A deus toda a glória



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PROLEGÔMENOS

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CAPÍTULO I.
IDÉIA DE TEOLOGIA
I. DEFINIÇÃO. – "Teologia é a ciência de Deus e das relações entre Deus e o universo.

Embora a palavra “teologia” seja empregada às vezes em escritos dogmáticos para designar um simples departamento da ciência que trata da natureza divina e atributos, o uso prevalecente consagrado, desde Abelardo (1079-1142 A.D.), tratado geral “Theologia Christiana”, incluiu neste termo todo o acervo da doutrina cristã. Por isso, a teologia trata, não só de Deus, mas das relações entre Deus e o universo, motivo por que falamos da Criação, da Providência e da Redenção.

Os Pais chamam o Evangelista João de “o teólogo”, porque ele trata mais plenamente do relacionamento interno das pessoas da Trindade. Gregório Nazianzeno (328) recebeu esta designação porque defendia a divindade de Cristo contra os arianos. Para um exemplo moderno deste emprego do termo “teologia” no sentido restrito, veja o título do primeiro volume do Dr. Hodge: “Systematic Theology, Vol. I: Teologia”. Mas teologia não é somente “a ciência de Deus”, nem mesmo “a ciência de Deus e do homem”. Ela também ela dá conta das relações entre Deus e o universo.

Se o universo fosse Deus, a teologia seria a única ciência. Visto que o universo é apenas uma manifestação de Deus e distingue-se dele, há ciências da natureza e da mente. A teologia é a “ciência das ciências”, não no sentido de incluir todas estas, mas no de empregar os seus resultados e mostrar a sua base subjacente; (ver Wardlaw, Theology, 1.1,2). A ciência física não é uma parte da teologia. Somente como físico, Humboldt não precisava mencionar o nome de Deus em seu “Cosmos” (mas ver Cosmos, 2.413, onde ele diz: “O Salmo 104 apresenta uma imagem do Cosmos todo”). O Bispo de Carlisle: “A ciência é indiferente à religião e, por isso, não pode ser ateísta”.



Só quando consideramos as relações das coisas finitas com Deus é que o estudo delas fornece material para a teologia. A antropologia é uma parte da teologia porque a natureza do homem é obra de Deus e porque a forma de Deus tratar o homem lança luz sobre o caráter de Deus. Deus é conhecido através das suas obras e das suas atividades. Por isso a teologia dá conta destas obras e atividades na medida que elas acompanham o nosso conhecimento. Todas outras ciências exigem a teologia para sua explicação completa. Proudhon: “Se você se aprofundar na política, você estará certo de entrar na teologia”.
II. ALVO: O alvo da teologia é a certificação dos fatos que dizem respeito a Deus e às relações entre Deus e o universo, e a apresentação de tais fatos em sua unidade racional como partes conexas de um formulado e orgânico sistema de verdade. Ao definirmos a teologia como ciência, indicamos o seu alvo. A ciência não cria; descobre. A teologia responde a esta descrição da ciência. Descobre fatos e relações, mas não os cria. Fisher, Nature and Method of Revelation, 141 – 'Schiller, referindo-se ao ardor da fé em Colombo, diz que, se o grande descobridor não tivesse achado um continente, ele o teria criado. Mas a fé não é criativa. Se Colombo não tivesse achado a terra – não teria havido uma resposta objetiva da sua crença – sua fé teria sido mera fantasia”. Porque a teologia trata de fatos objetivos, recusamo-nos a defini-la como “ciência da religião”; versus Am. Theol. Rev., 1850.101-126, e Thornwell, Theology, 1.139. Tanto os fatos como as relações de que a teologia trata têm uma existência independente dos processos mentais subjetivos do teólogo. Ciência não é apenas observação, registro, verificação e formulação de fatos objetivos; é também o reconhecimento e explicação das relações entre estes fatos e a síntese tanto dos fatos como dos princípios racionais que os unem em um sistema abrangente, corretamente proporcional e orgânico. Tijolos e madeiramento espalhados não são uma casa; braços, pernas, cabeças e troncos separados numa sala de dissecção não são homens vivos; e fatos isolados não constituem ciência. Ciência = fatos + relações; Whewell, Hist. Inductive Sciences, I, Introd., 43 – "Pode haver fatos sem ciência, como no conhecimento do cavouqueiro (britador de pedras, ou canteiro = especialista em pedras de cantaria); pode haver pensamento sem ciência, como na antiga filosofia grega”. A. MacDonald: “O método a priori relaciona-se com o método a posteriori como as velas com o mastro de uma embarcação: quanto melhor é a filosofia, maior é a providência de um número suficiente de fatos; doutra forma ocorre o perigo de transtornar o empreendimento”. Presidente Woodrow Wilson: “A enfática injunção da nossa era diz aos historiadores: ‘dai-nos os fatos’. ... Mas os fatos em si não constituem a verdade. A verdade não é concreta; é abstrata. É só a idéia, a revelação correta, do sentido que as coisas têm. Ela só é evocada pela distribuição e ordenação dos fatos que sugerem o sentido”. Dove, Lógica da Fé Cristã, 14 – "Perseguir a ciência é perseguir as relações”. Everett, Ciência do Pensamento, 3 – "Logia” (p. ex. na palavra “teologia”), de lovgo", = palavra + razão, expressão + pensamento, fato + idéia; cf. Jo 1.1 --- “No princípio era o Lovgo”.

Como a teologia trata de fatos objetivos e suas relações, assim a disposição destes fatos não é opcional, mas determinada pela natureza da matéria de que ela trata. A verdadeira teologia repensa os pensamentos de Deus e os põe na disposição de Deus, como os construtores do templo de Salomão tomaram as pedras já lavradas e as fixaram nos lugares para os quais o arquiteto as havia designado; Reginald Heber: “Não caiu nenhum martelo, nenhum machado tiniu; Como a longa palmeira, surgiu a fábrica mística”. Os cientistas não temem que os dados da física bitolem ou comprimam o seu intelecto; nem devem temer os fatos objetivos que são os dados da teologia. Não podemos fazer teologia do mesmo modo que não podemos fazer uma lei da natureza física. Como o filósofo natural é “Naturae minister et interpres”, (servo e intérprete da natureza), assim o teólogo é servo e intérprete da verdade objetiva de Deus.


III. POSSIBILIDADE DA TEOLOGIA: A possibilidade da Teologia tem uma tríplice base: 1. Na existência de um Deus que se relaciona com o universo; 2. Na capacidade da mente humana de conhecer Deus e algumas de tais relações; 3. Na provisão de meios pelos quais Deus se põe em real contato com a mente ou, em outras palavras, na provisão de uma revelação.

Qualquer ciência em particular só se torna possível quando combina três condições, a saber, a verdadeira existência do objetivo de que ela trata, a capacidade subjetiva de a mente humana conhecer tal objetivo, e a provisão de meios definidos pelos quais os objetivos entram em contato com a mente. Podemos ilustrar as condições da teologia a partir da selenologia – a ciência, não da “política lunar”, que de modo tão infundado John Stuart Mill pensava perseguir, mas da física lunar. A selenologia é possível sob três condições: 1. a existência objetiva da lua; 2. a capacidade subjetiva da mente humana de conhecê-la; e 3. a provisão de alguns meios (p. ex., os olhos e o telescópio) pelos quais a lacuna entre o homem e a lua se ligam e pelos quais a mente pode apossar-se do conhecimento verdadeiro dos fatos relativos à lua.

1. Na existência de um Deus que se relaciona com o universo: Tem-se objetado, na verdade, que, porque Deus e estas relações são objetos apreendidos só pela fé, não são objetos próprios do conhecimento ou assuntos próprios da ciência. Respondemos:

(3) A. Fé é conhecimento e o mais elevado tipo de conhecimento: A ciência física também se apóia na fé – fé na nossa existência, na existência de um mundo objetivo e exterior a nós e na existência de outras pessoas além de nós mesmos; fé nas nossas convicções primitivas, tais como espaço, tempo, causa, substância, desígnio, certeza; fé na confiabilidade das nossas faculdades e no testemunho dos nossos semelhantes. Nem por isso a ciência física é invalidada, porque tal fé, embora diferente na percepção sensorial ou demonstração lógica, é ainda um ato cognitivo da razão e pode ser definido como certificação relativa à matéria em que a verificação é impossível.

A citada e respondida objeção à teologia expressa-se nas palavras de Sir William Hamilton, Metafísica, 44, 531 – "Fé – crença – é o órgão pelo qual nós apreendemos o que está além do nosso conhecimento”. Mas ciência é conhecimento e o que está além do nosso conhecimento não pode ser matéria de ciência. O Presidente E.G. Robinson diz com precisão que o conhecimento e a fé não podem ser separados um do outro, como os compartimentos de um navio, dos quais o primeiro pode ser esmagado enquanto o segundo ainda mantém o navio flutuando. A mente é uma só – ela não pode ser seccionada em duas com um machadinho”. Fé não é antítese do conhecimento – ela é um tipo maior e mais fundamental de conhecimento. Ela nunca se opõe à razão, mas apenas à vista. Tennyson estava errado quando escreveu: “Nós temos somente fé: não podemos conhecer; Porque conhecemos aquilo que vemos” (In Memoriam, Introdução). Isto tornaria os fenômenos sensitivos os únicos objetos do conhecimento.

A fé nas realidades supra-sensíveis, ao contrário, é o mais elevado exercício da razão.

Sir William Hamilton declara consistentemente que a mais elevada conquista da ciência é o levantamento de um altar “Ao Deus Desconhecido”. Esta, entretanto, não é a representação da Escritura. Cf. Jo 17.3 – "a vida eterna é esta, que te conheçam a ti como único verdadeiro Deus”; e Jr 9.24 – "o que se gloriar glorie nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor”. Para a crítica de Hamilton, ver H.B. Smith, Fé e Filosofia, 297-336. Fichte: “Nós nascemos na fé”. Até mesmo Goethe se dizia alguém que crê nos cinco sentidos. Balfour, Defesa da Dúvida Filosófica, 277-295, mostra que as crenças intuitivas nas categorias de espaço, tempo, causa, substância, justiça pressupõem uma aquisição de todo o conhecimento. Dove, Lógica da Fé Cristã, 14 – "Se se deve destruir a teologia porque parte de termos e proposições, deve-se, então, proceder de igual modo com todas as ciências”. Mozley, Milagres, define fé como a “razão não verificável”.

B. A fé é um conhecimento condicionado pelo sentimento santo: A fé que apreende o ser divino e sua obra não é opinião ou imaginação. É certeza relativa às realidades espirituais sobre o testemunho da nossa natureza racional e sobre o testemunho de Deus. Sua única peculiaridade como ato cognitivo da razão é que está condicionado ao sentimento santo. Como a ciência da estética é produto da razão incluindo o poder de reconhecer o belo praticamente inseparável do amor ao belo e como a ciência da ética é produto da razão incluindo o poder de reconhecer o moralmente correto praticamente inseparável do amor ao moralmente correto, assim a ciência da teologia é produto da razão, mas da razão que inclui o poder de reconhecer o Deus, que é praticamente inseparável do amor a Deus.


Empregamos aqui o termo “razão” para significar a força total do conhecimento. Razão, neste sentido, inclui o estado de sensibilidade desde que seja indispensável ao conhecimento. Não podemos conhecer uma laranja só de olhá-la; para entendê-la, é tão necessário saboreá-la como vê-la. A matemática do som não pode dar-nos entendimento da música; é necessário também ouvi-la. Só a lógica não pode demonstrar a beleza do pôr do sol, ou de um caráter nobre; o amor ao belo e à justiça antecede o conhecimento do belo e da justiça. Ullman chama a atenção para a derivação de sapientia, sabedoria, de sapere, saborear. Não podemos conhecer Deus só pelo intelecto; o coração deve acompanhar o intelecto a fim de possibilitar o conhecimento das coisas divinas. “As coisas humanas”, diz Pascal, só precisam ser conhecidas para serem amadas; mas as coisas divinas primeiro precisam ser amadas para serem conhecidas”. “Esta fé [religiosa] do intelecto”, diz Kant, fundamenta-se na aceitação do temperamento moral”. Se alguém fosse totalmente indiferente às leis morais, continua o filósofo, até mesmo as verdades religiosas “teriam o apoio dos fortes argumentos da analogia, mas, do mesmo modo que o coração obstinado, o cético não poderia conquistá-las”.

A fé, então, é o mais elevado conhecimento porque é a ação integral da alma, a perspicácia, não somente de um olho, mas dos dois olhos da mente, do intelecto e do amor a Deus. Com um olho podemos ver um objeto plano, mas, se quisermos vê-lo como um todo e captar o efeito estereótipo, devemos empregar ambos os olhos. Não é o teólogo, mas o não devoto astrônomo que tem a ciência caolha e, portanto, incompleta. Os erros do racionalista são os da visão defeituosa. O intelecto tem-se divorciado do coração, isto é, da disposição correta, das afeições corretas e do propósito correto da vida. O intelecto diz: “Não posso conhecer Deus”; e o intelecto está certo. O que o intelecto diz, a Escritura também o diz: 1 Co 2.14 – "O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente”; 1.21 – "na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus”. Por outro lado, a Escritura declara que “pela fé, entendemos” (Hb 11.3). Para a Escritura a palavra “coração” significa tão somente a disposição governante ou sensibilidade + vontade; e ela indica que o coração é um órgão do conhecimento: Ex 35.25 – "mulheres que eram sábias de coração”; Sl 34.8 – "provai e vede que o Senhor é bom” = o provar vem antes do ver; Jr 24.7 – "Dar-lhes-ei um coração para que me conheçam”; Mt 5.8 – "Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus”; Lc 24.25 – "tardos de coração para conhecer”; Jo 7.17 – "Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina, conhecerá se ela é de Deus ou falo de mim mesmo”; Ef 1.18 – "tendo iluminados os olhos do vosso entendimento (th`"kardiva"), para que saibais”; 1 Jo 4.7,8 – "qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. “Aquele que não ama não conhece a Deus”.


C. Portanto, a fé, e só a fé pode fornecer o material adequado e suficiente para uma teologia científica: Como uma operação da mais elevada natureza racional do homem, embora distinta da visão ocular ou do raciocínio, a fé é o mais elevado tipo de conhecimento. Ela nos dá o entendimento que só pelos sentidos seria inacessível, a saber, a existência de Deus e ao menos algumas das relações entre Deus e a sua criatura. Phillippi, Glaubenslehre, 1.50, segue Gerhard, ao tornar a fé um ato conjunto do intelecto e da vontade. Hopkins, Estudo Resumido do Homem, 77,78, fala não só da “razão estética”, mas da “razão moral”. Murphy, Bases Científicas da Fé, 91, 109, 145, 191 – "Fé é a certeza a respeito daquilo em que é impossível a verificação”. Emerson, Ensaios, 2.96 – "A crença consiste em aceitar as afirmações da alma – a descrença em rejeitá-las”. Morell, Filosofia da Religião, 38,52,53, cita Colleridge: “A fé consiste na síntese da razão e da vontade do indivíduo, ... e em virtude daquela (isto é, da razão), a fé deve ser uma luz, uma forma de conhecimento, uma contemplação da verdade”. A fé, então, não deve ser representada como uma menina cega apegada a uma cruz – a fé não é cega – "Doutra forma a cruz pode muito bem ser um crucifixo ou uma imagem de Gaudama”, “A cega descrença”, não a fé cega, “sem dúvida deve errar, e esquadrinhar suas obras em vão”. Como na consciência reconhecemos uma autoridade invisível, conhecemos a verdade em exata proporção com o nosso desejo de praticar a verdade”, assim na religião só a santidade pode conhecer a santidade e só o amor pode entender o amor (cf. Jo 3.21 – "quem pratica a verdade vem para a luz “).

(5) Se um estado correto do coração for indispensável à fé bem como o conhecimento de Deus, pode haver qualquer “theologia irregenitorum”, ou teologia dos irregenerados? Sim, respondemos; do mesmo modo que um cego pode ter uma ciência da ótica. O testemunho dos outros dá sua reivindicação a ele; a obscura luz que penetra a obscura membrana corrobora este testemunho. O irregenerado pode conhecer a Deus como poder e justiça, e temê-lo. Mas isto não é o conhecimento do mais íntimo caráter de Deus; ele fornece um certo material para uma teologia defeituosa ou desproporcional; mas não fornece material suficiente para uma correta teologia. Como, para tornar esta ciência da ótica satisfatória e completa, um oftalmologista competente deve remover a catarata dos seus olhos, assim, para qualquer teologia completa ou satisfatória, é preciso que Deus lhe retire o véu do coração (2 Co 3.15,16 --- “o véu está posto no coração deles. Mas, quando [marg. ‘os homens’] se converterem ao Senhor, o véu se tirará”). A nossa doutrina da fé é o conhecimento e o mais elevado de todos; deve distinguir-se do de Ritchl, cuja teologia é um apelo ao coração para a exclusão da cabeça – para a fiducia sem notícia. Mas fiducia inclui notitia; doutra forma é cega, irracional e anticientífica. Robert Browning igualmente caiu num profundo erro especulativo quando, para comprovar sua fé otimista, estigmatizou o conhecimento humano como simplesmente aparente.

O apelo tanto de Ritchl como de Browning da cabeça para o coração deve mais ser um apelo do mais estreito conhecimento do simples intelecto para o maior conhecimento condicionado à correta afeição.
2. Na capacidade da mente humana de conhecer Deus e algumas destas relações: Porém tem-se argumentado que tal conhecimento é impossível pelas seguintes razões:

A. Podemos conhecer apenas os fenômenos. Respondemos: a) Como conhecemos os fenômenos físicos assim também conhecemos os mentais. b) Conhecendo os fenômenos, quer físicos, quer mentais, conhecemos a substância subjacente aos fenômenos, manifestada através deles e que constitui a base de sua unidade. c) A nossa mente traz à observação do fenômeno não só o conhecimento da substância, mas também de tempo, de espaço, de causa e de justiça, realidades que em nenhum sentido são fenomenais. Porque estes objetos do conhecimento não são fenomenais, o fato de que Deus não é fenomenal não nos impede de conhecê-lo.

Não precisamos aqui determinar o que é substância. Quer sejamos realistas ou idealistas, somos compelidos a admitir que não pode haver fenômenos sem os númenos, não pode haver aparências, não pode haver qualidades sem algo que seja qualificado. Este algo que serve de base ou está sob a aparência ou qualidade chamamos substância. Em nossa filosofia somos mais lotzeanos do que kantianos. Dizer que não conhecemos o eu, mas apenas as suas manifestações no pensamento, é confundir o eu com o seu pensamento e ensinar psicologia sem alma. Dizer que de modo nenhum conhecemos o mundo exterior, mas apenas as suas manifestações nas sensações, é ignorar o princípio que liga tais sensações; porque, sem algo a que as qualidades são inerentes, elas não têm base alguma para sua unidade. De igual modo, dizer que não conhecemos nada de Deus a não ser suas manifestações, é confundir Deus com o mundo e praticamente negar que haja Deus. (6) Stählin, em sua obra sobre Kant, Lotze e Ritchl, 186-191,218,219, diz com precisão que a limitação do conhecimento dos fenômenos envolve, na teologia, a eliminação de todas as reivindicações do conhecimento dos objetivos da fé cristã como são em si mesmas”. Esta crítica, com justiça, põe na mesma classe Ritschl junto com Kant, ao invés de pô-los com Lotze que sustenta que, conhecendo os fenômenos, conhecemos também os númenos manifestos neles. Conquanto Ritschl professe seguir Lotze, toda a tendência da sua teologia caminha na direção da identificação kantiana do mundo com as nossas sensações, a mente com os nossos pensamentos e Deus, com atividades tais que lhe são peculiares como nós as percebemos. Nega-se a natureza divina, independente das suas atividades, o Cristo preexistente, a Trindade imanente. Afirmações de que Deus é amor e paternidade consciente de si mesmo tornam-se juízos de valor meramente subjetivo.

Admitimos que conhecemos Deus só até onde as suas atividades o revelam e até onde as nossas mentes e corações são receptivos à sua revelação. Deve-se exercer o conjunto de faculdades apropriadas – não as matemáticas, as lógicas, ou as que se referem à prudência, mas a ética e a religiosa. Ritschl tem o mérito de reconhecer a razão prática da especulativa; seu erro não consiste em reconhecer que, quando usamos adequadamente os poderes do conhecimento, tomamos posse não simplesmente da verdade subjetiva, mas também da objetiva e não somente entramos em contato com as atividades de Deus, mas com o próprio Deus. Os juízos religiosos normais, embora dependam das condições subjetivas, não são apenas “juízos de mérito”, ou “juízos de valor”, elas nos fornecem o conhecimento das “próprias coisas”. Edward Caird diz do seu irmão John Caird (Idéias Fundamentais do Cristianismo, Intr. cxxi) – "A pedra fundamental da sua teologia é a convicção de que se pode conhecer e conhece-se a Deus e de que, no sentido mais profundo, todo o nosso conhecimento é o dele”. O fenomenalismo de Ritschl está aliado ao positivismo de Comte, que considera todo o assim chamado conhecimento de outro tipo que não sejam os objetivos fenomenais puramente negativos. A expressão “Filosofia Positiva” na verdade implica que todo o conhecimento da mente é puramente negativo; ver Comte, Filosofia Positiva, tradução de Martineau, 26,28,33 – "Para observar o vosso intelecto deveis fazer uma pausa nas atividades – "embora queirais observar essa mesma atividade. Se não puderdes fazer a pausa, não podereis observar; se a fizerdes, nada há a observar”. Dois fatos refutam este ponto de vista: 1) a consciência e 2) a memória; porque a consciência é o conhecimento do eu ao lado conhecimento dos seus pensamentos e a memória é o conhecimento do eu ao lado do conhecimento do passado dela. Os fenômenos são “fatos, distintos da sua base, princípio, ou lei”; não se percebem os fenômenos nem as qualidades, como tais, mas os objetos, as percepções, ou os seres; e é por um pensamento posterior ou por um reflexo que estes se ligam como qualidades e são tidos como substâncias”.

Os fenômenos podem ser interiores, i.e., pensamentos; neste caso, o númeno é a mente cujas manifestações são os pensamentos. Por outro lado, os fenômenos podem ser exteriores, e.g., a cor, a dureza, a forma, o tamanho; neste caso, o fenômeno é a matéria, cujas qualidades são as manifestações. Mas as qualidades, quer mentais, quer materiais, implicam a existência de uma substância a que pertencem; não se pode concebê-las como existentes sem um lado inferior; ver Martineau, Tipos de Teoria Ética, 1.455,456 – "A suposição de Comte de que a mente não pode conhecer a si mesma ou os seus estados opõe-se à de Kant, de que a mente nada pode conhecer a não ser a si mesma. ... É exatamente porque todo o conhecimento vem dos relacionamentos que ele não vem e nem pode vir só dos fenômenos. O absoluto não pode se conhecido per se porque, ao ser conhecido, ele se relacionaria ipso facto e não mais seria absoluto. Mas nem o elemento fenomenal pode ser conhecido per se, i.e., como fenomenal, sem o conhecimento simultânea do que é o não fenomenal”. McCosh, Intuições, 138-154, estabelece as caraterísticas das substâncias como 1) ser, 2) poder, 3) permanecer. Diman, Argumento Teístico, 337,363 – "A teoria que rejeita Deus, rejeita o mundo exterior e a existência da alma”. Conhecemos algo além dos fenômenos, a saber, lei, causa, força, --- ou não podemos ter ciência.

(7) B. Porque só podemos conhecer o que tem analogia com a nossa natureza ou experiência. Respondemos: a) Para o conhecimento não é essencial que haja semelhança entre a natureza do conhecedor e a do conhecido. Conhecemos tanto pela diferença como pela semelhança. b) Nossa experiência passada, apesar de facilitar grandemente novas aquisições, não é a medida do nosso conhecimento possível. Se assim fosse, seria inexplicável o primeiro ato de conhecimento e toda a revelação dos mais elevados caracteres até os menores seria excluída assim como todo o progresso no conhecimento que ultrapassa o nosso presente conhecimento. c) Mesmo que o conhecimento dependesse da semelhança entre a natureza e a experiência, poderíamos conhecer Deus, visto que somos feitos à sua imagem e há importantes analogias entre a natureza divina e a nossa.



a) O dito de Empédocles, ‘Similia similibus percipiuntur” (As coisas semelhantes são percebidas pelas semelhantes), deve ser suplementado por um outro: “Similia dissimilibus percipiuntur”. (Percebem-se as coisas semelhantes através das diferenças). Mas conhecer é distinguir, e deve haver um contraste entre os objetos a fim de nos despertar a atenção. Deus conhece o pecado, embora este seja a antítese do seu santo ser. O eu conhece o não eu. Não podemos conhecer até mesmo o eu sem considerá-lo objetivamente, distinguindo-o dos seus pensamentos e considerando-o como um outro.



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