A criação científica segundo Poincaré e Einstein



Baixar 223,97 Kb.
Página3/5
Encontro28.11.2019
Tamanho223,97 Kb.
1   2   3   4   5
Einstein e a liberdade lógica
Einstein tinha encontrado na epistemologia de Ernst Mach a idéia do caráter relativo e provisório dos conceitos e das teorias, na filosofia de David Hume a crítica da indução – liberando a relação entre os fenômenos e os conceitos – e na de Immanuel Kant a idéia de que a realidade do mundo exterior, posto “diante de nós como um enigma”, nos é inteligível, havendo a necessidade, para pensar, de conceitos e categorias independentes da experiência.74

Elaborando sua própria concepção da relação entre as representações teóricas e os dados da experiência e as impressões dos sentidos, ele encontrou também nos escritos de Henri Poincaré elementos de reflexão que lhe permitiram escapar dos limites do apriorismo kantiano ultrapassando também aquilo que faltava à crítica de Hume: notadamente a idéia do livre arbítrio no raciocínio. Mas quando Poincaré fazia desta consideração a pedra angular do seu convencionalismo, Einstein a integrava a uma perspectiva racionalista, ao preço de uma transformação da solução kantiana. Ele estimava que se pode “dizer mais ainda” do que Kant: “que os conceitos que aparecem em nossos pensamentos e em nossas expressões lingüísticas são – considerados de um ponto de vista lógico – criações livres do pensamento”, que eles “não podem ser obtidos pela indução a partir da experiência dos sentidos”.75 Porque “um abismo (intransponível logicamente)” se abre entre “o mundo da experiência sensória [e] o dos conceitos e das proposições”, que são na verdade invenções livres.76 Não temos espontaneamente a consciência disto, devido ao hábito adquirido de associá-los entre si. É essa “liberdade lógica” que permite construir conceitos e representações teóricas, segundo a escolha das regras que parecerem mais adequadas.

Essa idéia está no cerne das epistemologias de Poincaré e Einstein, de suas respectivas concepções da relação entre o pensamento racional e o mundo real, e de seu pensamento sobre a criação científica.
7
OS PROCESSOS CRIATIVOS DO PENSAMENTO RACIONAL
Poincaré
O trabalho científico consiste em grande parte, para Poincaré, de selecionar entre os fatos, que se oferecem multitudinários, aqueles que são os mais ricos de significação – isto somente porque “o cérebro do cientista, que não passa de um ponto no universo, jamais poderá conter o universo inteiro”. Eis aí o físico ou o matemático que, incapaz de simplesmente reproduzir – o que, além do mais, seria sem dúvida insuficiente para compreender – encara a necessidade de inventar. Ater-se a relações de semelhança superficial entre os fatos não produziria nada senão banalidade e repetição, sem que se encontrasse o acesso às relações significativas.

As similitudes portadoras de sentido (que são as “analogias matemáticas”, para Poincaré) transcendem as diferenças materiais; quanto mais distantes são os fatos cuja relação se verifica fecunda, mais essencial será a propriedade que eles revelam – o que também corresponde a um caráter estético.77 A fecundidade da relação entre os fatos, matemáticos ou físicos, é marcada pelo fato de eles fazerem aparecer uma ordem entre os elementos que antes pareciam não-relacionados, ou abandonados ao acaso, e por conduzirem ao conhecimento de uma lei. A formação de tais combinações fecundas advém do processo de “invenção matemática”; é atingir aquilo que Poincaré com freqüência remete à “harmonia”, referindo-se à “beleza intelectual” e à “elegância matemática”.78

O que ele chama de harmonia corresponde à instantaneidade da evidência para o espírito, que é atingida, no final das contas, através da inteligibilidade, para Poincaré assim como para Descartes,79 dois séculos e meio antes. “Quanto mais vermos esse conjunto claramente e de um só golpe”, escreveu ele, “melhor perceberemos suas analogias com outros objetos vizinhos, e em conseqüência mais chances teremos de descobrir as generalizações possíveis”.80 E um raciocínio “meio intuitivo” permite ver simultaneamente, em razão de sua brevidade, suas diversas partes, “de modo que se percebe imediatamente aquilo que deve ser modificado para que se adapte a todos os problemas de natureza semelhante que possam vir a se apresentar”.81

Convém especificar que a invocação da analogia, freqüente em Poincaré, concerne essencialmente ao resultado final. A analogia é apenas a lição que se tira, quando as relações vêm à tona e sua fecundidade se manifesta. É sempre a “analogia matemática” que está aí em jogo, indicando a estrutura e a unidade profundas dos elementos relacionados na descoberta. No trabalho criativo, em que opera a faculdade da intuição (essa intuição que permite “enxergar o alvo de longe”, que oferece a “visão de conjunto” sem a qual não haveria invenção),82 as propriedades a serem consideradas se apresentam ao entendimento sob sua forma própria, sobre a qual o raciocínio trabalha diretamente.

Nesse processo é ao inconsciente, com efeito, que Poincaré atribui a tarefa de estabelecer as combinações de idéias úteis, por eliminação e escolha. O trabalho preparatório de fixar a atenção num determinado problema deslancha a atividade inconsciente, em que o pensamento consciente define e indica “mais ou menos” a direção geral. Para representar essa atividade inconsciente, que opera sobre as idéias elementares a serem combinadas entre si, ele recorria à metáfora sobre os “átomos retorcidos de Epicuro”, arremessados em todos os sentidos e combinando-se entre si à nossa revelia, sendo que apenas a combinação retida se oferece depois ao pensamento consciente.

Para Poincaré, o inconsciente “sabe escolher, ele sabe descobrir”. Ele se perguntava inclusive se o “eu subliminar [não seria] superior ao eu consciente”, numa hipótese antes examinada pelo filósofo Émile Boutroux.83 Jacques Hadamard, por sua vez, iria contestar o sentido dessa expressão, preferindo a idéia de uma cooperação entre os dois.84 Poincaré se inclinava a considerar que o “eu subliminar” privilegia os fenômenos que afetam a sensibilidade na direção da harmonia, da beleza matemática, essa sensibilidade estética correspondente na matemática às soluções oriundas da lei que se está procurando.85 Mas o problema de saber mais exatamente o que encobrem os termos que remetem às considerações estéticas permanece em aberto, exceto por tratar-se – nas ciências como nas artes – de formar ou exprimir significações fortes.





Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5


©psicod.org 2019
enviar mensagem

    Página principal