A deus toda a glória



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e) Nas injunções diretas e indiretas da Escritura. A Escritura nos estimula ao estudo integral e abrangente da verdade (Jo 5.39, "examinai as Escrituras"), à comparação e harmonização de suas diferentes partes (1 Co 2.13 – "comparando as coisas espirituais com as espirituais"), à reunião de tudo em torno do fato central da revelação (Cl. 1.27 – "que é Cristo em vós, esperança da glória"), à pregação na forma sadia assim como em suas devidas proporções (2 Tm 4.2 "prega a palavra"). O ministro do evangelho é chamado "escriba que se fez discípulo do reino do céu" (Mt 13.52); os "pastores" das igrejas devem ser ao mesmo tempo "mestres" (Ef 4.11); o bispo deve ser "apto para ensinar" (1 Tm. 3.2), "que maneja bem a palavra da verdade" (2 Tm 2.15), retendo firme a palavra fiel, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para exortar na sã doutrina como para convencer os contradizentes" (Tt 1.9).

Como um meio de instrução da igreja e de garantia do progresso no entendimento da verdade cristã, é bom que o pastor pregue regularmente, a cada mês, um sermão doutrinário e exponha os principais artigos da fé. O tratamento da doutrina em tais sermões deve ser bastante simples a fim de ser compreensível à inteligência jovem; convém torná-lo vívido e interessante auxiliado por breves ilustrações; e pelo menos um terço de cada sermão deve ser dedicado a aplicações práticas da doutrina proposta. Ver o sermão de Jonathan Edwards sobre a Importância do Conhecimento da Verdade Divina, Obras, 4.1-15. Os verdadeiros sermões de Edwards, contudo, não servem de modelo para a pregação doutrinária para a nossa geração. Eles são de forma muito escolástica, de substância muito metafísica; há muito pouco de Bíblia e muito pouco de ilustração. A pregação doutrinária dos Puritanos Ingleses de igual modo se dirigia quase somente a adultos. Por outro lado, a pregação do nosso Senhor adaptava-se também às crianças. Nenhum pastor se consideraria fiel, se permitisse aos seus jovens crescerem sem a instrução regular do púlpito no círculo inteiro da doutrina cristã. Shakespeare, Rei Henrique VI, 2ª parte, 4.7 – "A ignorância é a maldição de Deus; o conhecimento é a asa com que voamos ao céu”.


V. RELAÇÃO COM A RELIGIÃO: A teologia e a religião relacionam-se uma com a outra como efeitos em diversas esferas da mesma causa. Como a teologia é o efeito produzido na esfera do pensamento sistemático com os fatos relativos a Deus e o universo, assim a religião é o efeito que estes mesmos fatos produzem na esfera da vida individual e coletiva. Com relação à palavra 'religião', note:
1. Derivação.

a) A derivação de religare, "ligar novamente" (o homem a Deus), é negada pela autoridade de Cícero e dos melhores etimologistas modernos; em vista da dificuldade, nesta hipótese, de explicar formas tais como religio, religens; e pela necessidade, em tal caso de pressupor um conhecimento mais completo do pecado e da redenção do que era comum ao mundo antigo.
b) A derivação mais correta é relegere, "reexaminar", "ponderar cuidadosamente". Portanto, seu sentido original é "observância reverente" (dos deveres para com os deuses).
(20) 2. Falsas Concepções.

a) Religião não é, como declarava Hegel, um tipo de conhecimento; pois, então, só seria uma forma incompleta de filosofia e a medida do conhecimento em cada caso seria a medida da piedade.

No sistema do panteísmo idealista, como o de Hegel, Deus é tanto o sujeito como o objeto da religião. A religião é o conhecimento do próprio Deus através da consciência humana. Hegel não ignora totalmente outros elementos na religião. “O sentimento, a intuição e a fé pertencem-lhe”, diz ele, ”e o conhecimento desacompanhado é caolho”. Contudo Hegel sempre ele aguardava o movimento do pensamento em todas formas da vida; Deus e o universo são apenas um desenvolvimento da idéia primordial. “O que o conhecimento precisa saber”, pergunta ele, “se Deus é incognoscível?” O conhecimento de Deus é a vida eterna e o pensamento é também a verdadeira adoração”. O erro de Hegel está em considerar a vida como um processo do pensamento, ao invés de considerá-lo como um processo da vida. Eis aqui a razão da amargura entre Hegel e Schleiermacher. Hegel considera corretamente que o sentimento deve tornar-se inteligente antes que seja verdadeiramente religioso, mas não reconhece a suprema importância do amor no sistema teológico. Ele abre menos espaço para a vontade do que para as emoções, e não vê que o conhecimento de Deus de que fala a Escritura não se limita ao intelecto, mas compreende o homem todo, incluindo a natureza afetiva e a voluntária. Goethe: “Como pode o homem vir a conhecer a si mesmo? Nunca através dos pensamentos, mas da ação. Tente praticar o seu dever e você saberá o que você merece. Você não pode tocar uma flauta apenas soprando – você precisa empregar os dedos”.

Do mesmo modo nunca podemos chegar a conhecer a Deus só através do pensamento. Jo 7.17 – "Se alguém quer fazer a vontade dele, pela mesma doutrina, conhecerá se ela é de Deus “. Os Gnósticos, Stapfer, Henrique VIII, mostraram que pode haver muito conhecimento teológico sem a verdadeira religião. A máxima de Chillingworth, “Somente a Bíblia, a religião dos protestantes”, é inadequada e imprecisa; porque a Bíblia sem a fé, o amor, e a obediência pode tornar-se um fetiche e uma armadilha: Jo 5.39,40 --- “Vós examinais as Escrituras, ... e não quereis vir a mim para terdes vida”.

b) A religião não é, como sustentava Schleiermacher, o simples sentimento de dependência; pois tal sentimento de dependência não é religioso, a não ser quando exercido para Deus e acompanhado por esforço moral.

Na teologia alemã, Schleiermacher constitui a transição do velho racionalismo para a fé evangélica. “Como Lázaro, com a mortalha da filosofia panteísta embaraçando os seus passos”, embora com a experiência morávia da vida de Deus na alma, ele baseou a religião nas certezas interiores do sentimento cristão. Mas o presidente Fairbairn assinala: “A emoção é impotente a não ser que ela fale baseada na convicção; e onde há convicção existe a emoção que é poderosa para persuadir”. Se o cristianismo for apenas um sentimento, não há diferença alguma entre ele e as outras religiões porque todas são produto do sentimento religioso. Mas o cristianismo se distingue das outras religiões pelas suas concepções peculiares. A doutrina precede a vida e a doutrina cristã, não o simples sentimento religioso, é a causa do cristianismo como religião distintiva. Apesar de que a fé começa com o sentimento, não termina aí. Vemos o demérito do sentimento nas emoções transitórias dos que vão ao teatro e nos ocasionais fenômenos avivalistas. (21) Sabatier, Filosofia da Religião, 27, acrescenta ao elemento passivo da dependência de Schleiermacher, o elemento ativo da oração. Kaftan, Dogmatik, 10 – "Schleiermacher considera Deus como a fonte do nosso ser, mas esquece que ele também é o nosso fim”. A comunhão e o progresso são elementos tão importantes como a dependência; a comunhão deve anteceder o progresso – ela pressupõe perdão e vida. Parece que Schleiermacher não crê nem num Deus pessoal nem na sua imortalidade pessoal; ver Vida e Cartas, 2.77-90; Martineau, Estudo da Religião, 2.357. Charles Hodge compara-o a uma escada num poço – boa coisa para quem quer sair, mas não para quem quer entrar. Dorner: “A irmandade morávia era a sua mãe; a Grécia a sua pagem”.


c) Religião não é, como sustentava Kant, moralidade ou ação moral; pois moralidade é conformidade com uma lei abstrata de direito, enquanto a religião é essencialmente relação com uma pessoa de quem a alma recebe bênção e a quem se entrega em amor e obediência.

Kant, Kritik der praktischen Vernunft, Beschluss (Crítica da Razão Prática, Conclusão): “Conheço apenas de duas coisas belas: o céu estrelado acima da minha cabeça e o senso do dever dentro do meu coração”. Mas o simples senso do dever quase sempre causa angústia. Fazemos objeção à palavra “obedecer” como um imperativo da religião porque 1) faz da religião somente matéria da vontade; 2) a vontade pressupõe o sentimento; 3) o amor não está sujeito à vontade; 4) faz que Deus seja todo lei e não graça; 5) faz do cristão apenas um servo, não um amigo; cf. Jo 15.15 – "Já vos não chamarei servos ... mas tenho-vos chamado amigos” – uma relação não de serviço mas de amor (Westcott, Comentário Bíblico in loco). A voz que fala é a voz do amor, em vez da voz da lei. Fazemos objeção também à definição de Matthew Arnold: “Religião é a ética elevada, iluminada, acendida pelo sentimento; é a moral tocada pela emoção”. Isto exclui o elemento receptivo na religião assim como a sua relação com o Deus pessoal. A afirmação mais verdadeira é que a religião é a moral em direção a Deus, como a moral é a religião em direção ao homem. Bowne, Filosofia do Teísmo, 251 –

"A moral que não vai além da simples consciência deve recorrer à religião”; ver Lotze, Filosofia da Religião, 128-142. Goethe: “A atividade desqualificada, seja de que tipo for, conduz, por fim, à bancarrota”.
3. Idéia Essencial: Religião, em sua idéia essencial, é vida em Deus, vivida no reconhecimento de Deus, em comunhão com Deus e sob o controle do Espírito de Deus que habita o homem. Porque é vida, não pode ser descrita como consistindo unicamente no exercício de qualquer das forças do intelecto, do sentimento e da vontade. Como a vida física envolve unidade e cooperação de todos os órgãos do corpo, assim a religião, ou vida espiritual, a obra unificada de todas as forças da alma. Para sentir, contudo, devemos atribuir prioridade lógica, visto que todo o sentimento para com Deus comunicado na regeneração é condição para o verdadeiro conhecimento de Deus e para o verdadeiro serviço prestado a ele.

Godet, O Desígnio Último do Homem – "Deus no homem, e o homem em Deus” – Revista de Princeton, nov. 1880; Pfleiderer, Die Religion, 5-79, e Religionsphilosophie (Filosofia da Religião) 255 – A religião é “Sache des ganzen Geisteslebens” (O objetivo da vida espiritual inteira): Crane, A Religião de Amanhã, 4 – "Religião é a influência pessoal do Deus imanente”; Sterrett, Razão e Autoridade na Religião, 31,32 – "A Religião é a relação recíproca ou a comunhão entre Deus e o homem, envolvendo 1) a revelação, 2) a fé; Dr. J.W.A. Stewart: “Religião é comunhão com Deus”; Pascal: “Piedade é a sensibilidade de Deus para com o coração”; Ritschl, Justificação e Reconciliação, 13 – "O cristianismo é uma elipse com dois focos – Cristo como Redentor e Cristo como Rei, Cristo por nós e Cristo em nós, redenção e moralidade, religião e ética”; Kaftan, Dogmatik, 8 – "A religião cristã é 1) o reino de Deus como a meta acima do mundo, a ser atingida pelo desenvolvimento moral aqui, e 2) reconciliação com Deus permitindo atingir esta meta a despeito dos nossos pecados. A teologia cristã, uma vez estabelecida no conhecimento que o homem tem de Deus; agora partimos para a religião, i.e., o conhecimento cristão de Deus, que chamamos fé”. Herbert Spencer: “Religião é uma teoria a priori do universo”; Romanes, Pensamentos sobre a Religião, 43, acrescenta: “que admite a personalidade inteligente como a causa originadora do universo; a ciência trata do Cosmo, o processo fenomenal, a religião trata do Quem, a Personalidade inteligente que opera através do processo”. Holland, Lux Mundi, 27 – "A vida natural é a vida em Deus que ainda não chegou a tal reconhecimento” – o reconhecimento do fato de que Deus está em todas as coisas – "contudo, não é, como tal, religioso; ... A religião é a descoberta, através do filho, de um Pai, que está em todas as suas obras, embora distinto de todas elas”. Dewey, Psicologia, 283 – "O sentimento acha a sua expressão absolutamente universal na emoção religiosa, que é o achamento ou realização do eu em uma personalidade completamente realizada, que reúne em si a verdade, ou a unidade completa da relação de todos os objetos, beleza ou unidade completa de todos os valores ideais, e retidão ou a unidade completa em todas as pessoas. A emoção que acompanha a vida religiosa é aquela que acompanha a nossa atividade completa; o eu se realiza e encontra a sua verdadeira vida em Deus”. Upton, Preleções em Hibbert, 262 – "A ética é simplesmente o discernimento que se desenvolve na sociedade e o esforço para atualizar-se nela, o senso do reinado fundamental e a identidade substancial em todos homens; conquanto a religião seja emoção, e a devoção que assiste a realização em nossa consciência própria sobre o mais íntimo relacionamento espiritual provindo dessa unidade de substância que constitui o homem o verdadeiro filho do Pai eterno”.

4. Inferências: Desta definição de religião segue-se:

a) Que, a rigor, só há uma religião. O homem é, na verdade, um ser religioso, que tem a capacidade desta vida divina. Contudo, ele é realmente religioso, só quando entra nesta relação viva com Deus. As falsas religiões são caricaturas que os homens fazem do pecado, ou a imaginação que o homem tateia após a luz, forma da vida da alma em Deus.

Peabody, Cristianismo, a Religião da Natureza, 18 – "Se o cristianismo for verdadeiro, não é uma religião, mas a religião. Se o judaísmo também for verdadeiro, não se distingue do cristianismo, mas coincide com ele, que é a única religião com que pode relacionar-se. Se houver porções de verdade em outros sistemas religiosos, estes não são porções de outras religiões, mas da única que, de uma forma ou de outra se incorporaram a fábulas e falsidades”. John Caird, Idéias Fundamentais do Cristianismo, 1.25 – "Você nunca pode alcançar a verdadeira idéia ou essência da religião somente tentando descobrir algo comum a todas religiões; não são as inferiores que explicam as mais elevadas, mas, ao contrário, a mais elevada explica todas as inferiores”. George P. Fisher: “O reconhecimento de alguns elementos da verdade nas religiões étnicas não significa que o cristianismo tem defeitos que devem ser corrigidos tomando de empréstimo delas; significa que as crenças étnicas têm em fragmentos o que o cristianismo tem no seu todo. A religião comparativa não traz para o cristianismo alguma verdade nova; ela fornece ilustrações de como a verdade cristã vai ao encontro das necessidades humanas e aspirações e dá uma visão completa daquilo que o mais espiritual e o mais dotado entre os pagãos só discernem obscuramente”.

Dr. Parkhurst, sermão sobre Pv 20.27 – "O espírito do homem é a lâmpada do Senhor” – Uma lâmpada, mas não necessariamente iluminada; uma lâmpada que pode ser acendida só pelo toque de uma chama divina” = o homem tem natural e universalmente capacidade para a religião, mas não é natural e universalmente religioso. Todas as falsas religiões têm algum elemento de verdade; caso contrário nunca poderiam ter obtido e conservado o apoio sobre a humanidade. Precisamos reconhecer tais elementos de verdade ao tratá-los. Há alguma prata em um dólar falsificado; caso contrário, não enganaria ninguém; mas o fino banho de prata sobre o chumbo não impede que seja um dinheiro de má qualidade. Clarke, Teologia Cristã, 8 – "Veja os métodos de Paulo tratar a religião pagã, em Atos 14 com o grosseiro paganismo e em Atos 17 com a sua forma erudita. Ele a trata com simpatia e justiça. A teologia cristã tem a vantagem de andar à luz da manifestação própria de Deus em Cristo, enquanto as religiões pagãs tateiam em Deus e o adoram na ignorância”; cf. At 14.15 – "e anunciamo-vos que vos convertais dessas vaidades ao Deus vivo”; 17.22,23 – "em tudo vos vejo acentuadamente religiosos. ... Esse que honrais não conhecendo é o que eu vos anuncio”.

Matthew Arnold: "Filhos dos homens! O Poder invisível cujo olho acompanha a humanidade sem desprezar qualquer religião que o homem encontre. O que não ensinou as fracas vontades até aonde elas podem chegar? Qual não clamou ao homem que imerge Podes tu nascer de novo'? "O cristianismo é totalmente exclusivo porque é absolutamente inclusivo. Não é um amálgama de outras religiões, mas tem em si tudo de melhor e mais verdadeiro de outras religiões. É a branca luz que contém todos os raios coloridos. Deus pode ter feito revelações da verdade fora do judaísmo, e o fez em Balaão, Melquisedeque, em Confúcio e em Sócrates. Mas, enquanto outras religiões têm uma excelência relativa, o cristianismo é a religião absoluta, que contém todas as excelências. Matheson, Mensagens das Antigas Religiões, 328-342 – "Cristianismo é reconciliação. Inclui a aspiração do Egito; vê, nesta aspiração, Deus na alma (bramanismo); reconhece o poder do mal do pecado com o Zoroastrianismo; retrocede a um início puro como a China; entrega-se à fraternidade humana como Buda; extrai tudo do interior como o judaísmo; torna bela a vida presente como a Grécia; procura o reino universal como Roma; apresenta o desenvolvimento da vida divina como os teutões. O cristianismo é a múltipla sabedoria de Deus”.



b) Que o conteúdo da religião é maior do que o da teologia. Os fatos da religião se nivelam aos da teologia só naquilo que podem ser concebidos de um modo definido, precisamente expressos em linguagem e postos em relação racional uns com os outros.

Este princípio capacita-nos a definir os limites próprios de uma comunhão religiosa. Deve ser de tal modo amplo como a própria religião. Mas é importante lembrar o que é a religião. Ela não deve ser identificada com a capacidade de ser religioso. Nem podemos considerar as perversões e caricaturas da religião como méritos da nossa comunhão. Caso contrário, poder-se-ia requerer que tivéssemos comunhão com o culto aos demônios, com a poligamia, com o banditismo e com a inquisição; porque tudo isso tem sido dignificado em nome da religião. A verdadeira religião envolve um certo conhecimento, embora rudimentar, do verdadeiro Deus, o Deus da justiça; algum senso do pecado como o contraste entre o caráter humano e o padrão divino; um certo lançamento da alma sobre a misericórdia divina e o processo divino da salvação em lugar da justiça própria para obter o mérito e a confiança nas obras e nas sua memórias; algum esforço prático para realizar o princípio ético em uma vida pura e na influência sobre os outros. Sempre que aparecerem estas marcas da verdadeira religião, ainda que nos unitários, romanistas, judeus ou budistas, reconhecer-se-á a demanda de comunhão. Mas atribuímos também estes germes da verdadeira religião na operação da obra do Cristo onipresente, “a luz que alumia todo homem” (Jo 1.9), e vemos neles o incipiente arrependimento e a fé, embora o seu objetivo ainda seja nominalmente desconhecido. A comunhão cristã deve ter maior base na verdade cristã aceita e a comunhão da igreja ainda maior base no reconhecimento comum do ensino do N.T. no que se refere à igreja. A comunhão religiosa, neste sentido mais amplo, apóia-se no fato de que “Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e faz o que é justo” (At 10.34,35).


c) Que a religião pode distinguir-se do louvor formal, que é simplesmente a expressão exterior da religião. Como tal expressão, o louvor é "a comunhão formal entre Deus e seu povo". Nele Deus fala ao homem e o homem a Deus. Portanto, inclui adequadamente a leitura da Escritura e a pregação da parte de Deus e a oração e o cântico da parte do povo.

Sterrett, Razão e Autoridade na Religião, 166 – "A adoração cristã é o pronunciamento do espírito”. Porém no verdadeiro amor existe mais do que se pode pôr numa letra amorosa e, na religião, existe mais do que se pode expressar quer na teologia, quer na adoração. A adoração cristã é comunhão entre Deus e o homem. Mas a comunhão não pode ser unilateral. Madame de Staël, que Heine chamava de “torvelinho em saias”, encerra um dos seus solilóquios, dizendo: “Que deliciosa conversa tivemos!” Podemos achar uma ilustração melhor da natureza do culto nos diálogos de Thomas à Kempis entre o santo e o seu Salvador, na Imitação de Cristo. Goethe: “Contra a grande superioridade de uma outra pessoa não há remédio senão o amor. ... Louvar um homem é pôr-se no seu nível”. Se este for o efeito do louvor e louvor ao homem, qual não deve ser o de amar e louvar a Deus! Inscrição na Igreja em Grasmere: “Quem quer que sejas tu que entras na igreja, não a deixes sem um louvor a Deus por ti mesmo, por aqueles que ministram, e por aqueles que adoram neste lugar”. Tg 1.27 – "A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, guardar-se da corrupção do mundo” – "religião”, qrhskeiva, é cultus exterior; e significa “o serviço exterior, o garbo externo, o próprio ritual do cristianismo, é vida de pureza, amor e devoção própria. O escritor não diz qual pode ser a sua verdadeira essência, o recôndito do seu espírito, mas deixa que se infira”.


CAPÍTULO II.
MATERIAL DA TEOLOGIA.
I. FONTES DA TEOLOGIA. – Em última análise, o próprio Deus deve ser a única fonte do conhecimento a respeito do seu ser e relações. Portanto, a teologia é um resumo e explicação do conteúdo das revelações que Deus faz de si mesmo. São estas, em primeiro lugar, a revelação de Deus na natureza; em segundo lugar e supremamente a revelação de Deus nas Escrituras.

Ambrósio: “A quem creditarei maior grandeza a respeito de Deus senão ao próprio Deus”? Von Baader: “É impossível conhecer Deus sem Deus; não há conhecimento sem aquele que é a fonte primordial”. C.A. Briggs, Para Onde, 8 – "Deus revela a verdade em diversas esferas: na natureza universal, na constituição da humanidade, na história da nossa raça, nas Escrituras Sagradas, mas, acima de tudo, na Pessoa de Jesus Cristo, nosso Senhor”. F.H. Johnson, O que é Realidade? 39 – "O mestre interfere quando é necessário. A revelação auxilia a razão e a consciência, mas não as substitui. O catolicismo, porém, afirma que a igreja as substitui, e o protestantismo que é a Bíblia que faz isto. A Bíblia, como a natureza, dá muitos dons gratuitos, porém em germe. O crescimento dos ideais éticos deve interpretar a Bíblia”. A.J.F. Behrends: “A Bíblia é apenas um telescópio; não é o olho que vê, nem as estrelas que o telescópio traz à vista. Você tem a preocupação e eu também de ver as estrelas com os nossos próprios olhos”. Schurman, Agnosticismo, 178 – "A Bíblia é uma lente através da qual se vê o Deus vivo. Mas ela é inútil quando você desvia dela os olhos”.

Só podemos conhecer a Deus na medida em que ele se revela. Conhece-se o Deus imanente, mas o Deus transcendente não conhecemos como só conhecemos uma dos faces da lua, a que se volta para nós. A. H. Strong, Cristo na Criação, 113 – "A palavra ‘autoridade’ deriva de auctor, augeo, ‘’acrescentar’. A autoridade acrescenta alguma coisa à verdade comunicada. O que se acrescenta é o elemento pessoal do testemunho. Isto é necessário sempre que não se pode remover a ignorância com o nosso próprio esforço, ou a falta de vontade que resulta do nosso próprio pecado. Na religião preciso acrescentar ao meu próprio conhecimento aquilo que Deus concede. A razão, a consciência, a igreja, a Escritura, todas são autoridades delegadas e subordinadas; a única autoridade original e suprema é o próprio Deus revelado e que se fez compreendido por nós”. Gore, Encarnação, 181 --- “Toda a legítima autoridade representa a razão de Deus, educando a razão do homem e comunicando-se com ela. ... O homem foi feito à imagem de Deus: ele é, na capacidade fundamental, filho de Deus, e torna-se assim de fato, e completamente, através da união com Cristo. Por isso, na verdade de Deus, como Cristo a apresenta a ele, pode reconhecer como sua a melhor razão – usando a bela expressão de Platão, ele pode saudá-la com a força do instinto como alguma coisa que está aquém de si mesmo, antes que dê satisfação intelectual dela”.

Balfour, Fundamentos da Crença, 332-337, não existe a razão desassistida e, mesmo que houvesse, a religião natural não é um dos seus produtos. Atrás de toda a evolução da nossa pessoa, diz ele, está a Razão Suprema. “A consciência, os ideais éticos, a capacidade de admirar, a simpatia, o arrependimento, a justa indignação, assim como o prazer no belo e na verdade, tudo deriva de Deus”. Kaftan, Jornal Americano de Teologia, 1900.718,719, sustenta que não há outro princípio para a dogmática além da Escritura Sagrada. Embora ele sustente que o conhecimento nunca vem diretamente da Escritura, mas da fé. A ordem não é: Escritura, doutrina, fé; mas Escritura fé, doutrina. A Escritura não é uma autoridade direta mais do que a igreja. A revelação se dirige a todo o homem, isto é, à vontade do homem e reivindica obediência da parte dele. Visto que todo conhecimento cristão é mediado através da fé, ele se apóia na obediência à autoridade da revelação e a revelação é a manifestação própria da parte de Deus. Kaftan devia ter reconhecido mais plenamente que não só a Escritura, mas toda a verdade capaz de ser conhecida, é uma revelação de Deus e que Cristo é “a luz que alumia todo homem” (Jo 1.6-9). A revelação é um todo orgânico, que começa na natureza, mas tem seu clímax e chave no Cristo histórico que a Escritura nos apresenta.


1. A Escritura e a natureza. Por natureza significamos aqui não os fatos físicos ou os fatos relativos às substâncias, propriedades, forças e leis do mundo material, mas também os fatos espirituais ou fatos relativos à contribuição intelectual e moral do homem e o arranjo ordenado da sociedade e história humanas.

Empregamos aqui a palavra “natureza” no sentido comum, incluindo o homem. Existe um outro emprego de tal palavra mais próprio que a torna somente um complexo de forças e seres sob a lei de causa e efeito. O Homem só pertence à natureza, neste sentido a respeito do seu corpo, enquanto material e pessoalmente ele é sobrenatural. A livre vontade não está sob a lei da física e da causa mecânica. É como diz Bushnell: “A natureza e o elemento sobrenatural constituem juntos o sistema único de Deus.” Drummond, A Lei Natural no Mundo Espiritual, 232 – "As coisas são naturais ou sobrenaturais conforme a posição em que se encontram. O homem é sobrenatural com relação ao elemento mineral; Deus é sobrenatural com relação ao homem”. Em capítulos posteriores empregaremos o termo “natureza” em sentido mais restrito. O emprego universal da expressão “Teologia Natural”, contudo, compele-nos neste capítulo a valermo-nos da palavra “natureza” em seu sentido mais amplo, incluindo o homem, apesar de fazê-lo sob protesto e explicando este sentido mais adequado do termo.

E.G. Robinson: “Bushnell separa a natureza do sobrenatural. A natureza é um cego encadeamento de causas. Deus nada tem a ver com ela, exceto que anda nela. O homem é sobrenatural porque está fora da natureza, tendo o poder de originar um independente encadeamento de causas”. Se esta fosse a concepção adequada da natureza, poderíamos ser compelidos a concluir com P.T. Forsyth, Fé e Crítica, 100 – "Não há nenhuma revelação na natureza. Não pode haver, porque não há perdão. Não podemos estar certos dela. Ela é apenas estética. Seu ideal não é a reconciliação, mas harmonia. ... A natureza não contém a sua própria teleologia e porque a alma moral que recusa ser alimentada de fantasia, Cristo é o sorriso luminoso na tenebrosa face do mundo”. Mas isto confina virtualmente a revelação de Cristo à Escritura ou à encarnação. Como havia uma astronomia sem o telescópio, assim havia uma teologia antes da Bíblia. George Harris, Evolução Moral, 411 – "A natureza é tanto uma evolução como uma revelação. Tão logo a questão Como é respondida, levantam-se as questões De onde e Por quê. A natureza é para Deus o que a fala é apara o pensamento. O título do livro de Henry Drummond devia ter sido: “A Lei Espiritual no Mundo Natural”, porque a natureza é tão somente a atividade livre embora natural de Deus; o que chamamos sobrenatural é somente a sua obra extraordinária.
a) Teologia natural. --- O universo é uma fonte da teologia. As Escrituras afirmam que Deus se revelou na natureza. Não há apenas um testemunho exterior da sua existência e caráter na constituição e governo do universo (Sl 19; At 14.17; Rm 1.20), mas também um testemunho interno da sua existência e caráter no coração de cada homem (Rm. 1.17-20,32; 2.15). A sistemática apresentação destes fatos derivados da observação, história ou ciência, constitui a teologia natural.

Testemunho externo: Sl 19.1-3 – "Os céus declaram a glória de Deus”; At 14.17 – "Não se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu, dando-vos chuvas e tempos frutíferos"; Rm. 1.20 – "Porque as coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder como a sua divindade, se entendem e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas”, Testemunho interno: Rm 1.19 – "toV gnwstoVn tou` qeou` = “o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta”. Compare o ajpokaluvptetai do evangelho no vs. 17, com o ajpokaluvptetai da ira no vs. 18 – "duas revelações, uma da ojrghv, a outra da cavri"; ver Shedd, Homilética, 11. Rm 1.32 – "conhecendo a justiça de Deus”; 2.15 – "mostram a obra da lei escrita no seu coração”. Por isso mesmo os pagãos são ”inescusáveis” (Rm 1.20). Há dois livros: A Natureza e a Escritura – uma escrita, a outra não: há necessidade de estudas ambos. Spurgeon falava de uma pessoa piedosa que, quando descia o Reno, fechava os olhos para não ver a beleza da cena que desviaria a sua mente dos temas espirituais. O puritano virava as costas para portulaca, dizendo que não levaria em conta coisa alguma encantadora na terra. Mas isto é desprezo às obras de Deus. J.H. Barrows: “O Himalaia contém as letras em alto relevo em que nós, crianças cegas púnhamos os dedos para ler o nome de Deus”. Desprezar as suas obras é desprezar o próprio Deus. Ele está presente na natureza e fala através dela. Sl 19.1 – "Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” – verbos no presente. A natureza não só é um livro, mas também uma voz. Hutton, Ensaios, 2.236 – "O conhecimento direto da comunhão espiritual deve ser suplementado pelo dos processos divinos provindos do estudo da natureza. A negligência do estudo dos mistérios do universo conduz a uma intromissão arrogante e ilícita das aceitações morais e espirituais num mundo diferente. Esta é a lição do livro de Jó”. Hatch, Preleções em Hibbert, 85 – "O homem, servo e intérprete da natureza também o é, conseqüentemente, do Deus vivo”. Os livros científicos são o registro das interpretações passadas do homem relativas às obras de Deus.


b) Teologia Natural Suplementada. – A revelação cristã é a principal fonte da teologia. As Escrituras declaram plenamente que a revelação de Deus na natureza não supre todo o conhecimento de que um pecador necessita (At 17.23; Ef 3.9). Portanto, esta revelação é suplementada por outra na qual os atributos divinos e as misericordiosas provisões só obscuramente projetadas na natureza tornam-se conhecidas ao homem. Esta última revelação consiste em uma série de eventos sobrenaturais e comunicações cujo registro é apresentado nas Escrituras.

At 17.23 – Paulo mostra que, embora os atenienses, na edificação do altar a um Deus desconhecido, “reconhecessem uma existência divina além de qualquer que os ritos comuns da sua adoração reconheciam, tal Ser ainda lhes era desconhecido; eles não tinham uma concepção exata da sua natureza e suas perfeições” (Hatch, in loco). Ef 3.9 – "o mistério que esteve oculto em Deus” – mistério este que, no evangelho, tornou conhecida ao homem a salvação. Hegel, Filosofia da Religião, diz que o cristianismo é a única religião revelada porque o Deus cristão é o único de quem ela pode vir. Podemos acrescentar que, como a ciência é o registro da interpretação progressiva do homem relativa à revelação de Deus no reino natural, do mesmo modo a Escritura é o registro da interpretação progressiva do homem sobre a revelação de Deus no reino espiritual. A expressão “palavra de Deus” não indica primordialmente um registro – é a palavra falada, a doutrina, a verdade vitalizadora, descortinada por Cristo; Mt 13.19 – "Ouvindo a palavra do Reino”; Lc 5.1 – "ouvir a palavra de Deus”; At 8.25 – "tendo falado a palavra do Senhor”; 13.48,49 – "glorificavam a palavra do Senhor: ... a palavra do Senhor se divulgava”; 19.10,20 --- “ouviram a palavra do Senhor, ... a palavra do Senhor crescia poderosamente”; 1 Co 1.18 – "a palavra da cruz” – designando não um documento, mas uma palavra não escrita; cf. Jr 1.4 – "veio a mim a palavra do Senhor”; Ez 1.3 – "veio expressamente a palavra do Senhor a Ezequiel, o sacerdote”.



c) As Escrituras, o padrão final de apelo. – A ciência e a Escritura lançam luz uma sobre a outra. O mesmo Espírito divino que deu ambas revelações ainda está presente, capacitando o crente a interpretar uma pela outra e, assim, progressivamente chegar ao conhecimento da verdade. Por causa da nossa adequação e por causa do pecado o registro total das comunicações de Deus passadas na Escritura é mais fidedigna fonte da teologia do que nossas conclusões a partir da natureza ou nossas impressões particulares do ensino do Espírito. A teologia, portanto, encara a própria Escritura como sua principal fonte de material e seu padrão final de apelo.

Existe uma obra interna do Espírito divino através da qual a palavra exterior tornou-se a obra interior e a sua verdade e poder manifestam-se no coração. A Escritura não representa a obra do Espírito, concedendo uma nova verdade, mas uma iluminação da mente para que perceba a plenitude do sentido que se encontra envolto na verdade já revelada. Cristo é “a verdade” (Jo 14.6); “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e ciência” (Cl 2.3); Jesus diz que o Espírito Santo “há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” (Jo 16.14). A encarnação e a cruz expressam o coração de Deus e o segredo do universo; todas as descobertas da teologia são apenas desdobramento da verdade que estes fatos envolvem. O Espírito de Cristo capacita-nos a comparar a natureza com a Escritura e vice-versa e corrigir os equívocos na interpretação de um à luz do outro. Porque a igreja como um todo através da qual entendemos o conjunto dos verdadeiros crentes em toda a parte e em todos os tempos tem a promessa de ser conduzida “em toda a verdade” (Jo 16.13) é que podemos confiantes esperar o progresso da doutrina cristã. A experiência cristã às vezes é considerada como uma fonte original de verdade religiosa. Contudo, ela é apenas teste e prova da verdade contida objetivamente na revelação de Deus. A palavra “experiência" deriva de experior, testar, tentar. A consciência cristã não é “norma normans, mas “norma normata”. Como a vida, a luz nos vem através da mediação dos outros. Embora esta vem de Deus como realmente aquela, da qual sem hesitação dizemos: "Deus me fez”, apesar de termos pais humanos. Como através do encanamento recebo a mesma água que se encontra armazenada nos reservatórios no alto da montanha, assim nas Escrituras eu recebo a verdade que o Espírito Santo originariamente comunicou aos profetas e apóstolos. Calvino, Instituições, livro I, cap. 7 – "Como a natureza tem uma manifestação imediata de Deus na consciência, uma manifestação mediata nas suas obras, assim a revelação tem uma manifestação imediata de Deus no Espírito, e mediata nas Escrituras”. “A natureza do homem”, diz Spurgeon, "não é uma mentira organizada, embora sua consciência interior tenha sido deformada pelo pecado e apesar de que uma vez tenha sido um guia infalível à verdade e ao dever o pecado a fez muito enganadora. O padrão de infalibilidade não está na consciência do homem, mas nas Escrituras. Quando em qualquer matéria a consciência contraria a Palavra de Deus, devemos saber que ela não é a voz de Deus, mas do diabo.”. Dr. Geoge A. Gordon diz que “a história cristã é a revelação de Cristo adicional ao conteúdo do Novo Testamento”. Não deveríamos dizer “Ilustrativa”, em vez de “adicional”?

H.H. Bawden: Deus é a autoridade máxima apesar de que existem autoridades delegadas, tais como a família, o estado, a igreja; os instintos, os sentimentos, a consciência; a experiência genérica da raça, as tradições, o valor utilitário; a revelação na natureza e na Escritura. Porém a autoridade de maior valor para os homens na moral e na religião é a verdade a respeito de Cristo contida na literatura cristã. A verdade a respeito de Cristo, encontra-se determinada 1) pela razão humana condicionada pela atitude correta dos sentimentos e da vontade;

2) à luz de toda a verdade derivada da natureza, incluindo o homem; 3) à luz da história do cristianismo; 4) à luz da origem e desenvolvimento das próprias Escrituras. A autoridade da razão em geral e a da Bíblia são correlatas visto que se desenvolveram sob a providência de Deus e esta em grande escala porém como reflexo daquela. Este ponto de vista capacita-nos a raciocinar sobre o que se chama inspiração da Bíblia, natureza e extensão da inspiração, a Bíblia como elemento histórico --- registro do desdobramento histórico da revelação; a Bíblia como literatura – compêndio dos princípios de vida, mais do que um livro de regras; a Bíblia cristocêntrica – encarnação do pensamento divino e linguagem”.


d) A teologia da Escritura não é antinatural. – Apesar de termos falado que as verdades sistematizadas da natureza constituem a teologia natural, não devemos inferir que a teologia escriturística é fora do natural. Porque as Escrituras têm o mesmo autor que a natureza, os mesmos princípios são ilustrados em uma como na outra. Todas doutrinas da Bíblia têm sua razão na mesma natureza de Deus que constitui a base de todas as coisas materiais. O cristianismo é uma dispensação suplementar, não contradizendo ou corrigindo erros na teologia natural, porém de modo mais perfeito revelando a verdade. O cristianismo é o plano base no qual toda a criação é edificada – a verdade original e eterna cuja teologia natural é apenas uma expressão parcial. Por isso a teologia da natureza e a teologia da Escritura são interdependentes. A teologia natural não só prepara o caminho para a teologia escriturística, mas recebe o estímulo e auxílio dela. A teologia natural pode agora ser uma fonte da verdade, que, antes que a Escritura viesse, ela não poderia fornecer.

(29) John Caird, Idéias Fundamentais do Cristianismo, 23 – "Não existe esta coisa que se chama religião natural ou religião da razão distinta da revelada. O cristianismo é mais profunda e de modo a abranger racionalmente, mais concorde com os mais profundos princípios da natureza e pensamento humanos que a religião natural; ou, como podemos situá-lo, o cristianismo é a religião natural engrandecida e feita religião revelada“. Peabody, Cristianismo, a Religião da Natureza, preleção 2 – "Revelação é o desvendamento, o descobrimento daquilo que antes já existia e exclui a idéia de coisa nova, de invenção, de criação. ... A religião terrena revelada é a religião natural do céu". Compare Ap 13.8 – "o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo” = a vinda de Cristo não se fez por mudança; no verdadeiro sentido, a cruz existiu desde a eternidade; a expiação é a revelação de um fato eterno no ser divino. Observe a ilustração de Platão da caverna que facilmente pode ser ameaçada por alguém que tinha entrado com uma tocha. A natureza é uma luz embaçada que vem da entrada da caverna; a tocha é a Escritura. Kant para Jacobi, Obras de Jacobi, 3.523 – "Se o evangelho não tivesse ensinado as leis morais universais, a razão não teria adquirido tão perfeito discernimento delas”. Alexander McLaren: “Os pensadores não cristãos falam agora eloqüentemente sobre o amor de Deus e até mesmo rejeitam o evangelho em nome de tal amor, chutando a escada pela qual subiram. Mas foi a cruz que ensinou ao mundo o amor de Deus e independentemente da morte de Cristo os homens podem esperar que haja um coração no centro do universo, mas nunca estão certos dele”. O papagaio fantasia que ele ensinou os homens a falar. Do mesmo modo o Sr. Spencer fantasia que inventou a ética. Ele só está empregando o crepúsculo depois que o sol se pôs. Dorner, História da Teologia Protestante, 252,253 – "Na Reforma, a fé primeiro forneceu certeza científica; daí em diante continuou a banir o ceticismo na filosofia e na ciência”.


2. A Escritura e o Racionalismo. Apesar de que as Escrituras tornam conhecido muito do que está além do poder da razão humana desauxiliada para descobrir ou compreender plenamente seus ensinos, quando tomados juntos, de modo nenhum contradizem uma razão condicionada em sua atividade pelo santo sentimento e iluminada pelo Espírito de Deus. As Escrituras apelam para a razão, em seu amplo sentido, incluindo o poder da mente de reconhecer Deus e as relações morais – não no sentido estrito de um simples raciocínio ou o exercício da faculdade puramente lógica.

A. O ofício apropriado da razão, neste sentido amplo, é: a) Fornecer-nos as idéias primárias de espaço, tempo, causa, substância, desígnio, justiça e Deus, que são as condições de todo o subseqüente conhecimento. b) julgar com relação à necessidade de uma revelação especial e sobrenatural da parte do homem. c) Examinar as credenciais da comunicação que professam ser tal revelação ou dos documentos que professam registrá-la. d) Avaliar e reduzir a um sistema os fatos da revelação quando estes foram achados apropriadamente atestados. e) Deduzir destes fatos suas conclusões naturais e lógicas. Assim a própria razão prepara o caminho para uma revelação acima da razão e garante uma confiança em tal revelação quando dada.

Dove, A Lógica da Fé Cristã, 318 – "A razão termina na proposição: “Conte com a revelação”. Leibnitz: “A revelação é o vice-rei que apresenta logo as suas credenciais à assembléia provincial (razão) e, depois, ele mesmo preside”. A razão pode reconhecer a verdade depois que ela se tornou conhecida, como por exemplo nas demonstrações da geometria, embora ela nunca possa descobrir a verdade por si mesma. Ver a ilustração de Calderwood sobre o grupo perdido nos bosques, que toma sabiamente o curso indicado por alguém que se encontra no topo da árvore com maior visão do que a dele (i.e. do grupo) (Filosofia do Infinito, 126). O noviço faz bem em confiar seu guia na floresta ao menos até que aprenda a reconhecer por si mesmo as marcas chamuscadas sobe as árvores. Luthardt, Verdades Fundamentais, preleção viii – "A razão nunca podia ter inventado um Deus auto-humilhante, tendo como berço uma manjedoura e morrendo numa cruz”. Lessing, Zur Geschichte und Litterature (A Respeito da História e da Literatura), 6.134 – "Qual o sentido de uma revelação que não revela nada”? (30) Ritschl nega que as pressuposições de qualquer teologia baseada na Bíblia como a infalível palavra de Deus por um lado, e na validade do conhecimento de Deus obtido por processos científicos e filosóficos por outro. Porque os filósofos, cientistas e mesmo os exegetas, não concordam entre si, ele conclui que nenhum resultado fidedigno é atingível pela razão humana. Admitimos que a razão sem o amor cairá em muitos erros relativos a Deus e que, por isso, a fé é o órgão pelo qual a fé religiosa deve ser apreendida. Reivindicamos que a fé inclui a razão e esta na sua mais elevada forma. A fé critica e julga os processos da ciência natural bem como o conteúdo da Escritura. Mas ela também reconhece, anteriormente, na ciência e na Escritura a operação do Espírito de Cristo que é a fonte e autoridade da vida cristã. Ritschl ignora as relações terrenas de Cristo e, por isso, seculariza e deprecia a ciência e a filosofia. A fé na qual ele confia como a fonte da teologia, sem garantia, está separada da razão. Torna-se um padrão subjetivo e arbitrário ao qual, mesmo o ensino da Escritura deve ter precedência. Sustentamos um ponto de vista contrário; o de que observam-se resultados na ciência e na filosofia e na interpretação da Escritura como um todo e que tais resultados constituem uma revelação que tem autoridade. Ver Orr, A Teologia de Ritschl; Dorner, História da Teologia Protestante, 1.233 – "A questionável razão na razão empírica é escrava da fé, que é a verdadeira razão nascente, não confiante em si mesma, mas defensora do cristianismo objetivo”.

B. Por outro lado, o racionalismo sustenta que a razão é a fonte última de toda a verdade religiosa enquanto a Escritura é a autoridade só naquilo que concorda com as conclusões prévias da razão ou pode ser demonstrada racionalmente. Cada forma de racionalismo, portanto, comete ao menos um dos seguintes erros: a) O de confundir a razão com o simples raciocínio, ou com o exercício da inteligência lógica. b) O de ignorar a necessidade de um sentimento santo como condição de toda a correta razão nos assuntos religiosos. c) O da negação da nossa dependência das revelações de Deus no nosso estado presente de pecado. d) O de considerar a razão desapoiada mesmo em seu estado normal e desapaixonado, como capaz de descobrir, compreender e demonstrar toda a verdade religiosa.

Não se deve confundir razão com raciocínio, ou simples arrazoado. Vamos seguir a razão? Sim, mas não o arrazoado individual contra o testemunho dos que têm melhor informação do que nós; nem insistir na demonstração, na qual a evidência provável por si só é possível; nem confiar somente na evidência dos sentidos quando estão em jogo as coisas espirituais. Coleridge, respondendo aos que argumentavam que todo o conhecimento nos vem dos sentidos, diz: “De qualquer modo devemos trazer à luz todos os fatos como os vemos”. É isto que o cristão faz. A luz do amor revela muita coisa que, de outra forma, seria invisível. Wordsworth, Excursão, livro 5 (598) – "A razão desnuda não deve garantir o apoio da mente. A verdade moral não é uma estrutura mecânica edificada através de regras”. O racionalismo é a teoria matemática do conhecimento. A ética de Espinosa é uma ilustração disso. Ela deduziria o universo a partir de um axioma. O Dr. Hodge muito erroneamente descreveu o racionalismo como “um abuso da razão”. Mais do que isso é o uso de uma razão anormal, pervertida, inadequadamente condicionada; ver Hodge, Teologia Sistemática, 1.34,39,55, e a crítica de Miller, O Fetiche na Teologia. A expressão “intelecto santificado” apenas significa o intelecto acompanhado de justos sentimentos para com Deus e instruídos na operação sob a influência deles. Bispo Butler: “Observe-se a razão, mas não se deixe que criaturas como nós continuem a opor-se a um esquema infinito a ponto de não vermos a necessidade ou utilidade de todas as suas partes e a isto chamemos razão”. Newman Smith, O lugar da Morte na Evolução, 86 – "A descrença é uma haste imersa nas trevas da terra. Afunde-a mais e aparecerá no raio solar do outro lado da terra”. As pessoas mais desarrazoadas do mundo são as que dependem exclusivamente da razão, no sentido restrito. “Quanto mais elas exaltam a razão, mais tornam o mundo irracional”. “A galinha que choca patinhos anda com eles até à beira da água, mas pára ali e fica assustada quando eles avançam. Do mesmo modo a razão pára e a fé continua encontrando o seu elemento mais adequado no invisível. A razão são os pés que se apóiam na terra sólida; a fé são as asas que nos capacitam a voar; o homem normal é uma criatura que tem asas”. Compare gnw`si" (1 Tm 6.20 – "falsamente chamada ciência”) com ejpignw`si" (2 Pe 1.2 – "conhecimento de Deus e de Jesus, nosso Senhor” = pleno conhecimento, ou verdadeiro conhecimento).

(31) 3. A Escritura e o Misticismo. Como o racionalismo reconhece que muito pouca coisa vem de Deus assim o misticismo reconhece-a excessiva.

A. O Verdadeiro Misticismo. – Vimos que há uma iluminação das mentes de todos os crentes pelo Espírito Santo. Contudo, o Espírito não faz nenhuma revelação nova da verdade já revelada por Cristo na natureza e nas Escrituras. A obra iluminadora do Espírito é, portanto, a de abrir as mentes dos homens para entender as revelações prévias de Cristo. Como um iniciado nos mistérios do cristianismo, cada crente verdadeiro pode ser chamado de místico. O verdadeiro misticismo é o mais alto conhecimento e comunhão que o Espírito Santo concede através do uso da natureza e da Escritura como meio subordinado e principal.

. “Místico” = iniciado, de muvw, “fechar os olhos” – provavelmente para que a alma possa ter a visão interior da verdade. Porém a verdade divina é um “mistério”, não só como algo em que alguém deve iniciar-se, mas como uJperbavllousath`" gnwvsew" (Ef 3.19) – ultrapassando o pleno conhecimento , mesmo para o crente; ver Meyer sobre Rm 11.25 – "Não quero, irmãos, que ignoreis este mistério”. Os alemães têm a palavra Mystik com um sentido favorável, Mysticismus com um sentido desfavorável – correspondendo, respectivamente, ao nosso verdadeiro e falso misticismo. O verdadeiro misticismo é sugerido em João 16.13 – "aquele Espírito da verdade ... vos guiará em toda a verdade”; Ef 3.9 – "dispensação do mistério”; 1 Co 2.10 – "Deus no-las revelou pelo seu Espírito”. Nitzsch, Sistema de Doutrina Cristã, 35 – "Sempre que a verdadeira religião revive, há um clamor contra o misticismo, i.e., um conhecimento mais elevado, uma comunhão, uma atividade através do Espírito de Deus no coração”. Compare a acusação contra Paulo de que ele estava louco, em At 26.24,25, com a sua própria vindicação em 2 Co 5.13 – "se enlouquecemos, é para Deus”. Inge, Misticismo Cristão, 21 – "Harnack fala do misticismo como racionalismo aplicado à esfera acima da razão. Ele deveria ter dito razão aplicada à esfera acima do racionalismo. Sua doutrina fundamental é a unidade de toda a existência. O homem pode realizar a sua individualidade apenas transcendendo-a e achando-se na unidade maior do ser divino. O homem é um microcosmo. Ele recapitula a raça, o universo, o próprio Cristo”. Ibid., 5 O misticismo é “a tentativa de realizar no pensamento e no sentimento a imanência do temporal no eterno e do eterno no temporal. Isto implica 1) que a alma pode ver e perceber a verdade espiritual; 2) que o homem, para conhecer a Deus, deve ser participante da natureza divina; 3) que, sem a santidade, ninguém pode ver o Senhor; 4) que o verdadeiro hierofante dos mistérios de Deus é o amor. A ‘scala perfectionis’ é a) a vida purificadora; b) a vida iluminativa; c) a vida unificadora”. Stevens, Teologia Joanina, 239,240 – "O misticismo de João, não é do tipo subjetivo que absorve a alma na autocontemplação e devaneio, mas objetivo e racional, que vive no mundo da realidade, apreende a verdade divinamente revelada e baseia sua experiência nela. É um misticismo que se alimenta, não dos seus próprios sentimentos e fantasias, mas de Cristo. Envolve uma aceitação e obediência a ele. O seu mote é: Perseverando em Cristo”. Como a pressão da força não pode dispensar o tipo, assim o Espírito de Deus não dispensa a revelação externa de Cristo na natureza e na Escritura. E.G. Robinson, Teologia Cristã, 364 – "A palavra de Deus é uma forma ou molde ao qual o Espírito Santo nos entrega quando nos recria”; cf. Rm 6.17 – "obedecestes de coração à forma de doutrina a que fostes entregues”.

(32) B. Falso Misticismo. O misticismo, contudo, como se usa comumente o termo, erra ao sustentar a aquisição do conhecimento religioso pela comunicação direta de Deus e da absorção passiva das atividades humanas na divina. Parcial ou totalmente perde de vista a) os órgãos externos da revelação, da natureza e das Escrituras; b) a atividade dos poderes humanos na recepção de todo conhecimento religioso; c) a personalidade do homem e, por conseqüência, a personalidade de Deus.

Em oposição ao falso misticismo, devemos lembrar que o Espírito Santo opera através da verdade revelada exteriormente na natureza e na Escritura (At 14.17 – "Não se deixou a si mesmo sem testemunho”; Rm 1.20 – "as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, ... claramente se vêem”; At 7.51 – "vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim, vós sois como os vossos pais”; Ef 6.17 – "a espada do Espírito, que é a palavra de Deus”). Através desta verdade já entregue devemos provar toda a nova comunicação que contradiz ou vai além dela (1 Jo 4.1 – "não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus”; Ef 5.10 – "aprovando o que é agradável ao Senhor”). Através destes testes podemos por à prova o Espiritismo, o Mormonismo, Swedenborgianismo. Note a tendência mística em Francisco de Sales, em Tomás a Kempis, em Madame Guyon, em Thomas C. Upham. Tais escritores parecem, às vezes, defender uma abnegação insustentável da nossa razão e vontade e uma “absorção do homem em Deus”. Mas Cristo não nos priva da razão e da vontade; ele só nos tira a perversidade da nossa razão e o egoísmo da nossa vontade; assim restauram-se a razão e a vontade à sua clareza normal e força. Compare Sl 16.7 --- “o Senhor me aconselhou; até o meu coração me ensina de noite” = Deus ensina o seu povo através do exercício das próprias faculdades deste. O falso misticismo está presente, embora, às vezes, não reconhecido. Toda expectação dos resultados sem o emprego de recursos participa dele. Martineau, A Sede da Autoridade, 288 – "A vontade preguiçosa gostaria de ter a visão enquanto o olho que a apreende dorme”. Pregar sem preparação é como lançarmo-nos do pináculo de um templo e depender de que Deus mande um anjo a amparar-nos. A Ciência Cristã confiaria em agentes sobrenaturais enquanto deixa de lado os agentes naturais que Deus já providenciou; como se aquele que está se afogando confiasse na oração, recusando-se a agarrar na corda. Usando a Escritura “ad aperturam libri” é como guiar a ação de alguém lançando o dado. Allen, Jonathan Edwards, 171, nota – "Tanto Carlos como João Wesley concordavam em aceitar o método morávio de solucionar as dúvidas como curso de uma ação, abrindo a Bíblia ao acaso e considerando a passagem em que o olho se fixou primeiro como uma revelação da vontade de Deus sobre o assunto”; cf. Wedgwood, A Vida de Wesley, 193; Southey, A Vida de Wesley, 1.216. J.G. Paton, Vida, 2.74 – "Após muitas orações e lutas e lágrimas, pus-me a sós diante do Senhor e, de joelhos, lancei sorte, com um solene apelo a Deus, e veio a resposta: ‘Volte!’”. Uma única vez ele fez isso na sua vida, em esmagadora perplexidade, sem encontrar luz vinda do conselho humano. “A quem quer que tenha esta fé”, diz ele, "obedeça-lhe”.

F.B. Meyer, Vivência Cristã, 18 – "É um equívoco buscar um sinal do céu; correr de conselheiro a conselheiro; tirar sorte; ou confiar em alguma coincidência fortuita. Isto não significa que Deus não possa revelar a sua vontade desta forma; mas que este é um comportamento duro de um filho para com o Pai. Há um caminho mais excelente” – a saber, o próprio Cristo que é sabedoria e, quando avançamos, é certo que seremos guiados à medida em que se der um novo passo, ou a cada palavra proferida, ou decisão tomada. O nosso culto deve ser “um culto racional” (Rm 12.1); a ação cega e arbitrária é inconsistente com o espírito do cristianismo. Este tipo de ação nos torna vítimas de temporário sentimento e presas do engano satânico. No caso de perplexidade, aguardando a iluminação e aguardando a vontade de Deus, freqüentemente nos tornaremos capazes de tomar uma decisão inteligente, porque “o que não é de fé é pecado” (Rm 14.23).

“O falso misticismo alcançou seu resultado lógico na teosofia budista. Nesse sistema o homem torna-se mais divino na extinção da sua própria pessoalidade. Chega-se ao Nirvana através de oito passos do ponto de vista correto, da aspiração, da palavra, da conduta, do viver, do esforço, da mente, do êxtase; Nirvana é a perda da capacidade de dizer: ‘Este ser sou eu’, e ‘Isto é meu’. Tal foi a tentativa de hipatéia, através da sujeição própria, ao ser impelida aos braços de Jove. George Eliot equivocava-se quando dizia: ‘A mulher mais feliz não tem história’. A autonegação não é auto-anulação. O sino quebrado não tem individualidade. Em Cristo tornamo-nos completos”. Cl 2.9,10 --- “porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade e nele estais perfeitos”.

Royce, O Mundo e o Indivíduo, 2.248,249 – Impõe-se o homem espiritual; o homem natural é abnegado. A carnalidade do eu é a raiz de todos os males; o eu espiritual pertence ao mais elevado reino. Mas este eu espiritual jaz, a princípio, fora da alma; ele se torna nosso somente pela graça. Platão está certo quando faz das idéias eternas a fonte de toda a verdade e bondade humanas. A sabedoria vem ao homem como o nou`" de Aristóteles”. A.H. Bradford, A luz Interior, ao fazer o ensino direto do Espírito Santo a fonte suficiente senão a única do conhecimento religioso, parece ignorar o princípio da evolução na religião. Deus constrói sobre o passado. A sua revelação aos profetas e apóstolos constitui a norma e correção da nossa experiência individual, mesmo quando a nossa experiência lança novas luzes sobre a revelação.


4. A Escritura e o Romanismo. Enquanto a história da doutrina, mostrando a apreensão e desdobramento da verdade contida na natureza e na Escritura da parte da igreja é uma fonte subordinada da teologia, o protestantismo reconhece a Bíblia, sob Cristo, como a autoridade primeira e final.

O Romanismo, por outro lado, comete o duplo erro de a) tornar a igreja, e não a Escritura, a fonte imediata e suficiente do conhecimento religioso; e b) fazer a relação do indivíduo com Cristo depender de sua relação com a igreja, ao invés de fazer tal relação com a igreja depender, seguir e expressar sua relação com Cristo.

Há no Catolicismo Romano um elemento místico. As Escrituras não são o completo e final padrão de fé e prática. Deus dá ao mundo, de tempo em tempo, através de papas e concílios, novas comunicações da verdade. Cipriano: “Quem não tem a igreja como sua mãe não tem Deus como seu Pai”. Agostinho: “Eu não creria na Escritura, se a autoridade da igreja também me influenciasse”. Francisco de Assis e Inácio de Loyola representam a pessoa verdadeiramente obediente como um morto, movimentando-se só quando movido por seu superior; o verdadeiro cristão não tem vida própria, antes é um instrumento cego da igreja. João Henrique Newman, Tratados Teológicos e Eclesiológicos, 287 – "Os dogmas cristãos estavam na igreja desde o tempo dos apóstolos – substancialmente sempre foram o que são agora”. Mas demonstra-se que isto não é verdade a respeito da concepção imaculada da Virgem Maria; a respeito do tesouro dos méritos distribuídos em indulgências; da infalibilidade do papa (ver Gore, Encarnação, 186). Em lugar da verdadeira doutrina, “Ubi Spiritus, ibi ecclesia” (Onde está o Espírito, ali está a igreja), o romanismo emprega a máxima, “Ubi ecclesia, ibi Spiritus” (Onde está a igreja, ali está o Espírito). Lutero viu nisto o princípio do misticismo quando disse: “Papatus est merus enthusiasmus”.

Em resposta ao argumento romanista de que a igreja é antes da Bíblia e que o mesmo corpo que deu a verdade no princípio pode fazer acréscimos à verdade, dizemos que a palavra não escrita existiu antes da igreja e possibilitou esta mesma igreja. A palavra de Deus existiu antes que fosse escrita e por aquela palavra os primeiros discípulos bem como os posteriores foram gerados (1 Pe 1.23 – "fostes regenerados ... mediante a palavra de Deus”). A contextura da verdade na doutrina católica romanas se expressa em 1 Tm 3.15 – "a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” = a igreja é a proclamadora da verdade, eleita por Deus; cf. Fp 2.16 – "retendo a palavra da vida”. Mas a igreja só pode proclamar a verdade edificada sobre a verdade. Deste modo podemos dizer que a República Americana é a coluna e base da liberdade no mundo; mas isto só é verdade desde que a República seja edificada no princípio da liberdade como seu alicerce. Quando o romanista pergunta: “Onde estava a sua igreja antes de Lutero?” o protestante pode retrucar: “Onde estava o seu rosto antes de você lavá-lo? Onde estava a farinha antes que o trigo fosse para o moinho?” Lady Jane Grey, três dias antes da sua execução, em 12 de fevereiro de 1554, disse: “A minha fé está fundamentada na palavra de Deus, não na igreja; pois, se a igreja for boa, a sua fé deve ser testada pela palavra de Deus, e não a palavra de Deus ser testada pela palavra da igreja, nem ainda a minha fé”. A Igreja Romana queria manter os homens em perpétua infância – fazendo-os ir a ela em busca da verdade, ao invés de ir diretamente à Bíblia; como a mãe tola que guarda o menino em casa para que não tope o seu artelho;

e quer amá-lo mais fazendo-o permanecer sempre um bebê e assim continuar sendo a sua mãe”. Martensen, Dogmática Cristã, 30 – "O romanismo está de tal modo preocupado com a construção de um sistema de salvaguardas que esquece a verdade do Cristo que ela quer garantir”. George Herbert: “Que desastre pode causar-lhe qualquer lugar, Cuja casa é repugnante enquanto ele adora a sua vassoura!” É uma doutrina meio parasita de segurança sem inteligência ou espiritualidade. O romanismo diz: “O homem para a máquina!” O protestantismo: “A máquina para o homem!” O catolicismo reprime a individualidade; o protestantismo devolve-a. Não obstante o princípio romanista aparece em igrejas ditas protestantes. O catecismo publicado pela Liga da Santa Cruz, da Igreja Anglicana, contém o seguinte: “Só ao sacerdote a criança deve confessar seus pecados, se desejar que Deus lhes perdoe. Sabe por quê? É porque Deus, quando na terra, deu aos seus sacerdotes, e só a eles, o poder de perdoar pecados. Vá ao sacerdote, que é o médico da sua alma e que cura em nome de Deus”. Mas isto contradiz Jo 10.7 – "eu sou a porta”; e 1 Co 3.11 – "ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” = atinge-se a salvação pelo acesso imediato a Cristo e não há nenhuma porta entre a alma e ele.
II. LIMITAÇÕES DA TEOLOGIA. Apesar de que a Teologia deriva seu material da dúplice revelação de Deus, ela não professa dar um exaustivo conhecimento de Deus e de suas relações com o universo. Depois de mostrar que material temos, devemos mostrar que material não temos. Já indicamos as fontes da Teologia; examinaremos agora suas limitações. São elas:



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