciplinas da área e não são capazes de promover alterações de cunho didático-pedagógico.
Os alunos acabam repetindo os padrões que aprenderam através dos modelos que os professores oferecem (Zanelli, 1994a:179-180). Para alterar esse quadro, os professores deveriam estar voltados para a área Organizacional e para atividades de pesquisa.
[...]
As disciplinas, nos cursos de Psicologia, também não vinculam os aspectos metodológicos e de repertório necessários ao futuro profissional, A pesquisa é vista como algo desvinculado da aplicação. A precariedade da formação do psicólogo organizacional é um reflexo da precariedade do próprio sistema educacional brasileiro (Zanelli, 1994a). Concluindo, Zanelli apresenta uma relação dos principais tópicos relacionados à formação e atuação competente do psicólogo nas organizações, considerando que a falta de apreensão crítica da realidade e a falta de domínio científico resumem a realidade no preparo dos psicólogos brasileiros.Os tópicos apresentados pelo autor são os seguintes...

  1. o trabalho competente não restringe à parrcela de comportamentos da pessoa que interessam à produção;

  2. é preciso estar preparado para as atividades administrativas e conhecer o processo de trabalho;

  3. é necessário desenvolver a percepção do papel, da inserção nas relações de produção e das habilidades de interação ao nível do poder e da autoridade;

  4. a geração de competência não depende apenas de reformulações internas ao ensino e à prática mas também das expectativas das organizações e das regras do mercado;

  5. a geração de competência depende do reconhecimento da importância do fenômeno organizacional e da questão do trabalho, da valorização do embasamento metodológico científico e visão de globalidade;

  6. requer conhecimentos críticos do contexto imediato e mediato e habilidades de análises das finalidades do trabalho em um sistema e poder;

  7. requer capacitação técnica, compreendida como mediação do compromisso político;

  8. depende da capacidade individual, da criatividade e do desejo de promover mudanças no ambiente;

  9. depende da clarificação do papel do psicólogo como um agente e mudanças, em atividades interprofissionais, através dos cursos de análise globalizada e intervenções interdependentes e participativas;

  10. depende da reflexão crítica, quer teórico-metodológica,quer ético-política;

  11. requer o emprego dos modelos de ação, conhecimentos e procedimentos disponíveis na área;

  12. requer atualização de conhecimentos e habilidades;

  13. requer o desenvolvimento de uma visão preventiva, emprego do método científico em um contexto social, associação das teorias com a prática e aceitação de critérios externos de avaliação;

  14. requer enfrentamento dos problemas correntes nas organizações, através do arranjo de critérios e instrumentos para configurar um problema, um diagnóstico e propostas de solução, com resultados válidos e inteligíveis para a comunidade: domínio de parâmetros de pesquisa;

  15. requer capacidade de avaliação do potencial dos instrumentos e procedimentos de gerar novas alternativas de coleta e análise de dados;

  16. requer suporte teórico-metodológico e reflexão sobre a prática;

  17. requer contextualizar os problemas humanos da organização;

  18. requer avaliação continuada do próprio fazer, uma rotina que, para o profissional, torna-se auto-educativa e emancipadora;

  19. requer iniciativa, romper a restrição ao nível técnico e aprofundar a visão política e globalizada;

  20. requer capacidade para lidar com o fenômeno organizacional e com as questões de poder;

  21. requer o discernimento e compromisso político, através de uma formação abrangente, que não se limite às linhas arbitrárias de um área de atuação e da integração política na sociedade, através do trabalho (Zanelli, 1994a:181-183).

Na atual situação, os professores devem recomendar aos alunos a participação em cursos, congressos e o convívio com alunos e professores dos departamentos vinculados ao mundo do trabalho e dos negócios O aluno também deve participar, se possível, de disciplinas optativas nos cursos de Administração, Economia e outros. Também deve procurar, o mais breve possível, desenvolver atividades relativas à área, como auxiliar ou estagiário em empresas (Zanelli, 1994a:190).


A formação do psicólogo para trabalhar em instituições deve ser ampla quanto às teorias psicológicas e aos conhecimentos básicos da Psicologia, como motivação, aprendizagem, percepção etc. Deve incluir áreas de conhecimento relacionadas aos negócios e à indústria, como a Administração, a Economia, a Sociologia e mesmo aspectos das Engenharias. Deve haver o confronto entre as atitudes que permeiam o ambiente da formação e ambiente das organizações (Zanelli, 1994a).
Os trabalhos analisados no presente capítulo apontam para a existência de um descompasso entre a formação e a atuação dos psicólogos nas organizações. Há indícios de que a formação não tem atendido necessidades do psicólogo enquanto profissional, inclusive na área organizacional. Portanto, em meio à problemática levantada pelos autores citados, pode-se concluir que a atividade profissional do psicólogo nas organizações e sua formação estão sendo discutidas.
As discussões, por um lado, têm se preocupado em caracterizar as atividades desses profissionais no mercado de trabalho, enquanto outras têm tratado da defasagem existente entre estas atividades e a formação efetivamente proporcionada nos cursos de Psicologia. Nesse caso, vários autores apontam para necessidades de mudanças nos cursos de formação, procurando um maior contato com a realidade de mercado.
Fonte
A FORMAÇÃO em Psicologia Organizacional. [S.l.:s.n.].




Compartilhe com seus amigos:


©psicod.org 2017
enviar mensagem

    Página principal