A ciência como vocação



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A primeira tensão é encontrada em seu individualismo metodológico. O individualismo metodológico de Weber é, de fato, um nominalismo ontológico, que está obliquamente ligado ao seu nominalismo ético. O principal dogma do individualismo metodológico é de natureza reducionista: a sociedade não existe - apenas os indivíduos são reais. As chamadas "estruturas sociais" podem e devem ser reduzidas às ações individuais, das quais são o resultado agregado. Só assim se pode evitar a armadilha substancialista da "falácia da concretude equivocada" [‘fallacy of misplaced concreteness’] (Whitehead), que consiste em atribuir existência e eficácia causal a entidades sociais tão abstratas como "o Estado", "a Igreja", etc.62

Esse individualismo "eliminativo" redutor pode ser indiretamente ligado à visão desencantada de Weber do mundo. Tomando emprestada a fórmula provocatória de Torrance, poderíamos dizer que o individualismo metodológico de Weber representa uma versão altamente sublimada do "existencialismo metodológico".63 De fato, na ordem pós-cosmológica, os valores objetivos tornaram-se subjetivos. E já que o significado não está mais inscrito nas estruturas objetivas do universo desencantado, o indivíduo está de fato "suspenso em teias de significado que ele próprio confeccionou".64 No final das contas, a única coisa que podemos entender é a escolha demoníaca pela qual o indivíduo dá sentido às suas ações e à sua vida como um todo: “O fruto da árvore do conhecimento, quer é desagradável para nossa comodidade humana, mas irresistível, não seria outra coisa senão saber que cada ação individual importante e, em última análise, a vida em sua totalidade, caso não queiramos que ela decorra como fenômeno natural, mas que seja realizada de modo perfeitamente consciente, consistiria em uma cadeia de decisões últimas pelas quais a alma escolheria, como em Platão, seu próprio destino - isto é, o sentido de seu agir e de seu ser”.65 Essa referência ao Fedro de Platão mascara uma referência a Nietzsche e seu viril ideal de personalidade. O imperativo nietzschiano de escolher livremente "o demônio que mantém os fios de sua vida" ainda é vagamente expresso nas máximas reducionistas do individualismo metodológico de Weber.



Em sua pesquisa substantiva, no entanto, e especialmente em sua sociologia da dominação, Weber se desviou seriamente de seu existencialismo metodológico, e, de tal forma, que muitas vezes deparamo-nos com análises deterministas que Marx, e talvez até mesmo Althusser, poderiam ter subscrito. Os indivíduos não aparecem mais como livres: suas escolhas parecem ser praticamente predeterminadas por restrições estruturais de natureza material. Assim, o individualismo ontológico dá lugar a algum tipo de estruturalismo, e Weber acaba adotando a posição realista que ele havia rejeitado em suas disposições mais epistemológicas.

A segunda tensão está ligada à primeira e surge em sua sociologia interpretativa. A sociologia interpretativa tem como objetivo recapturar o significado subjetivamente pretendido que o indivíduo atuante atribui ao seu próprio comportamento - seja ele evidente ou oculto, omisso ou aquiescente. Como qualquer outra pessoa, além, é claro, do próprio sujeito, o sociólogo não tem acesso direto à mente dos outros. E já que o sociólogo não pode compreender imediatamente o significado subjetivo que o indivíduo atribui às suas ações, é necessário construir um tipo ideal de significados ou motivações hipotéticas que explicariam o curso de ação observado. Até aqui tudo bem, mas o problema surge quando Weber subsequentemente tende a reduzir essa compreensão de motivos à compreensão da ação racional em relação aos fins [zweckrationales Handeln], movendo-se assim de um individualismo metodológico hermeneuticamente sensível para um puramente utilitarista, o qual atualmente é defendido e promovido pelo movimento mundial dos teóricos da escolha racional. A grande crítica de Talcott Parsons ao utilitarismo em sua Estrutura da ação social (Parsons, 1937) em defesa de uma teoria multidimensional da ação permanece insuperável, e é mais do que útil para nos lembrar que, nesse caso, não há mais necessidade real de recapturar os significados que o indivíduo atrela subjetivamente à sua ação.66 Se os fins e os valores são dados, basta conhecer as condições de ação e interpolar um algoritmo para determinar os meios. Como um juiz em Weber, o ator é reduzido a uma máquina na qual é preciso inserir as condições e os cálculos no topo, de modo que o curso resultante de ações propositadamente racionais possa ser expelida na parte inferior. A ação se torna perfeitamente racional e previsível; os significados tornam-se largamente supérfluos e retóricos, servindo meramente como um suplemento espiritual para um mundo sem alma.




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