A criança e o dever natural Edição Adês


dos vagabundos e dos traidores



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13. dos vagabundos e dos traidores


Neste final de outubro, a nação inteira foi surpreendida com uma antiga criança que - já adulta e líder do governo na Câmara Federal – chamou outra ex-criança, hoje chefe de nossa distópica burocracia federal, ...de vagabundo e de ...traidor, além de dizer que vai ...detoná-lo. Jamais isso em nossa História.

Veja, leitor, no que dá nossa ...omissão pela intensa moldagem, de cada criança, como um solidário, empático e respeitoso ...cidadão-estadista.

E no que dá a mera ânsia humana de animal político mencionada por Aristóteles há dois mil e trezentos anos. Agostinho de Hipona cansou a boca que fala do que temos em abundância no coração.

Infância que desconhece a História da plural sabedoria, a qual, segundo alguns, é ...descoberta, segundo outros é ...inventada ou seria ...criada pelos sábios, é infância que não aprende a busca respeitosa, empática, solidária, incessante ...da utopia, e constrói formas de cotidiana ...distopia.

Tem sido unânime a definição ..do Estado como sendo a própria sociedade plural de indivíduos que ...se organiza política, administrativa e até mesmo ...esteticamente.

Essa ...estética de coisas belas ou feias, agradáveis ou deploráveis, que administra ...meios humanos, materiais e técnicos numa ...política (segundo Aristóteles) que distribui...poder a partir do que está cheio o coração das pessoas (segundo Agostinho), ...é Estado em puro ...”estado” espiritual, desde a infância.

Numa repetição, digamos, de temas sinfonicamente entrelaçados, volto ao argumento de páginas atrás:

Como ...animal político na massa humana, qualquer safado tirânico, dissimulado - e todo ingênuo submisso - são ou podem ser moldados desde criancinhas.



Mas, o moderno ...cidadão-estadista, somente pessoas ...empáticas e ...solidárias com a humanidade alheia podem se tornar. Tomemos o primeiro exemplo do choque de empatias e falta de solidariedade de nossa História, para ilustrar a tese:

Em seu livro “As Aventuras de Hans Staden” de 1927 (nasci onze anos depois e ainda tenho o exemplar), Monteiro Lobato fez Dona Benta narrar, ...para crianças, os primórdios, digamos, ...da sabedoria constituída que se possa chamar ...de brasileira.

Quando o aventureiro e mercenário alemão retornou à sua cidade de Homberg no Hessen, a narrativa original de Staden documentou a ...verdade factual de como a chamada ...Ultima Thule pelos europeus ...adestrava desde criancinha, como selvagem, o ...animal político descrito por Aristóteles muito antes de Cristo.



A mítica ...Última Thule - concebida em 1516 por Thomas Moro (...Morus em latim) com o nome de ...Utopia – era, na ...verdade, descrita por Staden em 1556 como ..." uma Terra de Selvagens, Nus e Cruéis Comedores de Seres Humanos, Situada no Novo Mundo da América, desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas Terras de Hessen ...”43

Hábitos, usos e costumes indígenas e europeus passaram então a conviver na fusão do latim de Anchieta e Nóbrega com o sagrado idioma tupi de tupinambás, tamoios, tupiniquins, caetés, tabajaras, tupinaés e potiguaras.

Tais saberes da antiga terra de Pindorama já registram Cunhambebe, morubixaba tupinambá, ter devorado em rituais sagrados, mais de sessenta portugueses vencidos nas refregas com os franceses (1556-1557) que tinham por objetivo político aqui instalar ...a França Antártica. Morreu de varíola, peste europeia trazida pelos brancos.



A narrativa do que era ...sagrado para os autóctones (devorar a carne do inimigo de valor, sob cantos tupis) e para os padres (comer a hóstia sagrada, recitando latim), como em qualquer ...verdade factual, compõe ...um todo histórico junto às safadezas e às traições humanas.

Os tupinambás do Cunhambebe pai (? - 1555) que adestrou o Cunhambebe Filho, depois sucedidos pelo também morubixaba Aimberê, se aliaram aos franceses.

Os tupiniquins, chefiados por Tibiriçá fizeram aliança com o português João Ramalho que se aliara ao donatário Martim Afonso e não tardou a se casar com Mbici, filha do cacique, também chamada Bartira e gerar enorme descendência dela e de outras nativas.

Sob o princípio indígena ...do cunhadismo (cônjuge de mulher indígena integrava a tribo) procriou-se amplo adestramento mameluco ...desde criancinhas. Nem todas as tribos praticavam o canibalismo.

Muitas escravizavam seus inimigos vencidos nas guerras. As tabas transformaram-se em aldeias e estas em vilas (como a de Piratininga, hoje a Paulicéia), para além do meridiano de Tordesilhas fixado pelo papa como limite entre Portugal e Espanha.

E, ...sob protesto dos jesuítas, passaram à safadeza de caçar índios rivais para vendê-los aos portugueses ...como escravos do comércio de açúcar para a Europa. Sair das tabas e das aldeias era perigoso.

Quatrocentos anos depois, Manual Bandeira (1886-1968), em seu poema ...Berimbau, pronunciaria a célebre estrofe “A mameluca é uma maluca, saiu sozinha da maloca...” que levava meus filhos ao riso quando eu a recitava para eles em sua infância hoje perdida.



E Bandeira continuava: “ – Quem ofendeu a mameluca? Foi o boto.” Foi o boto.

Bartira foi batizada como Izabel Dias. Seu poderoso pai (que também viria a ser vitimado pela peste europeia) com o nome do donatário Martin Afonso. Mesmo sob os protestos dos monges jesuítas, a safadeza estava ...em cristianizar usando o hábito, o uso, o costume escravocrata que os indígenas praticavam entre si.

Como parte ...do saber histórico indispensável ao brasileiro adulto, adolescente ou criança do Século XXI, esse quadro de Debret ...”índios soldados da província de Curitiba escoltando prisioneiros nativos” nos mostra ...o adestramento das crianças arrastadas com suas mães naquele cordão colonizador de nossa passada cristandade.

Ramalho era um homem bruto que andava nu pelas aldeias e chegou a arregimentar cinco mil índios num só dia para a luta, em época que El Rei de Portugal só lograva reunir dois mil soldados.

Os filhos tinham a mesma fama do pai e todos os temiam. Os padres se horrorizavam com tudo isso e com o cativeiro dos índios.

Mesmo excomungado pelos jesuítas por viver em concubinato com mais de uma mulher, Ramalho cismou de assistir missa e foi expulso pelo padre.

Os filhos juraram (no linguajar de hoje) ...detonar o padre. Não consta que hajam xingado o sacerdote de vagabundo e traidor. Bartira foi atrás deles, e os desarmou, salvando a vida do jesuíta Leonardo Nunes.

Outras peripécias foram essenciais ...à verdade histórica brasileira no primeiro século de nossa colonização. Entre elas a que levou ...à botada dos padres fora no século XVII.

Os padres exigiam o cumprimento de bulas do papa sobre a liberdade dos índios. Foram expulsos de Piratininga e exilados no Rio de Janeiro.

Dessa patifaria resultou a importação massiva de africanos para a infame escravidão brasileira então já praticada por Duarte Coelho a partir de 1539 com tráfico negreiro em Pernambuco.

O cunhado de Coelho, Jerônimo de Albuquerque ficou conhecido como ...o Adão Pernambucano. Fora ferido no olho por uma flecha e salvo da morte pela filha do líder tabajara Muyrã Ubi, a qual com ele se uniu e deixaram enorme descendência mameluca.

Staden, com a ajuda dos franceses, voltou para a Europa e nos legou sua impressionante história.

Em 1562 Albuquerque recebeu intimação da rainha de Portugal para se casar com a nobre européia Felipa de Mello, por ser ele descendente de reis e segundo os cânones aristocráticos não poderia apenas ter concubinas coloniais. Com ela teve mais onze filhos.

Ramalho criou descendência e ficou em Pindorama, tornando-se, com Tibiriçá, patriarca e a filha deste e mulher do outro, Bartira, matriarca dos mamelucos e da brasilidade para além da linha de Tordesilhas. Desde criancinhas.

-Criança, não verás país nenhum como este...” escrevia há noventa anos Olavo Bilac (1865-1918) em seu poema A Pátria. E completava com o cânone ufanista ...”Imita na grandeza, a terra em que nasceste

Consta que Catarina, a esposa portuguesa que João Ramalho havia deixado na Europa, ainda vivia quando da redação de seu testamento no Vale do Paraíba, em 1580.

Matriarca e grandeza de Pindorama, Bartira figura nesse testamento como criada do boto João Ramalho, e não como sua mulher. Arrrhhghhh, leitor.



14. o microcosmos cidestadista


Desde criancinhas ouvimos que o ser humano é ...um microcosmos, com tantas idéias na cabeça, quanto células no corpo, grãos de areia nos mares, e estrelas no céu.

O macrocosmos ou simplesmente ...Cosmos, numa acepção própria da linguagem, segundo o Houaiss, é o espaço universal, composto de matéria e energia e ordenado segundo suas próprias leis.



Na filosofia grega (...kósmos) era a harmonia universal, o universo ordenado em leis e regularidades, organizado de maneira regular e integrada, em oposição ao conceito ...de caos.

Qualquer um de nós há de descrever ..graus de cosmos, combinados ...com graus de caos, copos meio-cheios combinados com copos meio-vazios ao nosso redor. Desde criancinhas.

Vejamos, agora, um exemplo ...do caos oficialmente instalado por deficiência de nossa burocracia predadora e cruel:

No capítulo “O Adestramento Replicante” deste ensaio, informei ao leitor: “O Globo anuncia, neste final do mês de maio que o Ministro Fachin do Supremo manda retirar adolescentes sentenciados das unidades de internação superlotadas, colocando-os em regime ...domiciliar”.

Naquele capítulo também procurei fazer sugestões nos termos da Lei oficial: “Isso não basta, Senhores”.

O que o Supremo deve decidir” procurei ponderar “é que ...o Sistema de Internação brasileiro substitua ...o adestramento do padrão ...good cop/bad cop de punir adolescentes sentenciados, pelo ...dever natural de educar a juventude para a sociedade ...que se quer justa”.

Para acabar ...com o caos (desorganização, confusão, distopia) no universo dos adolescentes recrutados para o crime tive o cuidado de sugerir ali que o Supremo Tribunal decidisse simplesmente ...mandar cumprir a lei oficial que nós já temos.

E que o fizesse, no regime ...de liberdade assistida (vou repetir ...liberdade assistida), como preveem, rigorosamente, os princípios constantes do artigo 118 do Estatuto da Criança e do Adolescente:

Estatuto - Art. 118. A liberdade assistida será adotada sempre que se afigurar a medida mais adequada para o fim de acompanhar, auxiliar e orientar o adolescente.



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